quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Os anéis

 Os meus dois aneis de proteção - que não tirava do dedo, partiram-se. 
Ambos de prata, um deles grosso, oferecido no ano do meu nascimento por um sacerdote, e o outro, como por milagre, nem vou partilhar como subitamente estava no meu dedo. Mas também foi milagroso. 

Senti sempre que a história dos dois me protegia de mau olhados e pessoas a desejar que me dê mal. Imaginei-me a ser enterrada com eles. 
O grosso partiu primeiro. O outro, com uma pedra com significado protetor, partiu ontem, ao baixar o braço para ajeitar uma coisa no emprego, num gesto que já fiz mais de 5.000 vezes. 

E tudo está a correr o oposto do que devia. 
Sem dúvida, preciso de novos amuletos. 

Mas não sou eu que os escolho. 
Eles é que me escolhem a mim. 

Na próxima re-encarnação virei como um homem com gosto por torturar pessoas emocionalmente

 

E provavelmente serei um assassino que sente gratificação. 

Porque se é verdade que voltamos como o nosso oposto - nesta vida está a faltar-me muita agressividade e muita justiça. Por isso não terei nenhuma para demonstrar numa próxima e não me faltará agressividade. 

O que eu escolheria?
Não voltar a esta terra de todo. 

Deve de ser maravilhoso estar do lado de lá, na paz e tranquilidade por eternidades e começar a fluir a sensação de que se quer voltar a sentir. Porque encarnar é isso: sente-se tudo. Tem-se emoções. E estas são espizinhadas, ridicularizadas, ignoradas, massacradas. Quem quer passar por isso? Pois, muitos querem. Há até quem queira vir sabendo que vai ter um fim trágico. 

Mas eu não quero voltar para este plano não. Se tudo continuar tão assustador. Sofrer o que sofro sem ter feito NADA para ninguém é uma realidade que não tem explicação. A não ser pela minha primeira suspeita: arranjo. Bruxedo. Feitiço. Feito quando ainda era criança. A inveja que leva pessoas a recorrer a isso. E pela segunda: sou um iman para pessoas com uma energia negativa e obsessiva. 


Só estava aqui a pensar que sou tão forte. Até agora aguentei todos os bacos. Mas como se sobrevive a eles? Nunca se será a pessoa que mereciamos ter sido. Numa próxima encarnação não posso ser forte e boazinha. Tenho de ser covarde e criminoso. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 

Aste dos óculos segura com super cola, zipper das calças sem botão estragado, t-shirt rasgada e tênis rotos. 

Como desci tão baixo?

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Zeus e Maria Adelaide

 

O Canal Nos Studio é um dos canais de televisão que têm passado filmes portugueses. Adoro ver filmes nacionais e não entendo como nem sequer soube da existência da maioria deles. 

Gosto de perceber o que se anda a fazer, neste país que faz muito e bom, mas pouco divulga para as massas. Talvez para as elites, para grupos particulares - a arte esteja a ser mais direcionada. Não sei. 

Um dos filmes que acabei de ver foi ZEUS (2016), com duas horas de duração, passou neste canal no dia 22 de Setembro. Sem legendas. 



Porquê precisa de legendas? - devem interrogar-se. Notoriamente conhecidos pelo péssimo audio que tem caracterizado os filmes nacionais pós era a preto e branco de Vasco Santana, decerto alguns pensam que é por mal se entender o que as personagens dizem. Pois... nem tanto. O filme é 50% narrado em Francês. Tem também partes em Árabe e uma música em Alemão. 

Fiquei com a sensação que o filme é dirigido a elites muito específicas, que sabem francês perfeitamente e arranham o árabe. Ao passar na televisão nacional, não existe o esforço de o legendar - isso como que reforça O POUCO CASO dado ao cinema nacional.


