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sexta-feira, 25 de junho de 2021

Isolamento quebrado para ir colocar o teste no correio

 Estou autorizada a "sair" de casa para ir colocar o teste no marco do correio (especial para colheita de testes Covid).  Lá fui, munida de máscara e óculos. Evito as artérias mais congestionadas de gente, vou pelos caminhos com menos aglomerações e nisto, um homem sentado num banco, ao sentir-me passar, levanta o pescoço, abre a boca e tosse duas vezes de propósito para me atingir.
Mas mesmo de propósito. Não lhe apeteceu tossir e fê-lo no momento que ia a passar. Fê-lo porque percebeu que ia passar na sua frente e ele, como um cão que late, abriu a boca e forçosamente tossiu para me atingir. 

Um acto que considero criminoso, nos dias que correm. 

Mas o que fazer? 
O homem pareceu-me ser um desses que andam à deriva. Ainda assim, não é desculpa. Sacana. A espalhar os seus germes em cima de mim. Intencionalmente. 

Isto fez-me perceber que quero ainda mais permanecer dentro de casa. 
Quem diria? Eu, que nunca fiz confinamento nem a ideia pareceu que encaixasse comigo. 

O que vejo lá fora NÃO ME AGRADA.

Eram quatro da tarde e os pubs já estavam abertos, com as suas esplanadas a ocupar metade do espaço. Já não há "mascarados" nas ruas. As ocasionais máscaras que se vêm já nem estão no queixo: estão no pescoço! 

Os mais novos, que ainda nem vacina receberam e que são a faixa etária que mais gosta de aglomerados e festas, já entram nas lojas sem usar máscara. E ninguém lhes diz nada. 

E pessoas ou items deixados pelo chão das ruas? Denunciando que aquele espaço está a ser reclamado por um sem abrigo? Vi tantos!! Igual ao que estava ou ainda pior ao antes da pandemia. 

Uma rápida passagem pela cidade para ir colocar uma encomenda no marco de correio e devo ter visto cinco situações destas.  

Tudo é para mim uma visão triste e não me identifico com o que me cerca. 

A verdade é que a única coisa que me prende a esta cidade é o meu emprego - e o ordenado que consigo tirar dele. O resto não mais me diz nada. Nunca foi um local muito bonito de se viver - mas para quem não tem automóvel para viver em bairros familiares ditos - sossegados - a cidade cumpre bem o seu papel em termos de acessibilidade de transportes. Cidade por cidade, todas no UK são iguais. Têm as mesmas lojas, as mesmas ruas, as mesmas casas... 


domingo, 9 de agosto de 2020

Os malucos de Domingo

  Sai do supermercado Lidl pela entrada. Depois de ja estar fora, preparo-me para dar inicio a scooter quando o homem que tinha entrado chama-me através do vidro da porta fechada e poe-se a gesticular e a balbuciar coisas que nao entendo. O que percebo é que este tem sotaque de europa de leste, nao usa mascara no rosto e esta acompanhado de uma mulher gravida. Esta sim, usa mascara. 

Pensado que ele decidiu reclamar por eu sair por ali (ha sempre um estuporzinho que decide usar-se das normas so quando lhe convem para apontar o dedo noutras direccoes) elevei as maos e acenei que as tinha ido desinfectar.

Ele continuou a reclamar atraves da porta de vidro fechada. Uma perda de tempo. Ao inves de seguir a sua vidinha e nao se preocupar com a dos outros, decidiu estragar-me o dia.

Sim, porque este tipo de coisas aborrece-me. Eu so quero ir ao supermercado sossegada e voltar. Nao me meto com ninguem, nao destrato os outros, mao me armo em senhora da razao, ainda que veja coisas que nao goste. Como o segurança a andar por um dos corredores a falar continuamente com alguem que ele seguia, sem ter mascara ou proteccao de rosto. Quero sossego. Mas há pessoas que precisam destes instantes para armarem confusao.

Quando sai do Lidl e voltei a entrar, foi porque pretendia desinfectar as maos. À entrada do supermercado eles disponibilizam o produto. Mas a saida nao. E acho tao importante desinfectar antes quanto depois. Toquei em tudo com as maos, recebi o recibo das compras da mao desluvada de um rapaz na caixa, cruzei-me com um segurança falador e sem mascara e o Lidl é um supermercado de estreitos corredores em que as pessoas circulam apertadinhas e em ambos os sentidos. Eu entrei com mascara e viseira. E ia agora tocar na scooter. Precisava ter as maos limpas. 

Quando isto aconteceu, o segurança estava do lado de fora. Ao perceber a comoção apressou-se a entrar e eu segui caminho. Mas na esquina decidi dar meia volta. Sim, sai pela entrada. E depois? É isso grave? Num supermercado que, uma vez la dentro, as pessoas esbarram umas nas outras e caminham coladas? Um homem que entrou no supermercado sem usar mascara, que e proibido por lei e da direito a multa, põe-se a dar liçoes de moral?

