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domingo, 2 de abril de 2023

Cheated of my life

 

Foi um comentário no youtube que me fez repensar tudo. Meus pais são vivos. Se a ordem das coisas for a usual, irei os perder antes da minha vez também chegar. Não sei como será quando isso acontecer. Comecei a temer essa altura. 

Mas depois de ler aquele comentário, comecei a pensar noutra perspectiva que tal mudança traz para as nossas vidas. Ficará mais solitária? Sim. Mas terminará também uma co-dependência. 

O comentário foi o desabafo de uma mulher que, no leito de morte da mãe, a ouviu dizer: "Agora vais poder COMEÇAR A VIVER". 

Essas palavras, e a admissão da própria que, a pesar da dor, nesse instante foi exatamente o que aconteceu, ressonou dentro de mim. 

Em vez de focarmos-nos na perda, deviamos focarmos nos ganhos. 
A nossa vida re-começa. Não temos mais aquela pessoa ali que, pode parecer para bem mas, se calhar, também é para mal, está disponível e nos exige disponibilidade. 

Achei muito interessante aquela mãe saber que estava, de certo modo, a impedir a filha de viver e dizer-lhe que a sua morte significava liberdade para ela. Mas que coisa linda de se dizer. Talvez o derradeiro gesto realmente altruísta de mãe. 

Porque, sejamos sinceros, altruísmo em mãe está muito sobrevalorizado. A maioria é capaz de actos altruístas mas tem sempre uma base egoísta. Acho até que o egoísmo pesa mais na balança dos pais que outra coisa. Pelo menos a minha experiência assim o diz e, até hoje, é algo que constato diariamente. Eles, contudo, estão alheios a essa realidade. Preferem interpretar as coisas com a conotação tradicional. É mais cómoda e soa melhor. Porém, não é a realidade. 


 

sábado, 16 de março de 2019

Guardado no baú...


E acrescento que a INDIFERENÇA é cruel em qualquer idade. Indiferença para com os idosos ou para com os adultos.

domingo, 28 de outubro de 2018

domingo, 29 de novembro de 2015

Ah, o espírito Natalício!


Fiquei de encontrar umas pessoas num centro comercial e aproveitar para fazer umas comprinhas. Nisto avistei uma aldeia de Natal, deslumbrante!


(ver mais fotos abaixo)
O Pai Natal, sentado na sua cadeira, também estava lá, a dar presentes e a tirar retratos com as crianças, sem cobrar um cêntimo! 

Ao lado estava um labirinto decorado com neve, bonecos, pinguins, todos animados. Dava gosto de ver. As crianças corriam naquela área e estranhei que tantas estivessem quase que a desmanchar o cenário, porque levantavam a cobertura de neve, derrubavam os bonecos e andavam frenéticos a correr por todo o lado. Procuravam algo. Decorria uma "caça ao tesouro". É aí que oiço uns pais instruirem um dos filhos com cerca de 6 anos a ir procurar debaixo de uma figura decorativa, porque tinham reparado quando a pessoa responsável pelo espaço tinha escondido uma peça ali.

O miúdo encontra-a e junta-se ao irmão, que também já tinha encontrado o seu tesouro e ficam os dois felizes, a brincar com  o presente «achado». Outras crianças, de mãos vazias, mais pequenas, ainda corriam a procurar. Nisto o pai dos irmãos instrui-os para continuarem até acharem os restantes três e assim, ficarem com todos.


Ah, o espírito de Natal!
A partilha...

Estava mesmo ali, não vos parece?




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A ordem natural das coisas


O tema vem a propósito de um post facebookiano em que calhei colocar as vistas em cima. 

"Queixava-se" a pessoa que os filhos são e sempre serão ingratos e "nunca vão saber" tudo o que os pais fizeram por eles". 

Mas afinal existe ingratidão? Qual o lado realmente "ingrato"? O dos filhos ou o dos pais?


