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segunda-feira, 30 de março de 2020

De quarentena num espaço desagradável


Vocês não sabem, mas o quarto que alugo ainda não está totalmente terminado da remodelação que sofreu em Dezembro. Para os que não sabem, enquanto viajei para Portugal para lá passar o Natal, o senhorio ficou de derrubar uma parede, para aumentar a área da divisão. Disse ele, várias vezes, que era algo simples e rápido de fazer. Não ia demorar mais que um dia. Duas semanas depois, quando regressei de madrugada, o rosto dos meus colegas de olhos esbugalhados ao me verem, disse-me tudo. Esperavam que eu ficasse aborrecida, porque o quarto ainda não estava pronto. Não tinha sequer a cama montada. Foram precisos mais dias para terminar e pintar as paredes. Eu não fiquei fula. Decidi ser compreensiva e esperei, paciente. 

Só que já estamos em Abril (praticamente) e a minha paciência esgotou-se. Foi substituída por nervos. Nestes quatro meses foram inúmeras as vezes que mencionei ao senhorio que precisava, em particular, de ter as prateleiras montadas. Deixei claro que o resto podia esperar, mas as prateleiras eram vitais. Tenho muitos livros e objectos para ali colocar. O que for a arrumar no restante espaço vai depender do que conseguir enfiar naquele. Pedi-lhe tanta vez com jeitinho, ofereci-me para o fazer eu mesma, ofereci-me para pintar as tábuas que tapam a canalização de branco - porque ainda nada disto foi feito. Tudo o que ele fez de lá para cá foi aparafusar as tábuas que tapam os canos junto ao chão. E isto por malícia, pois tinha-lhe sugerido que as fixasse de modo a que a de cima pudesse ser removida e expliquei porquê: por causa do barulho de pancadas. As águas ao passarem pela canalização, produzem um som de semelhante ao do uso de um martelo. E eu descobri quando me pus a limpar o imenso pó que os canos tinham que, aplicando ligeira pressão entre um tubo e outro, esse som desaparecia. Volta a aparecer, mas, voltando a aplicar uma ligeira pressão, é impressionante como o som de batidas vai embora. Acho que é uma razão bem válida para deixar uma tábua presa com fechadura e não com pregos.

Quem é que gosta de dormir num quarto no qual, cada vez que alguém vai ao WC que fica ao lado, além de se escutarem todos os sons escatológicos, traz o som de batidas de martelo?

As casas no Reino Unido são barulhentas por defeito. O chão range (e não é pouco), as correntes de ar fazem as portas bater... e aqui ninguém usa persiana. Todas as janelas são tapadas apenas com cortinas, o que nunca permite total escuridão. Podes levar com aquela claridade da manhã na cara que isso é considerado banal. Se te queixares, acham que és "florzinha de estufa", uma pessoa problemática.  

O senhorio esteve cá em casa há dois dias. Ele sempre aparece sem avisar, entra sem cerimónias e "passeia-se" pela casa como se nada fosse. Traz leite que mete num dos frigoríficos e serve-se da chaleira para beber chá. É uma atitude um tanto invasiva, mas teve de ser aceite por todos para cá morarmos. Ao contrário do que esperava, não me fez confusão. Para mim ele é apenas mais um dos muitos que já vi circularem cá dentro. Tanto me faz que seja ele ou uns 50 italianos. Ao menos com ele por perto sei que os outros contêm-se um pouco e até ficam aborrecidos. E isso não é desvantajoso. Só que ao vê-lo cá, ele que diz que não tem tempo para nada... aquilo revoltou-me. Na tarde anterior tapei a abertura onde antes estava a parede com uma cortina branca. Foi como um bálsamo!

Subitamente pareceu-me recuperar a sensação de bem-estar que viver no quarto sempre me deu. Já não aguentava mais olhar para o fundo do que outrora foi a parede do WC e ver aquelas tábuas que tapam os canos. Há tanto que quero fazer ali para disfarçar aquela feiura, coisas que guardo trancadas há tanto tempo e que não aguento mais que seja assim! Cheguei ao limite da paciência e da bondade. 

Pus uma cortina para não ter mais de olhar para ali. E, como disse, senti-me imediatamente melhor. É como se aquele anexo de espaço não existisse. E o quarto voltasse a ter as dimensões originais.  