Dei meia-volta, mas ja nao o apanhei ali. Infrigir leis? Ia exigir a presenca da policia para que esta lhe passasse uma multa. E tambem ao supermercado, por ter dois funcionarios a trabalhar sem proteccao e nao ter condicoes para se manterem os 2m de distancia.

Que raiva me dá quem quer se armar em senhor da razao e nao olha para si mesmo antes de abrir a boca.

Decidi continuar caminho e vim ate ao parque que tem um  grande lago. Preciso de espairecer. 




Estado do calçado estreado neste dia

Ultima imagem: 

Estado do calçado estreado neste dia. 

Primeira Imagem:

Aguas do lago

 Segunda imagem:

Local de repouso

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Uma viagem à muito aguardada

Nesta terça-feira veio o sol.
E também melhorei da condição que me fazia sentir cansada e adoentada.

Decidi ir dar um passeio até uma cidade costeira. Passeio à muito desejado e constantemente adiado.

Acordei cedo (na realidade nem dormi) e pelas 9h da manhã entrei num desses autocarros altos, de dois andares.



Fazia anos que não andava num. Fui direta ao piso superior e sentei-me no assento da frente. A vista e a viagem foram do melhor. Deu até para tirar uma fotografia de qualidade saver-screen/ambiente de trabalho.

Cheguei à cidade costeira. Existiam tantas gaivotas a pairar por todo o lado que às tantas senti-me a jovem Lana (Conan - o rapaz do futuro). Só que a minha TiKi é portuguesa e ficou em portugal. E é quase do tamanho de uma cegonha!


Depois fui dar um passeio de barco. Embarcação em madeira, tradicional, em razoável estado de conservação.



Por fim sentei-me no areal, junto à água. Até deu para fazer uns castelos com a areia...


Mas estava na hora do almoço e dirigi-me a um fish&ships local. Só que aí vi uma barraquinha a vender frutos do mar e não resisti: lá comi um delicioso camarão!


De pança cheia nada melhor que voltar a relaxar... Nestas cadeirinhas disponíveis para quem quisesse.



E como o dia era para as crianças não faltaram diversões. Tipo... feira Popular! E para quem quisesse, casino também. Tudo ali, no mesmo sítio. Comida, diversão e relax...


A multidão era tanta que seria de julgar que se tratava de um dia de fim-de-semana durante as férias de Agosto! Mas não. A malta só estava era farta de não ter o que fazer após a «seca» do encerramento da Páscoa...


sábado, 17 de setembro de 2016

Entender LISBOA


O encanto de Lisboa é que tem tanto de cosmopolita 
como de provinciana. 
É rara a cidade que consegue, como esta consegue, 
ser este dois-em-um. 



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Lembram-se do flagelo dos incêndios de verão?


As recomendações da Autoridade Nacional de Protecção Civil, dos Bombeiros, da GNR e do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas para a prevenção dos incêndios florestais são sempre as mesmas: cuidar do terreno, não juntar lixo, cortar o mato....

Recordo-vos agora deste post: Vivo num matagal

Então não é que o matagal aqui perto incendiou-se?

Agora espero que estas entidades cheguem até a Junta de Freguesia para lhe aplicar as devidas sanções por ignorar os seus deveres, mesmo diante de constantes apelos da população local para que não permitisse o crescimento e abandono das áreas verdes/palha.



terça-feira, 5 de abril de 2016

Portuguesinha sou e faço questão de ser

Quando fui ao Porto fiquei hospedada numa pousada(?) dirigida por uma senhora simpática, que tinha na voz uma entoação que achei curiosa. Por isso perguntei-lhe se era ali da zona. Não nasceu em Portugal. Não recordo agora o país onde disse ter nascido, mas sei que já vivia neste há uns 40.

Horas depois oiço a porta do quarto frente àquele no qual estava, abrir para um novo hóspede, ali conduzido pela mesma senhora afável. Ela pergunta-lhe o mesmo que perguntou a mim, desta forma: "O senhor vem de Lisboa?". E ele responde:

-"Sim venho de Lisboa, vivo lá"."Mas sou aqui do Porto! É daqui que eu sou".

-"Ah" - diz a senhora. "Não é por nada mas isto aqui é melhor que lá em baixo".

E depois ficam ali numa alongada troca de ideias, não maliciosas, sobre a forma de receber e de estar do Porto e as de lá "de baixo", concluindo que eles ali sabiam receber melhor e em Lisboa as pessoas eram «diferentes». 

Achei curioso "tropeçar" assim do nada com esta muita falada «rivalidade» entre um ponto do país e outro. Nem sei se posso chamar-lhe assim, mas fui um nadita de nada exposta à superfície dessas ideias. 