Deixem-me partilhar o que penso: Se tem de existir essa tal de «ingratidão», então que seja do filho para com os pais. É só a ordem natural das coisas. Porque quando são os pais para com os filhos, é muito, muito pior!!


Mas o que está realmente em causa será a ingratidão dos filhos ou será a solidão dos pais?

Acredito que muitos filhos não são ingratos. Se a alegação aparenta ter fundamento é apenas porque os filhos estão a fazer pela vida, moram em suas casas, têm responsabilidades maiores e muitos têm já crianças suas para criar. Dão a atenção que conseguem dar dentro da azáfema da vida que levam.

Os pais de hoje, que se queixam da falta da atenção dos filhos, por acaso pararam para pensar se como filhos, também foram 'ingratos'? Se por acaso os seus pais também sentiram o tal do abandono? E se sim, por acaso foram eles responsáveis?


É o ciclo natural das coisas. E assim tem de ser. A meu ver, um pai devia sentir-se contente por ver que um filho tem uma vida preenchida. É sinal de que fez um bom trabalho na sua criação. E agora chegou a vez de ser o filho a fazer pela vida, a abrir o seu espaço, a vez de ser ele a criar a sua família.

E o que acontece aos "avós"? 
Em portugal não estamos mentalmente "formatados" para pensar em ter uma vida pessoal para além da familiar. As coisas se misturam, é bem verdade. Mas também precisam de ser distintas em alguma coisa. E em Portugal não se tem muito essa cultura. Por cá o comum é, depois dos filhos criados, surgir a reforma e com ela, tempo. Tempo de vazio, tempo que deixou de ser medido ao segundo, tempo para preencher. Tempo em que nem se sabe em que dia da semana se está. E o mês, por vezes, também escapa. Se as relações pessoais forem escassas ou nulas, a solidão fica evidenciada. 


É ingrato que um filho adulto seja 'bombardeado' diariamente por um pai/mãe que, não tendo muito o que fazer, acha que o filho também não. E por isso lhe telefona sete vezes por dia. E para lhe dizer o quê? Para perguntar «o que comeu», «o que está a fazer», etc. Conversa que cai bem quando o filho tem dois anos, não tanto quando anda pelos 42.

Na América, que é o exemplo mais flagrante de que me recordo, a mentalidade de quem chega à terceira idade e à reforma é outra. Para eles chegou a altura de "pendurar a enchada e... festa!". É altura de aproveitar a vida, de viajar, de se mudarem para a solarenga Flórida, de tirar cursos, de se divertirem e terem poucas responsabilidades. Isso ficou bem nítido para mim aquando acompanhei na TV o caso de um avô que teve de criar os netos pequenos por o pai ter assassinado a mãe e de seguida ter apanhado perpétua. Ficou claro no seu discurso e no das pessoas que o rodeavam, que aquilo não era visto como uma responsabilidade, como um dever, mas como algo admirável. E todos diziam, inclusive ele que, com aquela idade, não era suposto lidar com aquele nível de responsabilidade. Já tinha criado os seus filhos. Era suposto estar a aproveitar os últimos anos de vida.

É um pouco diferente da mentalidade de cá, não vos parece?

Tradução: Flórida, a sala de estar de DEUS
Nos EUA a idade da reforma é a altura da RECOMPENSA por uma vida de trabalho
"Divertir-se é a etapa final antes de morrer"

Outra realidade que condiciona bastante a mudança de hábitos na terceira idade portuguesa é o valor das reformas. Se nos EUA os idosos mudam-se para a Flórida, viajam, etc, é porque conseguiram uma reforma com um valor que lhes permite isso. O mesmo acontece com os Ingleses, que cá fazem vida. A reforma é mediana para o custo de vida inglês, mas aplicada cá, dá para luxos. O português é que, com a reforma que tem, só consegue arrastar-se pelos cantos e esperar que o dinheiro chegue para os medicamentos, comida e contas.

