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terça-feira, 19 de maio de 2026

A idade e o estímulo para se relacionar

 

Um colega virou-se para mim e com espanto disse:
"Não podes ter nascido nos anos 80! Ainda não eras nascida, és muito nova."

Porque não posso? - questionei. 

Decidi faz muito tempo não mencionar a idade que tenho. Não vejo relevância. Até penso ser um entrave para estabelecer relações autênticas. 

Confesso que me "rebaixo" emocionalmente se outra pessoa mostrar interesse por mim. Mas isso se deve à forma como fui tratada enquanto crescia, mais que pela idade ou diferença entre idades, seja para mais ou para menos. 

O ano passado porém, revelei sem mais nem menos a minha idade a uma senhora com quem travei uma conversa casual enquanto fazíamos uma viagem. Ela virou-se para mim e disse que eu "ainda era jovem" e que "tinha muito tempo". Ao que respondi que não era tão jovem assim. Ela perguntou-me a idade e eu disse-lhe. 

O espanto dela foi notório. Assim mo disse. Ficou mesmo muito espantada e duvidou da resposta. Ela pensou que eu andava na casa dos 30 e me disse que não parecia nada ter a idade que lhe disse ter. E que ela, tinha uns 70 e poucos anos e parecia muito velha. 


Desde criança que gosto e converso com facilidade com pessoas mais velhas. Têm história, podem contar-me coisas que desconheço, coisas autênticas, reais, que viveram. Se isso as espantava então, desconheço mas creio que em algumas sim. Viam uma jovem interessada num idoso e achavam isso especial. Ocorre-me agora que continuo com o mesmo interesse mas a diferença de idade está a diminuir. Serei uma idosa interessada nas histórias de outros idosos... 

Mas vou dizer aqui uma coisa que constatei. Ainda que tenuemente. Posso estar enganada, mas não creio. Quando revelei a minha idade àquela senhora, depois do espanto, ela perdeu um pouco o interesse. 

É como se descobrir que não estava a falar com uma jovem de 35 anos perdesse o fascínio. Porém, eu sou a mesma pessoa. A mesma pessoa que ela achou tanto gosto em falar durante a viagem. E se isto acontece com uma MULHER missionária - segundo me deu a entender - então o que esperar dos outros?

O meu colega que afirmou que eu não podia de maneira nenhuma ter nascido nos anos 80 se souber quando nasci vai reagir de igual forma. Parece que deixa de ser estimulante se a pessoa com quem falam não for tão jovem como parece ser. 

Porque será?
O que acham desta minha descoberta?



quarta-feira, 15 de abril de 2026

Rezinga

 

Acho que me estou a tornar ou irei me tornar, com o avançar da idade, numa pessoa rezingona. Se é que já não o sou. Incrível como coincide o que penso que acontece com as pessoas más: com a idade podem dar-se ao luxo de ser um pouco menos egoístas, um pouco mais generosas - porque passaram a vida INTEIRA a pensar só nelas mesmas. Chegam a uma certa idade, sentem-se menos capazes, com menos energia, já travaram as suas lutas egoístas e pisando em cima dos outros... já experimentaram isso tudo. O que é que ainda não fizeram?

O inverso. 

Como eu sou o "inverso" no meu destino vejo resmunguice, indiferença, algum egoísmo, isolamento, pouca generosidade, desconforto à volta de pessoas. 


O que acham desta minha teoria? 

terça-feira, 13 de junho de 2023

Pensamentos espontâneos

 


Foi ontem. 
Numa rua aqui perto. 

De mãos dadas, a caminhar lado a lado.
Distintos. Conversando e andando. 
Ele carrega os sacos. Ela, segura nele. 
Ambos já com idade avançada. 
Ele alto, ela baixa.
Ela agora corcunda, com um andar um tanto balançante. 

Que rico casal!
Têm-se um ao outro. 

"Ate que a morte os separe".

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A idade tem cheiro

 

Já me sinto a envelhecer de uma forma com a qual não me identifico. Nunca pensei que envelhecer ia perturbar-me, porque presumi que se vivia cada momento da vida em pleno. Só que não aconteceu assim. Agora a idade "apanha-me" algo desprevenida. 

O que descobri é que não gosto do meu cheiro. O cheiro da minha pele é uma das últimas constatações sobre mudanças em mim que a idade me traz. Não é falta de higiene - nunca tive mais do que agora. É alteração biológica.  Estranho isto, não é? Não me identificar com o meu próprio odor corporal! 

Não tresando - sosseguem. Mas tenho um suave trave a algo que estranho, me desagrada e não me é familiar. Tomo banho e visto roupas perfumadas, acabadas de lavar na máquina, deito-me em lençóis lavadinhos. 

Será que é das máquinas de lavar? Todos sabemos mas escolhemos ignorar, que são reservatórios imundos por dentro cheias de bactérias e contaminantes. Experimentem lavar as roupas sem recorrerem a amaciadores perfumados e vão sentir um odor desagradável, que detergente e água não elimina. 

Com tudo lavado e fresco, sinto-me bem. Mas isso pode durar apenas umas horas. Em menos de um dia, já não sinto as roupas agradavelmente aromáticas e o odor das mesmas mistura-se com um outro que não me agrada. Busco perceber de onde vem. Quero eliminá-lo. Lavo tudo: lençóis de cama, toda a roupa, colchão, passo detergente aguado na carpete e salpico os cortinados com aroma de lavanda. OK. Agora sim! Vou viver num espaço permanentemente agradavelmente perfumado - penso. Passadas umas horas, depois de estar deitada na cama com lençois lavados, vestindo roupa lavada e fresca, principalmente se adormecer, ao despertar já sinto um suave "trago" a cheiro corporal que me desagrada. Só pode emanar de mim, mas não o reconheço.

