Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

É Natal!!! E eu a lembrar-me de coisas do passado...

 E não é isso que se faz sempre?

Lembramo-nos dos que já partiram. Isso é sempre. Apreciamos mais aqueles que cá estão. E aproveita-se o curto espaço de tempo em que todos se juntam para comer, abrir presentes e contar umas histórias. 

Mas não tem sido isso que me tem vindo à cabeça. A história que me passa hoje no cérebro é uma de que me lembro amiúde. Gostava de a partilhar e saber a vossa opinião. Para já quero dizer que não me diz respeito. Vou contar uma história que não é minha e da qual posso apenas saber fragmentos incompletos. Mas aqui vai:

Quando era adolescente conheci uma outra adolescente através de um grupo de colegas de férias. Cada vez que havia férias, iamos para um sítio e o grupo de adolescentes desse lugar - algures no centro do Alentejo me apresentou a uma nova rapariga. A história dela foi-me logo relatada pelos adultos. Mas pediram-me para nada dizer, nem sequer dar a entender ou mencionar fosse o que fosse. É que ela tinha sido adoptada. O casal que a adoptou tinha muito dinheiro mas não podia ter filhos - a mulher era infértil. Na "terra", que era como chamavam o lugar, existiam famílias muito pobre e sem recursos. Que sobreviviam como podiam, geralmente da lavora, daquilo que a terra lhes dava, da criação de animais. Uma dessas mulheres muito pobre, com uma porrada de filhos homens para criar, engravidou novamente. Sem recursos para alimentar mais uma boca e aliciada e convencida pela senhora rica de que esta podia providenciar uma boa vida à criança, ela e o marido concordaram em dá-la para adopção. 

Não me perguntem mais nada - principalmente em termos logísticos, porque desconheço. Naquele tempo porém, não era incomum as adopções em "cima da mesa". A mulher grávida pensava que ia ter mais um menino e concordou em dar a criança para outra mulher cuidar. Ela, que sempre quis uma menina mas só tinha gerado rapazes. 

Quando a criança nasceu, foi então dada pela mãe à senhora rica e com posses, porém infértil e incapaz de gerar um filho biológico. Aquele filho dela - o terceiro ou quarto ou quem sabe até mais adiante na linhagem - não ia andar com roupas velhas, esburacadas, sujo de terra, descalço sem sapatos, com fome e sem poder estudar. Por aquele filho aquela mãe ia fazer o derradeiro sacrifício - pelo menos é assim que EU interpreto o gesto. E sempre interpretei - desde aquela altura. O sacrifício de dar um filho amado a outra mulher por puro amor, para que este possa receber uma qualidade de vida que a própria sabe que não pode dar. 

E nasceu o filho: uma menina. 

Custou BASTANTE àquela mãe cumprir o prometido. Mas fê-lo. O tal do amor de mãe, que é maior que o egoísmo, o desejo ou a vontade própria - viu que o "melhor a fazer" era dar a criança ao casal rico. Imaginaram a filha com boas roupas, bem tratada, com médico disponível cada vez que ficasse doente, a ir à escola estudar e a aprender a ler e escrever... e principalmente, a não ter de ser criada na miséria ou a alguma vez ter de vir a passar fome.

A dor de um estômago vazio, a pobreza de viver num casebre sem luz elétrica, água canalizada ou retrete no interior... um dos seus filhos tinha oportunidade de ser poupado disso. Porque aquele casal rico queria muito um bebé para si mesmos... e estavam dispostos a tomar o dela. 

Diria eu que o casal rico estava desesperado. Diriam o que fosse e fariam de tudo para conseguir meter as mãos num bebé recém-nascido e obter de uma mulher fértil o que deus não quis atribuir ao útero da infértil. Com a sua inteligência, maior cultura e melhor nível de vida lá conseguiram persuadir uma mulher pobre, ignorante, iletrada, de muitos poucos recursos mas consciente da vida difícil que levava, que o sensato e melhor a fazer seria dar o filho. 

Ela e o marido concordaram.

Pelo menos eu vejo assim. Ao longo dos anos dei por mim, muitas vezes, a me perguntar o que foi feito dessa mulher. Que já conheci sempre vestida de preto, embora viúva ainda não fosse. Ou será que era? De poucas palavras, cabeça cabisbaixa, ainda muito pobre, parecia tímida, até com medo de falar. Batia à porta das casas a vender a preço bem barato ovos fresquinhos acabados de sair das suas galinhas. Oferecia, portanto, serviço personalizado porta-a-porta, produto de primeira qualidade de ovos frescos de galinhas de campo, a preço de metade do que o do supermercado. (O que antigamente originava do desespero e hoje paga-se a preço de ouro). Vinha intencionalmente à casa da família rica para, nem que fosse de relance, avistar disfarçadamente a filha biológica. Filha essa que tinha dado para o casal, 16 anos antes. 

A filha sabia que aquela senhora era sua mãe biológica. 

E agora vem a parte que sempre me chocou: ela destratava a mulher. Gritava para que saísse porque cheirava mal e chamava-a de porca-suja. 

E não tinha problemas alguns em virar-se para mim para me dizer que odiava aquela mendiga porca, que detestava a mulher, que nem a podia ver, porque era pobre e suja e cheirava mal. Gritava-lhe para que fosse tomar banho! E que voltasse para a pocilga. 

Eu ficava com dó daquela mãe que, a meu ver, teve um gesto de amor. E se a filha estava ali à minha frente com roupas bonitas, armário a abarrotar de roupa de marca, bem vestida, bem cuidada, maquilhada, cheirosa, cheia e bens materiais, numa boa casa, cercada de luxo... devia-o a ela. Não tanto ao casal adoptivo mas ao gesto de abnegação da mãe biológica. Por quem a filha nutria uma repulsa visceral que sempre achei feio e exagerado. 

Claro, não sei os detalhes da história. Conto-a como me foi contada e como sei pelo que vi. Sempre me chocou o trato horrível que ela dava aquela senhora só por ser pobre e ter roupas velhas. Era uma senhora educada, simples, honesta. Vivia da venda do que os animais de criação lhe davam. Que eu saiba não melhorou de vida - isso era obvio - como talvez tivesse sido prometido caso entregasse a criança. Continuava pobre. Continuava a ter de dar e comer a várias bocas - agora ela também a trabalhar para o seu sustento. Aquela miúda mimada, fedelha, ruím, tinha irmãos. Ela que dizia-se "filha única" tinha manos... e não parecia interessar-se por nenhum. Uma vez disse-me que detestava aquela "porca que cheira mal e toda a sua família". Diminuia-os como seres humanos. 

Estava longe de imaginar, muito claramente que eu poderia saber a sua história de adopção e que ela estava a falar da sua mãe biológica. Mas eu sabia. E não gostava do que ouvia. Não ia gostar mesmo que não soubesse. Fazia-me impressão ver alguém ser destratado assim. Antes de saber e depois de saber. 

Mas eu também era uma adolescente como ela. Contudo, no meu entender, um casal rico com muitas posses com um desejo visceral de ter filhos não conseguiu e ao ver um casal pobre a ser abençoado com essa dádiva múltiplas vezes, decidiu que essa dádiva podia ser partilhada. "Porquê Deus dá tantos filhos a esta mulher que já tem tantos, e nenhum a nós? E se nós pedissemos a ela para nos dar a criança? Temos melhores condições, tanto amor para dar... aquela família é tão miserável, a bebé vai passar por dificuldades e nunca vai poder chegar longe como vai chegar se for nossa..." 

Eu simpatizava muito com aquela mulher mãe biológica. Todos diziam que era uma mulher de muito bom coração, incapaz de fazer mal a quem for. Uma paz de alma mas que estava permanentemente triste e nunca mais foi a mesma porque o seu maior desejo era ter uma menina e foi logo tê-la quando havia concordado em dar o bebé para adopção. 

Disseram-me que passou a andar sempre de preto a partir daí. Se é verdade ou não, não sei. Talvez não seja, porque o tradicional é adoptar o luto quando se morre o marido e assim permanecer para o resto dos seus dias. Mas sei - ou sentia no olhar dela - uma profunda tristeza e diria que uma eterna dor e arrependimento. Mas pobre e ignorante não sabe muito - sabe apenas cumprir a palavra - porque é o que de maior valor têm e o que entendem como honra. 

Uma mãe faz este grande gesto e depois, não importa as patadas que recebe, a distância que tem de adoptar, a palavra "minha filha" que nunca pode verbalizar e ainda assim, fica por perto... É porque ama. Qualquer outra pessoa teria se afastado ao sentir na alma a dor de ouvir a filha destratá-la vezes e vezes sem conta. 