Antes de partir, entrei num café franchising e dirigi-me para a caixa, onde duas mulheres estavam a ser atendidas na compra de uns bolos de aniversário. Existiam também duas empregadas atrás do balcão. As duas clientes estavam a terminar de ser atendidas e quando vejo a segunda funcionária dirigir-se para a frente do balcão diversificado em bolos, salgados e sandes, vou para lhe falar: "Bom dia, queria...." mas esta dirige-se às duas mulheres que já estavam a ser atendidas. Que ficaram atrapalhadas. E assim foi informada pela colega:
-"Já estou a atender estas senhoras".

Naturalmente deduzo que vai virar-se para mim, ali ao lado das clientes. Mas sai do balcão e ignora-me. Não acho normal mas não dou importância. Fico a torcer para ser atendida pela empregada que parece ter paciência e simpatia para as conhecidas clientes dos bolos de anos. Entra mais alguém no café e fica atrás de mim. A empregada fujona regressa e dispara: 
-"Quem está a seguir?" - e sem sequer me olhar na cara, olhando por cima da minha cabeça mas sabendo que eu estou ali à alguns minutos porque não é cega, vira-se para a mulher atrás de mim e começa a atendê-la.

Achei rude, mas descartei a hipótese de qualquer má intenção. Talvez tivesse num mau dia. Talvez até fosse uma distracção ou estivesse de implicância com a outra colega. E ali fiquei «pendurada», agora realmente à espera que as clientes indecisas do bolo de aniversário se despachassem para poder pedir o meu hamburger. Ao menos a rapariga que as atendia parecia cordial e paciente. As indecisas não se despacham mas a funcionária que me ignorou sim. Empata-se mais um bocadinho de costas para o balcão até que ao virar-se para a frente, comunico-lhe:

"Bom dia, quanto custa o hamburguer?" 
- "Tudo um euro. O que é que quer?" 
-"Quero um hamburguer" - digo com simpatia. Depois acrescento uma observação qualquer a respeito de me sentir melhor comendo isso a bolos, que tinham bom aspeto, ou algo assim do género e estava a ser simpática. Mas a jovem rapariga atrás do balcão continuou uma pedra de gelo que nem contacto visual fez comigo.

Agradeço-lhe novamente. -"Obrigada". Não me responde e vira a cara, o corpo, para fazer outra coisa qualquer. Tinha pago o hamburguer, agarrei-o da bancada onde foi colocado com alguma brusquidão dentro do saco de papel que pedi "para levar", mas acabei por sentar-me numa mesa para o degustar tranquilamente. Estava a chover a potes lá fora!!


Sento-me e logo reparo numa mesa vazia, só com chávenas de café sujas, com um lenço de senhora em cima da cadeira. E penso: "Alguém deve ter-se esquecido disto aqui". "Se avisar uma empregada, pode ser que a pessoa ainda esteja aqui e o recupere". E vai que tento chamar a rapariga, a mesma que me «atendeu», que está agora a passar um pano no tampo de algumas mesas. "Olhe, desculpe... " "Se faz favor..." - Nada. Continua com o mesmo problema de audição que demonstrou ter de início.

Insisto: "Desculpe, acho que alguém esqueceu aqui este lenço". Ela olha pela primeira vez nos meus olhos, mas não diz nada e vira-se para o lenço. Algo realmente frio e aparentemente intencionalmente discriminatório emana do atendimento desta rapariga. Ela avança para puxar o lenço da cadeira - sem nada me dizer mas aí um rapaz diz que o lenço lhe pertence. Ora, eu já havia reparado no rapaz, sozinho sentado noutra mesa. Pareceu estar ali a observar os outros ou a fazer tempo, sem propósito e sem consumo. Até me ocorreu que, se não dissesse que o lenço estava ali este podia levá-lo, pois parecia agir algo estranho. Um lenço feminino pertencente a um homem? Jamais me ocorreria tal coisa, mas tudo bem e, com simpatia, olhei para o homem e disse:
-"Ah, desculpe, como não vi ninguém aqui pensei que tinha sido esquecido".

E não dei muita mais conversa, limitei-me a, finalmente, começar a saborear o meu hamburguer com tranquilidade e em sossego. Não era um bom hamburguer - longe disso, mas deu para encher o estômago.

Depois saí. Mas devido à chuva, ainda me alonguei na porta, que tinha uma área pequena e isolada. Ajeitei bem as coisas que carregava, cobrir-me com o capuz e fechei bem o impermeável. 


Estava quase para voltar para dentro porque ocorreu-me comprar algo para consumir durante a longa viagem de regresso. Mas ao virar-me para o interior, subitamente senti que não era bem vinda ali. Que me queriam na rua. Senti-me mal atendida. E arrependi-me de não ter dito à rapariga: "Desculpe, eu estou aqui" quando me ignorou e se virou para clientes que já sabia estarem a receber atendimento. Ou ter-lhe dito "Olhe que sorrir não dói" quando lhe estava a ser cordial e mostrou-se antipática.  