Será isto a que chamam "cheiro de velho" ?


Pensava que "cheiro de velho*" era apenas uma expressão para a falta de higiene mais regular que a terceira idade exige, em particular em casos de incontinência. Uma vez que a pessoa está mais cansada e debilitada, é completamente compreensível que deixe de conseguir manter essas rotinas tão amiúde. Agora já não sei se assim é.  Se calhar, não é bem uma escolha, assim como o próprio envelhecimento. "Cheiro a velho" é, na realidade, cheiro a decadência. A podridão. Não me levem a mal, refiro-me ao ciclo da vida.  Somos como uma flor: nasce botão, floresce perfumada e apodrece. 

Subitamente me lembrei de um outro cheiro que quase todos adoram - inclusive eu: "Cheiro a bebé". Nossa! Como o cheiro a recém-nascido é uma coisa maravilhosa. Gostosa. Costumava ser um odor desse género a emanar da minha pele por muitos anos, até quase aos 30, fresquinho, sempre presente, mesmo quando ficava uns dias sem tomar banho e os hábitos de higiene não seguiam as normas da altura. Cheirava sempre bem, adorava "snifar" meu próprio odor. Dava-me prazer. Outros me diziam que cheirava bem e queriam saber que perfume usava. Lembro-me de responder que não usava nenhum e também não usava cremes para o rosto ou produtos para o cabelo sem ser champôo normal - o que os surpreendia.  E não, não eram perguntas irónicas. Eram sinceras. 


Santa ignorância! Porque desaprendemos a nos familiarizar com o ciclo da vida? Lições que pais passavam aos filhos por gerações - desapareceram ou estão a desaparecer. Estes dizeres nos tornava  conscientes, conhecedores, simpatéticos, caridosos. Foi tudo substituído pela falsa sensação de que se pode manter a juventude a todo o custo, se se comprar bons cremes, se submeter a procedimentos cirúrgicos, etc. Como se "ser velho" fosse indesejável e para evitar, quando, na realidade, é inevitável - para todos os que vivem. 

Encontrei uma fotografia onde estou debruçada sobre um bolo com velas acesas e um gigante número indicando: "35". 

O que me lembrei ao ver aquela fotografia, foi que já me sentia no final da vida, sem muita esperança. Uma autêntica parvoíce! Mas também recordei-me das razões que me levavam a sentir assim: Naquele instante de celebração que devia ser feliz, todos na família me disseram que estava velha. Lembro-me em particular de uma frase habitual, sempre dita pela minha irmã com um tom de prazer na voz: "Estás a ficar velha, vais ficar para tia". e que os outros repetiam. Neste instante desta foto em particular, lembro-me que reforçaram a dose e me disseram isto, que instantaneamente senti como uma ferroada em mim: "Tu nunca vais ter filhos!



Porquê deixei? Porquê me abandonei? Porquê não combati eu esta opressão? Porque não me rebeliei - que é o que a juventude DEVE fazer? 

O tempo passou e eu fui deixando que passasse. Agora estou desfasada do mesmo e o que ele me traz é justíssimo - só não foi justo não ter vivido com o tempo.

Podem até me ter dado vinte e poucos anos recentemente. Podem achar que estou ainda na casa dos trinta. Podem dizer-me que pareço mais nova. (será que pareço? Não acho mais!). Mas é o meu corpo que escuto, que vive comigo e que me mostra, por vezes de forma cruel, que o que as pessoas dizem não corresponde à realidade. 

Um destes dias o corpo colapsa de vez, tudo fica flácido, mostrando todo o seu horror e desmistificando de uma vez só o real tempo que estou sobre esta terra.


https://www.campograndenews.com.br/colunistas/em-pauta/-cheirando-a-velho-o-odor-corporal-que-comeca-aos-30

https://www.uol.com.br/tilt/ultimas-noticias/redacao/2016/08/16/clique-ciencia-o-que-causa-e-por-que-os-idosos-tem-um-cheiro-diferente.htm


sábado, 14 de janeiro de 2023

O tempo é curto

 

A idade que tenho não me assenta. 

(quantos pensarão assim?)


Quando penso na idade que vou fazer, esta não corresponde ao meu ambiente, á minha vida. Nem à maioria das pessoas que me cercam. A idade, tal como muita coisa, devia variar conforme o estado da pessoa. Há crianças com um comportamento extremamente amadurecido que até faz um adulto questionar se são reencarnações e há pessoas de muita idade que se comportam como imaturos bebés.

A idade que tenho não se adequa a mim não porque não o desejasse. Mas porque não vivi todos os anos que tenho em pleno. Tivesse-os vivido, e a idade que tenho correspondia a mim, aos meus, ao que me rodeia. Assentar-me-ia. 

Acho que essa é a grande diferença entre quem diz que "não tem problema em dizer a idade". Não tem, porque viveu cada segundo e aproveitou-os bem. Porque, entre altos e baixos, fez o que quis, seguiu o seu caminho, sabe que valeu a pena e é feliz com o que conquistou. Quem não fez isso, sente que permaneceu estagnado. O tempo passou mais rápido do que foi usufruido. E esse pecado - porque é "O" pecado, fica para sempre. 

