domingo, 8 de novembro de 2026

O medo daqueles que acumularam posses

 

Quando há vários anos comecei a interessar-me por genealogia, quis falar com umas "primas" da minha avó. Minha avó não tinha família. Os pais tinham falecido e ela nunca teve irmãos. Não conheceu o pai, que faleceu antes dela nascer. Não recebeu muita instrução e trabalhava para se sustentar. Então a sua história, os seus laços familiares sempre foram um tanto pouco conhecidos. 

Existia uma "prima" com filhas - que viviam na mesma cidade. As chamadas "primas ricas". Minha mãe não tinha boas memórias dela ou da casa onde esta vivia, porque nunca se esqueceu que, em criança, a faziam entrar pela porta das traseiras, para que não fosse vista a entrar pela porta da frente. Esse elitismo ela nunca esqueceu ou perdoou. Os tratos que ela diz terem sido diferenciados, porque ela e a sua mãe, minha avó, a pesar de serem família daquela prima, eram pobres. 

(Na minha noção de riqueza e pobreza - nunca considerei a minha avó ou a família que dela se gerou pobre). 

A "riqueza" desta prima surgiu de um casamento com um militar. Tirando isso, penso que as raízes e os familiares em comum eram todos iguais. Viviam numa casa numa area que um dia foi considerada para ricos em Lisboa. Nem lembro onde, sinceramente. De difícil acesso por transportes públicos, hoje em dia. O que eu consideraria periferia de Lisboa por nunca lá ter passado antes na minha vida.

Já não me lembro COMO o fiz. Sei que encontrei um número de telefone depois de visitar a campa dessa prima no cemitério do Lumiar. Tirei fotografia inclusive, da sua campa. (Hoje desaparecida, porque o digital tem esse problema). 

E como queria muito saber pormenores sobre os antepassados, liguei para o número, apresentei-me, disse o que estava a fazer e perguntei se eram essa família. Confirmou-se. E acabei por fazer uma visita para falarmos melhor e conhecer as pessoas. 

Agora percebo que a curiosidade deles era imensa. Talvez até receosa. Conheci a família quase inteira: os que viviam naquela mesma casa mais o marido e filha que viviam noutra. Só faltou conhecer um rapaz. Na casa, a mesma onde minha mãe só podia entrar pela porta das traseiras - algo que caiu em desuso hoje em dia - na maioria dos casos, vivia uma irmã dessa prima cuja campa visitei. A casa não era dela, mas das filhas da irmã dela, três. Ela era viúva e nunca teve filhos. Só sobravam, daquele ramo, as três filhas, penso que a primeira, a mais velha, era adotada, filha do marido com outra mulher. Sei que existia ali qualquer coisa diferente. Essa era a familiar que deixou descendência: uma filha e um filho. Suas irmãs não tinham gerado descendência. 

Quando disse que minha avó tinha tido sete filhos e todos estes tinham dado netos, todos viviam bem em suas próprias casas - acho que existiu um vislumbre do que vulgarmente denominados de "inveja". Mas já estou a especular. 

Fui bem recebida, fizeram-me muitas perguntas mas eu fui lá para ouvir. Hoje sei que não fiz as perguntas certas para a minha história de genealogia. Queria ter perguntado a todos, principalmente aos meus avós, MAIS sobre as suas vidas. Perguntas que não me ocorreram mas que hoje, à distância, pareciam vitais. 

O apartamento era o que eu considero uma casa normal. Noutros tempos talvez casa para rico, localizada numa zona então exclusiva. Mas os tempos mudam. Os comportamentos mudam. E fui com o prazer que me caracteriza então conhecer estas pessoas. Como disse, fui bem recebida. Fizeram-me muitas perguntas. A pessoa que mais gostei, de uma certa maneira, foi a irmã dessa prima. Uma senhora a chegar perto dos 90 anos, mas que tinha um trato de bondade que é raro de existir hoje em dia. Senti solidão nela. Pesar. Disse-me que vivia naquela casa de "favor" mas com gosto, porque era sozinha e se não vivesse ali com as sobrinhas, ia se sentir mais sozinha. 