Um equilíbrio entre as duas realidades seria o ideal. Em Portugal ainda somos muito fechados, tomamos tudo para nós, criar um neto enquanto os filhos ficam a trabalhar é algo desejado e deixamos outras coisas para outro plano. E depois muitos têm este péssimo hábito de... cobrar! Cobrar ao filho por o ter posto no mundo. Só porque não arranjam o que fazer com o tempo que dispõem.


Claro que sei que, alguns filhos, não têm mesmo problemas em ver os pais uma vez por ano - no Natal. Mas creio que na cultura portuguesa é mais comum o que relatei acima. E sinceramente, alguns pais foram maus pais. Atrapalharam e prejudicaram mais do que ajudaram. A autocomiseração de alguns no facebook meio que me recorda disso.

domingo, 30 de agosto de 2015

Reflexões por blogues

Estava num blogue quando alguém falou sobre a tristeza que é os pais educarem os filhos durante anos, para depois estes os atirarem para um lar e os visitarem poucas vezes. Outra pessoa retaliou - e bem - que nem todos os pais são bons para os filhos.

Noutro blogue, alguém falava sobre esteriótipos.

Pois estava aqui quando subitamente entendi que a primeira ideia é um esteriotipo. E a segunda coloca as variáveis, rompendo com o esteriotipo.

E também descobri que jamais vou poder tratar meus pais como eles me trataram a mim. Caso eles fiquem velhinhos e vão parar a um lar - como dita o esteriotipo, não vou poder dar-lhes o trato que me deram. Porque senão iam sofrer muito!


sábado, 15 de março de 2014

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Educação livre e educação disciplinada

Tenho uma menina na família que está a ser educada com alguma disciplina pelos pais. Ela é uma menina expansiva, que fala muito e articuladamente, sabichona, viva, interessada e vibrante. Mas à medida que cresce está a mudar. Vê-se menos desse brilho e fica mais recatada. Assim que ela escuta o seu nome a ser chamado pelos pais sai disparada a correr e não perde tempo a lhes aparecer à frente. É muito obediente, a pesar de ter fama de ser "terrível". Uma reputação injusta, a meu ver. 

Tudo o que os pais lhe dizem para fazer, ela faz prontamente. E qualquer adulto em geral recebe essa mesma atitude. Para minha surpresa vejo que obedece prontamente aos pais quando lhe dizem para desligar o computador para ir estudar, ou quando lhe dizem que tem de acabar de brincar para ir estudar, ou mesmo quando lhe ligam a dizer que tem de se ir embora de onde está a conviver e a brincadeira vai terminar. Por vezes ela tenta dialogar com os pais, perguntando-lhes se não pode ficar mais um bocado, mas se escuta um não, acata-o sem insistir. Só que tudo isto ela aprendeu da maneira "dura". Ou seja, através de disciplina, de muita contrariedade, de castigos e privações. Sinto que a sua educação não está a receber o equilíbrio ideal entre o afecto/carinho e a disciplina/aprendizagem. 

Sei que não é fácil educar crianças, sei que os pais querem o melhor para os filhos, mas também sei que isso nem sempre se consegue. Os pais também falham. E perceber isso não é vergonha alguma. Vergonha é perceber e nada fazer para o mudar, mantendo o comodismo de comportamentos que se provam nocivos.

Não sei se é realmente o caso desta criança, mas identifico nela todos os comportamentos que me indicam a presença de educação rígida construída em cima de sentimentos magoados que eu também recebi. Uma educação que castra muito e libera pouco, ou quase nada. Tal como ela, também eu fui uma criança vibrante. Ao ponto de durante os anos que se seguiram até a adolescência, ainda viver aos olhos dos outros como se fosse a "tal" criança esperta e sagaz que todos pareciam recordar. Falavam comigo durante longos tempos a contar-me as peripécias e a forma como eu percebia as coisas. Estes adultos que me reencontravam vibravam, iluminavam-se e eu acho que esperavam encontrar uma versão crescida da criança que fui e ficavam ali a sondar, a ver se eu "lhes aparecia" tal como me recordavam. Costumava deixá-los falar, escutar, dizer que não me lembrava de nada porque a maioria das vezes era verdade e pronto. Eles lá iam, talvez algo tristes e desconfiados por aquela criança" não se encontrar mais no corpo da quase adulta. Não me sentia muito confortável por tantos me recordarem com tanto entusiasmo, saudosismo e rasgados elogios, revelando tanto gosto e alegria ao me reencontrarem. Porque me faziam lembrar o que podia ser mas não era. Faziam-me lembrar o "eu" que reprimi e me foi «apagado» à força mas que um dia esperava poder reencontrar antes que "morresse" de vez.  Lembro-me de uma ocasião em que uma senhora muito entusiasta ficou a me relatar pela porta as memórias que tinha de mim e eu a pensar: "Essa não sou mais eu". 