É o meu erro, aquele pelo qual terei de prestar contas quando a minha altura chegar. É o de muitos outros também, quer seja por iniciativa própria ou por imposição. 

Por isso, acho que se deve começar hoje, agora, a realizar algumas vontades engavetadas. Já não se é jovem e o que se percebe nesta ocasião, é que o presente é para ser usufruido como um copo de vinho e as vontades não são mais para adiar. Há que dar prazer a nós mesmos, porque só sendo felizes se pode fazer os outros felizes também.

Respondam-me lá: O que é que sempre tiveram vontade de fazer e ainda não foi feito? Porque não começar já?



quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Dois anos

 

Ultimamente novas colegas de trabalho falam-me dos filhos e quando lhes pergunto que idade têm, respondem todas:

- "Dois anos".

Mal sabem elas que é a idade mais incomodativa para eu ouvir. 

Se fosse três, quatro, um... mas é DOIS. 

Podia ter acontecido comigo. Exatamente à dois anos. A acontecer teria sido então - a última oportunidade. Não que o quisesse na altura, mas certamente teria acontecido se a coisa seguisse o rumo que estava a tomar. 

Como sempre, algo abrupto interrompe algo que ainda está a brotar. E aquilo que percebi poder vir a caminho, parece que EXPLODE na estratosfera antes de me alcançar, dividindo-se em milhares de pedacinhos, e vai cair em pessoas alheias que mais tarde aproximam-se de mim. 

Tem sido assim. Destino interrompido. Na altura reflecti sobre essa possibilidade. Nenhum de nós queria filhos (ele perguntou-me várias vezes, porque será?). Percebi que, ao contrário do que acreditava e na altura queria, teria ficado inundada em felicidade. Porque gerar um filho fruto de um amor ia ser demais. Descobri que é assim que se descobre que se ama alguém. 

Nessa altura, inesperadamente, a filha de uma amiga que supostamente não devia ter filhos, ficou - sem o desejar, grávida. São os tais pedacinhos da explosão a atingir outros... 

Não queria, não contava, não esperava, temia - foi um choque. A mãe ficou furiosa. Eu achei que ia ser a melhor coisa que estava para acontecer na vida daquela família. Dois anos volvidos, ao que saiba,  está tudo bem e todos adoram a criança, que é linda e saudável.  

A rapariga que cá apareceu em casa com um filho... adivinhem lá a idade que a criança tem. 

Venham até mim, então, as crias alheias com dois anos, ahah.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Ter 32 anos


Trinta e dois anos foi a idade que um colega de 24 anos me deu hoje. Já passei dos 40. Por isso quando me dizem isto fico a pensar que andam todos doidos. Estranho porque depois percebo que falam sério e estão convencidos que acertaram ou estão muito próximos. 

Bem que digo: a luz artificial no UK é ruim pra caramba! 

Ainda bem que não vivo no centro de Londres onde existem filas de lojas bem iluminadas ou centro comerciais a brilhar de luz. Aha.

Já há semanas um rapaz disse-me que eu parecia ter idade para ser uma colega sua da universidade. A minha reacção? Simular um disparo na cabeça em tom de "estás a ser irónico, não estás?". Mas não estava. 

Algo na água do Reino Unido, ou na comida, ou na bebida, ou no sei - lá o quê, confere aos seus habitantes uma percepção de certo modo, lisonjeadora sobre a idade das pessoas que vêm de fora. 

Estou quase a bater à porta dos 50. É isso que percebo, é o que o meu BI indica. Embora não o sinta, tenho consciência que estes se aproximam, são a nova etapa. O que percebi, contudo, é que 32 anos é capaz de ser a idade que teria se tivesse começado a pisar o meu caminho mais cedo tal como pretendia. Se subtrair da minha vida os anos mortos - que totalizam 10 ou 12,  e que, de certa forma, onde estagnei, é aí que me encontro: tenho 32 anos.  

domingo, 21 de junho de 2020

Nao lembrar a idade


Sabem uma coisa?
Esqueci a minha idade.

De verdade.
Nao consigo lembrar com exactidao. Sei que tenho esta ou esta, mas ja nao sei precisar.

Falho por um ano a mais ou a menos.

Nao é a primeira vez que percebo isto.
Andei uns meses inteiros a achar que ja tinha chegado a um certo dígito e só depois da minha data de aniversário é que percebi que ia fazer o numero que já pensava ter.

Andei o tempo todo a achar-me velha e ainda não estava com a idade em que me já julgava como tal.

Tudo isto relativiza a importância que se dá a isso. é exagerada, no meu entender. No fundo, nunca dei muita importância há idade. Sempre a vi a ser usada como um peso, uma frustração, uma forma de medir o insucesso pela passagem do tempo.

Desde criança que tenho essa percepção.

A idade so comecou a ser importante para os documentos. Para o institucional , para aa matriculas na escola.

Começa cedo, usar-se a idade para status. Em criança era a "mais velha" da classe primaria, por ser das primeiras a fazer aniversário.

Era frequente escutar que era como se tivesse PERDIDO um ano.

Já a incutirem a percepção de PERDA pela idade "avançada" ahaha.

Ma é verdade. E dai adiante a idade foi sempre mencionada como um factor de derrota, de peso e angústia. "Nova demais" para coisas adultas, "velha demais" aos 10 anos de idade para andar na minha bicicleta dos 9...

Coisas parvas, mas reais, das quais me lembrei agora espontaneamente.