Eu também andaria perpetuamente com uma tristeza a apertar-me o coração. Uma espécie de morte. E por fora o expressaria com roupas pretas - como era costume na época. 

QUIS falar desta história porque hoje - dia de Natal, quem encontrei eu no facecoiso? O perfil da criança adoptada. Que é hoje uma mulher na casa dos 50, mãe de um homem (claro, o gene masculino do seu autêntico ADN a prevalecer). E pergunto-me, até hoje, se alguma vez ela quis estreitar os laços com os seus ou se passou ao filho a informação da sua origem.

Mas o que me voltou a chocar foi a pessoa que ela aparenta ser nesta rede social. Sempre sorridente, a maioria dos seus posts são para elogiar rasgadamente a mãe adoptiva - dizendo que é a pessoa mais importante da sua vida, a mais amada, aquela que lhe é tudo e a quem tudo deve. Faz-lhe muitas juras de amor. Escreve também, mas principalmente agora na altura de Natal muitas mensagens de amor ao próximo, de compreensão, afetividade, para se dar amor para se colher amor de volta.

E pergunto-me ONDE ESTAVA esta pessoa quando esta estava para complementar 18 anos? Onde estava esta filosofia de vida e forma de encarar as coisas enquanto gritava para a mãe biológica "sai daqui sua suja, cheiras mal!".

Claro que sei que se trata de uma mulher adulta e não faço ideia como se desenvolveu a sua moral e conduta social. Mas, se as pessoas, por dentro, no fundo, se mantiverem iguais, será que, por detrás de toda esta carapaça exterior de mulher 100% com os valores no lugar certo, ainda está a adolescente repudiante que maltratava verbalmente a mãe biológica?

Enquanto lia, com um pouco de enjoo pelo excesso de doçura naquelas palavras a elogiar a mãe, perguntei-me o que seria feito da outra mãe. Queria ter escrito nesse post: "E a tua mãe biológica? Ainda é viva? E os teus irmãos? O que é feito deles?". 

Eu não entendo. Porque no meu entender, se fosse comigo, eu ia gostar de saber que tenho uma mãe que adoro e outra mãe que me deu para ter uma vida melhor. Ia querer me aproximar da família biológica e ia querer vê-los bem de vida.

Me perguntava o que ganhou aquela mãe em dar a filha? Continuava pobre. Continuava a ter honra e a ganhar a vida honestamente, com a venda de ovos e legumes. Não gostava de aceitar esmolas - embora aceitasse um extra (bem justo, porque vendia quase dado - ás vezes até dava, não queria cobrar. Principalmente na casa onde morava a filha). Tenho quase a certeza que o casal rico prometeu ajudá-la. Em que sentido não sei. Isso só um deles poderá responder. Mas aquela mãe fez o derradeiro sacrifício por um filho, foi incompreendida e sofreu o Diabo na terra pela decisão que tomou. E da qual, segundo me disseram, se arrependeu. 

A sua filha era para ter nascido pé descalço e sujo da terra. Virou uma menina mimada com tudo disponível e a quem tudo era permitido. Espero que tenha crescido e se transformado numa pessoa diferente daquela que me recordo. Porque dessa pessoa... eu nunca gostei. 

E venham os facebooks revelar que agora é tudo "sejam amigos uns dos outros, o melhor do mundo é a família, amo minha mãe, a melhor do mundo"... E então e a tua outra mãe? Isso aplica-se a ela também? 

Repito: se fosse comigo, ter mais pessoas na família e muitos irmãos? Ia ser uma felicidade! 


quinta-feira, 7 de março de 2024

As fotos de Instagram

 

Se as fotos do instragam falassem, iam contar histórias bem opostas daquilo que mostram. 

Iam contar, por exemplo, como os intervenientes "enxotam" as pessoas que estão por perto, para poderem tirar a foto "perfeita". A foto que, segundo a turista (?) brasileira que me abordou hoje, é só "uma foto rapidinho e você pode ficar à vontade".

Cinco minutos depois, a UMA foto ainda continuava. E eu, que saí do enquadramento sem terminar meu vídeo porque ela e amiga estavam dizendo "Saiu uma senhora aí detrás". Ao que a outra respondeu "Quer que eu faça cara feia?". A outra diz, para me pressionar: "Vamos esperar a senhora sair aí detrás". Eu, que estava encurralada por elas que naquela imensidão de espaço lindo com tanto ângulo para se tirar foto, foram exatamente vincar raiz onde eu estava, respondi: "Não vou sair não. Tou esperando vocês saírem" - risos. "Tou fazendo um vídeo e quero gravar" - disse, sem acrescentar que o que se estava a escutar ao invés do som ambiente, era as vozes delas. Mas ao mesmo tempo que digo isto, já estou a sair. A que segura o celular e tira retrato, me diz que é rapidinho, "uma foto só". "Depois você pode ficar com tudo à vontade". Apesar de já terem tirado umas 10 fotos, com pose bonitinha - que eu vi, ainda assim cedi. Fiz a gentileza de me afastar da zona onde cheguei dois minutos antes delas e estava a fazer um vídeo para que pudessem tirar a sua UMA foto. Era só uma, certo? E "rapidinho". 


Me afastei, afastei, fui para a esquerda, para a direita, para o cantinho... Tinham passados cinco minutos e as duas ainda estavam tirando a sua "UMA" foto. A tal que era "rapidinho". Olhei à volta. Um espaço tão amplo. Com um idêntico cenário no lado oposto. Só lá estava eu até elas aparecerem. Porquê tinham de ir tirar retrato exatamente onde eu estava? Caramba. Parece encosto. Quero estar sossegada e aparece gente grudenta. 😄😄 Podiam ter ido tirar os retratos noutros cantos primeiro, ou esperassem eu sair e depois seria sua vez de tirar as fotos que quisessem. Quem chegasse depois teria de esperar também. É simples cortesia. 

Mas esta moda das fotos do instagram terem de ser perfeitas... Com a luz, a posição do corpo, cada fio de cabelo e sabe-se lá mais o quê, as duas me enxotaram dali para fora e demoraram para tirar UMA foto. Aquilo que antigamente seria um "click" seguido de um "obrigado", agora é uma imposição que mais parece uma mini produção de moda. 

Fui embora, não sem antes declamar, à distância, para o meu vídeo, o tão de espaço que existe ali e elas tinham de ir as duas se colar a mim. Acho que, à distância, a "fotógrafa" ouviu ou estava a prestar atenção, porque começou a barafustar. Ficaram sozinhas com o espaço todo para elas, para tirarem todas as fotos que quisessem. 

E assim percebi que o meu estado ZEN - alcançado neste primeiro dia de férias, seria facilmente perturbado por mesquinharias. Ainda não é a altura certa de sair para a rua. Também com este tempo... não tive muita sorte com as temperaturas. Esta vinda a Portugal - é algo que sabe sempre bem. Mas também me esgota bastante. Preciso me isolar para ter a paz e sossego que necessito e o ambiente familiar não providencia. Tenho três dias para isso. O resto, não vai ser pacífico. Não faz parte do ADN relacional familiar. 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Desabafos durante a sexta-feira Santa


Ela escreveu no quadro da cozinha, sem apagar a provocação "All yours!" a mensagem: "Esta é a semana santa!". 

Coitada...
Teve de escrever para se lembrar. É natural, para alguém cujas atitudes nada têm de santas, é preciso que se recorde todos os dias o que é suposto ser o espírito de bondade da quadra. Pena que, para ela, aquilo que escreveu sejam meras palavras, de significado oco. É uma contradição do caraças. Ela, que sempre apagou todas as minhas mensagens carinhosas e ilustrações inoculas para substituí-las por provocações, não apagou o "All yours", um escrito provocatório, de conflito. Depois escreve a palavra Holy (santa, sagrado) e não entende que ali está escancarado pura hipocrisia. 


Pela casa estão espalhados ovos de chocolate, ao ponto de ocuparem toda a prateleira da lareira. A minha jarra, (a tal que foi a primeira vítima da hostilidade que com que eu venho a lidar desde que aqui cheguei) foi novamente removida do centro e colocada na extremidade. Meteram um pão enorme no seu lugar.

Estão a preparar-se para a Páscoa. Mas deixando de lado o espírito. Tal como no Natal, o convívio está a ser planeado, estão a armazenar mantimentos e já sabem tudo o que vão fazer para ter uma mesa farta e deliciosa, com tudo o que lhes fizer lembrar as saudosistas tradições. Esquecem completamente que a Páscoa é como o Natal. Uma época para ser generoso, bondoso, partilhar com todos a boa vontade, a amabilidade, etc. 

