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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Atrações Física-químicas inexplicáveis



Há coisas que não sei explicar. São coincidências, sensações ainda por definir numa palavra apenas. 
Pelo menos que eu lembre ou conheça. Alguém mais erudito ou elucidado saberá, decerto, indicar-me que palavra isolada refere-se ao que a seguir vou descrever. Afinal, existem palavras para definir tudo nesta língua portuguesa. 


1) Quando estava a morar na outra casa, passei a frequentar um parque um pouco afastado e, mesmo antes de lá chegar, passava por uma longa rua que eu achei que tinha lindas casas, com traços antigos. Punha-me a olhar para elas, imaginando o que se terá vivido ali noutros tempos e o que era das casas agora. E como seria bom poder comprar uma casa ali, recuperá-la e viver numa delas.


Por coincidência, vim morar numa casa nessa mesma rua. 



Coincidência? 
Ou ter gostado, ter sentido uma ligação, um apreço pelo local conduziu a este desfecho?



2) Há coisa de seis meses, quando comecei a ir e regressar a pé do emprego ocasional, sempre pelo trajecto do autocarro, notei uma rua com o nome Newton. Não tinha de caminhar por ela, simplesmente reparava na placa com a indicação e punha-me a imaginar o que estaria por ali. Achei curioso existir uma rua «Newton» no meio de outros nomes que nunca me chamaram a atenção. Associo o nome "Newton" ao físico Isac Newton, cujas leis estudei na escola, um tanto sem grande aptidão para a disciplina. FÍSICA... (Ai,!!) As principais três leis de Newton são: O princípio da Inércia, a Força e a Acção Reacção. (Tive de ir espreitar, já não estava lembrada, eh,eh).

Por esta altura, estava muito desanimada e triste. Já não podia mais ocultar o sol com a peneira e continuar sem admitir que os colegas na casa não conversavam comigo. Além de me sugarem boas energias, desanimava-me. A nível laboral candidatava-me a tanta coisa e não havia meio de algo decolar. Senti que tudo não dava certo. Por isso roguei muito ao Universo, em estado atónito e de incompreensão, para que me fizesse o favor de colocar gente boa na minha frente! Porque merecia.

E foi então que em Julho surgiu um emprego. Ia durar apenas dois meses mas, aproveitei. Fui abordada via telefone por uma agência de recrutamento que nunca contactei a pedir trabalho. Isso surpreendeu-me. Quis saber como chegaram até mim. Mas, num mundo global onde a partilha de dados pessoais tornou-se uma banalidade, acabei por deixar passar e abracei a oferta de emprego com satisfação, gratidão e ânimo! 

Enviaram-me por texto a morada da empresa, «segue por esta rua, até ao fundo... vira à esquerda...»
Algo confuso, feito "acima do joelho"... No primeiro dia, quase me enervei, não dava com ela. Lá arrisquei procurar na esquina, ao final da rua indicada... e encontrei-a.

A empresa funcionava na rua... Já adivinharam? A rua era a Newton!


Acho tremendamente curioso que tenha sentido atracção e curiosidade por uma rua e terminar por arranjar emprego nela. Também tenho de acrescentar o parque! Passava por ele "de raspão", a caminho do tal emprego. Despertava-me muita curiosidade. Mas nunca me atrevi a aventurar-me por ele, pois não sabia ao certo onde ia dar e temi aumentar demasiado o tempo de percurso pedonal, acrescentando cansaço desnecessário aos pés e pernas. Quando descobri que o parque onde passei a ir todas as tardes à hora de almoço pela entrada a Norte era o mesmo pelo qual passava a sul, fiquei maravilhada!

Dois locais a suscitarem a minha atracção, onde acabei por ir parar por um curto período de verão. 

É como se existisse uma energia extra-celestial, de uma outra dimensão, que de vez em quando estende-nos um tapete, esperando que consigamos ler as mensagens do caminho.

Nesta rua de Newton... 
Foi onde tudo aconteceu e deixou de existir. 



A terceira lei de Newton fala de "acção-reacção": "Quando dois corpos interagem, as forças exercidas são mútuas. Se o corpo A faz uma força no corpo B, o corpo B irá fazer a mesma força, só que no sentido oposto, em A".

E sim, existiu um princípio de atracção mútua. Mas a força final foi poderosa e em sentidos opostos.


Resta-me rezar bastante para que a minha cabecinha fique mais lúcida, consiga ler entre as linhas destas súbitas mensagens e comportar-se à altura. Sinto muita curiosidade para saber qual o nome que se segue. Se terei mais alguma intuição/atracção, alguma energia especial por aí...


Qual a palavra para isto?


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Falta de noção com falta de moral


Isto aconteceu comigo à pouco e achei que era um bom assunto para trazer até o blogue.
(mesmo existindo uma hipótese de exposição)

Estava a sair da estação do metro (quase meia-noite) rumo à paragem de autocarro. Nisto escuto a música ambiente bastante alta. 

«Há noite o metro vira uma discoteca!» - pensei a ironizar. 
«Podia já fazer-se uma festa aqui» - acrescentei.

E como quase sempre acontece quando me deparo com uma situação caricata, "saco" do telemóvel na intenção de registar o insólito. 


E como quase sempre acontece, quando se tem algo mesmo «giro» que se quer registar, o telemóvel está a perder a bateria e o armazenamento atingiu o limite :)

Pela altura em que consigo chegar à camara, carregar no botão e ver aquilo reagir ao comando, já a música tinha chegado ao fim. Quando regressou, como temi, veio um pouco menos alta. E manteve-se assim, oscilando entre o baixo e o alto, mas não aos berros como estava quando me surpreendi com o inusitado. Fiquei a pensar quem é que estava responsável pela sonoridade da estação e se estavam a pensar se divertir naquela noite, quanto todos tivessem ido embora...


Há medida em que fui avaçando, fui percebendo que outra música ambiente da estação estava a tocar no fundo. Muito ténue, quase imperceptível. Existiam então DUAS fontes de som ambiente? Estranho. Nunca percebi tal situação. Observei ao redor enquanto me dirigia para a saída da estação, a tentar perceber se estavam em reparações ou a fazer testes. Nada percebi nenhum indício. Mas era distinto a presença da música alta com a ténue e discreta. DUAS fontes de música inundavam o mesmo espaço público.

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Saio então da estação e, cá fora, na rua, após sair do elevador que me isolou do subterrâneo musical, os ouvidos foram novamente surpreendidos pelo mesmo volume de decibéis exageradamente elevados. De onde vinha a música? De um aparelho transportado a tiracolo por um rapaz. Deve ser aquilo a que chamam boombox. Em termos sonoros é o equivalente às colunas de som stereo daqueles automóveis mais irritantes, que quando param num semáforo com a música aos altos-berros, só dá é nos nervos de quem está em casa a tentar se concentrar numa qualquer tarefa. Só que, desta feita, fizeram-nas portáteis para humanos. 



O rapaz também se dirigia à paragem. Onde já se encontrava um outro. Este também estava a escutar música, mas usava phones nos ouvidos. Daqueles que não deixam transbordar ruído para fora (esses são um atentado!). Este rapaz, que já se encontrava ali, teve de se afastar. Certamente para não se sentir incomodado. Afinal, se já estava a escutar música - certamente da sua preferência, não tinha porquê ter de ser sujeito a escutar outra, que não podia escolher se queria ouvir ou não.

Eu fiquei curiosa e quis registar o inusitado. Mas com o telemóvel a dar as últimas, fiquei ali a tentar apagar cenas que ocupam espaço para ver se apanhava um pouco daquela curiosidade. Discretamente, ou tentando ser discreta. Gosto de registar, mas não torno público coisas que, mesmo sendo feitas em lugares públicos, possam afetar a identidade de terceiros. Quem me conhece daqui sabe o que penso a respeito dos direitos de cada um.

E por isso mesmo tive o ímpeto de chegar perto do rapaz e lhe perguntar: "O que te faz pensar que não faz mal impores assim a música às outras pessoas?". 


Sério... tive curiosidade. Inclusive dirigi até o rapaz, que por esta altura conseguiu a proeza (imagine-se como) de ter o banco da paragem exclusivo para seu usufruto. Nem eu, que pretendia aguardar a chegada do autocarro ali sentada, nem o outro rapaz, ficámos por perto. Tanto ele como eu nos afastámos um tanto. Os décibeis eram realmente altos. Tenho a certeza que se faziam ouvir nitidamente nas habitações dos prédios à volta. Aquela música podia ser escutada nos arredores e num raio enorme de alcance. Cada uma das pessoas já em suas casas, dentro daqueles apartamentos, nos prédios de 10 andares, três ou quatro fogos cada, mais de duas centenas de áreas de habitação, cada qual com o seu número variável de ocupantes - todos podiam escutar a música.