E se não tiver o quarto para estar, não tenho muitos outros espaços onde possa estar com o mesmo nível de conforto e tranquilidade. Os italianos ocupam a sala logo pelas 8h da manhã e só saem de lá pela meia-noite. Continuam a almoçar todos juntos, na mesa, comigo ali na cozinha e na sala, sem nunca estenderem um convite ou perguntarem se tenho algo para comer. 

Hoje vi tão claramente os olhos da mais-velha a fulminarem um deles. Trata-se do namorado da rapariga do andar de baixo. Eles nunca gostaram dele. Aceitam a sua presença (como aceitam a minha ahha) e com ele falam, porque, afinal, é italiano. Mas acham-no parvo, idiota, não gostam dele. E na realidade, não o incluem nas suas rotinas, a menos que seja esta de almoçarem ou jantarem juntos. Afinal, se a namorada almoça o namorado não ia ficar de lado. Mas é só por essa razão. Não o convidam a sentar e ver um filme com eles, por exemplo. 

Como disse, vi os olhos da mais-velha a fulminar o gajo quando ele dirigiu-se ao jarro de filtro e água, carregando uma garrafa cor-de-rosa. Despejou água para o interior e deixou o jarro, quase vazio, em cima da bancada. 

A mais velha estava a observar tudo muito atentamente e a "matá-lo" com os olhos. Mas a culpa é da namorada dele. Também me enerva ir buscar água e encontrar o jarro vazio. Enerva estar sempre a encher o jarro com água e outra pessoa vem, serve-se e deixa-o vazio. E ela sempre fez isso. No ano e meio que cá vive, nunca a vi repor a água que tira do jarro. Quem chega a seguir é que tem de o fazer. Noutro dia, enchi o jarro de água e fui lavando louça enquanto esperava que a água no jarro pingasse pelo filtro, para então encher um copo e saciar a sede. Nisto ela sai do quarto direta à cozinha, pega no jarro, enche a garrafa com água e sai satisfeita de volta para o quarto.  Foi aí que decidi: se não sabes encher o jarro de volta, já não me vais ver a fazê-lo por ti!

Quem o faz é a mais-velha. Os outros... não querem saber. No passado ela chegou a colar um post-it onde escreveu "encham o jarro". Sei que o fez porque culpava-me a mim de o encontrar vazio. Mas a culpada era outra italiana que cá morou, uma que nunca limpou nada na casa e costumava até deixar a louça que usou suja para outros a lavarem. Este comportamento dela foi encorajado pela mais velha, que o procurou ocultar adoptando a postura de limpar e lavar por ela. É que, se és italiano, nunca tens pecado. Nunca erras, nunca fazes um mal, tudo tem uma explicação. A "explicação" que a mais-velha me deu, mais tarde, para a ausência de práticas de limpeza da italiana (e não era a única) é acreditar que ela era um pouco "posh" (metida a rica). Justificou-o dizendo que acha que ela tem uma empregada que faz tudo por ela na sua casa em italia.

(inserir cara de "não me gozes")


Oh pá... a sério?? A sério que esta tipa me disse este absurdo? Então porque tem uma mulher que vai lá limpar-lhe o pó aos móveis justifica-se que veja os colegas de casa como seus empregados??

Comigo, que sou portuguesa, essa desculpa não pegava. Mas numa casa cheio de italianos a funcionar como uma matilha, quem é italiano pode fazer o que quiser. É o cartão "sai da prisão" do jogo do monopólio. A responsabilidade vai recair sempre sobre outro alguém. No caso do jarro com água, já não sou eu - que encho-o até a máxima capacidade cada vez que lhe dou uso - mas o "inquilino emprestado" - o namorado da rapariga, por quem eles não nutrem simpatia.


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A proposta do senhorio


Suspeitei que o senhorio foi "recrutado" para mostrar o quarto a outras pessoas pré-seleccionadas na véspera de o ter feito. Isto porque, nesse dia pela manhã, ele estava na casa ao lado. E disse que, eventualmente, ia passar para a nossa, para cuidar do jardim.

Esperei, esperei... e nada. Sabia que ele vinha mas sabem quando sentimos que parece que a pessoa está a aguardar que nós saiamos de um lugar para entrar?

Foi essa a sensação com que fiquei. Os dois rapazes também estavam em casa. Ás tantas aproveitaram-se de me verem sair pelas 15.30 e até enviaram um texto ao senhorio - para "programar" a passagem de quarto de modo a que eu nem pudesse escutar por acaso toda a tramóia.