Puseram no lixo um produto alimentar que mantinha no frigorífico. Mesmo havendo espaço para este permanecer ali dentro. Sei que o tinha oferecido à rapariga antes de ter ido a Portugal. Mas quando regressei, ela havia colocado-o de volta na minha prateleira, sem o ter aberto. Um claro sinal de rejeição. Acabei por ser eu a abrir e a provar, pois nunca havia comido daquilo (wraps) e já a tinha visto a consumi-los. Anteontem voltei a servir-me de um, pois percebi que não deitam cheiro, não perecem. Usei-o como base e descobri uma maravilha: são óptimos como pratos. Fazem com que a comida aquecida em cima mantenha-se quente e mais saborosa, pois ficam os sabores a marinar. 

Meteram mais garrafas de vinho e incontáveis embalagens de queijos já abertos por toda a parte, apossando-se cada vez de mais espaço no frigorífico que é suposto ser, agora que um rapaz foi embora, só meu e da rapariga. Mas não é. Nem nunca foi. Também não sabem arrumar os mantimentos de forma organizada, são muito bagunçados e não se incomodam com a sujidade. Só da boca para fora e nas aparências. O frigorífico só é limpo quando julgam que pode ser visto pelo senhorio, que cá vem e gosta de armazenar a sua garrafa de leite. A rapariga com quem divido esse espaço, só o sujou (e bem, deixa-o cheio de salpicos e derrames de molho de soja, queijo e sei lá mais que nhacas). Mas quando trouxe a família inteira para cá ficar, subitamente a sua prateleira apareceu limpa e arrumadinha. 

Aparências. Só aparências.

Já se apossaram do armário da dispensa do rapaz que abandonou a casa, mas nem parece. Pois as áreas em comum estão cada vez mais atolhadas de mantimentos alimentares, como se não houvesse espaço apropriado para os armazenar. 

Entre este texto desci à cozinha e vi um novo escrito adicionado aos outros dela. Escrito em italiano está: "feliz páscoa para todos". 

E porque é mesmo para todos estes «sinceros» votos, escreveu-os em inglês, a língua comum. Ups! Não, não fez isso. Escreveu em italiano, porque "todos" apenas tem como recepiente quem é italiano. E por falar em italianos, adivinhem lá: se um abandonou a casa, quem é que vai entrar?

Outro italiano. Pois claro.
Mas ainda não me disseram nada. Nem eles, nem o senhorio, que ontem por cá andou e vai regressar. Ouvi um rabo de conversa. Como aliás, sempre acontece. O próprio senhorio, a sua presença aqui, nesta semana santa, não foi para, finalmente, vir substituir o autoclismo defeituoso. Ele apareceu para fazer isto que já podia ter feito muito antes, porque a sua principal intenção era falar com os italianos para que lhes arranjassem mais gente para ocupar dois dos seus quartos que viu agora ficarem vazios. Ele pode ser "bonzinho" ou aparentar ser em algumas situações. Mas no fundo, está sempre a pensar nele mesmo. E numa coisa eu sei que ele é irredutível: dinheiro. Não gosta de o perder, gosta de o ganhar. 

Se alguém sai das suas casas, ele quer encontrar outra pessoa para o espaço o mais rápido possível. Se der, até faz com que a renda do que sai e a renda de quem entra se sobreponham. Porque assim ganha mais.

E agora, meus amigos virtuais, vou às compras!
Ou vou tentar.
Mentalizar-me para a enorme fila que vou encontrar...

Abraço. E tenham uma óptima páscoa.
Isto aqui são só desabafos. Preciso os largar de vez em quando. Deixo-vos com uma estimada imagem de algo que todos nós estamos a precisar. Muito amor e harmonia para vocês. Fiquem bem.





   

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Frame collector

Agora deu-me para coleccionar isto!

Para meter as fotografias dos filhos e netos que nunca irei ter. Talvez emoldure flores secas. E as pessoas vao perguntar: porquê? Que inusitado! Não vão perceber que é por não ter ninguém para lá estar. Só antepassados mortos ou eu mesma. Nunca fui narcisista. Pelo que encher isto só com imagens minhas não me atrai.


Mas não se aflijam!
Comprei a maioria no intuito de oferecer.
Eheh. A quem? Família.

domingo, 1 de dezembro de 2019

A minha natureza sobrepondo-se




Não sei se fiz bem, apenas fui genuina e natural. Por isso mesmo é que estou na dúvida e recrimino-me por ser assim. É que, tratando-se da mais-velha, se me manter assim estou numa enrascada.


Ontem de noite desci à cozinha para beber água. Temos um jarro que a filtra. Vejo-o quase vazio e como estou com muita sede, despejo umas gotas para a garrafa que trouxe comigo. Vejo que a água está quente e por isso despejo-a. E volto a encher com água fresca. É aqui que a mais-velha (receando que a julgasse desmazelada por o ter encontrado vazio) diz:
-"Ah, eu ia esvaziar o jarro e trocar o filtro".  


Esta sua intervenção, como se estivesse a falar com uma pessoa a quem quer bem, despoletou uma pequena conversa que, aos de fora, soa normal. A conversa foi só sobre a água, o tempo, perguntou se estava bem porque parecia pálida, falou-se do supermercado, do frio etc. Mostrei-me interessada em saber como se procede à troca do filtro e limpeza do jarro. Já o havia feito antes, quando o comecei a usar, por volta de Março do ano passado. Por esta altura, as poucas palavras mais demoradas que lhe dispensei já pareciam estar a incomodá-la. Como se, para a vontade dela, a conversa já devesse ter terminado, como se não quisesse falar mais.

Quem não soubesse o que ali está, enganar-se-ia. Mas eu, genuinamente incapaz de mostrar fel por alguém, falei-lhe como se não soubesse que, toda aquela simpatia, provavelmente foi antecedida por um enorme "descascar" na minha pessoa que foi tão bem sucedido em influenciar terceiros, que a fez agir com maior falsidade.

Só vi o novo inquilino uma vez mais, ontem de madrugada, quando me preparava para sair para o emprego e ele tinha acabado de entrar. Ao me ver na cozinha, ia eu a sair já enluvada, de gorro, capuz e cachecol rumo à noite de -1º, quis saber se ia "you're going out?" - que significa sair para me divertir. A sério?? Aquela hora com aquele frio?
-"vou trabalhar" - respondi-lhe.

Desejei-lhe um bom dia e só o voltei a ver, de relance, à hora de almoço, preparava-se ele para sair. 

Não consigo deixar de sentir que ele está demasiado centrado no me ter ou não em casa. Tal como o outro. Não posso esquecer que escutei a mais-velha dizer-lhe que eu "estava em casa o dia inteiro" e que o que saiu "disse que eu estava em casa o dia todo". 

Deu a entender que eu era um inconveniente, uma imposição, que eu não lhes dava espaço. Quando a realidade sempre foi oposta!!! Isto é de uma difamação infame, porque retrata-me exatamente o oposto que sou! Eu sou trabalhadora, esforçada, faço horas extra se mas disponibilizarem, vou trabalhar nas folgas se me chamarem... Sempre fui assim. E esta parvalhona anda a espalhar a todos os conhecidos que eu sou... como eles.

Sim, porque o que saiu, era o maior preguiçoso de todos. A maioria deles escolhe a profissão que têm pela quantidade de dias de folga que têm. Pelo facto de poderem ficar em standby (em casa) podendo ser ou não chamados para o trabalho - e ganham à mesma salário. O outro rapaz esteve DUAS SEMANAS em casa e foi trabalhar pela primeira vez, no dia em que o novo chegou. Teve - disse-me ele, 5 dias em standby, antecedido por 2 de folga por estar com tosse, antecedidos por outros 3 ou 4 de standby, antecedidos por um fim-de-semana de folga... 

A rapariga que cá esteve, supostamente detentora de um emprego das 9 às 5, segunda a sexta, ficava em casa amiúde. Era vê-la a faltar com uma desculpa qualquer, vários dias por semana. Ficava em casa agarrada ao telemóvel, pela cozinha, sentada no sofá... toda confortável e a queixar-se que não queria ir para o emprego. Mas na altura de falar dos benefícios e de se descrever como funcionária, foi "exemplar" e até lhe deviam "dias de férias". Isso me deixava atónita. Uma miúda que quase nunca punha os pés no laboratório onde devia trabalhar - e isto certamente não é profissão para se faltar - ainda tinha férias a tirar! E porquê? Porque cada vez que faltava, usava como pretexto uma desculpa de saúde. E esses dias em que ficou em casa por se sentir sem vontade de ir trabalhar, não são contabilizados. No currículo em papel não transparece esta preguiça, a constante falta a dias de trabalho por sempre encontrar um pretexto de saúde. Ela tinha uma "condição rara" mas que não a limitava ou impedia de ir para a farra ou ir trabalhar para sustentar a boa vida que almejava. E usava-a para tirar benefícios e privilegiar a sua preguiça. Usava o que podia.Também estava inscrita na universidade a tirar um curso sem data para terminar e à distância e também isso usava para se baldar áquela que é a prática mais árdua de uma vida adulta responsável: Trabalho!