Está certo que nós mudamos. Não creio que mudemos na essência, mas sofremos alterações sim. Está previsto que o ser humano mude à medida que aprende a crescer e a conhecer o mundo. Nem todas as mudanças têm origem na disciplina muito ou pouco rigorosa, o factor biológico também entra na equação. Mas quando a disciplina é castradora, existem pequenos sinais como este da obediencia imediata e pronta que esta criança revela. Ela tem uma atitude de obediencia que mais depressa relacionariamos com a de uma serviçal com receio de uma reprimenda dos amos.  E como já referi, creio que aprendeu a reagir assim às custas de muito grito, algumas pancadas no traseiro e muita imposição. 

Também já vi o pai a brincar entusiasticamente com as crianças dos outros, a menina a meter-se no meio para entrar na brincadeira e a levar uma reprimenda. Acho que o pai não entendeu que a magoou e a fez sentir preterida, posta de parte, uma vez que enquanto brincava com a outra, ordenou que a sua filha ficasse quieta, dizendo-lhe que não devia atrapalhar. A criança deve ter-se perguntado desta vez e se calhar noutras também, porquê isso, porquê o pai é tão brincalhão com as outras crianças e menos com ela. Acredito que os sentimentos começam a ficar magoados e vejo que ela fica de "cara fechada" sem querer explicar o que tem quando algo a magoa. E reconheço isso, já passei pelo mesmo. Outras vezes detecto que umas lágrimas lhe caem pelo rosto e quando vou perguntar o que se passa, porquê ficou triste, responde apenas que "não é nada"  (Ah! É tão parecida comigo!!!).

Pelo que hoje estava aqui a relembrar como a vi recentemente a ter estas atitudes de menina bem comportada e obediente e a pensar se não as assimilou através de um excesso de disciplina rígida e uma certa carência de momentos de maior afecto. Porque existe outra criança na família que recebe uma educação oposta. E é fácil entender as diferenças quando existem exemplos distintos. Creio que a personalidade da primeira possa ficar algo "danificada" por receber esta educação mais castradora e que a outra acabe por florescer mais, visto que não sendo uma criança tão expansiva nem tão comunicadora e articulada, foi educada com disciplina mas acima de tudo liberdade. Principalmente para tomar algumas decisões sozinha e assumir a responsabilidade do estudo. Foi exposta a todo o tipo de coisa- não existiram temas "tabus" a serem discutidos na presença da criança nem foi de todo poupada aos desentendimentos dos pais à sua frente (outra coisa com a qual me identifico). Ela pode ver televisão enquanto toma a refeição e escutar todas as más notícias dos telejornais. A outra não tem TV acesa enquanto come, não podia ver filmes com cenas de adultos nem escutar as más notícias dos jornais. Creio que ambas as formas de educar são aceitáveis e acho que encontraria um meio-termo entre estas duas, pois nem uma nem outra estão desprovidas de falhas algo claras. Mas ainda assim concluo que a presença de LIBERDADE é ESSÊNCIAL para o desenvolvimento do ser humano. Agora, o que distingue essa liberdade da «liberdade» que faz as crianças crescerem sem noção de responsabilidades ou limites, acho que é a presença de interesse paterno, transmissão de valores e afecto. Só sei uma coisa: não é fácil, mas também não precisa de ser complicado.