O que justifica a minha curiosidade. Queria mesmo saber o que fazia o indivíduo achar que fazia bem ouvir música assim. Alta, àquela hora da noite - quase meia-noite. 

O indivíduo até me pareceu que podia ser boa gente - embora com falta de respeito e provocador. Sorriu, percebeu que os restantes se afastavam e até aumento mais ainda o volume da música por causa disso. De alta passou a altíssima. E ficou ali, senhor e rei do espaço, sentado ao centro do banco que dá para três se sentarem, de pernas ligeiramente abertas, mãos nos bolsos, por onde controlava o volume da maquineta. De vez em vez, olhava para nós - que nos afastámos.

Olho no seu rosto, ele olha no meu. Avanço dois passos na sua direcção para lhe perguntar o que o faz pensar que está bem ouvir música assim, e fazer todos ouvi-la também. Mas opto por recuar, abanando a cabeça e esboçando um sorriso intrigado, mas não crítico. Quero é registar o inusitado - sem com isso pretender incomodar o indivíduo - mesmo este estando a incomodar todos. 

Ocorreu-me até pergunta-lhe se o podia filmar um pouco - só para registar a situação. A pesar de ele estar num local público e não ser proibido recolher imagens em sítios que são para usufruto de todos e pertencem aos cidadãos no geral. É uma questão de ética pessoal. Mas ia pensar nisso assim que conseguisse por o telemóvel a funcionar. Tive até de o re-iniciar, porque é tão velho que fica "cansado" e reage com lerdeza a quase todos os comandos, podendo até "apagar-se" se puxarem muito por ele.

Quando finalmente deu sinais de vida, o autocarro tinha acabado de abrir as portas. Apressadamente ainda carreguei no botão, que demorou a reagir. Primeiro, "fugiu" o menu, tive de voltar a este e então carregar novamente, já o indivíduo estava dentro do veículo, onde reduziu consideravelmente o volume da música, embora não a desligasse. 

Assim que pisei dentro do veículo com o meu telemóvel em riste, como o vinha a ter desde que saí do metropolitano (até então estava no bolso), o rapaz de imediato começou a fixar-me. Acho que achou que o estava a filmar e pareceu que talvez não gostasse. Mantive o telemóvel na mão, mexendo nos menus e vendo a imagem do rapaz. Ainda que não conseguisse registar o momento mais alto de toda a situação, quis registar algo. 

O rapaz parece olhar muito para mim mas para ser honesta, eu nem liguei. Estava mais a olhar para fora da janela, a tentar absorver um pouco das parcas decorações natalícias. 

Nisto o autocarro chega a uma paragem, o rapaz sai e quando o pé já vai meio de fora diz-me assim: "Se isso aparecer nas redes sociais processo você".



Aquilo desiludiu-me. Deixou-me chateada.
A lata, o descaramento... e a cobardia.
Se tem algo a dizer, que o diga de modo a poder escutar uma resposta. Se quer fazer uma ameaça, que a faça quando já não está a fugir do local onde deixa a ameaça. 

Mas o que realmente me incomodou foi ele me nivelar ao seu patamar. Eu jamais colocaria nas redes sociais. Tenho noções de ética e respeito que claramente lhe escapavam. Estar a nivelar-me pelo seu exemplo deu-me asco. 

Gosto de registar momentos - todos os que poder, de inócuos a aparentemente relevantes. Gosto de fotografar sombras e paisagens. E geralmente aguardo as pessoas desaparecerem destas ou não ficarem identificáveis. Ainda assim, o que registo é para mim, não exponho ninguém em fotos que possa disponibilizar a mais alguém. A menos que não tenha hipótese, como por exemplo, se achar inusitado uma fila enorme para... comprar pastéis de Belém, por exemplo. Aí, se fotografo ou filmo a fila, esta é composta de seres humanos com rosto... algum terá de ficar mais exposto. Mas também, aí é local público. Até eu, por ter a semana passada circulado na baixa para ver as decorações natalícias, sei que fiquei registada por uma dúzia de câmaras que filmavam e fotografavam. Haviam turistas que, quando eu dava por ela, já me tinham enquadrado na sua mira fazia tempo.

Nessa ocasião, ao me dar conta que uns indivíduos estavam a tentar vender maconha aos que passavam, tentei registar a situação - mais uma vez pelo inusitado. Sempre ouvi falar mas nunca tinha "apanhado", ali, no centro da rua augusta, tal coisa. Mas claro: assim que o telemóvel que já trazia a gravar o ambiente tentou discretamente apanhar os indivíduos a abordar alguém, os mesmos pararam de o fazer. E eu acabei por afastar-me.

No fundo, sou uma colectora de vida. Só gosto é de registar os momentos tal como eles são. Fico triste quando os observo mas os perco, e lamento quando cessam só porque notaram que os tentava registar. Não pretendo com isso mais nada senão apanhar o quotidiano, o dia-a-dia, os costumes. Daqui a uns anos estes mudam tanto que será uma preciosidade existir qualquer registo dos mesmos. Basta pensar na dificuldade que é hoje ter em registo em vídeo ou fotografia de uma qualquer cena quotidiana dos anos 80 - como por exemplo aqueles rádios portáteis gigantes, com um deck para cassetes, usados na rua pelos "rockeiros", que se balouçavam ao som daquilo e que geralmente transportavam em cima dos ombros, bem perto do ouvido (como se fosse possível não escutar, ahaha) enquanto mascavam pastilha elástica para ter «estilo».  Este «puto» no metro não inventou nada que ninguém não tenha vivido antes, apenas era uma versão modernizada de um mesmo costume. 



Mas isso que descrevo é outro tema. Contudo foi essa situação que me enervou. O descaramento! A «ameaça» do rapaz, por temer ir parar a uma qualquer rede social. Ameaça essa que, se me tivesse afectado, seria no sentido de me alertar para ponderar fazê-lo. Nem se deixa rasto... Certamente ele o faria, sem pensar duas vezes. Se calhar já o fez a outros. Só posso deduzir assim, devido às circunstâncias.

Quem estava a cometer uma ilegalidade ali, que eu saiba, era ele. É mesmo proibido pela lei do ruído (e isso inclui o volume de música) produzir sons altos ou ritmados que possam interferir com o sossego e descanso das pessoas. Fazê-lo dá direito a coima. Penso até que nem é preciso esperar pela meia-noite - hora para a qual os ponteiros do relógio estavam quase a chegar. Julgo que é logo a seguir ao final de um típico expediente de trabalho das 9h Às 18h que não se pode mais fazer ruído. E este tipo estava a cuspir música a altos décibeis para toda a região escutar, desrespeitando o espaço dos outros. Quando pressente o seu invadido, aí é que se sente incomodado?
Achei de uma evidente falta de noção e falta de moral.



PS: gravei uns segundos da música, quando esta estava alta, não no volume máximo em que o tipo a pôs mas perto. Mesmo com um mau gravador - um gravador de tanga e com uns metros de distância, surpreendeu-me a clareza e nitidez que ficou registado. Quando souber como colocar aqui um clip de som - ou quando me apetecer saber, incluo porque isso é aquilo que falei acima: gosto de registar os momentos. Ler é bom, mas nada explica melhor do que ver ou ouvir.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Valorizando a Caixa Registadora


És bom no teu trabalho se fores o que colectou mais dinheiro dos clientes

Foi a essa conclusão que cheguei após escutar a conversa entre três chefes. Falavam de empregados quando chegaram ao nome de um rapaz. Um dos chefes não estava a lembrar-se de quem se tratava pelo que depois de uma breve descrição lembrou-se. A descrição que mais usaram para o definir foi «ele é muito bom». Mas já não se lembravam onde ele andava. Por fim, curiosos, chegaram à conclusão de que o «muito bom» já não estava a trabalhar na empresa. Talvez para lá de dois meses. Ninguém sabe quando foi embora!

Fui eu que adiantei: Acho que ele só pretendia ficar até finais de Junho, Julho - participei.

Estamos em Setembro. 
Passou Julho, passou Agosto. E veio Setembro.
Em todo este tempo ninguém sentiu a falta do «muito bom».

E o que achei realmente grave: ninguém sabe as circunstâncias em que saiu da empresa. Se comunicou a alguém, a quem, ou se algo terá acontecido. Só chegaram àquela conclusão por um deles ter avistado um documento que permite essa dedução. 

Mas eu adivinho. 
Trabalhei com ele e escutei a sua postura diante da empresa. O «muita bom» estava a cagar-se para aquilo. O «muita bom» não pretendia ficar ali muito tempo. O «muita bom» só gostava de gabar-se. Era tão inconveniente e fazia comentários irritantes que até teve um superior a «relembrá-lo» quem mandava ali. Achava-se o maior, o melhor. O mais rápido e ele próprio dizia a todos os outros que era quem mais fazia dinheiro todos os dias. 

Mas como é que o «muita bom» conseguia essa proeza?