Regressei por volta das 18.30, já estava escuro e na manhã seguinte pude observar que o jardim foi tratado e limpo da folhagem. Portanto, ele apareceu. E demorou-se, porque a limpeza do jardim assim o exigia. O facto dos rapazes estarem em casa, plantados na sala, também me transmitiu uma vibração negativa.

É apenas a minha intuição, mas aponto esse dia e essas horas em que estive ausente como o início da coisa.

Hoje o senhorio apareceu às 18h. Para falar comigo. Temi que fosse algo mau. Ele diz que não e começa a explicar-me o que se trata. Assim que abre a boca, entra a mais-velha, chegada do emprego. A ca*** nem permite que tenha uma conversa isolada com o senhorio! Até a chegar parece que chega oportunamente. Cá para mim não me surpreenderia se o senhorio lhe tivesse escrito uma mensagem a avisar que estava a chegar. Parece que tem sempre de estar um deles por perto, a controlar, a escutar, a vigiar para fazer relatórios ao "grupo".

Sabem o que ele queria? O senhorio, como já expliquei, precisa alargar o meu quarto, pois as dimensões do quarto não correspondem às mínimas exigidas por lei para manter cá um inquilino. Se eu saísse desta casa, até ele fazer as obras, não podia cá meter ninguém. E ele não tem tido tempo para se dedicar a elas pelo que, se eu tivesse saído, ele perderia a renda de todos estes meses. Ou então era forçado a meter logo mãos-à-obra e os restantes italianos seriam forçados a ter de viver numa casa com o WC principal em obras e pessoas a entrar e sair constantemente.

Por um lado, bem que o mereciam!
Se eu tivesse saído...

Mas não saí. O senhorio, esperto, garantiu-me que não ia mandar-me embora. E foi aí que percebi que eu era a pessoa mais vital na casa, embora a mais indesejada também. Porque sem mim, ele perdia renda, mês atrás de mês! Porém, assim que o alargamento for feito - temo que se arquitecte alguma coisa para me remover daqui. Temo até que o novo contrato que ele nos mandou assinar venha a se provar ter sido o primeiro passo nesse sentido. Mas este é outro assunto, que não vou elaborar agora.

A questão que me deixou mesmo com a pulga atrás da orelha, foi ele despedir-se de mim e ir embora, mas ao invés de sair, como eu previa e temi, foi directo à cozinha, onde ficou a cochichar com a mais-velha. 


Quando se fala em voz baixa, não é natural. O natural é falar com voz normal, até mesmo mais elevada. Quando descem o tom, é porque não querem que mais ninguém escute. Após uns 15 minutos, desci à cozinha e nesse instante a conversa terminou e ele pôs-se na alheta. 

Típico. Uma pessoa entra num espaço, a conversa cessa e alguém sai. É um dos sinais mais comuns de que estavam a falar de algo que não querem que escutes. 

A mais velha é uma mestre na dissimulação, manipulação e esquemas ardilosos. Tem aquele ar de criatura equilibrada, centrada, fala baixinho e tranquilamente, sem se alterar, sem ter tons alterados de voz... É mesmo a "cobra". 



Pensem lá nisso: quantas pessoas realmente cruéis e sádicas exibem este traço de carácter? São calmas, falam devagar, baixinho... porque alterarem-se revela emoção! Revela que têm alma e coração. Sensibilidade e apatia. E se não têm esse costume, se lhes é tão raro como ver uma estrela cadente no céu... então é porque essas características lhes são ausentes.



O senhorio vinha propor que eu me mudasse para o quarto que vai vagar, por uns dias, porque ele não queria perder dinheiro de renda. O "novo" inquilino que foi arranjado por os que cá estão, só vai mudar-se no dia 1 de DEZEMBRO. De todos os que eles arranjam, nenhum está disposto a comprometer-se e aparecer na data necessária. Isto só comprova que nem lhes passava pela cabeça mudarem-se. Porque se passasse, tinham dado o notice (aviso de saída) ao atual senhorio e estariam à procura. Como são sovinas, mesmo sovinas, ao contrário de mim, que saí assim que pude sem querer saber se deixo a outra casa paga até o final do mês ou não, estes só se mudam no dia a seguir ao último dia de renda paga na outra casa. 

Ora, o que o senhorio propos, para não perder renda já que o novo-inquilino disse que não ia mudar-se antes do dia 1 de Dezembro e pelos vistos o actual sai dia 23,  foi que eu me mudasse dia 23 para o quarto que vai vagar, pagando a renda desses dias por esse quarto (que é mais caro). E quando o novo inquilino estivesse preparado para apossar-se desse quarto, eu me mudaria de volta para o meu. Nesse espaço de uma semana, ele ia fazer as necessárias obras de expansão, sem as quais não pode alugar o quarto a mais ninguém durante o prazo de um ano.