Essa classificação "demasiado velha/jovem" que a idade transporta, transforma todos os aniversários num martírio.

É  como ser lembrado todo o ano do fracasso.

Bom, mas juro que nao era nesta direccao que pretendia levar este post. Nao pretendia sequer que tivesse mais que umas linhas. Senti-me inspirada.

Toda a vida adicionei um ano a mais na minha idade, só como forma de "rebelia" por esta estupidez de lhe incutir um juizo de valor.  Adicionei mas nao aparentava.

Sinceramente, estou a chegar ao fim deste post e ainda não consigo lembrar a idade exacta que tenho.

E para que preciso de lembrar?

Bom domingo!




terça-feira, 12 de maio de 2020

Gostava de voltar aos meus 25 anos


Gostava de voltar a ter 25 anos apenas pela quantidade de tempo que ainda ia ter para colocar a minha vida nos eixos.

Sabendo o que sei hoje porque a experiência de vida mo fez vivenciar, gostava de poder "recomecar". Acho que esta ideia deve passar na cabeça de todos nós. Até mesmo na cabeça dos que estão felizes e não mudariam nada nas suas vidas.

Não que queira mudar. É mais querer viver com mais controlo da minha vida e, em situações pontuais, fazer outras escolhas. As que queria fazer o tempo todo e não fiz, por dar ouvidos às opiniões alheias e ceder a pressões familiares.

Uma das coisas que mais me disseram da pré adolescência ate os 25 anos, foi a frase: "Tens tempo".

"Deixa-te estar, tens tempo".

O que significa, adia, fica passiva, espera... tens tempo.

Pois o maior pecado que se pode cometer é desperdiçar tempo. Se tens em ti algo que precisas ver acontecer, não adies. Vai atrás.
Não é por teres 18 anos que "tens tempo". A vida são momentos. Se os deixarmos passar porque "outros  certamente virão", comete-se o pecado do desperdício.


No fundo, sinto-me confortavel com quem sou e não desejo voltar a passar pelas lutas que travei. Mas gostava de emendar algumas coisas. Talvez numa segunda chance, saísse vitoriosa?

Mal a outros nunca fiz, pelo menos intencionalmente. Se soubesse que, involuntariamente, tinha magoado profundamente alguém, ia resolver a situação. Não há necessidade de nos estarmos a odiar uns aos outros, a maior parte das vezes sem motivo ou com base em difamações injustas.  Sei o que é ter o nosso estado de espírito magoado por injustiças ou mal entendidos.  Morre-se por dentro. Dói. A minha natureza é desejar ir logo esclarecer tudo, deixar tudo bem. Tirar aquele "peso dos ombros" e sentir como subitamente o bem estar regressa em pleno.

Há  tanta gente que me deixou com mágoas que até hoje se fazem sentir. Pergunto-me quantas o fizeram sem perceber.

Voltava atrás no tempo para poder  ter a filha que sempre desejei. Que hoje já estaria a dar-me netos.

Estas fantasias... sinto-as como algo que era suposto ter acontecido. Estavam no meu caminho. Algo me desviou dele.

Lido bem com isso, apenas tem alturas em que se fica a imaginar o que teria sido a vida com diferentes escolhas.


sábado, 12 de outubro de 2019

A vida a mudar de vontade


Trabalhar costumava ser a coisa que mais prazer me proporcionava. Até ele aparecer.
Agora penso em coisas que já estavam esquecidas, e, por isso, não eram desejadas. 

Não sentia falta delas. 
Trabalhar, conviver com pessoas... esta simplicidade da vida, era tudo o que queria. 



Não sei se é efeito da chuva ou se é do tipo de pessoas que me cercam, mas têm aparecido uns tantos  machos a "sondar" se estou disponível. O primeiro foi o Jason (o do supermercado), depois foi um rapaz no trabalho onde estive apenas uma semana (lol), que já me estava a enviar mensagens e a elogiar-me... (WTF??) e mais recentemente... o tipo que me oferece boleia e do qual falei aqui.

Ele próprio disse-me que só quer falar com alguém adulto. Tem filhos adolescentes, o trabalho dele é conduzir camiões, logo, é uma função solitária. Gostava de falar com alguém ao final do dia e por isso oferecia-me boleia. Disse-me que não queria que eu pensasse que o fazia com segundas intenções. 

Até o que ele me perguntou a seguir, acreditei nele. Tinha ficado tão surpreendida e agradada pelo facto dele me ter tratado tão indiferente ao facto de eu ser mulher. Tratou-me como igual. Achei mesmo que tinha dado aquela primeira boleia motivado por bondade e nada mais. Principalmente por ter acontecido no dia em que aconteceu. Estava eu de rastos, sem saber sequer se o meu rosto conseguia disfarçar a angústia que sentia por dentro.

Porém, de seguida perguntou-me a idade, se era casada, se tinha filhos...
Disse-me que tinha 48 anos, dois filhos e obviamente, não tem companheira.

Estou CANSADA deste interrogatório.
Não há quem não pergunte, quem não queira saber. Quem não "julgue"!

Até mesmo mulheres, colegas de emprego.
"Onde moras? És casada? Tens quantos filhos?" - foram as perguntas que também escutei há coisa de duas horas, no trabalho.

Sabem quem NUNCA me colocou estas perguntas?
Ele.
Nunca. Nem uma única vez. E isso foi bom.