O TEMA DO FILME:

Conta a história de Manuel Teixeira Gomes, que foi o 7º presidente da República e também escritor de literatura erótica. Após 26 meses no cargo - dois anos e dois meses - quando o fascismo estava em ascensão, decide renunciar o cargo de Presidente e exilar-se no Norte de África, na Argélia, corria o ano de 1926. 





Achei o filme bem feito no seu todo. A dicção estava boa, a cenografia excelente. As roupas de época, e as atuações? SOBERBAS. 



Só faltou mesmo as legendas para se perceber os "saltos" temporais dados na narrativa. E sim, deu para exercitar meus ouvidos e minha percepção geral. Tive de me esforçar para entender o sentido do francês e até do árabe :)


Vi o filme até o final e para minha surpresa, descobri que li, em Junho deste ano, uma obra escrita por esta figura. O nome do romance é "MARIA ADELAIDE", que encontrei em destaque na biblioteca, entre outras obras que foram proibidas pela censura do Estado nos anos de 1930. Curiosa, peguei para ler. 


Concluí que a ousadia e a descrição de desejos humanos de forma tão crua seria, até hoje, um pouco púdico para as mentes mais recatadas. Imagino então a repulsa que não terá causado à maioria da população alfabetizada e erudita dessa década. Principalmente nas classes de poder. 


O romance conta a história de uma menina muito pobre que se relaciona sexualmente com um jovem rapaz de famílias ricas. Enfia-se dentro do quarto dele de noite e têm relações. Ela, fica maravilhada com a opulência e beleza de um quarto de rico. Gaba-lhe os móveis, os têxteis e sonha um dia vir a ter uma casa com essas coisas bonitas. Imagina que vai acabar por casar com o rapaz rico, que ele acabará por a pedir em casamento e ela vai poder se transformar numa fada do lar. Uma mulher respeitável.

Toda a família da jovem, a mãe, as irmãs, o pai - a maltratam porque ela os envergonha. É uma vadia, que se deita com um homem. Nenhuma outra jovem na aldeia quer se dar com ela. Só lhe restará um caminho, se a promessa de casamento for de fato uma ilusão, palavras ocas para conseguir usufruir do corpo dela. 

Mas os dois acabam sim por casar, ela tem a casa que sempre quis, a família dela vai viver junto, todos fecham os olhos à forma como tal foi obtido e a Maria Adelaide sente que agora é uma mulher respeitada, até quem não lhe falava e virava a cara já lhe quer falar. 

O jovem não conseguiu resistir aos seus encantos. Lhe encantava a sua natureza, o à vontade com que se entregava aos prazeres do corpo, tudo. Mas como sempre, um dia põe-se a imaginar o que faria se não fosse casado. Começa a desejar outras mulheres. E Maria Adelaide sente-o. Como o ama, implora-lhe para nunca a abandonar e pergunta se a ama e vai ficar com ela para sempre. O jovem diz que sim, mas o seu pensamento vagueia para a variedade feminina que ele agora vê como um bufet de possibilidades infinitas. Ficar preso a um só corpo não lhe agradava. 

Maria Adelaide adoece subitamente. Mais de doença emocional que outra coisa. Pois ama aquela pessoa e quem ama sente. Acaba por falecer. Talvez até para facilitar a vida ao marido, que ela percebe que a quer abandonar e que não a ama mais. É o seu derradeiro gesto de amor por ele. E o jovem grita, dentro de si: "Estou Livre! Livre!" Sorri e continua com a sua vida, como se Maria Adelaide nada fosse. A vida dela terminou, não chegou aos 30 anos. A dele ainda ia ter muitos anos pela frente. 


Esta é a história. Mas pelo meio tem umas descrições explícitas de momentos de intimidade que era capaz de aquecer os calções de alguns e escandalizar a mente de outros :) 

sábado, 19 de setembro de 2026

Ir a uma ópera

 

Nunca cheguei a experienciar muita coisa que tive vontade durante a vida. 