O «muita bom» era LADRÃO de clientes. 
O «muita bom» encostava-se à caixa registadora e não se afastava muito desta. Recusava-se a fazer todos os outros trabalhos dentro do bar, como arrumar os copos nas prateleiras. Porque nesse simples ato podia perder um cliente para outro colega e isso arruinava o seu objectivo de ser o «maior». O «muita bom» deixava o trabalho pesado para os outros. E se avistasse um cliente a aproximar-se do lado oposto, mesmo que um outro colega estivesse mais perto e já a estabelecer contacto com o cliente, ele ignorava e «roubava» o cliente.

Outros ali fazem o mesmo.

E ele era mentiroso. Gostava de inventar histórias. Porém descobri-o também traidor e vil, porque quando serviu de testemunha do conflito que tive com o bully, vim a descobrir que todo o seu depoimento foi inventado. Foi como ler um conto de ficção científica. Ele pôs-se a relatar acontecimentos que não presenciou, atribuindo falas às personagens que jamais foram pronunciadas. Só que as «personagens» não eram ficcionais, eram pessoas de carne e osso e ele não teve escrúpulos em brincar com a vida de outras pessoas. O que demonstra mau carácter. 

Por isso não considero este tipo de empregado «muito bom». Considero-o bem mediocre e de pouca confiança. Porque além de «roubar» clientes e recusar-se a trabalhar, também dava para entender que estava-se nas tintas para tudo. Se isso é ser «muita bom»? Acho que é o oposto.

Cheguei à conclusão de que uns são «formiguinhas obreiras», como certamente é o meu caso. E outros são as «rainhas da colmeia» ou as «celebridades» locais, que irradiam um falso brilho sobre o qual giram os mosquitos e outros insectos parasitas. E nem sempre estas pessoas são melhores pessoas. Muitas vezes, são até o oposto. Tirem-lhes o apoio das formiguinhas obreiras e não são nada. Contudo, são as formiguinhas obreiras que são consideradas dispensáveis. 


domingo, 14 de agosto de 2016

Outra vez não, pela minha sanidade!



Após uma experiência recente, ando preocupada com a eventualidade de voltar a escutar ruídos contínuos. O ano passado padeci horrivelmente de tortura com o ruído de pancadas 24h sobre 24h que parecia ser inaudível para terceiros. Pois NINGUÉM neste prédio alguma vez se queixa de coisa alguma. São todos surdos... Ou fazem-se. Só quando «alguém» avança é que algumas vozes dizem que, afinal, o ruído também as incomodava...


Não sou nada de me meter a reclamar, mas acho espantoso que um ruído mecânico ritmado como aquele tenha sido emitido por todo o prédio durante sete meses e só num período em que ficou bastante estrondoso ao ponto de parecer uma explosão é que alguém referiu ter «escutado» barulho na véspera... 

Isto em Julho, quando o ruído já existia desde a altura do Natal.

E era impossível não o escutar durante o dia num determinado andar. Ocupado por uma família que não tinha ido de férias.... Que por acaso fazia parte do corpo da Administração. LOL. Aprendi que esses são os piores. Querem fazer parte da administração do prédio para poder usar e abusar, só pode. Não fosse a criança na altura a dar com a língua nos dentes - inocentes e verdadeiras como elas são, até se diria que a casa estava mergulhada num silêncio e paz absolutos. 


Receio voltar a ter o sossego ocupado por ruído mecânico. E se assim for, a tortura regressa. 
Não sou esquisita ou intolerante. Mas aprecio o silêncio e tranquilidade. É tão regenerador! Já fui submetida a diversos ruídos incessantes e torturosos, ao ponto de não suportar mais e soltar um sonoro berro. Mas mantive-me tolerante, calada... Por anos. O que só me deu cabo do sistema nervoso. Não recomendo! Foram anos de poucos momentos de silêncio e constante barulho fora e dentro de casa, onde este era até pior! Ruído pela madrugada a dentro, fins de semana também, nenhuma possibilidade de adormecer... um pesadelo. Doente ou não, sempre ruído. Daí hoje encontrar-me no limite.

Prefiro escutar ruídos «normais», como as cigarras lá fora a fazer o seu banzé, ou ruídos aos quais pessoas da cidade estão acostumadas: um ocasional automóvel a passar na estrada, um avião ou helicóptero mais ruidoso, as terríveis motas ensurdecedoramente barulhentas... sons passageiros, tudo bem. Tenho tolerância. Para além disso acho insustentável. 


Instalaram um destes bem perto da janela do meu quarto... O que acham? Devo entrar em pânico ou o vizinho, que já mostrou indiferença pela produção do ruído da instalação, terá tido o cuidado de escolher uma marca e modelo super silencioso? 



Uma interessante explicação dos efeitos à exposição de ruído:
O ser humano tem um limite de 85 db para níveis de ruído. Muitos sons do nosso ambiente excedem esse patamar. Numa discoteca o ruído é em média 120 dB; um motor de caminhão é de 105 dB; o do avião 125 dB. a exposição contínua a esses ruídos altos pode levar a perda da concentração, irritação permanente, impotência sexual (devido ao stress), distúrbios do sono, dores de cabeça, distúrbios cardiovasculares, distúrbios hormonais, gastrite, disfunções digestivas, aumento da freqüência cardíaca e PERDA AUDITIVA.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ver reportagens antes de dormir? É melhor não....

Devia mesmo parar de assistir a reportagens horas antes de ir dormir. Termino de vê-las e sinto revolta! Tenho agora uma imensa vontade de expor o meu ponto de vista sobre determinados temas que acabaram de me enojar e preocupar. Mas o pensamento é mais rápido que a escrita e tudo o que me passou rapidamente pela cabeça e estava tão certeiro, agora, diluiu-se no cansaço e avançado da hora.

Sempre assisti a programas, principalmente sobre homicídios (resolvidos, que os não resolvidos produzem a mesma inquietação) mas nos últimos dias deixei os de crimes para trás e comecei a assistir na panóplia de ofertas no youtube, a reportagens de casos reais numa ampla diversidade de temas, sempre controversos. Muitos são revoltantes e quase que me tiram a fé na humanidade.


Aquele que mais quero vir aqui falar, deixo para outra ocasião. Mas é sobre um assunto muito importante que se vem a manifestar na nossa sociedade cada vez mais e é muito pouco falado. Mas posso escrever sobre outros que vi esta noite. Como por exemplo, leis impostas a crianças nas escolas. Para as «educar». Numa escola algures nos EUA (claro), as crianças estavam proibidas de fazer grafitis. Uma menina de 12 anos foi pega pela professora a rabiscar a carteira com um marcador não-permanente, a polícia foi chamada e prenderam a criança. Sim, presa! Com direito a algemas e escoltada algemada até a delegacia. Fica com cadastro criminal para o resto da vida, inclusive. Pode uma coisa destas?? 

Noutra escola, desta vez um infantário, uma outra menina que estava a fazer uma birra foi também presa. Noutra escola um menino de 8 anos disse que a professora era bonita. Foi preso sobe a acusação de assédio. (!!! LOL). E outros foram presos porque... arrotaram.

Eu até pensei que por instantes já não estava a viver no planeta Terra, mas em Marte ou algures fora da realidade... Será que os adultos ficaram tão incapazes de formar as mentes durante a infância que só lhes resta apelar à violência?
Foto retirada da internet

Se me contassem que isto aconteceu na Arábia Saudita, algures na África, na Sibéria... na Coreia do Norte... Opa, eu ainda que em choque, ia entender, porque existe uma percepção de vida bem diferente da chamada vida do «mundo liberal». Mas nos EUA? 

OMD!
Não posso mesmo continuar a assistir a documentários destes!

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não foi uma torneira, foi um conta-gotas

Não resisti: procurei, encontrei e vi o filme "Sufragistas".

Ao contrário dos últimos que visionei, o final é a parte mais forte. Nesses créditos surgem as datas em que o direito das mulheres ao voto é finalmente obtido na Inglaterra. Logo de seguida passa uma lista de muitos outros locais no mundo onde o direito ao voto no feminino é permitido, e respectivas datas. Infelizmente não aparece Portugal. 

A Nova Zelândia detém um título de causar orgulho: foi o primeiro país a conceder às mulheres o direito de sufrágio. Mais de 30 anos antes do Reino Unido. O último a fazê-lo foi a Arábia Saudita, em Dezembro do ano passado. Acho que é um momento digno de livro! Se fosse uma mulher saudita, faria por escrever um livro detalhando os acontecimentos e até já tenho título*: Dedo Púrpura.

mulher muçulmana a mostrar o dedo de voto
Mas então e Portugal? Fui verificar. Já tinha lido sobre a primeira mulher a votar em Portugal- Carolina Beatriz Ângelo, médica cirurgiã, viúva e com filhos. Aproveitou uma lacuna na lei e em 1911 votou! E ainda bem que o fez, faleceu pouco tempo depois, coitada!! Trataram logo de mudar a lei, não fossem aparecer outras mulheres com as mesmas pretensões. 