Digam-me vocês, que tipo de resposta alternativa posso eu dar a estas perguntas com que sou bombardeada? Já as escutei mais de 50 vezes!

domingo, 23 de dezembro de 2018

Juventude pretenciosa?


Os jovens podem ser Pretenciosos e Arrogantes.

Porque não os mais velhos?
Porque sabem que já não se safam com essas atitudes.
Às vezes, se pudessem, até as teriam.

E os jovens quando se virem mais velhos, perceberão que suas atitudes infantis não são mais tão bem vistas entre os pares. E mudam.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Comprei um cão



De louça. E vim toda feliz para casa por o ter comprado. 
Não estava na minha ideia fazer compras de artigos que não preciso e não são essenciais. No entanto, lá estava eu, a sorrir e a segurar o dachshund na mão.  


Minutos antes tinha avistado aquelas carnes secas para os cães mastigarem e sorri, porque despoletou lembranças. Terá sido por isso ou terá sido por já ter convivido com a raça?

Ou será outra coisa totalmente?


Pelo caminho lembrei-me do peluche. 
Há umas semanas encontraram um peluche que acariciei. Era muito macio e o gesto de passar a mão pelo boneco despoletou instintos maternais. Na ocasião até brinquei com isso. Disse que pensei já ter transitado para a fase "apetece-me dar uma chapata neste puto" e afinal ainda existiam em mim resíduos de cuidar e tomar conta da raiz até a idade da independência.

O que me trouxe outro tema à lembrança: este.

Sim, pode-se ter saudades do que nunca foi nosso. Como não?
Eu sinto saudade da filha que nunca tive e dos irmãos que lhe ia dar.


E nesse aspecto, ter encontrado à momentos um cabelo branco solto na indumentária, um que me passou despercebido, que não se fez anunciar, traz aquela sensação de tempo perdido, vida desperdiçada. Aqui estou eu, numa situação tão precária como se tivesse começado agora a minha vida de independência financeira. Não tenho nada que muitos outros têm: casa, família. Estou tal e qual como estava há 25 anos. Como se tivessem feito um bruxedo para ficar estagnada. A diferença está mesmo nos cabelos brancos. Eles surgem para me lembrar que o tempo está a acabar, se não é que já acabou. 

E, a pesar de tudo isto que não é animador, tenho o queixo nivelado e estou bem. (Terá sido o datchshund?). É o que é e será o que for.


Faz umas semanas um senhor de idade que, junto com outros, fazia trabalho voluntário no sítio onde trabalho, veio ter comigo e disse: "Hoje é o nosso último dia aqui, vamos embora" - estava visivelmente triste. Nunca o tinha visto antes e com ele nunca tinha falado. Mas isso não o impediu de dirigir-se a mim como se fossemos conhecidos de longa data.

Como alguém pode voluntariar-se para trabalhar de graça num lugar onde a maioria das pessoas que passam exigem tudo de ti sem serem bem educadas, é algo que me transcendia um pouco. Mas não é preciso pensar muito no motivo pelo qual aquelas pessoas exibiam, desde o primeiro instante, uma alegria radiante por ali estar. Ou tristeza por ter chegado ao fim. Vi-os nos olhos, nas palavras, nos gestos. Foi na ideia "para o ano há mais" ou "talvez nos chamem de volta no Natal" que encontraram o consolo que necessitavam.


Estão sós. Não têm muito convívio com outras pessoas. E é a rentabilizar em cima disso que outros tiram proveito. O senhor acrescentou com um tom guloso que o voluntariado não é de todo não pago pois pagam-lhes 40 libras mensais para o estacionamento e deslocação. Trocos minha gente... trocos. Digo que acrescentou isto com um tom guloso porque deu para perceber que algum dinheiro fazia a diferença. Não é só solidão e necessidade de estar em contacto com outras pessoas. Ao ponto de uma multidão delas, muitas mal educadas, ser o ponto alto pelo qual anseias ao acordar. 

É também a verdade oculta deste país: os idosos não têm todos uma reforma decente. Os que trabalharam a vida inteira em funções de "colarinho negro" (da época do carvão, ahahah) e sempre foram um pouco explorados, são os que melhor aceitam sem contestar o perpectuar dessa condição. Em troca de "migalhas".


E há sempre quem se aproveite. 
Chamam-lhe "voluntariado" mas também existem empregos. É comum ver cabelos na sua totalidade brancos, em rostos muito enrrugados, atrás de um balcão qualquer. Uma vez fui atendida por uma senhora muito simpática mas cuja idade pude perceber ser bastante avançada. Pela pele enrrugada por todo o corpo, braços, rosto, peito, diria que estava nos finais dos 70 ou mesmo já nos 80. Parte de mim ficou curiosa para saber porquê estava ali a fazer aquele serviço, ao invés de ficar em casa e dedicar-se a outros afazeres mais relaxantes e mais da sua escolha e preferência. Outra parte de mim não estranhou, porque sei que é no trabalho que encontro a minha felicidade interna e bem estar.


E foi por isso que, quando aquele senhor que estava no último dia de voluntariado se afastou, deixando no ar o distinto aroma de má higiene e usando roupas a necessitar de cuidados de engomadeira, subitamente percebi: Aquele ali já sou eu!

Aquele ali serei eu.
Falta pouco.
Na realidade já tenho tudo o que é preciso.
Só falta mesmo ficar permanentemente associada à idade avançada. 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

As quatro mulheres de mais idade com quem me cruzei hoje




Hoje atendi uma cliente de uma certa idade. Rosto enrugado, cabelos curtos mas ainda bem preenchidos e totalmente brancos. Vinha acompanhada de uma senhora de cabelos castanhos, com a pele do rosto lisa, excepção para umas tantas rugas de expressão. Falou-me que era o aniversário do que percebi ser uma neta. 