Conclui que este tipo de pessoas não se limitam a sugar as boas energias, são também venenosas. Caso contrário não estaria um ano depois, a lembrar-me dela. O melhor a fazer é chamar logo a atenção da pessoa. Se existir confronto, uma troca infeliz de palavras, deve ser melhor do que sentir a má vontade e nada dizer. O veneno que estas pessoas emanam acaba por contaminar. 

Se for verdade que o povo do Porto é mais simpático no atendimento, esta rapariga deitou tudo por terra. E foi com esta última impressão que abandonei a cidade. Posso dizer que a senhora da pousada foi simpática, mas também tinha esse interesse, né? Simpatia sem interesse, só o de uma jovem caixa de supermercado, que prestou um atendimento sorridente, atencioso e bem disposto. Saí dali a desejar muita sorte e fortuna àquela jovem rapariga simpática e que estava a esperar um filho.


E nestas recordações comecei a refletir nisto de se insistir em separar e avaliar o carácter das pessoas pela região... Algo que abomino. Já me senti descriminada por ser de Lisboa. Quando fui estudar fora da cidade. Uns foram antipáticos sem motivo, outros simpáticos, ambos com ideias préconcebidas das «boas» oportunidades de vida em Lisboa. Passados todos estes anos posso dizer que foi legítimo, existiu realmente uma discriminação. Que me apanhou de surpresa, que me apresentou a algo que desconhecia, por não praticar: o preconceito. 

Gosto de pessoas porém sou algo distraída, nessa distracção incluo regionalismos e sotaques. Posso estar a falar com alguém e não dar conta, não identificar nada de diferente. Meu avô nasceu no Porto. Aliás, praticamente toda a família veio do Norte. Sempre o ouvi falar comigo aqui em Lisboa e nunca achei o seu falar diferente do meu falar. Ele dizia bassoura e eu dizia vassoura. Só isso. Talvez tenha percebido melhor o quanto gostava da forma como falava e porquê, depois que se foi. Porque ficou a saudade. Cada vez que oiço alguém falar igual a ele, e digo isto não só nas palavras, mas no jeito de se expressar, na construção de ideias, o meu coração enche-se de carinho. 

E foi assim que me emocionei com o testemunho ocular de um senhor na televisão, aquando um tiroteio num hostel no Porto, em Janeiro. Ai Jesus, que ele a falar parecia tal e qual o meu avô! Nem todos parecem mas há algo na educação que uma certa geração recebeu que ficou-lhes nas palavras, nos gestos, na entoação, e me é familiar.

Meu avô jamais teria entrado naquele café, sentido o que eu senti e deixar a coisa ficar como ficaram. Ia dar uma lição de humildade e boa educação ao mal educado que não soubesse fazer o seu trabalho. Era bem capaz de dizer umas curtas verdades, deixar o outro encurralado sem argumentos e dizer: "Não bolto mais aqui!".

Fiquei a pensar na senhora da hospedaria, que se sentia tão pertencente àquela cidade, porém tinha todas as suas raízes num outro país. Do rapaz que vivia e trabalhava em Lisboa mas que fez questão de se diferenciar como nascido ali. E eu... que conheci pouco sem ser esta cidade onde nasci (e mal, ainda por cima) e no entanto tenho todas as raízes no Porto, em Viseu, em Castelo Branco, Amarante... locais onde os meus viveram por anos e cuja genética carrego. Mais que Lisboeta, Portista, o que for, sinto-me portuguesa. Sinto-me portuguesinha - só mais uma entre muitos.









domingo, 26 de julho de 2015

Sete e meia da manhã...


Abro totalmente a janela, para que o ar fresco deste dia de domingo invada o quanto antes a casa. Um pássaro passa rapidamente a voar e a piar. Oiço somente um barulho, ligeiro, ritmado... perto. É o som do vento a passar nas folhas da grande árvore do outro lado da avenida.

Que privilegiada me sinto! É raro viver no meio de uma movimentada cidade e apanhar um instante como este.

Apuro os meus sentidos. Adoro sentir o silêncio. O som da vida e mais nada. Sei que é uma quietude rara e que em instantes será rapidamente interrompida pelo rugir dos barulhos da cidade: automóveis. E me espanto. Como pode estar tão silencioso? Nem um som mecânico ao longe, vindo da rotunda, do túnel, trazidos pelo vento... nada. 

Quinze minutos se passam e enquanto escrevo este relato, os sons que chegam pela janela são mais agressivos e distintos: são os de automóveis. Um instinto levou-me a levantar e espreitar. Já existiam carros estacionados à beira da estrada e cheguei à janela mesmo a tempo de ver o primeiro condutor que gosta de estacionar no passeio. Lá ficou o automóvel, na calçada. Em breve, toda ela vai estar repleta. Mas mais para o final da tarde, talvez, quem sabe, todos se vão embora e os pássaros e o vento voltem a ser os sons que predominantemente se escutam lá fora. 