à direita: Carolina no dia em que votou (28 de Maio de 1911)
à esquerda: Ana de Castro Osório, escritora e presidente da liga de sufragistas portuguesas
A segunda mulher a votar em Portugal só o pode fazer 15 anos depois de Carolina, em 1926. Mais uma vez, o acto de cidadania só era autorizado às mulheres com curso superior ou ensino secundário completo, que fossem maiores de idade e chefes de família. Em 1931 estendeu-se um pouco mais as condições, que ainda assim permaneceram restritivas. Em 1933 novas mudanças... as solteiras de boa índole poderiam votar... para as juntas de freguesia, somente. A total igualdade constitucional só surgiu de verdade depois do 25 de Abril de 1974... Mais precisamente na constituição portuguesa de 1976!

Foi só aí que as mulheres adquiriram um estatuto de igualdade. Passaram a ser cidadãs de primeira classe, não de segunda. Acabaram-se os mitos de que não tinha capacidade intelectual para votar, que tinha de ficar em casa a cuidar dos filhos, não podiam estudar porque o seu cérebro era menor do que o do homem e por isso não ia aguentar tanta informação... Acabou-se! 

Repararam que o direito ao voto conquistado pelas mulheres foi tudo menos uma torneira que se abriu? Não foi uma coisa que estava vedada e subitamente um decreto fez com que passasse a existir. Como toda a ideia legítima, encontrou sempre uma tremenda resistência, da parte da lei, do governo e dos Homens. E quando finalmente esta atrocidade foi eliminada, não foi como abrir uma cancela e deixar passar as mulheres até às urnas. Esta dívida da lei e do governo foi «paga» a conta-gotas. 

Primeiro autorizaram só as ricas e instruídas, depois só as casadas, depois as solteiras de boa índole mas só para um tipo de voto...  Ou seja: tanto aqui em Portugal, como em qualquer parte do mundo, esta igualdade não foi uma torneira que se abriu e pronto: está feito. Nada disso! Foi a conta-gotas que chegou. Terrível, não? Só de pensar que no que verdadeiramente importa foram precisas décadas para atingir um tratamento não diferencial e igualitário...

Que por vezes, até nos dias de hoje, nas sociedades mais desenvolvidas, falha:


«Mulher no Brasil impedida de votar (2014)»

Emocionam-me estes factos e fico com enorme curiosidade por descobrir mais, ao mesmo tempo que percebo o quanto desconheço tanto. Hoje apetece-me conhecer mais sobre estas mulheres - que não estão tão distantes assim. É uma geração de lutadoras que ainda respira e vive. Devia-se explorar este tema quase até à exaustão. Como povo, se não nos conhecermos e à nossa história, perdemos um pouco a nossa identidade. 

Espreitem aqui este sintético excerto em vídeo dessas histórias de lutadoras portuguesas - infelizmente hoje praticamente desconhecidas.

Ainda vos deixo com este vídeo dos óscares 2015... Além de admirar esta atriz que sempre intuí como uma pessoa muito humana, simples e despretensiosa, além de verdadeira artista, ela chegou ao palco e disse! Em Hollywood fala-se muito de «respeito à diversidade» mas tal como em qualquer parte do mundo - inclusive aqui - o que se diz e o que se faz, muitas vezes são coisas diferentes. Todo o seu discurso abrange o que precisava e vai mais além, é ao mesmo tempo de agradecimento mas também de activismo, simples e inteligente. Afinal, este é o momento em que «o mundo» está de olhos postos naquele evento. Muitos dos agraciados pretendem cunhar com cidadania um momento destes. E ela o faz dentro do limite de tempo, sem excluir nada, de forma brilhante. A reação na plateia também foi clara. Convosco, Patrícia Arquette.


*Primeiro faria a pesquisa para saber se as votações na arábia saudita foram de dedo pintado - pois não me parece terem sido, ainda assim, o livro podia falar não apenas deste país, mas do direito das mulheres muçulmanas ao voto por toda a parte. Iam ler este tipo de livro?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O dilema dos bombeiros com a lei

A história que vou reproduzir a seguir só pode ter sido escrita em tom de comédia. Segundo um artigo encontrado aqui, a recente "Lei do Piropo" pode vir a ser responsável pela expulsão de mulheres do corpo de bombeiros.

O primeiro parágrafo "brinda-nos" com esta preciosidade de raciocínio:


Além de um tal "fonte" do departamento jurídico da Liga de Bombeiros explicar que o «conjunto de problemas» que a nova lei traz para dentro dos quartéis se deve "à profissão e ao material utilizado", ainda diz que as mulheres, sobre uma imensa pressão pela lei, não saberão distinguir o que é uma verbalização de um importunação sexual.

Além de chamar as bombeiras de estúpidas que não sabem "distinguir", ignoram a experiência e a capacidade de discernimento das mulheres. Como se ao longo das suas vidas um "piropo" fosse algo desconhecido, e daí a incapacidade de distinguir entre uma brincadeira e o assédio.

O artigo continua dando exemplos do que são o "conjunto de problemas" que esta lei trás para os quartéis de bombeiros. "imaginem quando um bombeiro disser a uma bombeira: “agarra-me aí a agulheta um bocadinho” - especifica a tal "fonte". Não economizando nos exemplos, faz questão de identificar as expressões que poderão vir a ser um problema de assédio que vai conduzir à expulsão das mulheres dos Corpos de Bombeiros: "termos como “mangueira”, “chupão”, “seringa”, “desforradeira” e, até mesmo, “capacete” ou expressões como “apaga-me o fogo”, “apanhai-lhe a cabeça” e “entra pela cauda.

A notícia ainda apelida, inadvertidamente(?) as bombeiras de criminosas e oportunistas, pois diz que esta lei está a ser utilizada como forma de chantagem a elementos de comando ou de chefia, uma afirmação gravíssima, mas que parece estar a ser fundamentada em especulação, visto que não apresentam casos concretos.

A pesar de todo o artigo estar a analisar esta perspectiva da Lei do Piropo pelo lado do HOMEM como agressor, MULHER como a ignorante alvo do piropo, a seguir sai-se com esta constatação: "Dentro dos corpos de bombeiros há a noção de que o assédio sexual é provocado tanto por bombeiros como por bombeiras, mas a lei parece estar mais inclinada para a defesa das mulheres.

E remata, explicando qual é a solução: "Os bombeiros estão indignados e pediram mesmo que as mulheres fossem afastadas dos corpos de bombeiros, pois estão em menor número (...) há um ambiente de tensão dentro dos corpos de bombeiros, existindo alguns, perfeitamente assinalados (...) que já admitiram estar a efectuar formações e operações de socorro unicamente com grupos masculinos ou com grupos femininos."

 Ah! Nada como o bom, velho e ignorante MACHISMO para terminar uma matéria absurda! Até dá vontade de rir, não é mesmo?

Para vos divertir, ainda assim, educar mais do que o citado artigo, deixo aqui um vídeo que INVERTE OS PAPÉIS. São as MULHERES que assediam os homens, mas daquele jeito típico masculino, todos os maneirismos incluídos. O que elas dizem, contudo, não é bem o que o homem diz, mas o que elas procuram num homem.

De seguida, outro vídeo, bem interessante. Ele mostra aquilo que uma mulher SABE quando está a escutar um piropo. E aquilo que os homens tentam ocultar. Por esta razão, interpretar uma mulher da forma redutiva como esta "fonte" do departamento jurídico dos bombeiros faz, é cómico, para não dizer também outra coisa referente à região do cérebro. É exatamente para este tipo de pessoas pouco... que este vídeo mais faz falta. Estão em inglês, espero que a maioria entenda :)



Não consegui deixar este de fora. É muito bom (e curto). Outro exemplificando a troca de papéis.

O que vem a seguir foi o «melhor» vídeo português sobre piropos que encontrei. Ao contrário dos americanos, que são mais evoluídos e apresentam uma perspectiva real e invertida, o português suaviza e despenaliza o piropo a uma simples e aceitável brincadeira entre homens. O que a lei veio a não fazer.

Bem sei que a lei do piropo andou aí a perturbar algumas pessoas que, sem saberem bem o que dizer, bastou-lhes, por exemplo, argumentar que "há leis mais importantes". Pelo lado que me toca, gostei da lei. É bom brincar entre um grupo de amigos, mandar uns piropos, umas graçolas, mas como se diz no brasil, quando "a cantada" costuma passar a barreira da brincadeira para o assédio, não é uma coisa bonita.