Então perguntei-lhe a idade da neta. Afinal falava de uma filha. Surgiu o número 55. A que a acompanhava- também filha, tinha 60. De seguida ela própria avançou a sua idade: 91 anos. Não aparentava. Porquê? Não só pelo aspecto físico, mas principalmente pelo discurso lúcido, rápido e a sua mobilidade dinâmica. Não caminhava com dificuldade, mas com soltura e ritmo. 

Quando penso em 91 anos, infelizmente associo esse número a já alguma dificuldade de mobilidade, a uma certa lentidão e falhas na memória e, também, uma certa curvatura na coluna vertebral. Garanto-lhes que não estava diante de nada disso. A senhora, inglesa, natural de Londres, perguntou-me de que país eu era originária. Respondi-lhe, o que a fez comentar:

-"Ah, vem de Portugal. Eu sei falar português." 

E não, não estou a traduzir. Respondeu-me em português e foi, também, a primeira vez que alguém a tentar falar a língua de Camões conseguiu fazê-lo de forma a entender-se na perfeição, com domínio e fluidez. Contou-me que morou alguns anos no Brasil na década de 60 e logo se despediu e seguiu caminho. 

Deduzi que aquela não era uma mulher comum. Não só pela genética que brevemente discutimos (aparentar muito menos idade parecia correr nos genes) mas pelo discurso. Perguntei-lhe se era viajada, respondeu que sim. Um sim que soou a contenção. Ser «viajada» talvez fosse uma forma simples que omitia uma experiência mais complexa - disse-me a intuição. Atribuí a sua admirável desenvoltura física e psicológica a essa condição de vida. Quem viaja, enriquece-se. No espírito e na mente. A mente não cai numa rotina imberbe, está a ser estimulada. Notei que era inteligente e culta. Ao dizer-me que morou alguns anos no Brasil deduzi - não sei porquê - que teria sido por motivos políticos, como por exemplo, ter um marido consul. Ela própria deve ter sido uma mulher de carreira e muito instruída, tendo circulado no meio de pessoas influentes e instruídas nas mais diferentes matérias. Notei, no tom empregue ao mencionar que viveu no Brasil, nova contenção. 

Simpatizei com a senhora e aprendi novamente uma velha lição: Na vida tudo é possível

Não há normas. Há estatísticas, generalidades, é certo, mas também há excepções. E estas podem deixar de as ser para se transformarem na norma. O seu português, ainda que aprendido no Brasil, não tinha sotaque nem me pareceu ser conjugado ao estilo brasileiro que hoje conhecemos. O português da década de 60 em terras de vera cruz devia ser bem mais formal do que nos dias de hoje.


As restantes três senhoras marcaram-me menos, mas também me recordo delas no final do dia. Todas com cabelo branco.

A primeira aguardava pelo marido, que tinha ficado para trás devido a uma enorme dificuldade de locomoção. Disse-me que tinha solicitado ajuda para deslocação mas que não lha tinham facultado. Fiquei tão preocupada que fiz questão de verificar que acabaria por a receber. Sem que percebesse a minha presença, confirmei que a ajuda que necessitava ia ser prestada. 

Neste país de scooters para andar no supermercado às compras, para andar na rua, para tudo e mais alguma coisa, por vezes em certas circunstâncias não facultam uma deslocação fácil a idosos com mobilidade reduzida. Nem se preocupam. E aquilo incomodou-me. Para todos os que conseguem andar, uns meros metros podem parecer coisa fácil. Quando avistei o senhor, com os bofes para fora, receei que lhe desse um piripaque no coração ali mesmo. Não foi nada fácil para ele caminhar "alguns metros" e a preocupação da esposa com a sua condição era justificada. 

 A segunda idosa falou um pouco comigo. Aguardava o filho que tinha ido comprar algo e pediu para que ela esperasse por ele num certo local. Mas ela, sabendo onde ele tinha ido, decidiu ir atrás e parou a meio caminho, onde eu estava. Falou um pouco disto e mencionou que o filho tinha ido visitá-la porque dentro de dois dias ia ser submetida a uma intervenção cirúrgica. Desejei-lhe boa sorte. Mas o que me veio à mente foi a possibilidade de dentro de dois dias aquela senhora sorridente e toda a sua energia podia estar destinada a apagar-se. Vida por mais dois dias, o filho tinha vindo visitá-la pela última vez, talvez um pouco contrariado. Um pensamento um tanto mórbido, talvez, mas intuí solidão, algum receio, amor, saudade, felicidade, desejo de ter o filho mais perto e mais presente e pouca paciência na comunicação entre mãe e filho. Continuei a trabalhar e perdi-lhe o rasto, não vi para onde foi nem se o filho, que nunca mais aparecia, surgiu e ficou mais um pouco com a mãe.