Os pormenores de bens, riquezas, isso não soube nem pretendia saber. À distância percebi que vieram todos me conhecer para me avaliar. Não fosse eu ter interesses escusos. Mas não. Só me interessava que me falassem mais dos familiares, da minha bisavó, que andou por aquela casa por um tempo com a minha avó, pois naquela altura era comum chamar os familiares mais desfavorecidos para que trabalhassem como domésticos em troca de cama e comida. Mas minha bisa tinha uma profissão e um emprego fixo num local de renome. Vivia num quarto alugado, onde faleceu. Não dependia, pelo menos nas últimas décadas da sua vida, da caridade de ninguém. Mas ia visitar a irmã naquela casa e, talvez, ali tenha vivido uns tempos. 

Quis muito saber como ela era. Foi essa a minha pergunta. Quem a conheceu foi essa senhora de quase 90 anos. Uns diziam que ela era de difícil temperamento, outros diziam que ela era muito boa pessoa. Até hoje não sei. A primeira coisa que a senhora fez foi apontar para um jarro muito bonito, com motivos religiosos, em cima de uma prateleira e dizer-me: "Esta jarra foi a tua bisavó que ofereceu à irmã". Olhei para o vaso como se subitamente pudesse contatar a minha bisavó. Queria tocar-lhe. Queria, inclusive, que mo oferecessem, para que pudesse, um dia, contactar um sensitivo - aquelas pessoas que tocam em objectos e sabem dizer tanta coisa sobre a pessoa que o possuiu. 

Mas claro, guardei para mim esta vontade. Um objeto que minha bisavó tocou! Não existe nada dela. Somente uma fotografia que eu encontrei numa célula de casamento. O único documento que sobreviveu e que minha avó analfabeta calhou guardar todos aqueles anos. 

Este lado da familia sabia pouco sobre a minha bisavó. Só a conheceu viúva, com a filha. Disseram-me que ela não falava quase nada do passado. Não sabiam quem tinha sido o marido. Aliás, disseram-me muito claramente que sempre suspeitaram que ela se "desgraçou". Que nunca tinha sido casada. E daí viver em "vergonha" e a família a tratar um pouco "à parte". 

Mas... eu já tinha feito as minhas investigações genealógicas e estava tranquila quanto a essa parte. Aliás, sem saberem, muito provavelmente, o que todas estavam a descrever era, na realidade, a história da mãe delas. 

Mas nunca lhes revelei isto. É que a mãe delas, também era muito reservada a respeito do seu passado. Não gostava de falar disso e quando interrogada porquê detestava um certo mês do ano, nunca explicou bem. Isso me deixou curiosa. Tirei as minhas próprias conclusões. É que eu já tinha a certidão de casamento dos pais dela. E quando soube da data de nascimento do primeiro filho do casal - a mãe destas "primas" - a tal do túmulo que visitei - para meu espanto em toda a genealogia que havia feito até o momento, ela nasceu apenas quatro semanas DEPOIS do casamento dos pais. 

Portanto, ela quase foi ilegítima. E certamente, existiu "marosca" sim, algo estranho nessa história. Um casamento apressado que quase não existiu a tempo de antecipar o parto. Não era a minha bisavó que carregava esse segredo. Era a mãe delas. 

Existiam documentos legais a testemunhar que minha bisavó não tinha gerado uma filha fora do casamento. Nem tão pouco esta nasceu semanas depois do fato. Minha avó nasceu cerca de um ano após o casamento e, como se sabe, nenhuma gravidez humana demora 12 meses. 

O que sabia a respeito da "escandalosa" origem da mãe delas, guardei para mim. Penso que se eles próprios investigassem iam detetar essa discrepância. 

Gostei de os conhecer e mantive o contato. Mais por telefone do que presencial. Mas ainda fiz mais duas visitas. Muito a pedido da senhora de quase 90 anos, que queria muito que a fosse visitar mais vezes. Senti que era tão genuíno o seu pedido e disse-lhe que o faria, quando desse, porque na altura, eu trabalhava muito, quase sem folgas, numa empresa de publicações. 

Mantive o contato à distância. No espaço de pouco mais de um ano, soube que as duas irmãs mais velhas que eu conheci haviam falecido. O que me deixou triste, principalmente porque era a mais nova que preocupava todos, visto ser sobrevivente de uma doença oncológica. Contudo essa estava viva - e ainda hoje deve de estar. E as filhas "saudáveis" que não estiveram quase à beira da morte - já estavam sete palmos abaixo do chão. A ironia da vida não deixa de surpreender. 