Que seja EU a que fica com a fama é... revoltante.
As poucas pessoas que me conheceram na outra casa e nos empregos que tive, todas me apontavam o excesso de trabalho como algo em que devia reflectir, pois não fazia bem, etc. Mas eu, não tendo outras coisas com que me ocupar e não podendo usufruir da casa onde pago para morar de forma livre, até me custa quando não tenho trabalho, quando mo cancelam, etc. Quero é trabalhar!

Porém, este verão de facto entendi que eles estão certos. Trabalhar tanto, ganhar uma miséria e no final, se tiver direito a reforma, esta não vai espelhar o que eu fui. Outros, como a tal jovem rapariga que nunca ia ao laboratório, serão aqueles que se pintam de árduos trabalhadores e terão as boas reformas. Não gente como eu. Por isso mesmo, devia aproveitar melhor a vida enquanto ainda me resta alguma energia e saúde. Esperar pelo "final" para o fazer não é correcto. Ter passado pela "paixonite" fez-me entender isso. Que as minhas prioridades deviam ser outras.

Mas sem amigos íntimos, sem amores, longe da família e a viver numa casa com pessoas como estas, quero é trabalhar! Mesmo por uma ninharia. Ao menos não estou aqui rodeada de gente intriguista, maliciosa e muito de meter o nariz na vida dos outros. Que tenha passado o Verão a equilibrar-me entre dois empregos, tendo conseguido estender o diário por duas horas extras além das 8 que me eram pedidas, e juntando a este o outro que mantenho há um ano, que me dá 4h por dia... Sair às 6 da manhã e regressar às 23h.... 

E estou o dia todo em casa?!?!?!!!!

Pintarem-me assim a um rapaz que acabou de chegar já a perguntar sobre a minha rotina de empregabilidade é uma atitude de meter nojo.

E é tudo ELA.
Com quem eu ainda troco palavras genuínas!



terça-feira, 19 de novembro de 2019

O que me ajudou a recuperar (do sofrimento)



Três meses de sofrimento diário e uma intensa dor que, não tendo origem física, é ainda mais devastadora e maléfica do que uma maleita na carne. Dia e noite, qualquer instante de consciência, foi passado a pensar nisto. A senti-lo. A disfarçá-lo quando em público com pessoas conhecidas, a senti-lo intensamente a cada distracção dos seus olhos. A chorar por ter soltado um riso e estar triste. 

Pensei que não ia parar nunca. Mas rezei para que isso acontecesse. Orei a santos, a Deus, a Jesus, a Maria, a várias Nossas senhoras, aos pássaros, às árvores, às flores, ao vento, à chuva, ao sol, ao mar, à lua, às estrelas, às nuvens, ao céu, aos gatos vadios que me miravam na rua... Fui a igrejas, acendi velas, orei, pedi, supliquei. Supliquei muito, com muita fé, angústia e desespero.

Mas por algum motivo, não estava a surtir efeito. Ninguém me escutou, nenhuma mezinha resultou. Era suposto sentir-me assim por quanto mais tempo? Talvez se ele se dignasse a aparecer e me contasse o que lhe deu, talvez só assim passasse. Mas ele não o ia fazer. Sabia disso. Restava-me continuar a orar, mas também isso não estava a resultar!

Na noite de terça-feira passada, chovia bastante e decidi ir a pé a hora e meia do emprego para casa. Chuva, vento, o caminho todo em lama, pés e pernas ensopados... nada disso me afectava. O meu pensamento estava nele e só nele, como sempre. Como água que escorre para terreno mais baixo. É inevitável.

Mais sofrimento, mais lembranças, mais e mais dor! Parecia que não ia terminar nunca. Três meses haviam passado e eu nisto! Queria que terminasse. Se ele não vai aparecer-me à frente e dignar-se a conversar comigo, então que algo me fizesse esquecer que ele alguma vez existiu! Que me desse uma amnésia selectiva e pudesse esquecê-lo a ele, só ele. A dor, tão intensa, fez-me novamente rogar, suplicar, pelo fim desta emoção tão dolorosa.

Foi então que dirigi as minhas preces diretamente a pessoas de quem muito gostei e há muito partiram. E disse do fundo do coração e cheia de emoção: "Por favor, (....), acaba com isto, faz com que a dor pare!" "Por favor, (....), não posso mais com este sofrimento! Faz com que pare!".


Talvez um minuto depois, por uns instantes, consegui perceber uma mudança. Ténue. Mas senti-a. Por uns instantes, o meu pensamento voou para outro lado, deixou de se fixar nele. E isso foi o sinal. A dor, ainda que presente, pareceu pela primeira vez, que ia transformar-se em não dolosa. Ia ser ultrapassada.

Foi há uma semana. De lá para cá, continuo a tê-lo na minha mente quase 24h por dia. Ainda faço "filmes" sobre o que poderá acontecer caso o encontre e lhe consiga falar. Mas tenho agora pequenos e breves instantes em que o consigo afastar. Não totalmente, mas do consciente ele passa para o sub-consciente e mantenho-o lá o máximo de tempo que conseguir.

Segunda-feira pela manhã, ele acordou comigo e logo com intenções de dominar-me o pensamento e encher-me de mais uma sessão de "porrada" emocional. Mas quando desci para a sala, a paz e o sossego que lá senti, fez-me querer ficar por ali. Senti que o quarto está povoado de lembranças e era o pior lugar para me enfiar. Fiquei pela sala, onde estava a sentir-me bem. Mesmo quando outros logo apareceram para marcar lugar, esperando que saísse dali, não o fiz. Se voltasse ao quarto, ia fazer o mesmo que na véspera: a clausura ia fazer-me pensar, sentir, chorar e ia terminar a desabafar horas em vídeo tudo o que quero dizer. Não queria isso. Já tenho uns 100 vídeos... Precisei contar esta história em voz alta, contar o meu ponto de vista, o que penso, o que sinto. Não para alguém, mas para mim mesma.

Ainda não estou curada, mas sinto que também já não estou totalmente presa. Começo a pensar que sou alguém e preciso cuidar de mim. Não por dor, mas por merecer. Por ser uma pessoa, por já não ter muito tempo de vida na terra, e por isso ter de aproveitá-la melhor, para ser feliz, não miserável. Já chega de tristezas. Esta dor também irá ser (mais) uma que vai passar (?). Espero não esquecê-la, para que possa aprender a não voltar a cair em nada parecido. Mas quero, sinceramente, começar a viver a vida pelo prisma oposto àquele que me é mais oferecido: O sofrimento. Quero explorar as alegrias, o bem-estar, a felicidade.

Tenho esta dor como entrave e muitas outras contrariedades também. Mas faz parte da vida. Não se pode deixar que nenhuma delas tenha mais importância ou se sobreponha à vontade/necessidade de se viver feliz.

E acredito mesmo que "eles" é que me ajudaram.
Eles escutaram-me. E logo a bondade neles se compadeceu.
Onde estão só há amor e amor é o que sentem por mim.

Temos de nos sentir abençoados.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Mais uma leitura finalizada


The Cockney Sparrow (2007), da autora Dilly Court foi a minha última leitura concluída. 
Gostei bastante de mais esta história. Talvez por estar em Inglaterra, mais uma vez a história passa-se em Londres, mas no tempo das carroças puxadas a cavalos e da iluminação com velas - a agora apelidada de época Vitoriana.

Mais uma vez, uma menina pobre com uma vocação, que acaba por encontrar a sorte, mas não antes de dar muitos trambolhões e sofrer o diabo a quatro!


Sem querer adiantar muito, a heroína chama-se Clemency (Clemência), é muito pobre, tem de andar pelas ruas com neve com os pés descalços - este tipo de pobreza. Para sobreviver ela rouba carteiras a transeuntes distraídos. Dela depende o irmão paralítico das pernas e a mãe alcoólica, que se juntou a um homem mau, que a força a prostituir-se. Mas Clemência tem um dom: uma voz que emociona quem a ouve. E de acaso a acaso, ela acaba por se tornar vedeta de Teatro musical. Só que nem por isso deixa de ter de fugir do padrasto, que a quer colocar na vida, e nem por isso consegue ter um teto para morar e dinheiro para comer. 

Será que a vida desta rapariga alguma vez vai melhorar?
E porquê existe um homem que a quer meter de volta no mundo do crime?