Sinto carência e indícios de problemas de auto-estima naquela menina. Quando tiver com ela vou dar-lhe todo o meu tempo e do meu jeito descontraído, vou puxar o diálogo para ver o que pensa das coisas, como se sente, o que quer e com o quê sonha. Quero perceber se vai se expressar livremente ou manter algum vestígio da apreendida recatez. Proibir as crianças de falar não lhes apaga os pensamentos. Só magoa.  

domingo, 26 de maio de 2013

Pais & Filhos - comportamentos que parecem vir no ADN

A vizinha acabou de gritar:
-"Cala-te! Porco!" - diz ela ao filho.

Na realidade, ela está sempre a gritar com os filhos. Principalmente com o rapaz, que deve andar pelos sete anos. Mesmo quando tenta ensinar-lhes algo, ela grita e é rude no vocabulário. Faz ameaças, manda o rapaz se calar, está sempre a gritar "bolas! Merda!".


A minha realidade não era muito diferente da dele quando era pequena. Nem pequena nem adolescente, nem mesmo já grandinha... Pelo que reflicto muito nas sequelas das crianças tratadas desta forma pelos pais. E sei o caminho que aquele rapaz vai trilhar em termos de auto-estima. O quanto anos de gritos incessantes e maus tratos verbais e comportamentais o vão afectar na vida.

Quando era pré-adolescente precisei por um curto período de tempo de explicações para a escola. Meus pais pagavam a um explicador para me ajudar duas vezes por semana. Uma vez lá fui eu e não sei com que cara ia, mas ele perguntou-me o que é que se passava comigo. Por vezes estava bem, outras parecia não estar - diziam-me frequentemente. E depois começou a elogiar os meus pais. Disse-me o quanto eles se preocupavam, o quanto lhes devia estar grata e o quanto era bom ter pais. 

-"Olha para ali bolas! Ré, dó, mi, ré, dó!"
- "Bolás pá! Merda!" - continua a vizinha a gritar ao filho.

O puto já vai naquilo para três horas e ela não pára de lhe gritar. Pelos vistos ele não acerta naquelas três notas lá muito bem e vai ter de ouvir o resto da vida... Não me admiraria que associasse para sempre estas memórias negativas e sofridas ao simples avistar do instrumento. Ao ponto de nem lhe poder colocar a vista em cima. 

Bem, o que é que eu poderia responder a um explicador jovem e independente que perdeu os pais cedo? Nada. Porque se lhe dissesse um desabafo que fosse, lá se ia o ideal que devia estar na sua cabeça de órfão. "Deves estar grata por ter pais" - disse-me ele. 

Sim, eu sabia. Mas nem tudo era um mar de rosas e nem sempre é a criança que está sem a razão. Apesar de tudo, e esse tudo não era pouca coisa, entre os ter e não os ter, preferia ter. Mas a que preço... !! Quase que lhe confidenciei: "Não é bem assim". Mas do que adiantava? A realidade dele era outra. Outra que eu decerto não conhecia também. Deixar que ele sonhasse com os pais carinhosos, afectivos e compreensivos que perdeu cedo, tal como eu, no fundo, fantasiava também. Carênciavamos os dois do mesmo, mudavam as circunstâncias. Ele jamais poderia recuperar os pais e eu tinha os meus. Era diferente. 

Pelo que nem com ele, nem com ninguém, alguma vez desabafei fosse o que fosse sobre os gritos, os maus-tratos constantes, muito presentes entre quatro paredes, diluídos na presença de estranhos. Desabafei com o papel, que ouviu pacientemente uma enxurrada de frases ditas em desabafo e sofrimento, até que um dia decidi que o papel também não devia guardar esses males. Uma vez fiquei mal vista diante de uma pessoa só porque esta achou que não correspondi ao nível de simpatia de meus pais. E tinha-lhes falado, num momento, com secura. Nunca lhe confidenciei que nesse momento o que lhes disse saíu como um grito de dor abafado. É que meus pais estavam a ser muito simpáticos mesmo. Bastante. E subitamente eu percebi que toda a minha vida podia ter sido assim e não foi. Uma dor rápida e profunda como um relâmpago passou pelas células do meu corpo quando o percebi. Contive as lágrimas. Percebi que era uma ESCOLHA. E eles escolheram os gritos. 