Quando foi a primeira vez que escutaram um piropo? E perceberam aquele tipo de olhar? Eu nem lembro, mas sei que era criança. Acho que com 10 anos já estava a ser alvo deles. Com 12 tornaram-se muito frequentes. "És um borracho! Anda cá que tenho uma coisa aqui (mão no sexo) para te mostrar". E uma criança, a virar adolescente, depois na adolescência, a receber piropos constantemente, pode não ser muito benéfico para o seu crescimento. Ou ela se vê e se aceita como um pedaço de carne, porque é assim que lhe estão a comunicar que será vista, e daí se podem observar alguns comportamentos sexuais mais abusivos e submissos entre jovens que hoje tanto a sociedade condena, ou então sente-se mal e desconfortável. Acreditem que a segunda hipótese é geralmente a mais comum mas a primeira anda a ganhar terreno, até porque surgiu como forma de desprezar a segunda. 


Mas cá fica a reportagem, "ligeira" e divertida, desresponsabilizando o ato, a versão portuguesa do piropo - hoje condenável (e muito bem) por lei. 


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Nova lei do Trabalho

Segundo o telejornal da SIC de hoje, heis o novo código Penal de Trabalho, datado de 25 de Julho de 2012. A lei nº23 entra em vigor já na próxima quarta-feira. O que pensam?

1) Facilidade de despedimentos de um empregado por parte da empresa (ex: inadaptação ou quebra de produtividade)
2) Direito da empresa em reduzir o período normal de trabalho do trabalhador ou suspender o contracto de trabalho por motivos de "crise" empresarial
3) Indemnizações com direito ao salário de 20 dias por cada ANO de trabalho
4) Base de cálculo não pode ultrapassar 20 salários mínimos
5) Faltar sai do bolso do empregado e se este faltar em dias que servem para esticar o fim de semana pode CUSTAR ao trabalhador o valor de 4 dias de ordenado
6) Mais DUAS horas de trabalho por dia
7) Cortes para pagamento das horas extraordinárias para METADE do agora efectuado
8) Mais DUAS horas de trabalho por dia possíveis de ser exigidas e até 150h de trabalho POR ANO
9) Deixa de ser obrigatório o ENVIO por parte das empresas para a AUTORIDADE da CONDIÇÕES DE TRABALHO do mapa de horários
10) 22 dias de Férias ao invés 25 e MENOS 4 dias de feriados a gozar

O que EU acho disto?
Acho que é tudo muito bonitinho mas não vai adiantar de nada. Pessoalmente, e já o havia dito, estas alterações alguma vez fariam mossa naquele que até agora tem sido o meu percurso laboral. Assim como muitos outros portugueses, tratam-se de cortes em direitos e regalias que nunca tive ou delas fiz uso. 

Mas em relação ao que isto vai ajudar o país, acho que muito pouco ou NADA. Porque acredito piamente que o que faz o país AVANÇAR é o incentivo ao TRABALHADOR. Este  tem de ir feliz para o trabalho. Não pode ser o lado fragilizado de todo este processo, porque sem POVO, não existem trabalhadores. Por muito valor que tenham os graúdos, os pequeninos são a força de braço. E a exploração, a insegurança, o impedir as pessoas a iniciar-se na vida activa de poder constituir família em segurança económica, só PREJUDICA o PAÍS, faz diminuir a taxa de natalidade entre aqueles com mais formação e algum poder económico, vai transformar-nos num país com uma grande população de VELHOS E POBRES. 

Fico triste com estas perspectivas. 
Fico ainda mais triste por perceber que o governo perdoou dívidas milionárias a empresas milionárias mas não perdoa tostões ao trabalhador.
Fico triste porque vi e vivi em situações laborais em que os que faziam gazeta e detestavam trabalhar eram beneficiados e estavam garantidos e os que trabalhavam e eram bem dispostos iam para a rua.
Não creio que alguma lei altere isso.

Recado:
INCENTIVO ao TRABALHADOR  = PRODUTIVIDADE

PS: Atenção para o PRIMEIRO parágrafo das leis. É que isto permite às entidades empregadoras fazer o que quiserem. ESPERO QUE A MEDIDA CONTEMPLE o DIREITO À PALAVRA do trabalhador, pois   vi muitos exemplos de pessoas trabalhadoras a serem coagidas a abandonar a empresa e vi demasiados corpos-moles com lugar vitalício garantido. A questão que coloco é: se a entidade patronal DESPEDIR um trabalhador por INADAPTAÇÃO, que é um CONCEITO, e um muito VASTO, o trabalhador poderá argumentar que se trata de uma mentira da empresa, uma injustiça porque não lhe foi dado um tempo de adequação ou aprendizagem, ou até que lhe impediram de exercer funções devidamente?

É que já vi e já vivi algumas coisas... Numa delas a pessoa encarregue de me orientar o trabalho nunca disponibilizava tempo para me despender os recursos indispensáveis para executar a tarefa. O prazo para a mesma a aproximar-se do fim e nem houve forma de dar início ao trabalho por não poder dispor das máquinas próprias. Na altura em que me dirigi à direcção para pedir que me cessassem o contrato de trabalho, esta nem pestanejou e até avançou que tinham existido problemas com o responsável. Ao que me abstive de comentar. Ou seja: eles todos sabiam bem o que se estava a passar. Era tudo fictício.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Empresas de Trabalho Temporário


Nunca antes tinha tido contacto com o universo da advocacia, até o dia em que fui demitida sem justa causa. Estava empregada através de uma dessas empresas de trabalho temporário fazia um ano. O contrato renovava-se automaticamente todos os meses e assim, eu e uma colega, trabalhámos despreocupadas.

Até o dia em que ela aparece transtornada a querer saber se eu tinha recebido um telefonema da Randstad, a empresa em causa. Não, não tinha. Mas o que se passava para estar tão transtornada? Contou-me que tinham-lhe telefonado para lhe dizer que não precisavam mais dos seus serviços.

Como começamos ambas no mesmo dia e sob as mesmas condições de trabalho, a colega estabeleceu logo um paralelo. Nesse dia depois do emprego, tomou a iniciativa de telefonar para a entidade patronal, a Randstad, para pedir satisfações. Se a estavam a demitir, porque não me demitiam também? Não foi um gesto lá muito simpático, mas assim aconteceu.

No outro dia, no local de trabalho, a colega continuava furiosa, disposta a não deixar as coisas em pratos limpos. Já nem trabalhou direito e continuou a fazer telefonemas para a Randstad. Foi então que me contou que já lhes tinha falado na véspera e perguntado porquê não era eu também demitida. Responderam-lhe que seria. “Então é melhor telefonarem-lhe a dizer, porque ela não sabe” – respondeu.

A manhã passou, continuei a trabalhar com a dedicação de sempre, e nada de ser contactada pela entidade patronal, a Randstad. Isso deixou a outra colega ainda mais furiosa. Por alguma razão, temia que o machado recaísse só sobre a sua cabeça e não achava justo. E foi então, cerca de 40 minutos antes de terminar o meu horário de trabalho, que, talvez em sequência das chamadas da outra, telefonaram para a empresa a perguntar por mim. Lamentavam mas era para me informar que não devia ir trabalhar no dia seguinte, porque já estava no meu último dia de trabalho.

Quiseram ficar certos que entendi que não devia aparecer para trabalhar no dia seguinte. Repetiram-no, e voltaram a repetir. Preocupava-os que causássemos problemas no local de trabalho e o escândalo gerasse a dispensa dos serviços da Randstad. Esse foi o único receio da Randstad. Fizeram questão de sublinhar que a empresa local de trabalho nada tinha a ver com o sucedido.

E foi assim: fui avisada da recessão do contrato de trabalho, 40 minutos antes deste terminar. Que competência. Que profissionalismo! Não é como se não tivessem tido oportunidade de me avisar com mais antecedência. Afinal, a outra colega estava a remoer o sucedido há dois dias. Ou terá o despedimento vindo em consequência?

Fomos pedir informações ao Tribunal de Trabalho na Loja do Cidadão das Amoreiras. Falámos com mais gente esclarecida no assunto e todas manifestaram algum controle para não desatar a maldizer este tipo de entidade patronal. AO que parece, é comum darem-se erros. Ao que parece, a maioria das empresas funciona interpretando intencionalmente as leis conforme a sua conveniência. Ao que parece, existem muitas ilegalidades nos contratos de trabalho. Levámos os nossos para mostrar e logo foram detectados ao menos três irregularidades. O que me surpreendeu. Ao longo do ano de trabalho, tinham-nos feito assinar três contratos. Todos datados com a data do primeiro. Ou seja: haviam encontrado um erro no original, redigiram outro e pediram para que o assinássemos. Lembro que disseram que o erro nos valores de remuneração podia levar-nos a processá-los para receber o que ali estava estipulado, que era superior ao valor real. Já os meses iam avançados, vieram novamente até o nosso local de trabalho com um outro contrato para assinar, para substituir o segundo e o primeiro.

Com tudo isto, como foi possível redigirem um documento ainda com falhas?

Entre outras coisas que recordo, disseram-me que a lei permite, perante a situação de despedimento por injusta causa, que o lesado passe automaticamente aos quadros da empresa para a qual prestou serviços, como efectivo.