NOTA: O Mais Surpreendente na leitura: os detalhes do quotidiano numa outra época surpreendem e instruem. O nome correcto para utensílios que nunca ouvimos falar ou sabiamos da sua existência e a linguagem da altura. 




domingo, 28 de outubro de 2018

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Sensibilidade e empatia


Hoje no trabalho tive de lidar com um cliente que me emocionou. Era uma senhora africana que transportava uma criança fisicamente limitada, que terá nascido com problemas cerebrais que lhe afectavam seriamente. Aliás, a sua presença no Reino Unido devia-se somente aos tratamentos médicos que a filha precisava receber. 

Uma menina que não dava para perceber se o era ou não. Imobilizada que estava na sua cadeira de bebé, ainda que já não fosse um. Com distrofia muscular e total incapacidade de comunicar oralmente. 

A senhora chegou e eu era a portadora de más notícias: a viagem que ela tinha programado não era possível de realizar-se, devido ao que muitas vezes acontece: as companhias enganam as pessoas. 

Mas eu sou apenas uma empregada que começou à pouco tempo na função e tenho de seguir instruções. Procurei ajudar a senhora e fui pedir informações sobre o seu caso. Um colega apenas me respondeu: "não causes problemas para ti. Diz-lhe para se dirigir para lá e ela que espere". O que para mim não fazia sentido algum. Alguma vez mandar uma pessoa esperar a chegada do que não vai chegar é fazer o teu trabalho?? A situação muito me incomodou. Junto com pessoas mais responsáveis foi-me dito que não podiam fazer nada e que ela tinha, basicamente, de "desvencilhar-se" sozinha.

Essa falta de humanidade para com alguém que, ainda por cima, já teve as "cartas da vida" tiradas com pouca sorte, desiludiu-me. Fiquei tão incomodada que nem podia mais lidar com a situação. Intencionalmente, afastei-me do local para não ter de me revoltar com a aparente falta de empatia e comecei a desejar que o final do turno chegasse o quanto antes.

Mas será que é normal no Reino Unido as pessoas não quererem envolver-se?


Conduzi a pessoa até uma outra e daí adiante afastei-me. Temia o lamento, o choro, a conversa interminável sobre infortúnios... e eu de mãos atadas. Mas devo dizer que a senhora, junto com o filho jovem e saudável que a acompanhava, tiveram uma postura em tudo diferente. Não se exaltaram, não se surpreenderam, não se exasperaram, não gritaram ou fizeram ameaças. Talvez já soubessem sobre a viagem e fingiram que não? Mas quem faria tal coisa? Enfim... Eu admirei-os porque, talvez fruto das suas lutas pessoais, coisas como estas deixam de ser tão importantes. 

E devo dizer que, diante do infortúnio deles, até a minha própria fome e a ideia de ter o frigorífico vazio sem ter ideia do que lá por, me pareceu pequena. Eu ia seguir a minha vida, passar pelo supermercado, comprar algo para comer e dormir numa cama. E assim, de forma simples, resolvia as minhas necessidades mais imediatas. Eles não.

O meu turno já tinha terminado quando me cruzo com a senhora na área restrita aos funcionários. Vinha acompanhada de alguém que nunca vi antes e de imediato perguntei como estava a situação. A funcionária - claramente de uma hierarquia acima, é que respondeu. Tinham conseguido comprar uma outra viagem para o dia seguinte, mas a pessoa (com a sua filha com necessidades especiais) tinha de ficar a dormir na gare durante a noite. Tinham reunido umas tantas garrafas com água e iam indicar-lhe os locais mais reservados e quietos onde podia alojar-se enquanto aguardava novo transporte.


No regresso já no autocarro, fiquei a pensar na situação. Aquela falta de empatia inicial, a clara falta de vontade em envolverem-se nos problemas dos outros, afinal não era bem assim. Sempre foi feito algo, não deixaram a senhora, o seu filho adolescente e a sua filha deficiente à mercê da sua própria sorte. Alguma ajuda - ainda que pouca, foi facultada. 

Será que eu devia voltar atrás? E dar à senhora algo para comer? Dinheiro? Se pudesse até lhe dava um teto para dormir. E reflecti que já era a segunda vez, em quarenta e oito horas, que esse pensamento me vinha à cabeça. 

Aqui no UK sente-se que não nos podemos envolver muito. Ainda pensei em levar-lhe comida para ter mais do que águas para se aguentar durante a noite. Pensei mesmo regressar ao emprego, após 12 horas de trabalho, só para poder ajudar. Mas quis acreditar que outros ajudariam. Com comida sólida, com o que precisasse. 

Como funcionária no local, ao me envolver pessoalmente, ainda que fora do uniforme, podia comprometer o meu emprego. Aqui não se podem correr riscos. E é considerado um risco tentar ajudar as pessoas dando-lhes, por exemplo, uma peça de fruta. Ou um pouco de sopa. Pensei nas sopas que temos na sala do pessoal, que saem de uma máquina de distribuição automática. Pensei em as oferecer à senhora. Mas depressa lembrei-me: "não porque saem quentes e se ela se queimar ou algo acontecer com a criança, pode processar o estabelecimento e eu posso ser demitida por não ter de interferir onde não sou chamada". Porque aqui no UK pensam muito assim. A vida deles, em muitos sentidos, está condicionada aos receios dos processos nos tribunais. Processo pela falta de um sinal a avisar que o piso está escorredio, ter a comida quente demais, o café a escaldar, cabelos no prato, uma maça que faz mal ao estômago e alegadamente poderá ter sido propositadamente alterada para causar mal estar, etc, etc. Por isso é que tudo é tão "deslavado" - até a empatia. 

Lembrei-me também que, às tantas, a senhora reconheceu entre os trauseuntes, o seu pastor. Que é o lider espiritual. E no regresso no autocarro fiquei a pensar para que servem estes, se ela não poderia ter recorrido ao mesmo para solicitar ajuda. 

No final do dia, realizei uma pequena oração por eles e agradeci a Deus pelas bençãos na vida que me deu.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Um documentário muito perturbador


O ano mal começou mas acredito que nos 359 dias que restam dificilmente vai surgir uma história mais chocante e perturbadora que esta. Preparem o vosso espírito. 

Vejam já porque o canal que a disponibiliza já avisou que está em risco de ser encerrado pelo Youtube. 

Instruções para activar (uma péssima quase imperceptível) legendagem em Português:

Activar as legendas carregando em 1 (surge um risco vermelho abaixo do símbolo)
Carregar no símbolo da seta 2


Escolher legendas/CC 

Depois carregar em Traduzir Automaticamente
Escolher então Português

Esta é a pior história real sobre uma família que podem assistir este ano.



Partilhem o vosso pensamento nos comentários. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Saúde e sensações


Hoje estou de folga mas nem me apetecia estar.

Não fosse pelas noites e manhãs de horas com tosse e sensação de fraqueza, acho até que teria pedido para ir trabalhar. Será que esta preferência advém da falta de conforto aquando no lar?

Os meus planos passavam por sair nos dias de folga. Dar umas voltas, tentar conhecer melhor os lugares que me rodeiam, encontrar bons sítios para comprar alguns presentes e levar para Portugal... Mas o despertar fraco e doente me impediu de concretizar qualquer dos desejos. Isso e a chuva constante, o frio...



Finalmente consegui ficar inscrita no NHS - o sistema de saúde inglês. E consegui uma consulta para hoje cedo. Mas quem disse que consegui? Deixei de ir ao médico por estar doente!!! Ahahha.
Esta é demais. 

Mas tive vários motivos para achar que a consulta não ia ser produtiva. 
Queriam uma amostra de urina e, como estou, ando a urinar de duas em duas horas... Nem sei que tipo de xixi queriam, só me deram um frasco e nada mais disseram. Seria o primeiro da manhã? Qual deles?? Poderia fazer análises ao sangue tendo ingerido alimentos açucarados duas vezes durante a madrugada? Afinal, trabalhei madrugada adentro... 

Não estava em condições físicas, orgânicas, psicológicas, por isso adiei. 
Também de pouco me adiantaria, viajo em menos de uma semana. É em Portugal que ainda espero poder tratar de alguns aspectos relacionados com a saúde. Mas esperava fazê-lo saudável, não assim!

Muitas pessoas que moram nesta cidade dizem que os médicos aqui não valem nada. Mais que uma já me relatou que vai-se ao médico com qualquer queixa e este responde que "está tudo bem". Receita uma coisa qualquer e põe-te a andar...

Tenho receio desse descaso. 
Por pior que seja o sistema de saúde Português, penso que é difícil encontrar médicos que façam pouco caso das mazelas dos pacientes.