Nada disse, deixei que a pessoa ficasse a pensar mal de mim. Tantas vezes protegi meus pais mantendo o silêncio. Quem ficava mal vista era eu. Mas muitas vezes, mal a porta fechava e a visita ficava do lado de fora, recomeçava logo, ali e naquele instante, os maus tratos verbais.

Era como avistar por uns instantes o oásis para depois me atirarem de imediato no inferno calorento do deserto.


Quem vê os meus vizinhos com os filhos a passar na rua, não adivinha a gritaria entre as quatro paredes. Comigo também era assim. Tudo o que as pessoas viam era o que os sentidos básicos conseguiam detectar. Roupas, carro, escola, brinquedos, coisas normais. As pessoas pensam que estas coisas têm cara, roupa esfarrapada, falta de instrução e principalmente, falta de dinheiro. Mas não é assim que acontece.

Não creio, infelizmente, que o meu caso, separado que está em tantos anos da geração deste rapaz meu vizinho, sejam casos pouco habituais. Infelizmente, creio que a maioria das famílias portuguesas carregam no seu ADN este quotidiano ou variantes dele. Acredito que meus pais queriam mesmo dar uma vida melhor aos filhos. E, tal como tanta vez disseram, "dar tudo aquilo que eu não tive". Só que essas coisas eram bens materiais, não bens afectivos. Nesses continuaram a privar um tanto os filhos, quem sabe até se vingando neles. Deram-lhes bens e estudos, que era o que ao crescerem julgavam desejar para si, mas retiraram-lhes liberdade e individualismo. Muitos pais recusam-se a identificar os filhos como indivíduos e esquecem que mais do que mandar, impor, dar ordens e obrigar, há que escutar e, acima de tudo RESPEITAR.

Noutro dia recebi um comentário num blogue em que a pessoa confidenciava que não soube respeitar os pais, os avós nem dar valor às pessoas que a rodeavam. Percebeu que foi uma adolescente rebelde e egoísta. E se arrependia hoje por isso. De alguma forma, gostava de lhe ter dito que era suposto isso ser um pouco assim. Antes assim que ao contrário, pois o contrário era muito pior. Que se deixasse estar sem grandes remorsos, porque eles certamente que souberam entender, ainda que pudessem ficar sentidos. Porque compreendiam os ímpetos da juventude. É diferente quando se está na adolescência. Nem todos os adolescentes têm a cabeça algo "idosa", como foi o meu caso. 

Eu não tenho desses arrependimentos. Com intenção, nunca fiz mal a alguém ou tomei uma má atitude. Estive sempre presente, dei tudo o que tinha de bom para dar aos meus e continuo a dar, ainda que tente aprender um pouco a ser egoísta. Uns já faleceram e eu percebi a sensação nova e estranha que é alguém partir e ficar tudo tranquilo e pacífico. Não me deixaram um arrependimento. Não ficou um pedido de desculpas por fazer, nada que remoesse a alma. Talvez porque não fez parte do meu feito me esquecer que existiam. E eles sabiam disso e o apreciavam. É uma tranquilidade que me pertence e desconhecia até que pudesse não existir, como vejo alguns lamentarem. 