A terceira idosa esperava a neta. De início só percebi que esperava alguém e que tinham marcado um encontro por ali. Como não estavam a conseguir entender-se por telemóvel uma com a outra, a senhora pediu-me para explicar por chamada onde ela se encontrava, para a neta a localizar. Foi o que fiz. O sentido de orientação da neta não era dos melhores e acho que o receio de não encontrar a avó atrapalhou-a. Então pedi-lhe que voltasse a contactar a neta e foi então que as duas encontraram-se. Estavam a poucos metros uma da outra, mas cada qual a aguardar em sítios diferentes. Foi a idosa que partiu ao encontro da neta, ao perceber onde esta se encontrava. Uma senhora totalmente lúcida, amável, doce, com facilidade de deslocação. Ainda assim confirmei que se encontravam de facto. Ao me perceber perto, a neta agradeceu com umas vénias e eu regressei ao meu posto contente, por ninguém ter-se perdido e por perceber a felicidade naquele abraço que as duas deram. 


#idadenãotemlimites


domingo, 4 de março de 2018

Uma boa lição de vida - o céu é o limite


Estava a guardar este vídeo para um Domingo.


Tantas vezes pensamos que «estamos "mortos"» para tanta coisa na vida, e depois a vida mostra-nos que essa morte é uma escolha pessoal. Cultural, social. Enquanto vivos, a céu é o limite :D

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Fui um Pulha - final


O homem continuou em pé e eu distraí-me a começar uma conversa com a senhora idosa que se sentou ao meu lado. 

Só tive tempo para perceber que, na fileira atrás, uma outra mulher se preparava para ceder o lugar ao senhor idoso. Ao que este volta a recusar, acrescentando:

- "Deixe-se estar. Eu não mereço. Sou um pulha. Se a menina soubesse o que fiz na vida não ia querer dar-me o lugar. Fui um pulha nesta vida. Não mereço sentar-me.".


A a rapariga, intimidada e surpreendida com aquele desabafo, contraiu-se de volta para o seu lugar, em profundo silêncio. 

NÃO FOI A PRIMEIRA VEZ QUE ESCUTEI ISTO.

Homens de uma certa idade, nos transportes, a recusar um lugar afirmando serem desmerecedores desse gesto de cortesia, por terem levado uma vida «desmerecedora», e se auto intitularem «canalhas» ou «pulhas».

O que acham disto?
O que faz homens assim?
É a educação e valores que receberam?
É o aproximar da hora do juízo final?

Mas é muito interessante, a franqueza e honestidade com que se assumem pecadores. Talvez arrependidos, ou temerosos devido à avançada idade e à aproximação do dia do julgamento. Ou talvez, se fossem jovens cheios de vitalidade, novamente voltariam a cometer acções que hoje, com mais discernimento, os fazem a seus olhos uns pulhas desmerecedores de certas cortesias.


sexta-feira, 17 de março de 2017

Olhar o meu rosto


Minha avó.

Uma vez disse-me que não era ela que aparecia ao espelho. "Aquela não sou eu, pareço velha". 

Ela sabia que tinha envelhecido, que era avó, aceitava muito bem tudo. Nunca foi vaidosa. Então porque o disse? 

Porque tinha um «eu» por dentro, que não correspondia à pessoa ao espelho. A sua identidade não era aquela imagem que o espelho retribuía. 

Estava eu longe de imaginar que ia intuir o mesmo. 


Como também nunca fui vaidosa, apesar de estar rodeada de espelhos raramente olhei para um. Essa falta de vaidade estende-se às práticas que a sociedade actual estipulou como rotineiras e «necessárias» para a «beleza»: uso de cremes no rosto, no corpo, maquilhagem, etc, etc. Facilita passar meses sem apanhar a nossa imagem reflectida num espelho, quando não se tem estes hábitos. Nunca olhei para me ver, avaliar. Sempre apanhei o meu reflexo por acaso, sem lhe prestar atenção. Contudo, construí uma identidade visual de mim mesma, onde a aparência do rosto tinha características próprias. Essa identidade foi construida devido à existência de fotografias.



Durante anos apareci nas fotografias sempre com o mesmo tipo de rosto e de cabelo. Sem que tivesse percebido, acabei por me identificar com aquelas características. Reconheço-me.

Quem tem vaidade, quem cuida de si, acaba por ter vantagens. Porque está muito consciente das mudanças que o corpo pode sofrer. Tanto que faz de tudo um pouco para as combater. Então cada ruga, cada alteração, é assimilada como fazendo parte da sua pessoa.



Quem não é vaidoso e não se olha ao espelho, um dia tem um choque. Não se identifica com a imagem reflectida. Quando se procura no reflexo, encontra «outra pessoa».

Quando me olho, dou conta de uma série de características que não tinha e não dei conta de vir a ter. Rugas debaixo dos olhos, pele não mais de 20 anos...

Continuo a não ser vaidosa, a não cuidar de mim com os critérios que a sociedade impõe. Critérios esses ainda hoje discutíveis se verídicos ou fantasiosos. Seja como for, a realidade é que criei uma identidade como pessoa. E essa identidade sou eu entre os 20 e os 30, com um rosto mais ou menos maturo, mas ainda fiel pelo tempo. Este rosto de hoje mudou um tanto. Existem características que ele perdeu, que faz com que «não seja eu».



ESPIRITUALISMO

Dizem que a alma da pessoa não morre e esta, quando pretende comunicar-se com o mundo dos vivos, pode escolher a imagem que quiser. Recordo «testemunhos» de pessoas que afirmam ter vivido milagres ou ter sido visitadas por entes queridos já falecidos em sonho ou em doença ou mesmo despertas. Algumas descrevem que a pessoa parecia "o meu tio/pai/tia/mãe, mas mais novo". 