Se, a tirar pelo exemplo do que experienciei ontem - quando consultada por alguém que me foi dito que seria uma enfermeira, tudo o que aqui querem saber é se bebes e fumas. Algo que especificas com detalhe na inscrição, que te voltam a perguntar um mês depois aquando o registo e no final ainda te entregam outro papel para que voltes a repetir o mesmo. Fui oscultada nas costas. Ainda perguntei se precisava estar com a coluna direita, mas responderam-me que era indiferente e mandaram-me inspirar e expirar normalmente. Mal inspirei, ainda ia a meio do expirar já o coiso redondo saía de um sítio nas costas, para outro. 

Diagnóstico?
-"They're clean. I believe you got an english bug!"
-"Estão limpos. Acho que apanhou um bichinho inglês!"

Pois...
Mas eu conheço a força dos «bichinhos ingleses». Foi depois de apanhar um «bichinho» inglês aquando estudante que todo o meu sistema imunitário se fragilizou e logo a seguir vieram os diagnósticos de anemia e tiroide. Que não se menosprezem os «bichinhos ingleses».




Na outra esfera de preocupações ligeiras, está o ambiente em casa. O indivíduo regressou, e com ele cada qual se evita um pouco mais. A pesar de ser incrível o número de vezes que as portas cá de casa abrem e fecham - um absurdo realmente, acho que chega à centena - cada qual se evita ao máximo. Ainda agora, em que fui buscar ao piso de baixo a roupa que consegui finalmente colocar a lavar, mais para deixar a máquina disponível para outra pessoa que por outra qualquer razão, a porta do quarto da rapariga estava aberta, a música saía alta mas, ao me ouvir descer, a primeira coisa que ela fez foi empurrar a porta para a encostar. Não satisfeita, ainda a empurrou para fechar antes que me aproximasse. Não sei... achei aquele gesto um pouco grosseiro. Porque se me apanham de porta aberta, eu não a vou fechar de imediato. A outra pessoa podia interpretar isso como uma indelicadeza à sua presença notada. 

A minha tosse impossibilita que a minha presença não seja notada.


Agora o que realmente me surpreende é a quantidade de vezes que se abrem e fecham portas. Enquanto aqui escrevo, já a rapariga subiu os degraus umas 15 vezes, foi ao wc umas outras 15... É tão somente um facto que me surpreende. Eu, adoentada, vou muito mais do que é habitual mas... No geral, nenhum fica mais que duas horas sem ir puxar o autoclismo. A rapariga então... É capaz de ir em intervalos de 15 minutos, meia hora.

O que tanto se faz para se precisar tanto de ir ao WC???

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Uma inconfidência familiar com Kms de distância

Como já expliquei uma vez, no facebook tenho «amigos» americanos que nunca conheci mas que se fizeram amigos para interagir num jogo. Vai que, por vezes, publicam coisas no face que dá para eu ver. Assim como imagino que as minhas publicações também são visíveis a eles. Vai que deparei-me, ontem de noite, com uma coisa que me pareceu inocente. Apenas uma daquelas coisas de família... 

Um filho pediu emprestado um cortador de relva e devolveu-o sujo e com o depósito cheio. Acontece. Até entre vizinhos, conhecidos... Não há motivo para armar uma discussão séria por causa de algo assim. Aquela publicação estava sempre a aparecer no topo do feed e após umas tantas vezes a levar com aquilo «na cara» fui ler os comentários. Eis a troca de palavras: 



Post no facebook da Senhora Maria:
A semana passada o filho pediu emprestado o cortador de relva. Fui para cortar o relvado esta manhã e foi assim que mo devolveu (foto daquilo cheio de relva e por limpar). Também lhe dei 5L de gasolina que derramou para fora pois ele estava com pressa para fazer a coisa a bem. Usou as minhas ferramentas e o camião. Que simpática fui! Para aqueles que não sabem onde é o saco colector de relva...   

Comentador amigo: Terrível. Mas ao menos trouxe-o de volta.

Filho (usando o facebook da namorada): Para aqueles que precisam de saber a verdade, aqui fala o filho da Senhora Maria. Sim, pedi emprestado do meu pai João o cortador de relva e algumas ferramentas de jardinagem para cuidar do quintal da minha avó. Estava à chuva e com o meu horário laboral apertado. Esta avó é a mãe da Senhora Maria. A Senhora Maria sempre abre a boca de uma forma negativa e maliciosa. Eu ia limpar tudo na segunda-feira, mas a Senhora Maria gosta de deixar os outros mal vistos. Ela fica em casa 11h por dia quando a sua família precisa de ajuda mas eles não lhe pedem ajuda a ela. Hummmmm... porque será????? Amo-te Natália e sempre fiz coisas por amor a ti e não ódio e negatividade. Vou continuar a ajudar-te tal como tu estiveste sempre por mim quando a minha própria mãe Senhora Maria não esteve. Para tudo sempre lá esteve o João, não ela!!!

Senhora Maria: O teu padrastro João diz que és um convencido... Lamento que te incomode que eu seja motorista de autocarro. Tens de falar atrás das saias da Carla... 

Carla (ou filho): Senhora Maria, Por favor pare com o drama. Não gosto disso na minha página.

Senhora Maria: Desculpa, eu não fui à tua página, o teu namorado abusivo veio à minha falar atrás da tua saia. Quem o emprega devia submetê-lo a um exame de despistagem de drogas talvez ele deixe de ser tão malvado. Ah sim, ele usou a urina de outro.


E pronto. Apeteceu-me partilhar aqui...
As redes sociais são espantosas. E assim, uma «briga» familiar longíqua com pessoas que não conheço nem imagino mais gordas ou mais magras, chega-me ao conhecimento. Devo dizer que, vendo tantos programas sobre crimes nos EUA, preocupou-me a forma como levam tão a sério o que me pareceu, inicialmente, um desabafo sem maldade. Mas o filho achou que era um post malvado e «despejou» mais coisas... Vai a resposta, adiciona outras.



Para quem vê quase todos os dias crime-docs (documentários sobre crimes) americanos, sabe que já aconteceram tragédias por muito menos. E como lá eles andam todos armados até os dentes, num destes momentos em que estão «mais a quente» podem não pensar duas vezes e descarregar uma arma em cima de alguém. Vai que por uma coisa patética destas, isso podia acontecer?

O que acham?
Tirando o facto das pessoas hoje em dia usarem o facebook para publicar todo o tipo de pensamento e momento... Quem acham que «abusou» nas palavras?



domingo, 28 de agosto de 2016

Quem diz que não se aprende nada a rir?


Gostam de sitcoms?
Qual a vossa favorita?

Vi muitas enquanto crescia. A maioria americanas mas também bastantes inglesas. Eram o estilo de programa que não perdia porque faziam-me reflectir, rir e, no final, deixavam-me bem disposta. Descobre-se muito vendo sitcoms, em especial às que recorrem ao humor satírico para representar a sociedade e tecer críticas político-sociais. Assisti a contemporâneas, a grandes sucessos americanos e às clássicas ainda a preto e branco. 

Contudo existe uma com que me delicio até hoje. Acho-a fenomenal. A rainha de todas pois cada episódio que calhe rever parece-me encaixar com a actualidade como uma peça de um puzzle. Este episódio que encontrei na net é um exemplo. O ano é 1972, mas bem que podia ser 2016. Olhem que podia!


Infelizmente o vídeo parece não permitir a activação das legendas. 
Mas vou resumir o tema. Archie, o homem da casa, quer conseguir uma promoção no emprego mas sabe que esta não está ao seu alcance por não ter terminado o liceu. Decide então regressar à escola para conseguir o diploma que, no seu entender, o impede de ser considerado para ocupar o cargo. Está tão animado, com tanta vontade de melhorar de vida, de ser valorizado num cargo de maior responsabilidade... Lá consegue o seu diploma mas no final a vaga é preenchida pelo sobrinho do patrão. 

Acham que isto podia acontecer hoje? (irony mode)

Para cúmulo o episódio termina com Archie a dizer: "Now I'm stuck with a highschool diploma!" Que é mais ou menos o equivalente ao que se diz na actualidade: Tirei um curso superior para nada :) 


Pelo meio existe sempre a rotina familiar, a lida da casa, os lanches, jantares e almoços. E neste episódio em particular diverti-me com o pormenor do queijo em fatias individuais embrulhadas em papel celofane. Algo que demorou talvez uns 20 anos a chegar a Portugal mas, como se vê  por esta série, no início dos anos 70 o queijo em fatias envoltas em película em plástico era um «sinal» da evolução da alimentação para a comida processada na América.  


Os americanos levam 20 anos de progresso na ingestão de alimentos processados e são quase todos gordos... Imaginem nós quando os apanharmos...