Como já referi, este tipo de tratamento familiar que a vizinha está a transmitir aos filhos parece que está no ADN português. Passa dos pais para a prole. Ténues mutações, talvez, mas a «medula» está sempre lá. Comigo não teria hipótese, isso percebi-o bastante cedo, mas não deixei de o ver a acontecer noutros lugares, com outras pessoas. E agora, com esta vizinha. Por vezes dá vontade de intervir. Assim como o impulso também surge quando vejo alguém a arrastar uma criança pequena pelo braço insultando-a por não se despachar a andar. Ou gritam com elas nos super-mercados, insultando-as chamando-lhes nomes, que, por estarem num super-mercado, não escalam ao que escutam em casa mas que deixam adivinhar. "Tu só me envergonhas! Nunca mais te trago comigo às compras! Está quieta! Olha que ainda levas uma palmada!" - ou então dão a palmada logo ali, para "disciplinar" a criança. Esta chora, claro está. E por chorar ainda apanha mais, porque ao chorar está a embaraçar o adulto e este sente que as atenções e RECRIMINAÇÕES recaem em cima de si. O que pensa que os outros pensam dele é o que o leva espancar novamente a criança. Que chora e lhe gritam para não chorar. Mas se apanhou, queriam que sorrisse?
Se calhar queriam que ficasse como eu aprendi a ficar. Parada, de cara "fechada", braços cruzados, em silêncio e totalmente absorta num sofrimento oculto. E ainda a escutar o quanto é uma criança insuportável, que não pode ir a lado algum, que só traz é vergonha. Porque tudo o que os adultos querem de uma criança é que fique quieta e em silêncio quando outros estão por perto e os podem julgar. Ora, uma criança pode ser difícil de educar - isso não contradigo, mas pelo cansaço dos pais apenas. E por a altura para se portar como a criança que é não ser conveniente, apanha.

Espero que este comportamento tenda a diluir com a passagem das gerações, com a melhoria da instrução e do convívio com outras sociedades e culturas. Mas agora aparece-me aqui esta nova jovem mãe, com seus filhos crianças, a repetir o mesmo. Quanto tempo mais até isto desaparecer? Porque submete ela os filhos a isto? Para se vingar dos seus pais?


Recuando ao explicador órfão, devo explicar que não lhe invejava a situação. Devia ser tão difícil não ter pais! Mas cada um de nós tem a sua ideia do que é ter pais e viver com eles. Os que têm só podem imaginar o que seria viver sem e os que não têm idealizam o que é viver com. Ninguém sabe como vai ser ou poderia ser, até que a situação passe a facto e deixe de ser hipotética. 

Eu sempre imaginei, por exemplo, que um órfão não é necessariamente um coitado - porque fui ensinada que era para os ver assim, embora jamais o conseguisse fazer. Procuro ver o indivíduo, não a sua condição, pelo que não faz sentido para mim dizer que alguém é "mais ou menos" seja o que for. Lá porque a pessoa pode ser órfã, não quer dizer que não seja amada, bem educada, lhe falte quem lhe transmita valores morais e a mune de ferramentas para se erguer por conta própria na vida. Não sei se a pessoa é feliz ou infeliz, se é boa ou má - isso não advém da sua condição. Conheci apenas superficialmente dois rapazes a serem educados pelos avós, sendo que um só tinha uma avó e não tinha realmente os pais. Deviam ter um sentimento estranho, claro, mas nenhum me pareceu desajustado. Decerto que teriam os seus momentos terríveis em que gostariam de levar a vida igual aos dos outros meninos e ter um pai e mãe por perto. Tenho a certeza que ficaram marcados por isso, tal como tanta coisa nos marca nesta vida. Mas quem diz que não têm como receber amor e que este não é bom?  Talvez tenha adquirido esta percepção devido às histórias infantis do meu tempo. Nelas quase todas as personagens principais eram órfãs. Como o Marco, a Heidi nas montanhas, os esquilos ou o Sebastião. Mas eram também crianças ou animais inteligentes, saudáveis, activos e amados por muitos, talvez até por isso. Recebiam caridade, preocupação extra, afecto. Acredito que mais importante do que o grau de parentesco, é o amor que a pessoa tem e sabe dar. 


É estranho, por exemplo, escutar os desabafos de minha mãe sobre episódios mais sofridos da sua infância, que mos relata como se eu nunca os tivesse escutado, e perceber que ela não é capaz de estabelecer os paralelismos com o seu comportamento para comigo. Diz-me "tu não sabes", quando eu sei sim, porque ela fez-me passar pelo mesmo. Podem variar as circunstâncias ou mesmo o resultado final, mas nunca o acto. 

