Vi a notícia ontem, no telejornal das 8h da RTP, apresentado pelo João Adelino Faria.
Uma portuguesa integrada numa equipa de investigação lá nos «estrangeiros» conseguiu produzir uma «cola» que poderá ser usada no interior do corpo humano aquando actos cirúrgicos.
Grande feito, sem dúvida. Mais uma que se junta a um mancial de portugueses emigrados que alcançam grandes feitos fora de Portugal. É que só pode ser assim, não é? Já repararam que, para uma pessoa originária deste país, o sucesso e a realização pessoal só está ao seu alcance se saltar daqui para fora??
Diz a mesma portuguesa que sem dúvida que os portugueses saem a perder por serem um povo pessimista. Ao que o repórter pergunta-lhe se não pode inventar um adesivo que torne as pessoas menos pessimistas.
E esta investigadora médica de origem portuguesa responde que um adesivo não ia resultar, porque o pessimismo é algo que se «combate» na infância, com a educação que os pais dão aos filhos.
Ora aqui está! Em uma notícia apenas, uma grande análise da sociedade portuguesa e a constatação de que ainda ficaremos pior.
Somos um povo morto. Acreditem.
Uma vez ouvi o Hermano Saraiva no seu programa sobre história, dizer que, em tempos de crise, a emigração é má para portugal, porque significava que «os melhores» iam embora. Aqueles que tomavam a iniciativa, que iam à luta, que não se resignavam, eram os que saiam. E o que é que ficava? Os velhos, os doentes e os conformados.
Portugal já viveu grandes vagas de emigração, já perdeu «os seus melhores». E é por isso que 500 anos após os descobrimentos, nem temos concepção da bravura e resistência que caracterizou um povo que descobriu novas terras, navegou torturosos mares e contactou novos povos. Bem que podiam dizer que foram os ETs os responsáveis por esses feitos. Não tivessem sobrevivido relatos e documentos disso mesmo, e provavelmente seria como no caso das pirâmides do Egipto, ou a sociedade Maia: foram os ETs!
A jovem investigadora portuguesa tem razão. Para se ser alguém, é preciso não se cultivar na sociedade e nas escolas esta "bactéria" do pessimismo. É preciso dotar as nossas crianças de ferramentas e incentivá-las a seguir as suas aptidões, incutindo-lhes optimismo e confiança em si mesmas.
O que acabei de descrever NÃO É o que se passa em Portugal.
Em Portugal faz-se o INVERSO.
Temos crianças capazes e transformamo-as em seres que duvidam das suas capacidades e que temem arriscar.Vejo-o todos os dias, percebo-o nitidamente, atravessando as gerações. É preciso não limitar os sonhos, as capacidades de um indivíduo em desenvolvimento. Cortar-lhes a esperança com palavras, atitudes e exemplos derrotistas, antes que se possa por à prova. Um dia fui assim, uma criança cheia de energia e capacidades, à procura do seu lugar e com ânsia de fazer e experimentar. Senti-me forçada a fazer o que os outros desejavam, forçada a ficar estagnada quando tudo o que precisava era não parar de andar. Após anos e anos disto, senti-me a ceder e quebrar, como um ramo de árvore que cede a uma rajada de vento de um tufão ou ciclone que nunca páram de o atingir.
Para se ser alguém neste País, para se ser aquilo que se é e realmente se ter boas oportunidades, o melhor é sair dele. E os exemplos disso se multiplicam no noticiário. A sorte de um indivíduo natural de Portugal começa logo à nascença, com o padrão que a família vai usar na sua criação: um padrão pessimista, derrotista e depressivo? Que é o que mais há por aí? Ou um de incentivo, força, luta e optimismo? Tão escasso?
O que é preciso é deixar crescer. Tudo na vida precisa crescer. Infelizmente, esse crescimento nunca poderá ser aqui, neste país. Aqui só se morre.