A ultima visita que fiz, não sei explicar, senti que era a última vez que ia entrar naquela casa. Nunca mais iria lá. A senhora telefonou-me para pedir que eu a visitasse. Dizia-me sempre que se sentia sozinha e que gostava muito de mim. Eu respondi que queria mas que estava muito ocupada mas que ia tentar. Perto do Natal, tentei lá ir. Mas estava tão exausta que aproveitei aquela folga para descansar. No fundo do meu ser, relembrei a sensação da última vez que entrei na casa: aquela era a última vez e não ia voltar. 

A minha avó faleceu e eu liguei-lhes para o comunicar. Perguntei como a senhora estava. Tinha bons dias e maus dias. Com a idade que tinha, era natural. Se ela viesse a falecer, queria acreditar que ia existir reciprocidade. Não iam esquecer de mo comunicar. 

O tempo passou. Alguns meses. Eu estranhei não ouvir mais nada. Um dia encontrei nas redes sociais a filha sobrevivente, com a qual trocava ocasionais mensagens, disse que me lembrava muitas vezes deles, perguntei por todos, mas principalmente para a senhora. A resposta foi o que eu temi. Nem queria acreditar: 

- "A "X" faleceu o ano passado, perto do Natal". 

Dei os meus pêsames. Mas senti-me excluída. Como podem não o ter dito na hora?

Depois lembrei-me do elitismo. Do receio que um parente afastado pudesse querer meter o "bedelho" nas partilhas. Mas aquela família estava quase dissipada, todos falecidos, apenas uma jovem e um rapaz, filhos da filha adoptada. 

Como era a casa? Era rica? Bom, eu percebi que tinham, como é de se esperar, gosto por aquelas posses que haviam pertencido aos pais. Algumas pinturas bem emolduradas, um ou outro móvel em mogno de significantes proporções, uma salinha onde armazenavam o espólio desses bens que foram de outras pessoas que já faleceram e que não tinham espaço onde colocar e ali ficavam pelo seu valor, coisas bonitas. Talvez com algum valor, talvez não. Mas eu, pessoalmente, não vi nada de especial, nem me interessei por esse lado. Contudo, quando não me comunicaram o óbito da senhora, senti um pesar e senti-me desapontada. Mal por não a ter ido visitar, sabendo que ela esperava essa visita. Foi-me dito que no final, acamada, ele por vezes nem se lembrava de quem era. Mas eu senti um pesar enorme. Enorme mesmo. Por não ter ido visitar aquela senhora. Ainda que não tivesse prometido ir. Apenas dito que iria se tivesse tempo e explicado que trabalhava muito. Até hoje, sinto-me mal por isso. Porque se calhar aquele pedido era mais uma súplica. E a voz doce dela, quando lhe liguei, a pedir para a ir ver... "vens?" - até me faz chorar de lembrar. 

Fui a uma igreja, acendi uma vela e pedi pela paz da sua alma e desculpas se por acaso a fiz sofrer por não ter aparecido e a ter feito esperar. 

Até hoje, este pesar não me larga. 

Já se passaram vários anos. A minha vida mudou, eu mudei, mas não esqueci. E ainda acho lamentável não me terem comunicado, fosse por mensagem ou por telefone, que ela havia falecido. Se eu não tivesse escrito aquela mensagem, NUNCA iria saber. Nunca.  

Porque será que as pessoas são assim?

É porque, finalmente, chegou a altura das "partilhas" e andam todos com receio que surja alguém de fora a querer o seu quinhão?  

Lembrei-me desta história porque ando a ver no youtube vídeos sobre TESTAMENTOS contestados. Aparecem pessoas de todos os cantos do mundo a dizer que têm direitos - quando existe uma ínfima oportunidade de ganhar algum. Acho lamentável, tanta ganância desmedida. 


Quando morrer-mos não levamos nada. Fica tudo como naquela salinha da casa das "primas ricas". Acumulado a criar pó. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Oferendas para alguns

 

Preparava-me para dizer: "Ah! Obrigada. Ainda não comi nada hoje" mas eis que as uvas 🍇 que vêm a ser oferecidas faz duas semanas por todo o armazém mais uma vez, não chegam a mim.

