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domingo, 2 de abril de 2023

Cheated of my life

 

Foi um comentário no youtube que me fez repensar tudo. Meus pais são vivos. Se a ordem das coisas for a usual, irei os perder antes da minha vez também chegar. Não sei como será quando isso acontecer. Comecei a temer essa altura. 

Mas depois de ler aquele comentário, comecei a pensar noutra perspectiva que tal mudança traz para as nossas vidas. Ficará mais solitária? Sim. Mas terminará também uma co-dependência. 

O comentário foi o desabafo de uma mulher que, no leito de morte da mãe, a ouviu dizer: "Agora vais poder COMEÇAR A VIVER". 

Essas palavras, e a admissão da própria que, a pesar da dor, nesse instante foi exatamente o que aconteceu, ressonou dentro de mim. 

Em vez de focarmos-nos na perda, deviamos focarmos nos ganhos. 
A nossa vida re-começa. Não temos mais aquela pessoa ali que, pode parecer para bem mas, se calhar, também é para mal, está disponível e nos exige disponibilidade. 

Achei muito interessante aquela mãe saber que estava, de certo modo, a impedir a filha de viver e dizer-lhe que a sua morte significava liberdade para ela. Mas que coisa linda de se dizer. Talvez o derradeiro gesto realmente altruísta de mãe. 

Porque, sejamos sinceros, altruísmo em mãe está muito sobrevalorizado. A maioria é capaz de actos altruístas mas tem sempre uma base egoísta. Acho até que o egoísmo pesa mais na balança dos pais que outra coisa. Pelo menos a minha experiência assim o diz e, até hoje, é algo que constato diariamente. Eles, contudo, estão alheios a essa realidade. Preferem interpretar as coisas com a conotação tradicional. É mais cómoda e soa melhor. Porém, não é a realidade. 


 

sábado, 2 de dezembro de 2017

Na quadra natalícia caem que nem moscas



Cansei-me. Todos os dias sou brindada com mais uma notícia da morte de alguém. Neste momento quero uma pausa, uma break, um intervalo. Parem lá de falecer, sim??


Foi o «tio» Belmiro, o grande João Ricardo, o Zé Pedro que ao que parece deixou mais de metade das pessoas aos prandos, e foram também uns ilustres desconhecidos mais próximos de amigos meus. Gente toda invejosa, que não pode ouvir falar de um falecimento que vão logo imitar!

Por isso parem lá de falecer, sim??

É que já nem me apetece sair de casa, não vá nesse pequeno passeio ser informada da morte do dia.
É Natal... sei que todos os dias morre alguém. Mas façam uma pequena pausa, ok?

E vocês, leitores, livrem-se de aprontar uma dessas!

segunda-feira, 14 de março de 2016

A morte de Nico


Eu nunca o conheci, pelo que me referia a ele como Nicolau Breyner. Mas os amigos, conhecidos e colegas, tratavam-no por Nico. 

Duas gerações de atores - do jovem ao experiente
(bastidores do filme Virados do Avesso)

E foi assim que vi e ouvi um rol de figuras de peso, do universo artístico e político, desfilar pelos canais de televisão para falar do falecimento do seu amigo.

Todos com vozes embargadas, escutei o final do depoimento de José Pedro Vasconcelos na Sic Notícias, realizador com quem o ator fez, entre outros, o filme "Os Gatos não têm vertigens". Neste, a sua personagem morre subitamente, de ataque cardíaco. E depois vira um «fantasma», na mente da sua viúva. 

E existe «melhor» forma de falecer do que subitamente?


E como foi assim que Deus quis, apanhou muitos de surpresa. Virgílio Castelo na RTP3 fez questão de mudar o registo de tristeza e optou por partilhar histórias divertidas de Nico. O próprio Nicolau quando cumpria as homenagens fúnebres, achava uma maneira de aligeirar o ambiente - revela Virgílio. E depois de contar umas histórias envolvendo uma carroça de alfaces e explicar que Nico chegava ao refeitório, não fazia um prato de comida mas tirava-a do prato dos outros, acaba por sintetizar que ele era especial por saber desconstruir a tristeza. 

No mesmo canal e no mesmo cenário, Pedro Lima recorda como este lhe serviu de mestre - embora nunca tenha sido seu mestre. 

