Oficialmente os meus avós, de parte de pai e de mãe, não sabiam ler nem escrever.
Mas não eram burros. Pelo contrário. Eles trabalharam sempre, desde crianças e sabiam se "desenrascar". Sem instrução oficial por terem de trabalhar ainda em tenra idade escolar mas autodidatas. Minha avó materna sabia fazer contas e se eu insistisse muito com ela, também juntava as letras e pronunciava algumas palavras. Meu avô sabia ler, estava sempre a ler o jornal ou a ouvir o seu rádio. E aos 50 anos, foi completar o ensino, terminar a quarta classe - para conseguir um emprego qualquer que isso o exigia.
Por esta altura já tinha casa própria e tinha criado cinco filhos. Os outros avós criaram 10, mas tiveram uma vida diferente, com casa alugada - o que so vim a descobrir após o falecimento, pois foi quando o senhorio desejou vender a casa. Estes meus avós tinham negócios e deviam ter algum dinheiro - mas desconheço esse lado da história e nem me interessa. Os outros não tinham dinheiro algum e isso ficou bem evidente quando ambos faleceram.
NASCIDOS NOS ANOS 1920/30:
O que mais admiro nesta geração é a CONSISTÊNCIA de valores. Tão bem definido que estava o certo do errado, a educação dos filhos, a palavra e a honra de um homem/mulher.
Foi uma geração que nasceu na pobreza mas que trabalhou e conseguiu obter uma casa e criar muitos filhos. A geração de hoje também consegue o mesmo - menos criar aquele número de filhos que seus avós tinham a seu encargo.
A decoração das casas eram de algum modo similares. Na de meus avós maternos, que era a casa que frequentava regularmente, existiam alguns quadros pelas paredes. Não sei de onde vieram. Mas creio que a escolha de quadros nas paredes se baseava, talvez, no acaso.
Como alguém que não tinha muito e não cresceu com "decorações" mas apenas com utilidades, presumo que meus avós maternos foram decorando as paredes da casa com coisas que lhes eram oferecidas.
No corredor existiam umas molduras prateadas com imagens de raças de cavalos. Talvez a patroa da minha avó lhe tivesse perguntado se queria aquilo porque ia deitar fora. O pobre sempre dizia que sim ao patrão. Nunca lhe dizia não.
Não via o gesto como uma esmola, mas como um agrado e para agradar também, era grato. Alguns brinquedos que tive vieram em segunda mão dos patrões da minha avó, que eram ambos médicos e tinham filhas banhadas com brinquedos que iam crescendo e abandonando. Mas o que mais gostava eram os livros. Não foi muita coisa, mas foi alguma. E a felicidade da minha avó por me dar algo sempre foi o que mais gostava de ver. Ela ficava tão contente, mas tão contente pelo mimo que eu, tal como ela, não importa o que fosse que ela me desse, era-lhe grata e apreciava fosse o que fosse. Apreciava o gesto.
Se era novo, usado, riscado, velho - não me importava.
Era dado com carinho e felicidade. E eu, mesmo criança, sabia ser grata.
Até hoje acredito, talvez por isso, que as coisas têm de continuar a ter vida útil para outros. Não são para deitar fora. Um conceito que tenho a certeza era muito enraizado naqueles que cresceram na pobreza e tinham de se remediar com o pouco que conseguiam. Minha mãe falava-me que usava sapatos feito com pneus de borracha e lapa de assento de autocarro. Que meu avô, seu pai, a levava a um sapateiro para ele lhe fazer os sapatos. Porque ficava mais barato.
Hoje em dia, barato ou não, é um luxo! Ter sapatos feitos à medida por um sapateiro. Eles também não tinham muito dinheiro para comida em certas alturas de início de vida familiar. Então minha mãe se lembra de ter de dividir uma sardinha por quatro.
Mas ao menos comiam sardinha! E não sandwishes, hamburgueres e pizzas sem qualquer nutriente e que estão acessíveis a qualquer carteira. Que é a realidade de hoje. Muito dificilmente alguém passa fome hoje em dia, devido à massificação da comida industrial. Mas nossa... não há qualidade.
Na casa de meus avós existiam quadros. Não sei como foram lá parar. Uns desses sei - vieram em segunda mão da minha casa. Meu pai não os quis mais e os deu aos meus avós que, pela boa educação que receberam não diziam não a uma oferenda.
E assim os quadros de mulch, as quatro estações, passaram a decorar as paredes da sala dos meus avós.
Bem ao lado do quadro da mulher sentada numa cadeira de vime e de um outro de uma paisagem com uma carruagem e cavalos.
Hoje dou por mim a querer olhar para essas imagens novamente. Essas imagens que estiveram sempre na parede. Meus avós certamente pouco ou nada entendiam do conceito de arte, de pintor famoso, de museus. Contudo, na casa de gente tão simples, existia reproduções de quadros de pintores famosos.
Tive de ir pesquisar, porque não me saia da cabeça, a menina sentada na cadeira de vime... Em tons de azul. Tudo azul. E encontrei: Auguste Renoir.












