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domingo, 2 de abril de 2023

Cheated of my life

 

Foi um comentário no youtube que me fez repensar tudo. Meus pais são vivos. Se a ordem das coisas for a usual, irei os perder antes da minha vez também chegar. Não sei como será quando isso acontecer. Comecei a temer essa altura. 

Mas depois de ler aquele comentário, comecei a pensar noutra perspectiva que tal mudança traz para as nossas vidas. Ficará mais solitária? Sim. Mas terminará também uma co-dependência. 

O comentário foi o desabafo de uma mulher que, no leito de morte da mãe, a ouviu dizer: "Agora vais poder COMEÇAR A VIVER". 

Essas palavras, e a admissão da própria que, a pesar da dor, nesse instante foi exatamente o que aconteceu, ressonou dentro de mim. 

Em vez de focarmos-nos na perda, deviamos focarmos nos ganhos. 
A nossa vida re-começa. Não temos mais aquela pessoa ali que, pode parecer para bem mas, se calhar, também é para mal, está disponível e nos exige disponibilidade. 

Achei muito interessante aquela mãe saber que estava, de certo modo, a impedir a filha de viver e dizer-lhe que a sua morte significava liberdade para ela. Mas que coisa linda de se dizer. Talvez o derradeiro gesto realmente altruísta de mãe. 

Porque, sejamos sinceros, altruísmo em mãe está muito sobrevalorizado. A maioria é capaz de actos altruístas mas tem sempre uma base egoísta. Acho até que o egoísmo pesa mais na balança dos pais que outra coisa. Pelo menos a minha experiência assim o diz e, até hoje, é algo que constato diariamente. Eles, contudo, estão alheios a essa realidade. Preferem interpretar as coisas com a conotação tradicional. É mais cómoda e soa melhor. Porém, não é a realidade. 


 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Velórios e últimos adeus

Até este momento da minha vida ainda só estive presente em três velórios.

Os dos meus avós e o de uma irmã de um deles.

O que retirei desta experiência é que cada um é diferente
E é assim mesmo que tem de ser. 

Estava aqui a pensar e subitamente percebi que é até possível um dia não vir a estar presente num velório, mesmo sendo o de uma pessoa de quem gosto ou tenho por laços de sangue obrigação de lá estar. Não fará de mim uma pessoa que goste menos ou mais do falecido. E o julgamento de terceiros não devia condicionar.  


Digo isto porque, como disse, cada um foi diferente. No primeiro, fui ao velório e fui à cremação. No segundo, fui ao velório mas não à cremação. Sabia que a pessoa não queria ser cremada, embora um familiar tivesse garantido que sim e os outros foram atrás por acharem a ideia bem mais cómoda e repudiarem a existência de um corpo enterrado e o seu lugar assinalado com uma lápide. Como se isso fosse um absurdo, quando o sepultamento tem sido a prática de gerações e gerações. Depois acrescentaram não estarem para "ter de cuidar da manutenção da campa". Como se isto fosse sobre eles, e não sobre a pessoa falecida e o seu último desejo.

Não fui e não senti falta de ir. Nem precisei, escutei a voz da pessoa que faleceu aquando o seu velório, logo após os procedimentos do padre. Mais ninguém pareceu escutar e eu soube o que ela queria e fiz-lhe a vontade. 

Ela falava a rir, daquela maneira que ria quando era viva, estava ali presente, claro, como estaria também se viva fosse. Gostava de ver o que estava a acontecer no momento e estar com pessoas. Já o meu avô esteve ausente no seu velório, só "apareceu" no final, depois da cremação consumada. Queria nos tirar o pesar, estava incomodado com ele quase sem o entender. Fazia questão de repetir que estava bem, que nunca se sentiu melhor. Estava feliz, podia correr, tinha energia e estava com uma pessoa querida. 

Se não quiserem não acreditem mas isto aconteceu. Acho que se os mortos "falam" do além, fazem-no com todos. Mas escuta apenas aqueles que estiverem na frequência certa, num momento em que se torna possível. E lá por acontecer uma vez, não é garantia que acontece mais. São muitas as variantes.  

Mas isto para dizer que contemplo a possibilidade de um dia não comparecer nem a um velório, nem a uma cremação/enterro. E se calhar, talvez compareça a todos ou, com sorte, somente ao meu. 

Gostava de ver todos a serem eles mesmos, sem máscaras. Mas há quem use máscaras a vida inteira e assim, quando uns aparecem para velar o morto, é como se aparecessem para o enterro de um desconhecido. Vêm prestar um extremo pesar junto à família por alguém que só existiu para eles. 

Isto faz sentido? 

Sim, faz. Basta pensar quando um artista morre. As massas entram todas em luto mas só a família sabe realmente quem era a pessoa que estão a velar.


Estava no facebook quando vi o post de uma pessoa que conheço bem. E o que ali aparece não é o que a pessoa é no dia a dia, sem os "holofotes" das atenções de terceiros. Imaginei aqueles que comentam o post a aparecer ao velório... transtornados, como se tivessem perdido a pessoa mais simpática do mundo. Mais um dos "bons e justos" que se vai, etc. etc. 

Ao perceber isto pensei que não ia gostar de estar presente.
Mas a vida é assim mesmo e não admitir que seja também não ajuda ou altera seja o que for.
É navegar com a corrente?