Ora, pensando bem, eu estaria a ser USADA como tapa-buracos de um indivíduo que ELES combinaram trazer cá para casa!!!
E foi mesmo combinado. 


Cá para mim a proposta do senhorio até já era de conhecimento deles. 
Talvez eu aceitasse... 

Tudo para ele não perder uns 8 dias de renda... 

Agora imaginem se eu tivesse dado de frosques em Maio, quando se deu esta situação, quantas vezes seria necessário multiplicar por 8 para chegar ao valor de renda que por esta altura ele já teria perdido!

Bom, mas "abri" este post para mencionar uma lembrança de um momento que tive o ano passado, faz quase coisa de um ano. Foi depois do Natal, depois de ter limpo e arrumado a casa inteira já que fiquei sozinha aqui durante talvez quase 48h... Comprei flores, muitas, espalhei-as pela sala, e , numa janela, coloquei uns cravos numa jarra verde que havia comprado. Esta aqui:



Quando a mais-velha regressou, como quem não quer a coisa, disse isto a respeito desta jarra:

"Aquela coisa, aquela coisa verde, uma jarra, ou seja lá o que aquilo for..."

Podia ter dito apenas: aquela jarra. Mas como ela é, não foi capaz de resistir ao impulso de mostrar descontentamento pelo objecto. Claro, tinha de desprezar tudo o que vem de mim, a começar pelos meus gostos. Estivesse ali um copo de vidro, uma garrafa em plástico ou uma jarra dourada - um comentário dela nunca deixaria de passar por estes moldes.

Fiz de conta que não percebi o juízo de valor que fez e fiz de conta não perceber que fingiu não saber o que se tratava - sendo tão claramente uma jarra em formato de cacto.

Esta gaja não tem gostos requintados, nem refinados, nem criativos, nem ousados, nem bons, nem maus. Nem sei se os tem, ou se os copia de uma revista de moda clássica contemporânea. Seja o que for que estiver "in" no momento, desde que não seja kitch - deve ser a única coisa que tem o seu aval.

Gosta de ver programas de pessoas criativas, que recuperam casas, reciclam.. contudo, goza-me por eu ser esse tipo de pessoa. Lá porque não tenho o know how ou a capacidade daquilo que ela vê ser feito na TV e me limito ao meu microcosmos, o espírito da coisa é o mesmo. Como se pode apreciar realmente algo, se não se sabe valorizar quem está ao teu lado a fazer o mesmo?? A diferença é que na TV alguém com fala afectada está a restaurar apartamentos, a reciclar móveis etc e eu faço-o em menor escala, com produtos menos nobres, como cartão. É à mesma necessário gosto, prazer, satisfação, imaginação, empenho, determinação... Fez pouco caso de mim quando me viu a fazer um móvel a partir de cartão. Claro que, feito à mão e sem material sem ser um x-ato e um tubo de cola, a perfeição não seria o meu objectivo. Apenas quis algo sólido QB e, principalmente, ter o prazer de criar a partir de pedaços de cartão. Como qualquer pessoa genuinamente criativa, com gosto pela recuperação e reciclagem.

Quando lho mostrei como produto finalmente acabado, ela respirou fundo, hesitou comentar e escolheu fazer apenas este comentário:
"It looks wobbly" (parece que vai abanar/desmanchar-se)


Daquela boca não sai uma única coisa simpática. 


Em caso de curiosidade, aqui está o mencionado "móvel em cartão"


sábado, 24 de setembro de 2016

E Lisboa já está com corredor verde


Tirado do site da Câmara de LX:



Meh. Esperava mais. Mas creio que ao vivo é melhor. Estas imagens não transmitem grandeza e a área é grande. Há umas semanas ainda não estava assim: Claro que gosto. Verde é verde, não tem preço. Uma cidade com verde é outra coisa!

Mas ao ver estas imagens fiquei simultaneamente triste. Porquê? Porque lembrei-me das obras que Lisboa sofreu no passado. Todas no sentido oposto a este. E fico a perguntar-me «para quê»? Para quê tirar os separadores verdes, abater árvores, se agora vão ter de plantar de novo?