Vi-as a ser oferecidas a uma rapariga indiana. O gerente que as distribuí também é indiano. A sua área de trabalho é afastada da rapariga. Mas ele se deslocou até ao sítio dela e ofereceu-lhe as uvas. Desaparecendo novamente. 

Está certo, o divali é domingo. E esta é uma época equivalente ao natal para os indianos. 

Mas não é a primeira vez que constatei, neste 8 anos de convívio, que parece existir uma diferenciação. Não se trata de partilhar algo com todos os colegas. Mas de partilhar com os da própria origem.

No natal passado andei com biscoitos, chocolates, etc, para distribuir por quem me aparecesse a frente. Fiz questão de dar inclusive aos que fazem a limpeza dos WC. Pois sem eles o armazém era um caus. 

Comprei canetas natalícias e distribui por muitos. A uma dúzia e meia de colegas, personalizei canetas e distribuí. Penso que poucos ou nenhuns se lembram disto. Também se não estivesse aqui agora a escrever também eu não me lembrava. Nunca ofereci o que fosse para ficar bem na fotografia, para tirar proveito, para agradar alguém. Ofereci por gosto. Tudo. Daí nem me lembrar direito das coisas que ofereço. São oferendas.

No natal, um colega indiano ao me ver passar com uma caixa de chocolates e biscoitos, quis tirar ambos. Deixei. Esteve o tempo todo a mencionar os doces quando me via de longe a chegar perto. E toda a vez que passava por ele, ele tirava mais. 

Dias mais tarde, era ele que andava com uma caixa de chocolates igualzinha a minha e estava a distribuir pelos colegas a seu redor. Eu aproximei-me e ele se afastou de mim indo oferecer os chocolates a um outro colega. Todos indianos.

Existe sim, diferenciação.

E o que é pior: sinto-me arrasada quando o percebo, mas mesmo muito, na época do ano em que nem devia saber da sua existência: O Natal. 


ADENDA:

Dois dias depois umas colegas, durante uma reunião de grupo, distribuíram uns snacks por todos na sala. Em homenagem as suas festividades. Desejei-lhes um feliz Divali e agradeci os snacks. Portanto, já tive um exemplo de generosidade para compensar o resto. A questão é que, certamente, se não fizesse parte do grupo que se reune numa sala uma vez por semana antes de começar o turno, tão perto da festividade, creio que não me chegaria às mãos esse gesto de oferenda. 

Prefiro crer que existem sempre excepções para cada situação. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Os anéis

 Os meus dois aneis de proteção - que não tirava do dedo, partiram-se. 
Ambos de prata, um deles grosso, oferecido no ano do meu nascimento por um sacerdote, e o outro, como por milagre, nem vou partilhar como subitamente estava no meu dedo. Mas também foi milagroso. 

Senti sempre que a história dos dois me protegia de mau olhados e pessoas a desejar que me dê mal. Imaginei-me a ser enterrada com eles. 
O grosso partiu primeiro. O outro, com uma pedra com significado protetor, partiu ontem, ao baixar o braço para ajeitar uma coisa no emprego, num gesto que já fiz mais de 5.000 vezes. 

E tudo está a correr o oposto do que devia. 
Sem dúvida, preciso de novos amuletos. 

Mas não sou eu que os escolho. 
Eles é que me escolhem a mim. 

Na próxima re-encarnação virei como um homem com gosto por torturar pessoas emocionalmente

 

E provavelmente serei um assassino que sente gratificação. 

Porque se é verdade que voltamos como o nosso oposto - nesta vida está a faltar-me muita agressividade e muita justiça. Por isso não terei nenhuma para demonstrar numa próxima e não me faltará agressividade. 

O que eu escolheria?
Não voltar a esta terra de todo. 

Deve de ser maravilhoso estar do lado de lá, na paz e tranquilidade por eternidades e começar a fluir a sensação de que se quer voltar a sentir. Porque encarnar é isso: sente-se tudo. Tem-se emoções. E estas são espizinhadas, ridicularizadas, ignoradas, massacradas. Quem quer passar por isso? Pois, muitos querem. Há até quem queira vir sabendo que vai ter um fim trágico. 

Mas eu não quero voltar para este plano não. Se tudo continuar tão assustador. Sofrer o que sofro sem ter feito NADA para ninguém é uma realidade que não tem explicação. A não ser pela minha primeira suspeita: arranjo. Bruxedo. Feitiço. Feito quando ainda era criança. A inveja que leva pessoas a recorrer a isso. E pela segunda: sou um iman para pessoas com uma energia negativa e obsessiva. 