Uma delas era frequentar com regularidade teatros, assistir a pe'as, concertos.

Nunca fui ver um concerto num teatro. Daqueles que se vem no cinema: as pessoas vestidas a rigor, sentadas numa plateia a assistir a uma orquestra tocar. Nós filmes existe sempre alguém que está sempre a sussurrar ou a tossir, incomodando aquela pessoa que tem a expectativa de ficar em total silêncio, somente interrompido pelos instrumentos.

Mas uma vez já uns anos, aproveitando aquelas festas de verão organizadas em parques pelas cidades, anunciaram um concerto. Entrada gratuita, ao ar livre, perto de casa.

Fui ver, com entusiasmo. 

Quando a orquestra começa a tocar minha alma se enche de uma sensação que não sei explicar. Ali estava eu a ouvir cada som e a me envolver com estes, quando uma adolescente atrás de mim decide passar toda a atuação a conversar com a mãe e a dar risadas. 

Nossa. Sentir-me tal e qual como numa cena de filme. Só que eu era a "vilã", a pessoa que faz má cara e olha na direção do distúrbio, como a sinalizar que é incómodo e devia parar.

Mas elas não pararam. Estragaram a minha absorção da melodia.  Na parte em que ansiava por determinado trecho elas se puseram a rir. Quase me apeteceu mandá-lad calarem-se. Estavam crianças ali tão bem comportadas, quietas, em silêncio e duas adultas a tagarelar.

Felizmente não era uma sala de teatro, com lugares cativos.

Acabei por me levantar e fui me posicionar noutro lugar, entre o mar de pessoas. Acabei por escutar o resto sem o background da tagarelice.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Gossip: mexericos

 

Nunca fui pessoa de fazer mexericos. Ou de saber de algum. 

Quando alguém me vinha contar algo acho que não reagia como a maioria: não demonstrava entusiasmo excessivo, não alimentava.

As pessoas devem ter percebido a minha falta de talento para a coisa e deixaram de me incluir na rede "social" que é o mexericos, que defino como o "antes de Cristo" das redes sociais atuais.

E sabem que mais?

Se não estou incluída, então devo fazer parte do mexerico.

Isso foi algo que descobri recentemente. Até então nunca me tinha passado pela cabeça 🗣️. 

Porém ontem... Ontem foi diferente. Fiz parte de uma conversa de mexericos. A colega que estava comigo a escutar disse que era "fun" (divertido?) saber de mexericos.

E pela primeira vez entendi o que isso significa.

Isto fez-me refletir na quantidade de interacções sociais perdidas que tive. Onde só devo ter sido alvo de mexerico, nunca parte da rede transmissora dele.

E quantas vezes APONTADA como autora de um, sem saber? E ter sido ostracisada por isso?

Olhando para trás, desde a escola primária até a idade adulta, hoje detecto muitos episódios que posso ler dessa maneira.


terça-feira, 11 de agosto de 2026

 

Adorei estes reclames publcitários. São uma verdadeira obra de arte. Têm uma história e espelham a sociedade actual - suas ideias pre concebidas, seus costumes, sua forma de se relacionar, cenas que não certas pessoas não gostam de admitir. E claro, o exagero mentiroso do... 


Pequeno almoço de novela!








quarta-feira, 15 de julho de 2026

Marioneta

 

Há pessoas que julgam que têm um amigo. 
Mas o que têm é alguém que precisa de marionetas. 

Podem viver a vida toda a jurar ter uma longa e sólida relação que definem como amizade sem ter percepção dessa diferenciação. O manipulador da marioneta também não se vê como um narcisista que só se satisfaz quando está no controlo dos comandos. 

Nem o manipulador nem o manipulado entendem que a relação é bastante uniteral. 

Se esse paradigma mudar, a "amizade" pode muito bem ter sido uma miragem, nunca ter existido. 

O que pensam disto?
Já passaram por esta situação??