Quando Lisboa se preparava para a Expo98 foram tantas as árvores abatidas. Em algumas avenidas os separadores como este desapareceram. Para dar lugar a uma fileira de blocos de cimento. Diziam, numa certa artéria, que o movimento seria tanto, que o alargamento da via para 3 faixas de rodagem de cada lado era indispensável. Então destruíram o separador ao meio, igual a este da imagem. Não satisfeitos porque isso só lhes dava uma via e precisavam de outra, foram abatero passeio para os lados. Centenas (que eu as contei) de árvores foram junto. O trânsito ficou mais próximo das habitações, certos hábitos de convívio que as pessoas adoptavam na beira da estrada desapareceram por o terreno verde ter ficado bem mais diminuto, e para quê? O traço NUNCA precisou das vias extras e agora só serve para caça à multa. Muita avenida, muito espaço... poucos carros. Alguns radares. 

Agora vão ter de plantar tudo de novo...  Embora não vá ficar assim. Devia ser bonito circular na Avenida da Liberdade quando estava com este design!



E é a vida...
São as cidades a evoluir, a mudar de necessidades, a acompanhar as novas gerações...


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os novos passeios de Lisboa


Passei pela Av. Fontes Pereira de Melo e a Avenida da República. Todas elas em obras. Aliás, a cidade inteira está em obras. Mas centrando-me neste trecho, devo dizer que achei brilhante a forma como a CML conseguiu remover a tradicional calçada portuguesa dos principais troços lisboetas, sem que isso causasse consternação entre a população. "Mascarando-o" de obras, mostrando o resultado final, para melhorar e tornar Lisboa mais bonita - dizem. E assim, sem consultar a população e sem causar grandes controvérsias, a típica calçada portuguesa com os seus cubinhos de pedra, desaparece. 

Sim, porque a coisa está a ser feita. E já vai avançada. Os buracos estão feios, os desenhos delineados, alguma calçada nova já aplicada... agora falta a colocação dos «tacos» de cimento.

Av. da República, junto ao metro do saldanha

E devo dizer que... pelo pouco que vi, acho que vai ficar bonita e mais prática.
Alguns apontamentos estéticos da calçada típica ainda se mantêm, aqui e acolá. Mas o grande traço é dominado pela nova calçada. Num desenho geométrico agradável, claro e aparentemente amplo.

Vocês meteram-na, nós tiramo-la... Obrigado!

Amo de paixão a calçada portuguesa. E detesto vê-la danificada. Mas acho que vou gostar deste novo piso. Convenhamos que, andar sobre ele, principalmente em dias de chuva, deverá ser uma experiência totalmente diferente. Digo deverá porque só experimentando para saber... Já vi os mesmos blocos de cimento serem aplicados para criar um passeio e os mesmos permitirem a «patinagem» dos sapatos com o lençol de água. E também formam poças consideráveis, principalmente se junto de trechos que proporcionem movimento de terras. 

Com tanta obra, pergunto-me quem está a pagar por ela. Julgo que não sai dos nossos bolsos - deve existir aqui algum financiador secreto loool. É que é obras por todo o lado. Tenho estado a adiar contar sobre umas feitas aqui na zona, ao longo de toda a avenida, que foi toda reabilitada, com novo alcatrão, mais sinalética, novos cruzamentos. Um trabalho exemplar e bem deito, desde o início. Tão bem feito que senti vontade de os elogiar, tal é a raridade. E todas estas obras que Lisboa inteira está a sofrer (Avenida Infante D. Henrique, Praça do Comércio, Av. da República, 2ª circular, etc, etc) implicam gastos de biliões! E que eu saiba, não somos tão ricos pero que, deduzo, alguém está a arcar com estas despesas.

Lamento não ter conseguido tirar fotografias. Tirei apenas a primeira de cima, antes de perder a bateria. Tinha guardado as revistas com as publicidades que, há uns meses, surgiram a anunciar as obras nestas e noutras avenidas por toda a cidade. Mas antes de as fotografar, também as deitei fora :P Na internet ainda não encontrei nada, nem no site da CML. Ninguém estará a fazer o registo visual destas mudanças? Espero que se apressem... 

Mas continuo a querer saber: Para onde vai a pedra removida??


Há muito, muito tempo que tenho vindo a querer fazer este post sobre as obras em Lisboa... acho que vão mesmo deixar esta cidade mais bonita. Já não era sem tempo! Agora só falta conseguirem mantê-la limpa. E passarem multa a quem deita beatas no chão. E aí sim, entraremos na modernidade :))



domingo, 14 de agosto de 2016

Outra vez não, pela minha sanidade!