Nicolau no 5 para a meia-noite, com Jeremy Irons
humilde, franco, cúmplice e divertido

De volta à Sic Notícias, Pinto Balsemão fala que Nicolau foi uma das primeiras figuras a apoiar o projeto de uma televisão independente, decorria o ano de 1986. Já Júlio Isidro, revela na RTP3 que se arrepende de ter adiado o convite para Nico participar no seu programa na RTP Memória. E Rita Blanco, entrevistada ao telefone na Sic Notícias, diz que o ator não era de dar lições a ninguém e que essa era uma das suas melhores características. Rita quer falar da pessoa Nicolau, mas a pivot insiste em fazer perguntas sobre como uma atriz avalia um ator. Como se não soubesse que a sua entrevistada é conhecida pela sua frontalidade e se aborrece com questões menos relevantes, a pivot dispara mais uma pergunta em contra-mão, o que leva Rita, com voz embargada e já a chorar, a ser sincera: O que eu quero agora é desligar para poder chorar.

Na Tvi24 Sílvia Riso, outra que acabou de receber a notícia, procura terminar rapidamente o seu depoimento recolhido no set de uma novela, pois está em esforço para segurar as lágrimas. Tozé Martinho refere que Nicolau teve formação em ópera, em Itália, isto porque a Tvi24 foi buscar imagens de arquivo da RTP memória e mostrou o ator como cantor, no festival da Canção de 1968. 


Na RTP3 Maria do Céu Guerra conta que estava a viver na casa dele por esta ficar mais perto da maternidade onde foi ter a filha, tendo sido ele a primeira pessoa a ver a bebé. Diz que Nicolau era «a alegria e a bondade - quase santidade». Refere o que mais se tem ouvido sobre as qualidades de Nicolau: o ator passava alegria aos outros e encarava os males da vida fazendo-se de desentendido para as dores e infelicidades. «Passava por cima e continuava sempre a sorrir. Super culto e inteligente, sempre a fingir que não» - conta ao telefone. «Era absolutamente contra o snobismo e o elitismo», diz. «Não acredito ainda que ele tenha morrido!» - diz ainda mais emocionada, ao mesmo tempo que revela que ela e Nico tinham dois projetos em andamento. 

O Presidente da República também se pronuncia sobre este falecimento. Aproximadamente uma hora depois, também o primeiro-ministro.

«Não levava nada a sério. Nem a si próprio» - revela José Pedro Vasconcelos, agora em pessoa na RTP3. 

E penso que isto resume tudo. 

Em todos estes depoimentos que fiz questão de ir apanhando em zapping, fui também tentando perceber como é que as estações faziam a gestão deste acontecimento. Todos vamos falecer - é uma certeza. Mas quando se é figura pública, o mais certo é que os meios de comunicação Social, já a contar com isso, tenham preparado algures umas imagens, uns textos, just in case... 

Não parece ter sido o caso para Nicolau. 

Num despreparo maior, a Sic usou repetidamente imagens de noticiários aquando Nicolau, o político e Nicolau, nos globos de Ouro. Já a RTP3 raramente mostrou imagens recentes, foi buscar as mais antigas do seu acervo - a maioria a preto e branco. Mais tarde já recorreram a algumas imagens de filmes. A Tvi24 foi «mais longe», mas também usou e abusou de imagens do ator nas suas novelas. Em suma, ninguém estava preparado. Mas foram rápidos a recolher depoimentos - aí tiro-lhes o chapéu. 

Apesar do despreparo, aposto que, nos próximos dias, as estações vão mostrar e falar muito de Nicolau Breyner.

Não deixo aqui um RIP porque acho que ele conduziu a sua existência na paz... e a carregou consigo. A sua presença parece ter sido tão marcante que permanece forte nos que o conheceram, mesmo tendo partido. Não está lá, ainda está cá, mas não está... E como, segundo os testemunhos, era uma pessoa tão esclarecida, acho que ia querer aligeirar a situação e não a levar tanto a sério.... :)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os anjos que partem

ANJOS DE ALGUÉM

Esta entrada é para todos aqueles que por breves momentos vieram à terra e logo partiram. O meu pensamento vai para o pai e para a mãe que perde um filho, para os avós que deixam de o ser, para os educadores de infância que vêm uma criança partir, para os médicos que fazem de tudo para combater uma doença. Para todos aqueles que partem.