Só estava aqui a pensar que sou tão forte. Até agora aguentei todos os bacos. Mas como se sobrevive a eles? Nunca se será a pessoa que mereciamos ter sido. Numa próxima encarnação não posso ser forte e boazinha. Tenho de ser covarde e criminoso. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

 

Aste dos óculos segura com super cola, zipper das calças sem botão estragado, t-shirt rasgada e tênis rotos. 

Como desci tão baixo?

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Zeus e Maria Adelaide

 

O Canal Nos Studio é um dos canais de televisão que têm passado filmes portugueses. Adoro ver filmes nacionais e não entendo como nem sequer soube da existência da maioria deles. 

Gosto de perceber o que se anda a fazer, neste país que faz muito e bom, mas pouco divulga para as massas. Talvez para as elites, para grupos particulares - a arte esteja a ser mais direcionada. Não sei. 

Um dos filmes que acabei de ver foi ZEUS (2016), com duas horas de duração, passou neste canal no dia 22 de Setembro. Sem legendas. 



Porquê precisa de legendas? - devem interrogar-se. Notoriamente conhecidos pelo péssimo audio que tem caracterizado os filmes nacionais pós era a preto e branco de Vasco Santana, decerto alguns pensam que é por mal se entender o que as personagens dizem. Pois... nem tanto. O filme é 50% narrado em Francês. Tem também partes em Árabe e uma música em Alemão. 

Fiquei com a sensação que o filme é dirigido a elites muito específicas, que sabem francês perfeitamente e arranham o árabe. Ao passar na televisão nacional, não existe o esforço de o legendar - isso como que reforça O POUCO CASO dado ao cinema nacional.


O TEMA DO FILME:

Conta a história de Manuel Teixeira Gomes, que foi o 7º presidente da República e também escritor de literatura erótica. Após 26 meses no cargo - dois anos e dois meses - quando o fascismo estava em ascensão, decide renunciar o cargo de Presidente e exilar-se no Norte de África, na Argélia, corria o ano de 1926. 





Achei o filme bem feito no seu todo. A dicção estava boa, a cenografia excelente. As roupas de época, e as atuações? SOBERBAS. 



Só faltou mesmo as legendas para se perceber os "saltos" temporais dados na narrativa. E sim, deu para exercitar meus ouvidos e minha percepção geral. Tive de me esforçar para entender o sentido do francês e até do árabe :)


Vi o filme até o final e para minha surpresa, descobri que li, em Junho deste ano, uma obra escrita por esta figura. O nome do romance é "MARIA ADELAIDE", que encontrei em destaque na biblioteca, entre outras obras que foram proibidas pela censura do Estado nos anos de 1930. Curiosa, peguei para ler. 


Concluí que a ousadia e a descrição de desejos humanos de forma tão crua seria, até hoje, um pouco púdico para as mentes mais recatadas. Imagino então a repulsa que não terá causado à maioria da população alfabetizada e erudita dessa década. Principalmente nas classes de poder. 


O romance conta a história de uma menina muito pobre que se relaciona sexualmente com um jovem rapaz de famílias ricas. Enfia-se dentro do quarto dele de noite e têm relações. Ela, fica maravilhada com a opulência e beleza de um quarto de rico. Gaba-lhe os móveis, os têxteis e sonha um dia vir a ter uma casa com essas coisas bonitas. Imagina que vai acabar por casar com o rapaz rico, que ele acabará por a pedir em casamento e ela vai poder se transformar numa fada do lar. Uma mulher respeitável.

Toda a família da jovem, a mãe, as irmãs, o pai - a maltratam porque ela os envergonha. É uma vadia, que se deita com um homem. Nenhuma outra jovem na aldeia quer se dar com ela. Só lhe restará um caminho, se a promessa de casamento for de fato uma ilusão, palavras ocas para conseguir usufruir do corpo dela. 

Mas os dois acabam sim por casar, ela tem a casa que sempre quis, a família dela vai viver junto, todos fecham os olhos à forma como tal foi obtido e a Maria Adelaide sente que agora é uma mulher respeitada, até quem não lhe falava e virava a cara já lhe quer falar. 