É uma série riquíssima, que aborda diversos temas que ainda hoje são debatidos calorosamente, como por exemplo a tensão racial e as eleições entre candidatos Republicanos (Archie) e Democratas (Mike). São feitas imensas referências a momentos-chave da política americana, como o caso watergate - que à altura deste episódio ainda estava para acontecer. 

«Se as parvoíces do Archie Bunker serviram para melhorar algo na américa? Duvido» - Archie/Carroll O'Connor, 1998/9 


A série deu origem a outras spin-offs, todas igualmente interessantes. Como por exemplo... Alguém se lembra da sitcom O príncipe de Bel Air? Pois esqueçam essa produção engraçada mas carregada de racismo. Décadas antes de aparecer essa que ficou famosa por ser "a primeira a dar protagonismo a negros ricos" existiu "Os Jeffersons" (1975-1985), uma das primeiras spin-offs desta série que ainda não nomeei e a verdadeira pioneira. 



Apresentadora: Porquê acham que raramente mencionam os Jeffersons como sendo a primeira família negra na televisão? Bill Cosby é muito falado por isso... 

Pois é. E eu não gosto disso. Nunca mencionam os Jeffersons. Raramente referem os Jeffersons ou nos dão crédito. - Louise/Isabel Sanford, 6/3/1995

Muitas pessoas diziam que éramos um estereótipo... Não sei porquê. Algumas pessoas tinham problemas com a família... A minha personagem falava alto e acho que isso foi considerado ofensivo entre a "burguesia" (ironia) - George/Sherman Hemsley 6/3/1995


Até os dias de hoje esta série que esteve no ar por 10 anos raramente é mencionada e não lhe atribuem o estatuto que lhe é devido, por ter sido a primeira a mostrar uma família negra e de posses, em televisão. Para mim, que vi todas - O príncipe de Bell Air, O Cosby Show e os Jeffersons, a primeira é em alguns aspectos melhor, no sentido em que me pareceu focar-se mais em temas e menos na «cor da pele», um sério detalhe em que hoje as outras parecem-me falhar. É talvez a menos racista, porque inseriu a família na comunidade, não a sobrevalorizou nem a "transformou" em negros com "vida de brancos", não inverteu estereótipos mantendo noções racistas, como as posteriores tanta vez fizeram. Era constituída por uma mulher generosa e afável, um homem preconceituoso e sovina e um filho moderno e sagaz. Pela recusa do público negro em aceitar esta como sendo a PRIMEIRA família negra na TV americana se vê que... o racismo é algo que não quer ir embora.

«Nunca que uma mulher vai chegar à presidência!»

E repito as palavras daquele que deu vida a um dos maiores simplórios e preconceituosos homens na TV americana: «Se as parvoíces do Archie Bunker serviram para melhorar algo na américa? Duvido» 



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Desejo para o DIA de Natal...

E se vos confidenciar que o que mais queria para o Natal era estar a trabalhar no DIA de Natal?

Sempre gostei do Natal. Concilia duas coisas que me fazem sentir bem: convívio em família e oferendas.

Mas nos últimos anos o Natal não tem sido a mesma coisa para mim. E isso foi uma surpresa. Passa rápido demais e dá a sensação que as pessoas mal entram pela porta, já estão a sair. E foi num desses momentos que algo me atingiu.


O que mais me decepciona é que se dê maior importância ao lado comercial do Natal do que ao lado do convívio. Oiço as pessoas a falar da compra dos presentes, a tentar encontrar algo barato mas que aparente ser caro, oiço-as preocupadas em fazer boa figura e não ficar aquém de ninguém e esquecem, de todo, que a essência do Natal é o convívio entre todos. Não se trata de rivalidades, não é uma quadra para a competição para se descobrir "quem é o melhor", o mais generoso, ou aquele que dá melhores presentes. Não gosto que o comércio se inunde de artigos natalícios três meses antes da data já deixando todos os consumistas stressados e reprovo a excessiva publicidade insistentemente dirigida aos mais pequeninos. Porque é que o dinheiro é o tema sobre o qual gira o Natal? Vemo-lo nas reportagens televisivas, ouvimo-lo nas bocas dos que se justificam por antecipação que o dinheiro não dá para "grandes" presentes «este ano» (que são todos).
Sim, dinheiro é preciso para viver em sociedade mas não é de todo essa a mensagem do Natal. Até me podiam oferecer um pacote de bolachas de água-e-sal de 40 centimos... (ia achar o máximo) não é por aí. Os reis magos levaram ouro, incenso e mirra. Podiam ter levado um calhau, uma ovelha, uns biscoitos. Um copo de leite, que seja. O valor está no gesto e na forma sentida como o mesmo é praticado. Isso é que é bonito. 

Compreendo que antigamente o Natal tinha outro sabor porque eu mesma era pequena. E compreendo também que mude, pois as pessoas casam, formam as suas próprias famílias e por sua vez também ganham outra. E têm de repartir o seu tempo entre todas. Mas não serve de desculpa para não se entregarem ao convívio. Se o capitalismo transformou o Natal em comércio, que seja. Não devem as pessoas é deixar que o mesmo comércio e capitalismo entre nos seus lares e comande o seu Natal. 


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Homenagem aos meus avós

Ultimamente tenho pensado no que consiste em criar 
uma família com sucesso.

Meus avós maternos, com quem privei com proximidade, como grande parte de outras famílias portuguesas tinham uma história bem comum: filhos de gente humilde, filhos de lavradores rurais de várias gerações a viver principalmente da lavoura do seu pedaço de chão, descendentes de faz-tudo e capazes também eles de serem faz-tudo, aprenderam a se "virar" e agarrar as oportunidades que lhes surgissem para facultar algum sustento. Começaram a trabalhar em meninos e não tiveram muitos estudos. Quando atingiram a maioridade acabaram a emigrar para a capital, tal como tantos outros - parentes inclusive, não tivessem como tantos outros, esse instinto simples e claro de que se deve fazer frente à adversidade com mais trabalho, fugir da pobreza dura e cada vez mais difícil e ir para onde se diz que existem melhores oportunidades de sustento.


Acabaram por constituir uma família numerosa de filhos - tendo perdido dois ainda em tenra idade para um acidente evitável e uma doença que facilmente teria cura.


E é aqui que queria chegar. Naturalmente, não foi tudo um mar de rosas. Existiram problemas que devem ser transversais a qualquer família. Cometeram erros como pais, certamente. Mas acredito que os ACERTOS superaram os erros. E agora que se foram isso fica mais claro. Pelo menos para mim. Os seus filhos não podiam ser mais diferentes uns dos outros. Personalidades distintas, formas de estar distintas, opiniões distintas. Não devem ter sido pera doce de criar eheh! E embora cada um seja capaz de apresentar uma lista de acontecimentos familiares infelizes hoje continuam cada qual na sua vida, mas sempre a querer saber uns dos outros.


Meus avós conseguiram sim, criar uma família. Porque souberam realmente fazer com que aquelas pessoas tão diferentes se sentissem unidas umas às outras, se preocupem, se auxiliem. E é POR ISSO, que vejo com muito orgulho que meus avós são um caso superado de duas pessoas que conseguiram criar uma família com sucesso.

E só de imaginar o quão pouco tinham à partida a favor deles... A falta de dinheiro, a falta de instrução, a falta da presença de um dos progenitores (nenhum dos dois teve um dos pais). Existiu, por comparação à maioria dos pais de hoje, uma diferença quase abismal de recursos. No entanto, tomara que os pais de hoje consigam para os filhos o que meus humildes avós conseguiram.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Direito de sucessões

A propósito de uma pesquisa sobre direitos e deveres familiares:

Fonte: Wikipédia:
Não se pode confundir sucessão com herança. A primeira é o ato de alguém substituir outrem nos direitos e obrigações, em função da morte, ao passo que herança é o conjunto de direitos e obrigações que se transmitem, em virtude da morte, a uma pessoa ou várias pessoas, que sobreviveram ao falecido.


Ah,ah,ah,ah,ahaaa!
Alguém sabe apontar-me a inconfundível diferença?
É que li, reli e não consigo identificar o que distingue substituir de transmitir, não existindo documentação pelo meio  ;) 

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os anjos que partem

ANJOS DE ALGUÉM

Esta entrada é para todos aqueles que por breves momentos vieram à terra e logo partiram. O meu pensamento vai para o pai e para a mãe que perde um filho, para os avós que deixam de o ser, para os educadores de infância que vêm uma criança partir, para os médicos que fazem de tudo para combater uma doença. Para todos aqueles que partem.


