Acho que só algumas pessoas a viver no Reino Unido há bons anos vão entender. Talvez dependa das zonas mas onde estou não se vê este simples gesto de cortesia.
E quando se encontra esse hábito... É como ir ao cinema ver um bom filme.
Na verdade aqui não existem passagem de peões listradas. Avistar uma é uma raridade. Talvez vestígios de uma era alienígena, uma antiga civilização.
Devido a essa ausência os automobilistas perderam a noção que devem ceder passagem a pedestres que querem atravessar a estrada nas zonas designadas para tal. Eles simplesmente passam só parando se existirem semáforos que assim o determinem. O pior deste sistema é que os semáforos aqui no reino Unido, mais uma vez, não são como os que conhecemos em Portugal.
Além de não estarem posicionados onde o olhar pode avistar com rapidez, não dão tempo ao peão de atravessar. Ficam verdes três segundos e viram para vermelho. Pelo menos na zona onde vim parar. Em termos de geografia, "forçam" o pedestre a ter de estar mesmo na berma para poder avistar o semáforo que lhe diz respeito pois os tais "homenzinhos" vermelhos ou verdes ficam posicionados de lado, ao nível da cintura e só quando o peão chega à beira da passagem pode avistar se tem prioridade ou não. Isso impossibilita a conhecida "corridinha" quando este ainda está verde, para passar antes que fique vermelho. E os automobilistas, quase não têm sinal o sinal AMARELO ligado por mais que dois segundos. Tenho de prestar mais atenção a este detalhe quando em Portugal mas aqui é quase de IMEDIATO. O sinal está vermelho e logo fica verde para os veículos. Se um peão estiver nesse instante a meio do seu percurso eles não querem saber. Sentem-se "roubados", como se aquele microsegundo fosse estragar todos os seus planos e os fazerem chegar atrasados onde pretendem chegar.
Aqui no Reino Unido, na zona onde me encontro, considero que o pedestre é também AGREDIDO com as constantes passagens de veículos de duas rodas - agora com motor. É bicicleta, é mota de entregas de comidas, é scooters eletricas e até carrinhos de bebés.
Num passeio só. Que ainda por cima é ESTREITO, como quase todos no Reino Unido são. Estreitos e feitos de forma a nunca serem nivelados. Tendem a subir e a descer. Tudo o que tem roda e vem na direcção contrária à tua surge de repente e a velocidade. Sou eu, como pedestre, que tem de PARAR para que o veiculo com rodas se movimente.
Noutro dia num caminho estreito - que aqui chamam de atalho, tão estreito que mal cabem duas pessoas e um caminho de "serpentina", ia a caminhar quando avisto a SOMBRA projectada de uma pessoa em bicicleta. Tive sorte. Quando é que no UK existe SOL? Parei. O indivíduo vinha a pedalar a sua bicicleta num caminho proibido para tal na BOA. Abano a cabeça. Logo a seguir avisto outro. Mas este, todo equipado como um profissional - estava a empurrar a bicileta com a mão e a caminhar. Quase que lhe agradeci. Quase que o quis elogiar por fazer o que é correto.
Mas depois continuei com a minha vida, tirei esta fotografia e pensei em fazer queixa à câmara para ver se põem um FIM ao perigo que os ciclistas, com motorizada ou não, representam para o pedestre. Que andem nas estradas! Mas jamais, jamais, nos passeios.
Mas como isto é a realidade, enquanto tentava apanhar um bom momento deste inédito avistamento de um gesto comum de pura cortesia, heis que surgiu a norma. Alguém que não está acostumado a parar, não parou.
É que aqui não se avista sequer a intenção de o fazer. Pelo menos assim tem sido desde que cheguei a cidade onde moro. Quando me abrem uma excepção, sinto um entusiasmo, uma alegria por ser brindada com essa atitude, que fico agradavelmente surpresa, agradecendo ao condutor efusivamente.
Celebro a excepção com uma satisfação que só quem é pedestre e sempre o foi a vida inteira poderá chegar perto de entender.
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