Após uma experiência recente, ando preocupada com a eventualidade de voltar a escutar ruídos contínuos. O ano passado padeci horrivelmente de tortura com o ruído de pancadas 24h sobre 24h que parecia ser inaudível para terceiros. Pois NINGUÉM neste prédio alguma vez se queixa de coisa alguma. São todos surdos... Ou fazem-se. Só quando «alguém» avança é que algumas vozes dizem que, afinal, o ruído também as incomodava...


Não sou nada de me meter a reclamar, mas acho espantoso que um ruído mecânico ritmado como aquele tenha sido emitido por todo o prédio durante sete meses e só num período em que ficou bastante estrondoso ao ponto de parecer uma explosão é que alguém referiu ter «escutado» barulho na véspera... 

Isto em Julho, quando o ruído já existia desde a altura do Natal.

E era impossível não o escutar durante o dia num determinado andar. Ocupado por uma família que não tinha ido de férias.... Que por acaso fazia parte do corpo da Administração. LOL. Aprendi que esses são os piores. Querem fazer parte da administração do prédio para poder usar e abusar, só pode. Não fosse a criança na altura a dar com a língua nos dentes - inocentes e verdadeiras como elas são, até se diria que a casa estava mergulhada num silêncio e paz absolutos. 


Receio voltar a ter o sossego ocupado por ruído mecânico. E se assim for, a tortura regressa. 
Não sou esquisita ou intolerante. Mas aprecio o silêncio e tranquilidade. É tão regenerador! Já fui submetida a diversos ruídos incessantes e torturosos, ao ponto de não suportar mais e soltar um sonoro berro. Mas mantive-me tolerante, calada... Por anos. O que só me deu cabo do sistema nervoso. Não recomendo! Foram anos de poucos momentos de silêncio e constante barulho fora e dentro de casa, onde este era até pior! Ruído pela madrugada a dentro, fins de semana também, nenhuma possibilidade de adormecer... um pesadelo. Doente ou não, sempre ruído. Daí hoje encontrar-me no limite.

Prefiro escutar ruídos «normais», como as cigarras lá fora a fazer o seu banzé, ou ruídos aos quais pessoas da cidade estão acostumadas: um ocasional automóvel a passar na estrada, um avião ou helicóptero mais ruidoso, as terríveis motas ensurdecedoramente barulhentas... sons passageiros, tudo bem. Tenho tolerância. Para além disso acho insustentável. 


Instalaram um destes bem perto da janela do meu quarto... O que acham? Devo entrar em pânico ou o vizinho, que já mostrou indiferença pela produção do ruído da instalação, terá tido o cuidado de escolher uma marca e modelo super silencioso? 



Uma interessante explicação dos efeitos à exposição de ruído:
O ser humano tem um limite de 85 db para níveis de ruído. Muitos sons do nosso ambiente excedem esse patamar. Numa discoteca o ruído é em média 120 dB; um motor de caminhão é de 105 dB; o do avião 125 dB. a exposição contínua a esses ruídos altos pode levar a perda da concentração, irritação permanente, impotência sexual (devido ao stress), distúrbios do sono, dores de cabeça, distúrbios cardiovasculares, distúrbios hormonais, gastrite, disfunções digestivas, aumento da freqüência cardíaca e PERDA AUDITIVA.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Três Soltices


Hoje compreendi porque é que as damas antigas usavam camisas com colarinho a tapar o pescoço. É bom para dias como este: com sol mas muito vento.


Apeteceu-me usar uma. Acho que esta ventania ainda me vai dar uma pneumonia. E se nesta era posso ir ao médico e ficar medicada - coisa que raramente faço - na altura a prevenção era mesmo a única forma de combate à doença. Acho-os mais inteligentes. 



Hoje perdi uma nota de 10€. Quem a achar faça o favor de recambiar à dona. Era novinha, quase sem dobras, das mais recentes. Foi emprestada por uma terceira pessoa para a compra de um produto, que acabei por ter de comprar à mesma e desembolsar do meu bolso o prejuízo. 

Posso garantir que só pode ter caído em 2 lojas onde entrei e em todas demorei-me a ver produtos pelo que, se caiu, ficou perto de mim. Não acho nada improvável que alguém tenha visto a nota cair da minha mão e se precipitado a apanhar, sem nada dizer. 

Mas já disse uma vez minha mãe, após um ato generoso diante de uma circunstância mesquinha: "Deixa estar, Deus devolve".
Fico a aguardar...