A cidade a um Domingo, é o paraíso!
A um domingo de um mês de férias, costumava ser quase um deserto.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Mentalidade formatada

Estava aqui a pensar nas desenvolvimento de uma pessoa que cresce numa zona mais quieta e tranquila como uma aldeia versus ao desenvolvimento de uma pessoa educada na grande cidade. Acredito que uma pessoa criada num meio ambiente menos exposto acabe por se desenvolver mais depressa. Existe aquela ideia pre-concebida de que na cidade se cresce depressa enquanto no campo longe do progresso o adolescente não desenvolve muito. Pessoalmente sempre achei isso um absurdo. Até porque, se assim fosse, não seria natural que em locais mais remotos muitos jovens formassem família cedo.  No que respeita à sexualidade, pelo menos - que é o que muitas vezes as pessoas se querem referir, esta não chega necessariamente até os jovens que vivem nas grandes cidades primeiro que aos que vivem em zonas remotas.

E acho que compreendo porquê. É preciso tempo para reflectir e fazer uma auto-consulta para se entender. Para a meditação - se preferirem. E esta é essencial, julgo eu, para o crescimento adequado de qualquer indivíduo. Ora um adolescente está ocupado com as suas obrigações escolares diárias ou está a passar pelas rotinas típicas da vida social na escola, da vida social entre os pares. Distraem-se todos com o mesmo, ocupam o tempo todo com diversas coisas que lhes ocupa a mente e deixa pouco ou nenhum espaço para deixar a mente sossegar para meditar. 


 Como explicar o que quero dizer? Em zonas altamente populacionadas em que a oferta de diversões é imensa, não se tem muito tempo para a reflexão.


É difícil não detectar com tristeza que existem hoje tantas ideias e comportamentos pré-estabelecidos que praticamente FORMATAM a mentalidade e as acções dos nossos jovens - especialmente os que vivem na cidade. Vestem igual, pensam igual, consomem os mesmos produtos, querem consumir esses produtos, divertem-se da mesma forma, nos mesmos sítios. São quase todos umas fotocópias uns dos outros sabendo eu o quanto se é diferente e o quanto a busca da identidade é importante nesta fase. Parece-me triste esta existência padronizada. Nasceram e já lhes dizem o que devem comer, o que devem vestir, que músicas devem escutar. Mas será que gostam de tudo o que foram ensinados que devem gostar? Falta a alguns a exposição a outras formas de vida, de sociabilidade, de realidades. 


A juventude é maravilhosa. É a melhor fase para se descobrir no e o mundo. E as grandes empresas sabem disso tão bem que muitas multinacionais dirigem os seus produtos a este target especial de consumidores. Tomem como exemplo a OPTIMUS - julgo que é essa a rede de telemóvel que é quase inteiramente direccionada para o público tão jovem mas tão jovem, que são os pais que ainda têm de pagar a mensalidade do telemóvel, embora toda a mensagem de consumo de serviços seja direccionada aos filhos. Lembram-se de um recente anúncio televisivo em que uma mulher idosa ao colocar o pé na água de um jacuzzi cheio de jovens começa a derreter da ponta do pé até ao fim, desintegrando-se? Não gostei desse anúncio preconceituoso mas ele foi muito explícito quanto ao seu público de eleição: a juventude. O resto são trapos... servem para pagar as contas mas o público mais desejado de qualquer empresa é JOVEM. Seja que produto tenham para vender. 

Então lamento que esta juventude - em particular a que cresce em grandes aglomerados populacionais, esteja toda a ser alvo deste merchandising e campanhas de sedução. 

Numa ocasião participei num inquérito que visava encontrar os produtos mais adequados para consumidores de todas as classes etárias, que são divididas mais ou menos em o grupo de bebés, depois das crianças até os 12 anos, depois dos 12 aos 18, dos 18 aos 21 ou 25 e assim sucessivamente, conforme passam as várias etapas da vida mais marcantes. Sugeri o que para mim me pareceu óbvio que era de interesse para o público alvo predilecto: a juventude. A pessoa que fez as perguntas estava particularmente ávida para receber soluções de produtos para o público desta idade. A minha sugestão foi implantada e teve um estrondoso sucesso. Eu, infelizmente, não ganhei nada com isso de dar ideias grátis a outros e nem fiquei contente com o proveito dela retirada.