Vai para o pai que esqueceu o filho no banco e que foi tão punido pelo seu gesto. Vai para as mães que deixam os filhos no ATL e vão para o emprego, para depois receber «aquela» chamada que julgamos que nunca na vida iremos ouvir. Para quem luta contra um mal que acaba por vencer e levar desta vida uma alma que por cá ficou pouco tempo.


Porque não acontece somente aos outros, uma prece para eles. Aos anjos que partem. Já são três no espaço de uma semana que oiço falar e por isso, é para eles todos que escrevo e acendo uma vela.
Bem-haja.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sotaques e raízes

Sou um desastre para sotaques.
Não só não os sei imitar, como me passam ao lado.


Já cometi a «gaffe», por assim dizer, de conversar com alguém por uns minutos e acabar por ouvir as pessoas a me dizer: «então não se vê logo pelo sotaque?».


Só oiço o português. A forma como me chega, quase sempre passa despercebida. Venha com sotaque do alentejo, do norte, do sul, dos Açores, dos emigrantes. É isto um mal? Ou um bem? Acho que demonstra o quanto não é de meu carácter a tendência para descriminar, por isso considero um bem. Porém, dependendo da ocasião, pode vir a ser um mal. Quando para os outros isso importa e a mim não, acabo por virar vítima desta situação.


Sou a portuguesinha, Lisboeta assumida em mensagens anteriores. É suposto ser aqui o «sotaque zero». Ou seja: o povo de Lisboa não fala com sotaque. O português-padrão é aqui, é o que é divulgado nos meios de comunicação em massa, considerado «sem sotaque».


Hoje deu-se um acidente de viação numa estrada do norte. Um camião-cisterna virou e derramou ácido. Estou atenta à notícia quando o entrevistado diz: «o camião viroue». A palavra viroue ficou ali a pairar uns instantes no ar até me lembrar porquê: era assim que o meu avô falava. Com sotaque do norte.


Minha avó também. Embora seja Lisboeta e quase nunca saiu para além desta cidade, o seu português falado está cheio de expressões com «sotaque» que, para minha vantagem ou desvantagem futura, me enternecem quando as escuto.


No entanto, toda a minha vida, estas características das pessoas mais próximas a mim passaram-me ao lado. Era tudo igual. Escutava-os, entendia-os, e nenhuma diferença continua a me fazer se os escuto a dizer «bassoura» ao invés de vassoura. Entendo-os perfeitamente de qualquer das formas que tenham para se expressar. O curioso para mim é só recentemente ter percebido esta coisa dos sotaques e de que forma fizeram eles parte da minha vida, sem lhes ter prestado mais um pouco de atenção.


Podemos ser fruto que o vento soprou para longe. Mas as raízes nos acompanham por muitas e muitas gerações...

terça-feira, 10 de junho de 2008

O Parente Famoso

Nesta minha insistente busca para compreender as coisas que me cercam, dei comigo a estudar as minhas raízes. O hábito era antigo, mas o processo, de realmente ir atrás dos antepassados - a chamada Genealogia, esse chegou décadas depois.
.
Sabem o que todos dizem quando o assunto vem à baila? Pensam em si mesmos e não poucas vezes saiem com esta afirmação:
.
-"Quem sabe descubro um parente podre de rico, um nobre qualquer e, deixo de trabalhar!"
.
Esta afirmação sempre me perturbou. Que mania! Mania das grandezas, mania que a nobreza está num título e que a riqueza é tudo.
.
.
Nunca ocorre a estas pessoas pensar que, os que foram "nobres" e "ricos" ás tantas o eram pela capacidade de se aproveitar dos outros? Quer dizer, um antepassado rico e mau carácter, não é coisa que me agrade como contributo genético...
.
Porquê querem todos ter um antepassado ilustre? Sentem que ganham imediatamente um status? Não entendo...
.
.
Quis conhecer os meus porque, instintamente, senti que já os conhecia. Ainda que inconscientemente, quis ir ao encontro deles para os conhecer e saber se foram o que os meus instintos me diziam que tinham sido. Não achei que ia deparar com riqueza ou nobreza. Mas queria deparar com pessoas de bem, trabalhadoras e honradas, pois sentia isso em mim, como uma herança de séculos.
.
Este instinto inconsciente, provou-se correcto. Recuei quatro séculos nas minhas raízes mais directas e não encontrei nada além do que descrevi em cima. Pessoas do povo, pessoas comuns, trabalhadoras, honradas, que tiveram muitos filhos e criaram todos. Viveram muitos anos e com baixos índices de mortalidade infantil na família. O que pode indicar a inexistência de negligência ou outros cenários mais macabros. Do muito e do pouco que compreendi, em nada me decepcionou o que encontrei. Ali estava: pessoas comuns, simples, humildes, trabalhadoras e honradas, de bom coração, boa saúde, perspicácia, inteligência, bons genes. Não podia querer melhor.
.
Claro, carrego comigo o peso que décadas de pobreza transmite de geração em geração. Mas não se perdeu a virtude. Conheci outros familiares distantes e em todos encontro uma doçura, uma bondade e simplicidade, que dá gosto de perceber. Todos passaram pela mesma pobreza característica da classe e da sociedade. As mesmas dificuldades, os mesmos problemas e sempre, sempre, a mesma disposição para a luta, para a honra, para a sobrevivência, sem recorrer a artimanhas pouco nobres ou criminosas.
.
E deixem-me dizer esta grande verdade: A GENEROSIDADE É PROPORCIONAL À MISÉRIA.
.
Quem mais dá, é quem menos tem. Quem mais sente, é quem mais sofreu. Quanto mais pobre, mais generoso. Um pobre nunca deixa de partilhar um pão, dar uma moeda. E quem em tudo isto já nasce com um bom carácter, conserva-o até o fim da vida. É feliz em espírito e faz os outros felizes também. Mas lá por ser um ser sorridente, não desconhece de todo a dor do sofrimento.
.
Atrás de um grande e caloroso sorriso, está alguém que sabe o que é a dor.
.
Voltando aos antepassados, fiquei à espera de encontar alguém que também procurasse alguém. Em fóruns de genealogia e artigos, li todos os nomes, verifiquei todos os apelidos. Mas nada. Nomes parecidos, homónimos até, mas nenhuma correspondência.
.
A menos que se tenha um antepassado mais "famoso", dificilmente alguém vai escrever o nome de um perfeito desconhecido. Mas a esperança não morre. E assim, a cada região e localidade mencionada, lá ia espreitar por um nome familiar. Entrei então num tópico sobre uma "celebridade".
.
Bem, o termo, celebridade, não é muito do meu agrado. Tenho a certeza que também não lhe agradaria a ela. A pessoa em questão, foi mais uma figura. Uma figura do panorama português. De relevo, de importância e do povo.
.
Saber que, há 200 anos, tinhamos parentes em comum, não me surpreendeu, nem a uns outros poucos parentes a quem o mencionei. Era conhecida a localidade de proveniência e apelidos desta figura que se tornou de relevo no panorama artístico português. E assim, feita a descoberta, pouco impacto teve.
.
Por curiosidade, fui ler uma sua biografia. Sem espectativas. Só aquele instinto, que me insinuava que não ia encontrar nada que no fundo, já não sentisse...
.
Fiquei surpresa sim. Fiquei muito surpresa com as semelhanças. Gerações tão diferentes, de tempos diferentes, com experiências e oportunidades diferentes e, no entanto, lá estava: tudo igual.
.
Será o peso dos genes? Das gerações de pessoas do povo, pobres, mas de carácter? Acho que sim. Muito do que os outros viveram passa para nós não só como traços físicos, mas também na forma de ser e da energia que carregamos. Acho até que, algumas vezes, estamos aqui a pagar pelos pecados dos outros, não pelos nossos. Sentimentos e emoções TAMBÉM são transmitidas genéticamente. Ainda mais, com o peso de séculos em cima.
.
Ora, se se transmitem doenças, problemas, tiques, maneirismos e até gostos peculiares, claro que se transmitem emoções, experiências de vida, carácter.
.
Fiquei surpresa com as imensas semelhanças entre a história de vida dessa pessoa, no que respeita ás suas origens, e muito, muito mais, pasmada com as semelhanças de personalidade. É como se a tivesse conhecido por dentro. Vi o lado conhecido mas também o oculto. Aquele que poucos conseguem imaginar.
.
Pobre menina rica! Pobre menina pobre, que ficou rica, que era nobre sem o ser, que tinha medo e não sabia...
.
Pois não podia ter-me "saído" na "rifa", "melhor" figura! .
Uma pessoa do povo.
Ganhei a taluda porque já nasci com a cautela.
.
Sou Portuguesa da mais pura essência deste povo.
Não há como negá-lo!
.
Saiu-me a sorte grande.