Tinha de me apresentar ao serviço e ainda que estes não me dessem nada para fazer, seriam obrigados a me pagar tal como a qualquer outro funcionário. Convenhamos, era o ideal. Mas soa a ilícito e pessoas com integridade moral não consideram esta via.

Então era isto que a Randstad temia! O escândalo no local de trabalho. Sabiam bem os direitos que nos assistia.

Tivemos também uma reunião com a empresa. Muitos pedidos de desculpa pouco sentidos e foi-nos dito que a carta de rescisão, que a lei obriga que seja enviada para casa do trabalhador no mínimo com 7 dias de antecedência, foi emitida mas deve ter-se extraviado no correio. A minha colega logo pediu um comprovativo do envio dessa carta. Não foi possível apresentá-lo. Claro, nunca existiu!

Parte do processo da empresa Randstad para tentar minimizar os danos a si mesma, foi prometer que nós as duas seriamos colocadas noutros empregos, pois não iam deixar colaboradores seus com uma mão à frente, outra atrás. Prometeram empenhar-se para encontrar um novo emprego, satisfatório e imediato.

NUNCA aconteceu.

Ainda lhes dei o benefício da dúvida e quando me telefonaram com uma proposta (daquelas um tanto estapafúrdias) aceitei com toda a boa fé ir à entrevista. A “nova” entidade patronal ficava fora da cidade. Não por poucos, mas por muitos quilómetros. Fui, fiz a entrevista e fiquei a aguardar o contacto da empresa. Garantiram-no. Sim, pois claro… entretanto o outro processo estava em andamento e depressa o meu nome deve ter sido assinalado na base de dados, como pessoa não-grata, já descartada.

Ainda assim, acreditei na boa-vontade que obviamente não existia. Telefonei para a empresa Randstad, para o novo número, da nova pessoa, encarregue do caso, que tirei do cartão que me foi passado pessoalmente para as mãos. Nada. A pessoa em causa nunca estava. Então um dia desloquei-me até à filial e falei com ela. Preenchi uma ficha e ficaram de me telefonar para dizer PARA QUE DIA a entidade ia marcar as entrevistas, que seriam já na semana seguinte. Disseram-me que telefonavam dali a dois dias, no máximo até segunda feira e caso isso não acontecesse, que entrasse em contacto com eles.

NÃO aconteceu. Entrei em contacto com eles. Mais uma vez, a responsável pela área, a rapariga com quem falei pessoalmente e sob a qual preenchi a minha ficha de candidatura, nunca estava disponível ou presente e ninguém mais podia prestar esclarecimentos sobre o caso.

Há, grande Randstad!

Entretanto, no outro processo de despedimento por injusta causa, a queixa foi apresentada ao tribunal de trabalho. A postura da Randstad foi iniciar uma guerra psicológica. Usam as leis para tornar tudo mais penoso. No caso, faltaram de comparecer ás primeiras sessões de esclarecimento. A primeira da qual, marcada para a minha ex-colega. Apesar da coisa ter acontecido a ambas, cada qual teve diferente representação. Meses se passaram graças ás faltas de comparecimento dos advogados da Randstad. Até que finalmente, no caso da ex-colega, apareceram. Comigo levou mais uma ou duas negas de comparecimento. Tudo indicava que o processo dela corria mais avançado porém, depressa começaram a não comparecer ao dela e o meu adiantou-se. É que após a primeira e única comparição da Randstad à nossa sessão de esclarecimento, devem ter concluído que o mais benéfico para eles seria "dividir para conquistar" e enveredar pelo lado mais fraco.
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Passaram-se muitos mais meses de silêncio. Uma estratégia intencional, para enfraquecer a parte lesada. Contavam que a comunicação entre nós esmorecesse com o tempo e deixássemos de trocar impressões. Quando se decidiram a contactar alguém, foi a ex-colega em primeiro lugar.

Foi uma decisão bem pensada. Apesar desta ser muito reivindicativa e mostrar que sabe os seus direitos, aposto que após a minha sessão de esclarecimento, aqueles advogadozinhos saíram dali preocupadíssimos. É que eu não entro em embolição com facilidade, muito menos quando provocada e insultada.

Esta sessão de esclarecimento foi o primeiro contacto que tive na vida com este universo de advogados. Foi muito interessante! Um microcosmos com uma linguagem própria. Um universo feio, mesmo feio, com muitas pessoas feias, num ataque serrado de palavras.

Como todas as entidades, agem em grupo. Não foi um advogado que compareceu à sessão, mas dois. Um a fazer o número de bad cop, o outro a fazer de menos bad cop. Foram tantas as alfinetadas verbais trocadas entre estes dois tristes jovens e a experiente delegada indicada para o meu caso, que não podem imaginar. Um ringue de boxe, um braço de força, em que a experiência depressa esmagou a juventude. Intimidação. Tudo funciona por intimidação.
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Permaneci calma no meio disto tudo. Respondi por monossílabos “Sim” e “Não”. Provocação alguma me tirou a tranquilidade. Dir-se-ia que não estava capacitada de inteligência suficiente para entender o que se passava. Mas entendi muito bem. Ás vezes censuro-me por ser assim, mas em simultâneo fico contente por o ser. Aqueles advogadozinhos estavam em pânico. Uma pessoa em controle é mais perigosa que a que perde as estribeiras. Assim devem ter pensado, para terem contactado em primeiro lugar a minha ex-colega, com uma proposta para o caso não ir a tribunal.

Quando chegou a minha vez de ouvir a proposta, afirmaram na minha cara: “Já não está em contacto com a sua colega, pois não? Vocês não se têm falado.” Já tinha passado mais de um ano. Mais uma vez, dei uma resposta quase monossilábica: “Sim, temos”. A outra não ficou muito convencida. Sei bem onde queria chegar. Queria saber se eu tinha conhecimento da proposta que eles elaboraram à ex-colega e mais importante ainda, se saberia que ela a aceitou.

Sabia sim. Há quase uma semana que o sabia. Devia tê-lo demonstrado logo ali. Aí censuro-me por ser tão introvertida, que pareço desprovida de perspicácia ou inteligência maior.

Uma vez no decorrer da audiência, apareceram mais advogadozinhos a representar a Randstad. Eram umas três ou quatro cabeças presentes em nome da empresa, se não estou em erro. Três delas advogadas. Mas um deles quase me fez rir. Um rapaz, novito. Estava nervoso, quase que atrapalhado por falar. Depois da aprovação de uma colega com o olhar, começou a debitar um texto que, claramente, tinha estudado. Foi assim que fiquei a saber o que já sabia: o valor da proposta da empresa para o caso não ir a tribunal. Quando terminou, o galinho provavelmente estagiário, ficou contente com a sua prestação. Estava a ser bem ensinado: manteve uma postura arrogante e altiva, e um tom (in)seguro de si. “Esta é a nossa proposta e única proposta. (Bluf). Se não aceitar, então partimos para os tribunais (bluf). É muito boa (mentira), a ex-colega JÁ ACEITOU (tentativa de legitimação), é um valor justo, com base em cálculos do salário que a colaboradora recebia (mentira)”.

O que provavelmente não sabiam é que trazia comigo, dentro da pasta que tinha em mãos, um documento elaborado pela minha representante, com uma estimativa, por baixo, dos valores que me eram devidos por lei, com base na interpretação mínima desta. E por esses valores mínimos, a estimativa era quase tripla do valor da proposta deles. Dois salários – foi o valor que apresentaram. No mínimo, deviam ter sido seis.

Depois aqueles galinhos da advocacia, representantes de grandes valores morais e éticos (ironia), saíram da sala para eu poder escutar os concelhos dos meus representantes públicos.
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Devo dizer, com toda a justiça, que fiquei bem impressionada com estas pessoas. Tanto com a senhora que me representou inicialmente, a delegada da audiência de esclarecimento, que manteve a distância e se limitou aos factos e ás leis, como por estes dois indivíduos. Neles reconheci uma integridade ausente naqueles jovens galinhos advogados. De sorrisinhos cínicos e um amor próprio desmesurado. O tempo todo fiquei com a impressão que fazem falta ao sistema mais pessoas como aquelas. Trabalham com a lei e a justiça sem perder a consciência. Não deve ser fácil. Deve ser duro e frustrante. Lidar todos os dias com inescrupulosos como aqueles galinhos armados em advogados, muita crista eriçada, ofensas, provocações e um total desrespeito pelas leis. Senti pena. Por todos nós, pelo sistema. Pela justiça. Aquelas pessoas deviam ser das últimas sobreviventes de uma época em que a lei é encarada para servir todos, e não apenas os poderosos, sem convenientes distorções. Deviam ter abraçado a profissão com muito amor e terem de exercê-la perante estes “controcionismos”, deve ser frustantemente desgastante e desmotivador.