Todos sabem que a juventude é o público-alvo mais desejado e o mais difícil de agradar. Mas se o obterem, as empresas têm os pais todos a gastar dinheiro no produto. Afinal, os jovens são persistentes e além disso cansam-se depressa e querem outros modelos, outros lançamentos, todos os anos ou a cada estação. Foram educados a pensar assim - defendo eu, pois também eu vi no meu tempo de criança publicidade na TV a tudo o que era brinquedo. 
Próximo da época do Natal então, "chovia" tanta publicidade que lembro que meus pais mudavam logo de canal. O normal seria se escutar "eu quero isto" ou "isto é giro" ou "podias me oferecer isto pelo natal ou pelos meus anos?". Só que a pesar da mensagem consumista funcionar como atractivo, existia a consciência de que não era possível ter tudo o que desejávamos e, mais importante ainda, o que recebíamos era para ser preservado e durar «uma vida toda» - assim me era dito. Era UMA barbie - ao invés de uma dúzia e UNS ténis, ao invés de vários de diferentes cores. Pelo que lamento que desde então as coisas tenham se tornado tão eficazes para as empresas que manipulam estes jovens e seus pais como consumidores. Que lhes dizem o que fazer, o que desejam, o que precisam, como devem vestir, que corpo devem ter, que pele devem ter, que penteado devem ter para ficarem na moda...

Em locais mais isolados ou pequenos a exposição também existe, mas talvez a juventude esteja mais protegida. Talvez... A única coisa que o jovem da cidade tem aparentemente de vantagem sobre o jovem criado em terras mais tranquilas é que este tem uma postura mais rápida de viver e desenrascar-se, uma superior experiência em noitadas, comportamentos padrão e de consumismo. Sabem se integrar rápido porque fazem parte do mesmo conceito. Mas de resto, algo se perde. Algo que talvez - não sempre mas de uma forma geral, o jovem educado de uma forma mais equilibrada consegue trazer de novo a um grupo educado a pensar igual, vestir igual, agir igual.


 Nas grandes cidades os jovens formam grupos conforme as pessoas são bonitas, bem vestidas, usam óculos são populares. Duvido que em zonas mais sossegadas o mesmo não aconteça - porque são coisas transversais que atravessam todos os extractos sociais, culturas e gerações - mas também acredito que fica mais fácil escolher amigos por afinidade de ideias quando não existe essa pressão inconsciente de os escolher conforme as conveniências. E conveniências ditadas por quem? Quem diz o que se deve pensar, comer, vestir, usar? O CONSUMISMO.



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Não sei se ainda está em voga mas vi recentemente uma reportagem sobre NEUROMERCHANDISING - que consiste em colocar o cérebro de indivíduos sobre ressonância magnética enquanto lhes mostram anúncios de produtos. Conforme a resposta que o cérebro dá, é estudada a eficiência da força do produto e modificada até atingir o ideal: muitas vendas. Na sequência disto vi também um filme intitulado "Assim se vende um filme", onde  me foi revelado algo que desconhecia: a cidade de S. Paulo, no Brasil decretou uma lei que proíbe a publicidade exterior. Resultado: toda a cidade, toda mesmo, não tem um único anúncio. Nenhum outdoor, nenhum autocarro ou taxi com mensagens publicitárias, NADA. A razão é que foi considerada aquilo que é na realidade: POLUIÇÃO visual. E como tal, foi irradicada. O resultado? Fantástico! 

Quanto a vocês, leitores, não sei. Mas estas empresas estariam perdidas se dependessem de pessoas como eu para enriquecer. Sou muito pouco dada a manipulações. Não que me julgue imune - afinal, existe pura ciência e até o APROVEITAMENTO de uma invenção supostamente criada para beneficiar a saúde da humanidade para a usar para levar essa mesma humanidade ao consumismo de produtos que até ajudam a fazê-la ficar doente mais depressa. Avaliando por mim mesma duvido da eficácia de tais manobras, pelo que só posso desejar que muitos mais sintam e vivam o mesmo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Aldeia de Lisboa

Sou da opinião que Lisboa é uma cidade maravilhosa porque tem as suas raízes nas tradições aldeãs e não as perdeu totalmente para o progresso. Não perdeu o cheiro, a brisa, a luz, o verde, as flores e nem os seus recantos de encantos.


E é com esta intro que vou falar da notícia que acabei de ver na TV, sobre o novo Código da Estrada e a circulação em bicicletas. Existe, em Lisboa, muita boa gente que adoptou a bicicleta como o seu meio de transporte. Acho isto extraordinário. Não por andarem de bicicleta, que também adoro e entendo perfeitamente, mas por o fazerem entre tantos veículos cuspidores de poluição. Por o fazerem em estradas grandes e movimentadas. Acho que é a prova de que por mais que o progresso chegue a Lisboa, esta terá sempre as raízes em hábitos ancestrais, sobreviverá sempre este lado mais "aldeia" e natura que muitos carregamos no ADN.