Será que a minha cotação com'Ele está em alta?



Proliferam obras em prédios.

Até um leigo é capaz de perceber que algo na lei deve ter tornado muito vantajoso tornar-se arrendatário. Aqui na zona alguém comprou 4 apartamentos de um bloco predial e está a reparar todos em simultâneo. Metros à frente, mais obras. Girando um pouco para a esquerda e andando mais outro bocado, mais obras. Tudo muito discreto, profissional, feito por quem sabe e não está no seu primeiro rodeo. Ó todos ficaram ricos subitamente, ou algo na lei mudou e tornou muito vantajoso para aqueles que já têm dinheiro investir em propriedades. É o meu sonho. Investir em imóveis! Eu, que ainda não tenho um, snif. Quem sabe Ele me compensa a perda dos 10€ e tudo o mais com o ganho do primeiro prémio do Euromilhões?

E a oportunista que se divirta com o bem supérfluo que adquiriu à pala da distração de um pobre que anda sempre a economizar. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Foi há 83 anos.... Que o marquês olha por nós!

 A 13 de Maio de 1934 foi inaugurada, em Lisboa, a estátua do Marquês de Pombal.


Inauguração do Pedestal ao Marquês de Pombal
 

Esculpida por Francisco dos Santos e, após a sua morte, em 1930, continuada por José Simões de Almeida (sobrinho) e Leopoldo Neves de Almeida. 

A estátua do Marquês de Pombal e trabalhadores: noção de escala
O trabalho de corte e escultura da pedra foi realizado em Sintra, na fábrica "Pardal Monteiro Mármores" e os blocos esculpidos transportados em "zorras", espécie de "carroças" com rodas, puxadas por 4 a 6 juntas* de bois. O percurso podia levar até cinco dias.

Imagem da estátua e pedestal sem data confirmada (tida como 1930, antes da inauguração?)

Era assim que estavam os terrenos nos quais o monumento foi erguido.
Aqui veio a nascer uma das principais artérias de Lisboa (foto de 1888)
A ideia de um projecto para a construção de um monumento que perpetuasse a memória de Sebastião Melo de Carvalho (Marquês de Pombal e Conde de Oeiras) surgiu em 1882. O projecto de uma rotunda na continuidade do então chamado "Passeio Público" (avenida da Liberdade) foi aprovado em 1884.

Eram tempos conturbados e, a 5 de Outubro de 1910, deu-se a implementação da República. Aqui está a população a celebrar o 1º aniversário dessa data, na referida futura rotunda do Marquês.

Comemorações do 5 de Outubro, 1911
Em Abril de 1912 dá-se um invulgar total eclipse do sol e afunda o Titanic.

O projeto para a rotunda com o monumento ao Marquês, entretanto interrompido, é retomado e escolhido em concurso público, em 1913.
O projecto vencedor (1913)
A 12 de Agosto de 1917 decorreu a cerimónia de lançamento da "primeira-pedra". 

Foto da cerimónia de lançamento da primeira pedra
E tudo começa assim... com homens que pegam na enxada. 

Trabalhadores com suas enxadas a cavar as fundações para o ilustre monumento

Abertas as fundações, a primeira pedra é assente a 15 de Agosto desse mesmo ano de 1917. Mas este seria um projecto com mais uma outra cerimónia de lançamento de "primeira pedra". E a 13 de Maio de 1926, com o país em situação periclitante, é novamente realizada uma outra cerimónia solene de lançamento da segunda primeira pedra. 

O presidente da República Bernardino Machado na
colocação da primeira pedra

Debaixo da mesma, foi colocado um cofre que havia sido selado em 1881, contendo moedas da época. É caso para perguntar se ainda se encontrará lá?

Portugal está na primeira república e a situação política é muito instável. A 28 desse mesmo mês de Maio, dá-se a que ficou conhecida como a "Revolução de 28 de Maio" ou Revolução Nacional. É destituída a "Primeira República" e começa início da ditadura militar, comandada pelo Marechal Gomes da Costa, cuja implementação definitiva surgiu a 6 de Junho desse ano de 1926. É solenemente celebrada com um desfile de uma parada na Avenida da Liberdade, onde estava a ser preparada a rotunda ao Marquês de Pombal, estadista do Reinado de D. José I, referenciado por muitos feitos, entre os quais ter decretado o fim da escravatura no continente (12 Fevereiro 1761). 