O número de advogadozinhos como aqueles que a Randstad me deu a conhecer – gente jovem, altiva, arrogante, de postura mal educada, porvocatória e mentirosa, que esboçam um sorrisinho cínico a cada palavra “bem enfiada”, deve ser penoso de assistir. Foi para mim, que não sou da área, um lamentável circo. Imagino o que uma pessoa de bom carácter que trabalha com a justiça sente. São cada vez menos, e cada vez mais idosos…

A conselho destas pessoas, aceitei o acordo. Ir a tribunal era coisa que se arrastaria por anos. Seria necessário chamar testemunhas. Eles sabem que é pelo desgaste que cansam uma pessoa. Não foi a postura, nem as palavras ameaçadoras dos advogadozinhos que determinaram coisa alguma. Foi esta realidade. Levei em conta o conselho daquelas pessoas que já admirava e a minha vontade de colocar o assunto atrás das costas. E só.

A minha motivação sempre foi diferente da ex-colega. Nunca esteve no dinheiro e sim no sentido de justiça. Foi isso que lhes disse: "Só quero que se faça justiça". Explicaram-me os procedimentos e eventualidades das duas vias a seguir: o acordo ou os tribunais, aconcelharam-me pelo primeiro e como expliquei, dei-lhes ouvidos. Não queria ter coisas pendentes que me fizessem ter de lidar com aquele tipo de gente.
Uma pessoa tem de assumir as suas responsabilidades. Uma empresa também. Varrê-las para debaixo do tapete, não é digno. Procurava o justo, não a compensação monetária. Não me arrependo mas acredito que o melhor, para todos, seria ter levado o caso a tribunal. Não seria o melhor para mim, mas podia ser a atitude necessária.

Os sorrisos e risadas daqueles advogadozitos da Randstad à saída do tribunal, contentes porque a reputação da empresa não saiu manchada, deu-me a indicação. Eu tinha a faca e o queijo na mão. Eles sabiam. Há casos por onde podem abrir uma frecha e fazer crer que a pessoa também cometeu falhas. Já tinham mentido para ver se me viam perder a paciência. Mas não comigo. Não tinham mesmo ponta viável por onde inventar fosse o que fosse. Aqueles sorrisos cínicos de auto congratulação, estavam em extase.

Aposto que não entenderam o meu gesto. Nem a nobreza dele.
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Nunca mais lidei com a Randstad. Quando a vejo, passo ao lado. O simples nome é um palavrão. Estes também nunca mais quiseram saber de mim, a pessoa não grata... até um dia.
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Tinha-se passado mais de um ano. Toca o telemóvel e uma voz masculina identifica-se como sendo da Randstad. Queriam saber se aceitava um trabalho. Sabem qual? Uma porcaria!!! Deviam estar tão desesperados por cabeças, que até a mim recorreram, mais de um ano depois.
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Vejam só as condições que ofereciam: local de trabalho: um supermercado longíquo. Zona perigosa, de assaltos. Horário: de manhã até anoitecer, só sábados e domingos. Remuneração: nem chegava a 300 euros.
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Para uma pessoa no mercado de trabalho, isto é proposta que se considere? "Venha trabalhar a troco de tostões. Oferecemos trabalho árduo, más condições, e a eventualidade de ser assaltado com arma branca".
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Fui educada como sempre, e recusei.
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Devia ter dito, indignada: Oiça lá: isso é oferta de trabalho que se proponha a alguém??
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Depois de tudo, ainda cá vieram bater à porta, os descarados...
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Com a Randstad, nunca mais.

domingo, 30 de dezembro de 2007

DADOR DE ÓRGÃOS

RENNDA



Por volta de 1996 tomei consciência de uma mudança significativa numa Lei que nos diz respeito a todos: a colheita de órgãos humanos. Embora a lei tenha sido alterada em Abril de 1993, duvido que a maioria dos Portugueses saiba que, a menos que se pronuncie ao contrário, após a morte será esquartejado como se faz a um animal no matadouro, a fim de lhe ser retirado o maior número de peças reutilizáveis possíveis.

Não queria ser tão gráfica e estabelecer uma comparação de tão mau gosto. Mas assim é. Já o vi em documentários que passaram pouco na televisão e fiquei espantada e angustiada com a quantidade de utilizações post-mortem que o nosso corpo tem. Desde pele, a cabelo para transplante, a qualquer espécie de músculo, a tendões, à córnea ocular, a membros motores como a maioria já conhece, e claro, a órgãos mais interiores como o coração, os rins, um fígado, os pulmões e não sei mais o quê. Será que deixam alguma coisa?

O que me aflige nisto tudo é que, em vida podem não nos dar valor algum. Um indivíduo pode não receber respeito, ser maltratado e viver desalojado. E é na morte que ele se torna valioso.

Quando era criança e até adolescente, esteve sempre nos meus planos tornar-me dadora. Mas quando soube da lei, os meus sentimentos alteraram-se. Não tive dúvidas: ia buscar o tal papel e tornar-me Não Doadora, nem que fosse para depois desmanchar tudo para que a decisão de o SER pertencer a mim e não a mais ninguém.

Muito bem. E onde se obtém esse documento?
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Uma ida casual ao ministério de Educação facultou-me essa informação: um indivíduo tem de fazer comunicar ao Ministério da Saúde a sua intenção, e para tal “basta” fazer uma inscrição num Centro de Saúde ou extensão RENNDA, solicitando um “impresso-tipo” que deve estar “devidamente preenchido”. A RENNDA (Serviço Nacional de Não Dadores) é “um serviço informatizado, onde se encontram todos os que manifestaram junto do Ministério sua total ou parcial indisponibilidade em doar post mortem, certos órgãos ou tecidos” (fonte wikipedia, link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Transplantação_de_órgãos)

Vou deixar que reflictam no possível significado, a meu ver dúbio, das palavras destacadas em negrito. Por agora vamos “seguir” os passos de quem está interessado em obter este “impresso-tipo”.

O local, conforme reforça este outro link:
Parece simples. Mas claro, não é.

Por centro de saúde conheço o da minha área de residência e aí, onde nem sequer existe um balcão de atendimento geral, ninguém conhece o que é isso de RENNDA e seu respectivo impresso. Noutra ocasião em que me vi num hospital, decidi procurar informações a respeito do procedimento sobre a doação de órgãos humanos após a morte. Perguntei onde ficava a recepção, já que me encontrava nas urgências. Apontaram para fora do hospital, à direita, ao fundo. Caminhei até chegar ao fim da rua, li todas as placas, mas o mais próximo que cheguei de algum lugar foi da casa mortuária.


E assim, mais de uma década se passou e sou ainda, dadora de órgãos á força. Sou por falta de oportunidade, não por falta de conhecimento. Acredito que muitos desconhecem esta lei. E segundo uma notícia da TSF, no ano em que esta lei entrou em vigor, cerca de 20 mil indivíduos fizeram a sua inscrição. Dez anos depois, em 2004, apenas 64. Não 64 mil, mas apenas 64 indivíduos, menos de uma centena. (link: http://www.tsf.pt/online/vida/interior.asp?id_artigo=TSF155488).


Reforço a noção de que poucos portugueses conhecem esta Lei que dita para que fim se destina os seus corpos mortos. Muitos pensam que nem autopsiados são e que o consentimento da família é fulcral para qualquer intervenção invasiva. Enganam-se.
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Tenho um familiar a ir à faca dentro de dias pela primeira vez na sua vida. Naturalmente, está nervoso com o que desconhece. Calhou ter mencionado que somos todos dadores por lei e este não quis acreditar. Insistiu que o consentimento dos familiares tinha de ser escutado para qualquer procedimento, especialmente este, em que “ele não deu permissão”.


Pois então fica já para se saber: desde 1993 a lei Portuguesa dita que qualquer indivíduo residente em Portugal quando morre é um potencial dador (TSF) e cada pessoa a partir do momento em que nasce adquire este estatuto (Portal da Saúde).


Se tem alguma objecção ou desconforto com esta ideia, tem de se registar no RENNDA. Para tal dirige-se a um qualquer centro de saúde apenas com o seu Bilhete de Identidade. O documento não tem qualquer custo. Lhe será entregue o impresso tipo, que tem somente de preencher e que pode entregar nesse mesmo posto de Saúde.


Simples, mas cruze os dedos e faça figas. Para que consiga os seus intuitos com a facilidade descrita.
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É que não só o seu centro de Saúde pode nem saber do que está a falar, como o historial português de tudo o que respeita a serviços simples, mas burocráticos, tem a fama que tem porque a merece. Se tivesse de apostar, diria que as pessoas que contactar, desconhecem o paradeiro desse impressso-tipo e estão mal informadas para prestar informações. O melhor a fazer é se certificar que o documento chega mesmo ao Ministério da Saúde, e faça por confirmar se os dados facultados no papel são os mesmos que constam no sistema informático. Quem a/o atender irá com certeza negar-se a isso ou mostrará indisponibilidade e antipatia por tal lhe ser pedido. Tome a iniciativa de fazer a sua própria cópia do documento e guarde-a. Não é necessário um cartão de Não Dador mas, como os sistemas informáticos e os erros humanos acontecem, peça-o á mesma. E prepare-se para enfrentar possíveis juízos de valor, pois aparecem sempre pessoas ávidas para realizar criticas. Podem não ter tido um único gesto altruísta em vida mas acham que o vão ter na morte, e isso lhes dá o direito de julgar a decisão alheia sobre o direito à identidade.