Meu avô costumava ir e vir de e para o trabalho de bicicleta. Não sei quantos quilómetros fazia mas como vivia em Lisboa e trabalhava fora da cidade levando cerca de duas horas de deslocação em cada sentido, vou imaginar que seria uma valente distância. Mas na altura, década de 50 ou mesmo 60, a estrada era de terra. Chegava coberto de pó, voltava cheio de pó. Se a estrada principal não era alcatroada, também não tinha automóveis :) Pelo que só posso imaginar o quão agradável conseguia ser o percurso. Mesmo com as dificuldades óbvias - principalmente no inverno e com chuva e frio, com a estrada de pó a virar lama - uma maratona numa já maratona - imagino. Mas o aspecto da poluição não se colocava. 

Hoje coloca-se. 

Também eu, nos longíquos anos 2000/2001 utilizei a bicicleta muitas vezes em Lisboa para me deslocar para o trabalho. Lembro perfeitamente que adorava. Na altura ainda não existiam vias para bicicleta, pelo que ia pelas estradas. Tinha cuidado redobrados por partilhar a mesma via que os automobilistas mas achava totalmente natural e viável. Contudo, de lá para cá continuo a gostar de andar de bicicleta mas já não me imagino a fazê-lo para este tipo de deslocações. E não sei bem explicar porquê. Talvez porque fiquei sem bicicleta e nos entretantos em termos de saúde e energia algo mudou, ou talvez porque a consciência ou o receio tornou-se mais forte ou a capacidade para manter o sentido de alerta apurado esteja preguiçoso. Não sei. 

Gosto destas bicicletas em que o tronco
viaja direito mas por cá não me parece
que se possa usufruir desta forma da bicicleta.
Ainda mais usando um vestido curto e
umas sandálias fashion. Porém pode ser a solução
para se ver automobilistas a ser simpáticos.
Todos os dias vejo ciclistas a passar, a subir a íngreme rua como se não custasse - e sei que custa, a descer agradavelmente rápido, enfim, muitos ciclistas - alguns em passeios de família com os filhos, passam nesta zona. Nesta e noutras, porque os há por todos os lados, faça chuva ou faça sol. O parque que tenho aqui ao lado também está sempre com pessoas de todas as idades. Desde crianças a idosos. Uns a jogar futebol, outros a passear os cães, outros a correr, a andar de bicicleta, de patins, de skate... Acho esta faceta de Lisboa muito agradável. 

Talvez passe despercebida a muitos, na azáfama do dia-a-dia, mas Lisboa mantém os seus laços com a natureza e uma vida mais simples. E talvez nunca os perca. E é por isso que é uma cidade tão encantadora. Recentemente decidi ir a pé até um centro comercial, num percurso paralelo a uma estrada principal movimentada. Enquanto pude, fi-lo por entre as habitações mas um pouco afastada do passeio. Depois a partir de um certo ponto é mesmo preciso continuar pelo passeio. E esse ponto de mudança é um Pinhal. Sempre me surpreende que, no centro de uma cidade como esta e ao lado de uma movimentada estrada, se possa encontrar um pequeno Pinhal. Ali uma pessoa pode despender uns segundos e fazer um "reset". É a ironia de contrastes. É agradável respirar fundo o ar de Lisboa naquele lugar, ao mesmo tempo que vejo e escuto o barulho dos automóveis a passar ao lado. Depois continuei o percurso pelo passeio, que está repleto de árvores e arvoredos. Muitos em plena flor, trazem aromas agradáveis. Muito diferente do lado oposto, quase sem uma árvore ou uma sombra. 

Tomara que nunca desapareçam estes elementos vitais para a qualidade de vida da cidade e da população. O progresso não justifica a morte. 

domingo, 7 de março de 2010

Pessoas do Campo V Pessoas da Cidade

O ser humano acredita demasiado em expressões populares, em ideias pré-concebidas e em conceitos generalistas. Num destes dias, deparei-me com uma situação destas e mais ou menos que me obriguei a pensar bem no assunto e a tirar as minhas próprias conclusões.

O tópico de debate foi: "Campo e Cidade: As pessoas que vivem na cidade não sabem o que é uma vaca, nunca viram uma galinha etc, etc..."
.
Esta foi a ideia pré-concebida com que me deparei. Decidi pensar a sério no assunto. Afinal, esta "noção" de que as pessoas nascidas e criadas em cidades grandes, como Lisboa, não sabem o que é um animal, tem fundamento? E o contrário, as pessoas que vivem em locais menos desenvolvidos e mais campestres, sabem o que é uma galinha?