Jamais desejei qualquer mal aos meus pais, pois lá da forma deles, sei que gostam de mim. Apenas não o souberam demonstrar e, o que é pior a meu ver, não me sabem respeitar. Foram pais que, tendo um problema qualquer no trabalho, chegavam a casa e gritavam com a filha. Todos os problemas pessoais entre os dois também vinham parar a mim. Fui basicamente um bode expiatório, não sei se alguma vez o vão admitir. Creio que não. Porque ainda se vêm a eles próprios como vítimas, para poderem se perceber como carrascos.Também não preciso de admissão, eles é que precisam. 

E agora esta vizinha trilha o mesmo caminho. Zangada que está com o mundo, insatisfeita quiçá com a sua vida afectiva e amorosa. Quem paga são os filhos. E mesmo a querer ensinar, lá está ela: "Bolas pá! Merda!" - constantemente a gritar isto aos ouvidos daqueles que pariu. 


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Os pais discriminam os filhos. SIM ou NÃO?

É a verdade. Pronto, está dito.

Preferências entre filhos


Por observações que tenho feito, cheguei à conclusão que este "mito" é VERDADEIRO.

Os pais, de facto, são capazes de tratar um filho aparentemente beneficiando-o mais em relação a outro.

Mesmo entre as famílias que dizem "gostar por igual", o trato pode ser diferente.


A discriminação não quer dizer que gostem MAIS ou MENOS de um filho.

Mas SIGNIFICA muitas outras coisas e pode resultar também em diferentes resultados:


discriminação

1) Um pai/mãe que dê preferência de afectos a um filho e não a outro, vai fazer com que o último se sinta menos à vontade de os expressar. Será um indivíduo mais acanhado e reservado.

2) Um pai que prefira gritar mais com um filho do que com o outro, vai fazer com que o clima de tensão entre os dois esteja sempre presente.

3) Um pai que critica de forma desmotivadora as ambições de um filho, vai fazer com que este ponha em causa as suas capacidades.

4) Um pai que não ajude um dos filhos a conquistar as suas metas, compromete o seu futuro e felicidade.


Quero agora saber se concordam com esta (polémica) análise.

Não sendo ainda "pai" (sem ser postiço) mas tendo crianças na família, sei que gosto de AMBAS, cada uma na sua forma e conforme a vivência acumulada com cada uma. Não MAIS, não MENOS.


Como adultos, os pais

carregam uma bagagem emocional

Criança feliz

Mas cheguei a esta conclusão mais por observação alheia e também um pouco por experiência como filha. Por vezes o que falha na relação entre pais e filhos é apenas a COMUNICAÇÃO, que é defeituosa. Outras vezes é a noção que os pais têm de que a vontade deles tem de ser soberana e a razão nunca pode estar do lado da criança. Não é assim e se forem teimosos podem danificar para sempre a comunicação eficiente entre os dois. Um pai é uma AJUDA PRECIOSA para um filho, o amor de filho para com os pais é incondicional. Isso comprova-se pelo simples facto de se saber que crianças adoptadas que nunca conheceram os pais biológicos (e outras que não têm razões para desconfiar que o são e sentem-se estranhas e incompletas), ao longo da vida jamais deixam de pensar no assunto como algo que precisam de satisfazer. De resto tenho observado mães mais severas para determinados filhos, aos quais parecem descrever a terceiros só por base dos seus defeitos, enquanto que descrevem o segundo só com qualidades. O engraçado é que a mesma observação tem quase sempre provado que estas mães não distinguem assim tão bem quem tem mais o quê e, quando mais adultos, são sempre os filhos mais "maltratados" os que estão mais presentes, aqueles que se preocupam com mais autenticidade com os progenitores.


A questão está lançada. O que têm a acrescentar a este texto?

CONCORDAM ou DISCORDAM?