O jovem não conseguiu resistir aos seus encantos. Lhe encantava a sua natureza, o à vontade com que se entregava aos prazeres do corpo, tudo. Mas como sempre, um dia põe-se a imaginar o que faria se não fosse casado. Começa a desejar outras mulheres. E Maria Adelaide sente-o. Como o ama, implora-lhe para nunca a abandonar e pergunta se a ama e vai ficar com ela para sempre. O jovem diz que sim, mas o seu pensamento vagueia para a variedade feminina que ele agora vê como um bufet de possibilidades infinitas. Ficar preso a um só corpo não lhe agradava. 

Maria Adelaide adoece subitamente. Mais de doença emocional que outra coisa. Pois ama aquela pessoa e quem ama sente. Acaba por falecer. Talvez até para facilitar a vida ao marido, que ela percebe que a quer abandonar e que não a ama mais. É o seu derradeiro gesto de amor por ele. E o jovem grita, dentro de si: "Estou Livre! Livre!" Sorri e continua com a sua vida, como se Maria Adelaide nada fosse. A vida dela terminou, não chegou aos 30 anos. A dele ainda ia ter muitos anos pela frente. 


Esta é a história. Mas pelo meio tem umas descrições explícitas de momentos de intimidade que era capaz de aquecer os calções de alguns e escandalizar a mente de outros :) 

sábado, 19 de setembro de 2026

Ir a uma ópera

 

Nunca cheguei a experienciar muita coisa que tive vontade durante a vida. 

Uma delas era frequentar com regularidade teatros, assistir a pe'as, concertos.

Nunca fui ver um concerto num teatro. Daqueles que se vem no cinema: as pessoas vestidas a rigor, sentadas numa plateia a assistir a uma orquestra tocar. Nós filmes existe sempre alguém que está sempre a sussurrar ou a tossir, incomodando aquela pessoa que tem a expectativa de ficar em total silêncio, somente interrompido pelos instrumentos.

Mas uma vez já uns anos, aproveitando aquelas festas de verão organizadas em parques pelas cidades, anunciaram um concerto. Entrada gratuita, ao ar livre, perto de casa.

Fui ver, com entusiasmo. 

Quando a orquestra começa a tocar minha alma se enche de uma sensação que não sei explicar. Ali estava eu a ouvir cada som e a me envolver com estes, quando uma adolescente atrás de mim decide passar toda a atuação a conversar com a mãe e a dar risadas. 

Nossa. Sentir-me tal e qual como numa cena de filme. Só que eu era a "vilã", a pessoa que faz má cara e olha na direção do distúrbio, como a sinalizar que é incómodo e devia parar.

Mas elas não pararam. Estragaram a minha absorção da melodia.  Na parte em que ansiava por determinado trecho elas se puseram a rir. Quase me apeteceu mandá-lad calarem-se. Estavam crianças ali tão bem comportadas, quietas, em silêncio e duas adultas a tagarelar.

Felizmente não era uma sala de teatro, com lugares cativos.

Acabei por me levantar e fui me posicionar noutro lugar, entre o mar de pessoas. Acabei por escutar o resto sem o background da tagarelice.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Gossip: mexericos

 

Nunca fui pessoa de fazer mexericos. Ou de saber de algum. 

Quando alguém me vinha contar algo acho que não reagia como a maioria: não demonstrava entusiasmo excessivo, não alimentava.

As pessoas devem ter percebido a minha falta de talento para a coisa e deixaram de me incluir na rede "social" que é o mexericos, que defino como o "antes de Cristo" das redes sociais atuais.

E sabem que mais?

Se não estou incluída, então devo fazer parte do mexerico.

Isso foi algo que descobri recentemente. Até então nunca me tinha passado pela cabeça 🗣️. 

Porém ontem... Ontem foi diferente. Fiz parte de uma conversa de mexericos. A colega que estava comigo a escutar disse que era "fun" (divertido?) saber de mexericos.

E pela primeira vez entendi o que isso significa.

Isto fez-me refletir na quantidade de interacções sociais perdidas que tive. Onde só devo ter sido alvo de mexerico, nunca parte da rede transmissora dele.

E quantas vezes APONTADA como autora de um, sem saber? E ter sido ostracisada por isso?

Olhando para trás, desde a escola primária até a idade adulta, hoje detecto muitos episódios que posso ler dessa maneira.