O Marechal Gomes da Costa no seu cavalo, desfilando a 6 de Junho de 1926
na Avenida da Liberdade (Lisboa)
Entra assim a todo o gás a construção em homenagem ao homem que reconstruiu a baixa lisboeta após o terramoto de 1755.

Base onde assenta o pedestal

A calçada portuguesa já a marcar a sua presença?

A Rotunda já com o pedestal mas sem a estátua
 O pedestal em pedra tem cerca de 40 metros de altura.

A configuração da área é feita em estrela... grandes mudanças!
A estátua em bronze do Marquês, ao lado de um leão, símbolo de força e realeza, é assente 8 anos depois, decorre o ano de 1933. Em Abril desse ano, o regime militar em funções redige e aprova a Constituição da República, e passa a denominar-se pela designação "Estado Novo". A 2 de dezembro a figura gigantesca do Marquês é assente no pedestal, virada para a baixa lisboeta que ajudou a reconstruir após a destruição deixada pelo devastador terramoto de 1755. 

Construção (1934)
Foto aérea da rotunda (1934)

A inauguração surgiu no ano seguinte, há precisamente 83 anos, idade com que o estadista partiu desta terra, para coincidir com a sua data de aniversário. Sebastião Melo de Carvalho nascera 234 antes. Hoje sopraria 317 velinhas. 

Foto tirada em janeiro 1940

À inauguração não compareceram o presidente do conselho Oliveira Salazar, nem o presidente da República do Estado Novo, o General Oscar Carmona.



Parabéns, Marquês! 

Nota: Carregar nas imagens para ampliar os detalhes
 (vale a pena).


*Junta de bois: conjunto de dois bois
Nota2: mais informação detalhada com fotos neste site aqui.
E outro tipo de informação aqui.



segunda-feira, 17 de março de 2014

A chegada do SOL traz mais costumes que os mencionados...

Com o sol chega um tempo mais convidativo. O espírito enche-se de uma maior alegria. A vontade de sair é maior. Fazer exercício ao ar livre é uma vontade que nenhuma chuva ou frio desanima. Mas existe uma coisa que o sol também traz. Uma coisa a quem poucos fazem referência:

OBRAS EM APARTAMENTOS!!

Boa primavera gente!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ciclovias com escarlatina

Lisboa despertou para o Inverno com obras em suas das mais principais artérias. A razão é a construção de ciclovias, que, supostamente, vão ligar várias zonas de Lisboa umas às outras. Perto de mim começaram a construir essas vias. Levou tempo mas, terminaram. Ou não?


Acontece que as linhs já foram traçadas, alcatroadas e pintadas de vermelho. Mas, com o Inverno, a chuva foi a principal responsável por levar a tinta vermelha do asfalto... Agora a ciclovia não passa de entulho. Com uma aparência degrada e deprimente mesmo, abandonada. A cor vermelha não assentou no alcatrão o que gerou umas manchas semelhantes à escarlatina. As vedações, redes de plástico esburacadas, em estacas de metal, permanecem no local, caídas pelo chão, como lixo. É uma paisagem triste de se olhar. Já parece um local com anos em cima... e nem sequer teve uso!

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Ao construirem a ciclovia, prejudicaram os moradores locais. É sempre um inconveniente, que queremos curto e esperamos que, quando termina, tudo fique melhor. Mas não. Por causa da ciclovia, o caminho por onde costumava passar para me dirigir à paragem do autocarro, ficou mais longo. como já não me bastasse ser uma subida de 5 minutos, que muitas vezes me faz perder o transporte, foi dificultada por a zona estar vedada. A ciclovia passa próxima de uma varanda de um prédio, o que parece inestético. Também foi colocada numa das minhas partes favoritas para caminar: a berma de uma zona relvada, que, por si só, possuia o seu próprio trilho de terra batida, do tanto que as pessoas cruzam por ali. Em algumas partes do percurso em que a mesma se cruza com caminhos calcetados, passa por cima. Noutra, o caminho permanece no traço e sobrepõe-se à ciclovia. O critério, porém, é duvidoso... E nisto, ainda ninguém me "devolveu" o espaço público, para que eu possa caminhar onde bem desejar...


.Por quanto tempo vai ficar assim? Vou ficar a contar.


Tenho cá para mim que vou poder também contar, pelos dedos, a quantidade de bicicletas que vão, nestes primeiros tempos, cruzar aquele caminho... na primavera talvez seja diferente. Ainda assim, estou para ver se a estética da zona acabou tracejada por algo que a empobrece.