Algumas pessoas que afirmam comunicar-se com os espíritos dos mortos, costumam dizer que a pessoa está bem, em paz, num mundo sem dor e sem muita coisa que aqui sobrevalorizamos, e que escolheu como aparência para se comunicar "os seus 20 anos". Lembro-me de um episódio que vi de um destes programas sobre contactar os mortos, em que o contactado era um idoso que sofreu muito, acabando por ficar amputado, em cadeira de rodas, etc, outro caso era uma senhora que chegou a muitos anos de vida e que costumava ser muito vaidosa. No caso do senhor, foi dito que "onde ele está" pode correr como sempre gostou e que se sentia muito feliz porque ao fim de muitos anos conseguia finalmente andar com os movimentos livres e correr, que foi a sua paixão na vida. Do outro lado, não existem sequelas de doenças, não existem marcas de tortura, nada. A mulher que em vida tinha muita pena de ter perdido os seus fartos cabelos, mandava dizer que adorava os seus fartos cabelos e que escolheu essa sua imagem. Outros dizem que quem morre na infância, pode escolher aparecer como adulto.


Tomemos como exemplo o mundo do cinema.
Ali, todas essas mudanças ficam registadas. Mas, de alguma forma, o «mundo» seleciona a imagem que vai querer associar àquela pessoa. Algumas, ficam estigmadas com uma imagem mais madura. Outros, são sempre associados a uma imagem de muita juventude. 


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mudança de Visual


Tem-me apetecido mudar algo na minha aparência.
Mas não estava convicta de que mudar o penteado era a mudança que procuro.

O que mais quero mudar é a aparência da pele do rosto.

Não que tenha problemas mas... queria voltar a reconhecer-me nela. A identificar-me. Com a pele e com os meus traços. A idade e os seus sinais bem que podem ficar. Não me reconheço nos poros mais dilatados, nas diferenças ténues de tez, nas marcas de borbulhas do passado impulsivo... Se um dia soube que ia estragá-la tendo-a boa, hoje quero-a boa tendo-a estragado.

O que preciso agora é de uma mudança diferente.


Peelings?
Não sei.
Talvez um dia vá cuidar de mim como nunca pensei cuidar antes.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Devem ser os meus 20 e poucos anos...


Deram-me 20 e poucos anos.
Antes os tivesse.

Por nenhum outro motivo que não o poder aproveitar certas regalias facultadas aos que são jovens. Se tivesse tomado conhecimento das mesmas na minha juventude, teria tirado melhor proveito da vida e talvez chegado aos dias de hoje em melhor situação socio-económica e pessoal.

E por isso não me importava de ter 20 e poucos anos. 
Mas as rugas estão cá e mostram pressa em ter companhia.
Embora algumas pessoas ainda pensem que a ausência de uma testa enrugada é sinal de 20 e poucos anos, o fenómeno deveu-se mais ao efeito das luzes combinado com o branco do céu, só pode. 

Não me sinto com 20 e poucos anos, tenho mais experiência de vida que isso. Tem alturas em que o peso das coisas parece conferir-me uma idade sexagenária. Outras alturas há em que se regride a episódios de infantilidade. Mas acho mesmo que algo deve ter parado lá nos 20 e poucos anos. 

É como se alguém tivesse pressionado o botão de «pausa» mas esqueceu que o filme continuou a passar... chegou ao fim e outro programa já está no ar.



domingo, 10 de julho de 2016

Analogias: blogues e solidão


Manter um blogue e esperar que alguém deixe um comentário 
é o equivalente a ser idoso e passar os dias a aguardar 
que um familiar vá telefonar.





quinta-feira, 23 de junho de 2016

A importância da sesta


Os Espanhóis têm este estranho hábito: fazem a sesta.
Ao início da tarde fecha todo o comércio: é hora da sesta e vão todos dormir.

Na escola secundária um colega ficava incomodado quando a "stôra", para terminar a matéria, alongava a aula pelo intervalo de almoço. Para ele isso significava menos tempo para dormir e o facto era-lhe intolerável. Numa ocasião chegou mesmo a levantar-se e ir embora. Imaginem o que é andar na adolescência, ali em torno dos 18 anos, e não esconder de ninguém que vai literalmente a correr para casa à hora de almoço para ingerir a comida da mãe, meter-se rapidamente no pijama e dormir na cama. Parece que está a descrever-se como a um bebé de um aninho... Uma sesta para ele tinha de ter pelo menos duas horas, ou achava pouco e mostrava-se rabugento.

Os colegas da mesma idade estranhavam. Afinal, todos nos sentiamos logo mais energéticos quando chegava o intervalo grande... o do almoço. Tínhamos tanta energia que queríamos despendê-la em actividades variadas e não desperdiçar horas do dia a dormir. Isso era para a noite. E aquele rapaz - um dos mais inteligentes nas matérias todas - só pretendia dormir.

Mais tarde, o ano passado para ser precisa, na universidade, tive um colega com 25 anos que aparecia com cara de quem acabou de acordar, aguentava uma hora de aulas até dizer que o que mais queria era ir dormir. E algumas dessas vezes, foi! 


Dormir? 
Se há coisa que fiz pouco na vida e com a qual muito duelei foi o sono.

Deve ser por isso que agora estou a pagar a factura.


Preciso de tirar uma sesta.
E por sesta quero dizer um curto coma.

Não interessa se durmo duas ou 13 horas.
No dia seguinte ainda me sinto cansado.

Querido sono:
Sei que tivemos problemas no passado.
Mas agora amo-te muito!
A minha droga é o sono...
O meu fornecedor é a cama...
E a polícia é o despertador!