Vai para o pai que esqueceu o filho no banco e que foi tão punido pelo seu gesto. Vai para as mães que deixam os filhos no ATL e vão para o emprego, para depois receber «aquela» chamada que julgamos que nunca na vida iremos ouvir. Para quem luta contra um mal que acaba por vencer e levar desta vida uma alma que por cá ficou pouco tempo.


Porque não acontece somente aos outros, uma prece para eles. Aos anjos que partem. Já são três no espaço de uma semana que oiço falar e por isso, é para eles todos que escrevo e acendo uma vela.
Bem-haja.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O LUTO

AS VIÚVAS

Já não se vêm mais por aí: mulheres de idade vestidas de negro, de saias e lenço na cabeça, que povoavam as cidades como Lisboa. Morreram as viúvas.

Estas mulheres vestiam-se de negro após lhes falecer o marido e não trajavam outras vestes até elas mesmas verem a sua altura chegar.
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Simpatizava bastante com as mulheres de traje negro. A minha avó era uma viúva de marido vivo. Vestia-se de negro mesmo antes deste falecer, e assim permaneceu até o seu último suspiro. Eram talvez mulheres despojadas das vaidades que hoje vemos por aí. E se olhassem para o seus rostos, talvez reparassem o mesmo que eu: eram mulheres lindas.

Hoje já não se usa o luto. Não nas vestes. Mas sabem? Acho que se devia.

O luto é um sentimento de sofrimento que carregamos pela recente perca de um ente próximo. Antigamente usava-se, além do traje escuro, a fita negra no braço dos homens. Esta era removida pouco tempo depois mas, tradicionalmente, o luto devia permanecer nas vestes por um ano.

A primeira vez que me vesti toda de negro, desejo que acalentava à algum tempo, foi no meu 14º aniversário. Apenas há 15 anos atrás talvez, mas ainda assim todos me interrogaram: "Morreu alguém?" - "Não!" - respondi eu umas tantas vezes. "Apenas estou vestida de preto".

Surpreendeu-me nessa altura que uma pessoa não pudesse estar vestida de negro, que se assumia que era luto. Estavamos nos anos 90... uma professora espantada disse-me que era incomum por ser jovem. Aparentemente, jovens de 14 anos vestidos de preto só podiam estar vestidos assim em sinal de luto ou se calhar, por terem algum problema emocional profundo.

Penso que as mulheres de negro que povoavam as ruas de Lisboa e desapareceram há quase uma década, eram mulheres que carregavam as suas tradições. Mulheres criadas ou nascidas na província, vindas do norte, que davam mais valor ao sentimento que à vaidade. Antes delas, outras mulheres se vestiam de negro. Era assim e assim o faziam.

Hoje nada é assim. Nada relacionado com a morte é igual. Tudo mudou, mas não para melhor. Hoje tem-se mais receio, mais desconhecimento do que é morrer e o que é um cadáver. Quase que temos medo. Antigamente não. Mas este será um próximo tópico: a morte!

Porquê acho que o luto das roupas devia ser (também) usado e não esquecido? Porque ele é um símbolo, que revela a estranhos o momento pelo qual estamos a passar.
Porque avisa as pessoas que há que demonstrar um pouco de respeito pela dor.

Quantas vezes não estamos nós num dos momentos mais difíceis da nossa vida, vamos para as ruas, vemos todas aquelas pessoas a circular, a luz maravilhosa, o céu azul e pensamos: "Se soubessem! Como pode o dia estar tão lindo e eu a sofrer tanto"?

O luto é um pouco isso. É dizer sem falar que estamos a sofrer. É pedir respeito quando hoje este já não é dado. Porquê temos de estar a chorar para que estranhos se apercebam que sofremos? Porquê só o choro é capaz de alertar a solidariedade das almas alheias?

Isto partindo do pressuposto que ainda existem muitas almas solidárias. O que vi na minha geração a crescer foi miúdos cruéis, que gozavam com quem se mostrava vulnerável e ainda se punham a fazer intrigas. Solidariedade para com um estranho ou mesmo amigo? Onde anda?

Nos meus momentos de luto, não disse a ninguém pelo que passava. Sou introspectiva, tenho esse defeito. E assim, sofrendo em silêncio, algumas pessoas mais afastadas me achavam estranha nesses intantes. Desconhecendo a perca pela qual acabara de passar. Talvez devesse andar de luto, para dizer o que tinha de dizer, sem falar.