Já não parece tão simples…


O OUTRO LADO DA QUESTÃO

É claro que, por detrás da questão da obrigatoriedade portuguesa de dadores de órgãos, está PORQUÊ estes fazem falta.


Quando reflectimos que existem pessoas necessitadas, o estar em desacordo com o ser dador não nos faz sentir totalmente bem. Afinal, já estamos mortos. Será que faz diferença? Dizem que não se sente nada. O corpo é um casulo em decomposição. Mais vale aproveitar algumas peças para alguém viver mais alguns anos.


Sobre isto, cada um sabe por si.


Outra razão apontada para esta mudança de lei é o tráfego e o mercado negro de órgãos. E aqui já tenho muitos mais dados a dizer sobre a questão!


Ao que parece, nunca deixou de existir escassez para a quantidade de procura. Ou seja: a quantidade de mortos dadores é muito inferior à quantidade de pessoas necessitadas. Até porque temos outros factores a ajudar para que este prato da balança sofra uma maior inclinação: as pessoas estão mais expostas à poluição, a medicina chegou mais longe e é hoje capaz de mais feitos, pois no passado um doente estaria simplesmente condenado a vir a falecer. As pessoas são também mais sedentárias e abusam dos limites. Quem fuma, quem bebe e quem vive em atmosferas que sabe lhe serem nocivas e continua a ter estes comportamentos de risto até lhes doer.


Lamento que na televisão não passem mais documentários e notícias sobre este tema. Mas vou deixar aqui escrito, tudo o que já ouvi falar a respeito de transplantes, transplantados, colheita de órgãos, tráfego e dadores. Vai surpreender-se! Alguma desta informação fez com que repensasse tudo.


Por onde começar?! Há tanto para se dizer!


Vou começar pelo meu princípio: pelo xenostransplante e pela mecânica.


A necessidade humana de substituir órgãos defeituosos por outros ou outra coisa que os ponha a funcionar, é uma necessidade antiga, sobre a qual muitos estudiosos e cientistas se debruçaram. O primeiro transplante de coração humano foi feito em 1967, antes do homem pisar a lua. Mas mesmo antes muitas outras experiências foram efectuadas. Uma delas foi a possibilidade de órgãos de animais poderem fazer a vez de um órgão humano. A ciência centrou-se no porco, por ser um animal com a fisiologia mais semelhante à do ser humano. Chegou-se a fazer transplantes e a acreditar no sucesso desta técnica. Desconheço agora os pormenores mas existem ou existiram pessoas cujo coração ou outro órgão no seu corpo não era mais o seu, mas o de um animal.


Outro caminho a seguir será o uso de aparelhos mecânicos que consigam reproduzir as funções dos órgãos a morrer. Devo dizer que é neste ponto que sinto um tanto de revolta. Pelo que consegui compreender através da informação a que fui submetida, esta possibilidade é a melhor escolha possível. Não compreendo porquê não existem mais avanços nesta área.
A inserção de aparelhos mecânicos seria uma mais-valia em todos os aspectos da vida humana. Primeiro que tudo, terminava com o tráfego.
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Por todo o mundo mas principalmente nos países muito pobres, são cometidos rituais macabros de pura violação aos direitos humanos. Tudo porque um órgão vale mais que ouro no mercado negro.


Um indivíduo de recursos de um país desenvolvido, se souber que consegue um órgão no mercado negro, aproveita as brechas da legislação, viaja para ser operado num terceiro mundo qualquer e regressa ao seu país, num estado de saúde que não experimentava à muito. Para tal só teve de fechar os olhos à forma como obteve de novo a dádiva da vida. Claro que o desejo é legítimo, mas a forma como muitas vezes se concretiza, é terrível. Prova que quem tem dinheiro compra tudo. Inclusive a vida de meninas que são assassinadas para extracção de órgãos ou de homens e mulheres que acordam com uma misteriosa incisão lateral por lhes ter sido removido um rim enquanto estavam desacordados. Existe também o caso de a extrema pobreza levar uma mulher, por exemplo, na Índia, a vender o seu próprio rim por uma ninharia e depois, sente-se sem energia para continuar a levar a vida dura que sempre levou ou lidar com efeitos secundários que desconhecia poderem existir.
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Na América foi perguntado a um casal a quem o filho recém-nascido acabara por falecer, se autorizava a doação de órgãos. O casal reflectiu e decidiu que gostaria de enterrar o bebé inteiro na terra. Passados dois meses receberam uma conta do hospital. Nessa factura vinha um extracto de quatro páginas, indicando detalhadamente cada intém retirado ao corpo daquela criança. Os pais ficaram horrorizados.


Por tudo isto e mais, não entendo porquê não se investe no uso e estudo de órgãos mecânicos. Serão as questões económicas que ditam estas escolhas?


Um indivíduo transplantado compra também uma despesa vitalícia na farmácia. É grande e dispendiosa a quantidade de fármacos que um indivíduo tem de tomar para levar o seu organismo a aceitar aquele órgão que não lhe pertencia a trabalhar para si. E por maior sucesso que a cirurgia prometa ser, a esperança média de vida é sempre um risco, uma incógnita. Tanto pode ter “comprado” ao tempo mais dois anos, como trinta. E durante esse período a indústria farmacêutica tem um cliente que a ela recorrerá todos os dias. O transplantado é co-dependente de fármacos.


Depois, infelizmente, vêm aqueles que vou chamar de (e desde já peço desculpas se ferir susceptibilidades) “transplantados ingratos”. Trata-se, a título de exemplo, dos indivíduos que não tomam as devidas precauções após o transplante. Como é o caso de um senhor que vi numa peça exibida pela Sic. Este português recebera um transplante duplo de pulmão (irei confirmar se foi mesmo de pulmões). Por causa do transplante, o indivíduo tinha de usar máscara devido ás impurezas no ar. Outra coisa que ele não podia fazer, era dedicar-se ao seu hobbie favorito: criação de pombos. É sabido que os pombos e as suas fezes são do pior que existe para a saúde humana. Mas este indivíduo gosta demais dessa parte da sua vida para prescindir da satisfação que cuidar dos pombos lhe traz. Acontece que não existem tantos pulmões assim, para quem os receber poder arriscar-se a perdê-los. Ao menos assim me parece, que há algo de errado nestes casos.


São muitos os riscos, poucas as garantias, e muitas as incógnitas. Gostaria que esta fosse uma área onde se pisasse solo mais firme e, por isso, estou a torcer para que os interesses mudem e se passe a considerar mesmo a sério, o fim do recurso a órgãos humanos em substituição de outros e se passe a olhar em frente, em direcção á tecnologia. Em laboratório já se consegue muita coisa: fazer pele artificial, cultivar células, moldar uma orelha e criá-la em pele. Porquê não ir mais longe? Afinal, a lua, os planetas e todo o mistério, está dentro de nós.
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Tanto assim é que afloro agora outro assunto mais transcendente sobre a transplantação de órgãos humanos: a transferência.
.Tenho gravado algures um documentário sobre pessoas transplantadas que começaram a ter sonhos, visões e emoções após o transplante. Vieram a descobrir que nos sonhos escutavam o nome do indivíduo cujo órgão possuíam agora. Em sonhos viam-lhe o rosto. Os desejos mudaram para ficarem de acordo com os do falecido dador. Acredite quem quiser. Eu acredito. Há mais mistérios entre a terra e o céu... já se diz.
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Mas não é mistério. É energia. O homem não compreende totalmente a energia. Já Heinstein e outros fizeram as suas tentativas.
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Em Portugal tudo é anónimo. O dador é anónimo, a identidade do receptor também. Sou contra o anonimato. Acho que uma família que sabe que um órgão de um ente querido, por sua vontade, estaria destinado a ajudar a viver uma outra pessoa, tem o direito de saber para onde foi e para quem. Eu quereria saber, embora não queira agora me imaginar a passar por isso. Mas eu ia querer saber se foi para a China, para o Tibete, para o Alentejo, para homem ou para mulher, para menina ou menino, com que idade, com que estilo de vida. Acho bem, acho de direito.
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Termino com o pensamento naqueles que vivem uma realidade que pessoalmente desconheço e espero nunca vir a conhecer. A todos aqueles que neste instante vivem esta situação na primeira pessoa, desejo tudo de bom e mais ainda.