Para entender melhor este conceito, fui analizar-me a mim mesma. Citadina de gema, nascida e criada em Lisboa, num bairro não muito tradicional e bem desenvolvido, perto do aeroporto, perto de centros comerciais, cinemas, parques infantis, auto-estradas, rio Tejo, quartéis militares... enfim: sou a personificação citadina perfeita para testar esta "definição" de que, na cidade, somos uns "perdidos", uns ignorantes sobre o verdadeiro aspecto dos animais que nos chega ao prato como alimento.
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Olhei então para dentro em busca da resposta. Não sei o que é um coelho? Uma vaca? Um cavalo? Uma ovelha? Uma galinha? Um pato? Vamos lá ver...
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Não podia concordar. Sei perfeitamente o que é cada animal, conheço-os. E não é somente pela televisão, pelos livros, pelo ensino na escola. Sei o que são mesmo quando, no supermercado, não passam de pedaços de carne com etiquetas. Sei o que é o fígado de porco, o que é uma determinada parte da vaca... então, porque acham que não posso saber?
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Depois olhei para o lado dos "não citadinos". Afinal, que contacto têm com tais animais? Descobri que muito pouco ou quase nenhum. Não passam, para alguns, de memórias de infância, de experiências antigas e esporádicas que os marcaram, pela pouca frequência com que aconteceram.



Perante tal descoberta, é justo continuar a alimentar essa noção de que, na CIDADE não se sabe o que é um animal domesticado? Claro que não!
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Meses antes, este mesmo grupo recebeu bilhetes para o jardim Zoológico de Lisboa. Pela forma de conversarem, percebi que os "do campo" estavam bem mais entusiasmados com a possibilidade de voltar a ver os elefantes, e, principalmente, os golfinhos... os citadinos, nomeadamente os de Lisboa, como têm quase sempre tudo tão disponível, não se entusiasmaram tanto.
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Chego então à conclusão que, os da cidade só perdem para o agricultor. Para aqueles que ainda vivem mesmo da terra e lidam com criação de animais. O resto é folclore.


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OS ANIMAIS E NÓS

Nem sei quando comecei a perceber o que são animais do campo, porque nunca senti que me faltava perceber fosse o que fosse. Na escola primária, aprendi tudo o que havia para saber sobre a diversidade do reino animal, da fauna e da flora... não se pode desmerecer o papel do ensino nesta parte. Até porque a maioria da literatura destinada às crianças visando o seu desenvolvimento psíquico e motor envolve a compreensão inicial do Pato, do Gato, da Quinta, do Porco, etc... de onde vem o leite? Da vaca! De onde vêm os ovos? Da galinha! Portanto, não vamos deitar por terra o precioso contributo dos primeiros anos de vida de uma criança.
No meu caso, sempre vi animais e nunca precisei sair da cidade para isso. Sempre surgem "aqui e ali". Lisboa não é uma metrópole de costas viradas para a natureza. Sempre vivi em zonas com muitos jardins, alguns dos quais com diversos animais. Patos, gansos, galinhas, aves de toda a espécie, pavões, coelhos, peixes... o jardim da Estrela, o jardim do Campo Grande continuam onde sempre estiveram, disponível a todos os que os queiram visitar. No meu tempo, faziam-se piqueniques nestes locais... ainda hoje, dividir o espaço com pavões enquanto aguardo na paragem de transportes a chegada do autocarro não é nada de surpreender quando no Campo Grande. Aqueles que estranham a presença destas aves, são os não citadinos...
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Sou citadina e só por isso não sei o que é um animal do campo? Vão-se lixar! Devo ter mais contacto com animais do que alguns a viver em localidades pequenas. Ainda a semana passada levei a filhota às aulas de equitação, onde ela e as amigas vão criando laços entre si e os animais. Há uns meses fiquei a tomar conta de outra criança, muito irrequieta e levei-a à quinta pedagógica, onde, além de estar ao ar livre, pode interagir com os animais: correu atrás das ovelhas que estavam a ser recolhidas para o estábulo, viu como comem, deu pão às cabras, deu festas ao burro... tudo isto é válido e permite uma interacção que prova que os laços entre o campo e a cidade nunca foram cortados. Quando era criança, não foi só numa das muitas Praças (mercados) de Lisboa que tive contacto com o comércio de animais do campo para consumo humano. Também existiam quintas, que a população, na maioria com origens no campo, mantinha perto de casa, para se sentirem ligados à terra. Vi os coelhos, dei-lhes de comer, pedi para que não fossem mortos para o nosso almoço...
Hoje em dia, a minha vida continua povoada de animais. Passo todos os dias por rebanhos e manadas, mais que não seja pela estrada. Na rua que tenho de atravessar, alguns moradores mantêm animais do campo, como galo, galinhas, cabras, ovelhas e patos. Todos os dias oiço-os a cacarejar ou a balir... mas o que mais escuto, é o ladrar! Porque os cães, não os comemos, mas também são animais e ali fazem guarda, latindo à passagem de cada peão.
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Para mim ficou provado que esta noção de que na cidade as pessoas não sabem o que são animais do campo, é totalmente descabida. Não só conhecemos estes, como aqueles que facilmente podemos encontrar no Zoológico e no circo. As pessoas da cidade nunca viraram as costas às suas ancestrais ligações com o campo. E a cidade também não esquece a importância da natureza e da diversidade na vida das pessoas.