quarta-feira, 16 de março de 2016

Como incluir entes que já partiram na tua cerimónia de casamento


Pode parecer uma ideia algo funesta, mas está longe disso. Afinal, quando é que mais nos recordamos daqueles que partiram, se não nos momentos mais importantes das nossas vidas? Quando se trata de uma cerimónia de casamento, a dor da ausência faz-se sentir mais. Deseja-se que o pai, a mãe, a tia, a avó, o irmão, a irmã estivessem ali, em carne e osso, para poder partilhar o momento.

Em algumas partes do mundo ocidental desenvolvido, começou-se a adoptar novos hábitos para incluir os que partiram na cerimónia de casamento. Aqui ficam umas ideias. 

O velho medalhão com fotografias

Nunca sai de moda. E se não lhe apetecer carregá-lo ao pescoço, existe sempre o alfinete. Se ainda assim tal não agradar, que tal adoptar o medalhão a uma pulseira?

Algo novo, algo emprestado, algo azul...

Aqui tudo é possível. Se o falecido for homem e tiver botões de punho, que tal usá-los? Uma mola para gravata, uns brincos, um adorno... Se o falecido tinha algo azul, fica sempre bem incluir um pedaço de tecido dessa cor na indumentária da cerimónia. 

Palavras com significado cozido às roupas

Tanto serve para o noivo quanto para a noiva. Se existe uma frase importante entre a pessoa que faleceu e a que vai casar, que tal cozê-la algures no interior ou exterior da roupa cerimonial, para que a saiba sempre ali, junto de si? Um retalho de tecido de uma peça igualmente apreciada também faz o mesmo efeito. 

Deixe o bouquet falar

Medalhões bem criativos, um pequeno adorno ao ramo de flores

O quadro da memória

Recorra a fotos e reserve um espaço para a presença e lembrança dos que estão ausentes.

O lugar reservado

Seja para uma só pessoa ou para mais que uma, uma cadeira, uma mesa ou qualquer outro espaço simbólico com flores, representa os ausentes de corpo, presentes em espírito. 

A música favorita

Tem de passar, aquela(s) música(s) especiais.
Explique aos convidados a razão do momento.

De corpo e voz

Tem imagens em vídeo? Reserve um momento para as recordar. No copo d'água, antes da refeição e no momento do discurso, mencione a importância dessas pessoas e deixe passar numa tela um minuto de imagens dos saudosos. Depois retorne à normalidade da cerimónia. 

segunda-feira, 14 de março de 2016

A morte de Nico


Eu nunca o conheci, pelo que me referia a ele como Nicolau Breyner. Mas os amigos, conhecidos e colegas, tratavam-no por Nico. 

Duas gerações de atores - do jovem ao experiente
(bastidores do filme Virados do Avesso)

E foi assim que vi e ouvi um rol de figuras de peso, do universo artístico e político, desfilar pelos canais de televisão para falar do falecimento do seu amigo.

Todos com vozes embargadas, escutei o final do depoimento de José Pedro Vasconcelos na Sic Notícias, realizador com quem o ator fez, entre outros, o filme "Os Gatos não têm vertigens". Neste, a sua personagem morre subitamente, de ataque cardíaco. E depois vira um «fantasma», na mente da sua viúva. 

E existe «melhor» forma de falecer do que subitamente?


E como foi assim que Deus quis, apanhou muitos de surpresa. Virgílio Castelo na RTP3 fez questão de mudar o registo de tristeza e optou por partilhar histórias divertidas de Nico. O próprio Nicolau quando cumpria as homenagens fúnebres, achava uma maneira de aligeirar o ambiente - revela Virgílio. E depois de contar umas histórias envolvendo uma carroça de alfaces e explicar que Nico chegava ao refeitório, não fazia um prato de comida mas tirava-a do prato dos outros, acaba por sintetizar que ele era especial por saber desconstruir a tristeza. 

No mesmo canal e no mesmo cenário, Pedro Lima recorda como este lhe serviu de mestre - embora nunca tenha sido seu mestre. 

Nicolau no 5 para a meia-noite, com Jeremy Irons
humilde, franco, cúmplice e divertido

De volta à Sic Notícias, Pinto Balsemão fala que Nicolau foi uma das primeiras figuras a apoiar o projeto de uma televisão independente, decorria o ano de 1986. Já Júlio Isidro, revela na RTP3 que se arrepende de ter adiado o convite para Nico participar no seu programa na RTP Memória. E Rita Blanco, entrevistada ao telefone na Sic Notícias, diz que o ator não era de dar lições a ninguém e que essa era uma das suas melhores características. Rita quer falar da pessoa Nicolau, mas a pivot insiste em fazer perguntas sobre como uma atriz avalia um ator. Como se não soubesse que a sua entrevistada é conhecida pela sua frontalidade e se aborrece com questões menos relevantes, a pivot dispara mais uma pergunta em contra-mão, o que leva Rita, com voz embargada e já a chorar, a ser sincera: O que eu quero agora é desligar para poder chorar.

Na Tvi24 Sílvia Riso, outra que acabou de receber a notícia, procura terminar rapidamente o seu depoimento recolhido no set de uma novela, pois está em esforço para segurar as lágrimas. Tozé Martinho refere que Nicolau teve formação em ópera, em Itália, isto porque a Tvi24 foi buscar imagens de arquivo da RTP memória e mostrou o ator como cantor, no festival da Canção de 1968. 


Na RTP3 Maria do Céu Guerra conta que estava a viver na casa dele por esta ficar mais perto da maternidade onde foi ter a filha, tendo sido ele a primeira pessoa a ver a bebé. Diz que Nicolau era «a alegria e a bondade - quase santidade». Refere o que mais se tem ouvido sobre as qualidades de Nicolau: o ator passava alegria aos outros e encarava os males da vida fazendo-se de desentendido para as dores e infelicidades. «Passava por cima e continuava sempre a sorrir. Super culto e inteligente, sempre a fingir que não» - conta ao telefone. «Era absolutamente contra o snobismo e o elitismo», diz. «Não acredito ainda que ele tenha morrido!» - diz ainda mais emocionada, ao mesmo tempo que revela que ela e Nico tinham dois projetos em andamento. 

O Presidente da República também se pronuncia sobre este falecimento. Aproximadamente uma hora depois, também o primeiro-ministro.

«Não levava nada a sério. Nem a si próprio» - revela José Pedro Vasconcelos, agora em pessoa na RTP3. 

E penso que isto resume tudo. 

Em todos estes depoimentos que fiz questão de ir apanhando em zapping, fui também tentando perceber como é que as estações faziam a gestão deste acontecimento. Todos vamos falecer - é uma certeza. Mas quando se é figura pública, o mais certo é que os meios de comunicação Social, já a contar com isso, tenham preparado algures umas imagens, uns textos, just in case... 

Não parece ter sido o caso para Nicolau. 

Num despreparo maior, a Sic usou repetidamente imagens de noticiários aquando Nicolau, o político e Nicolau, nos globos de Ouro. Já a RTP3 raramente mostrou imagens recentes, foi buscar as mais antigas do seu acervo - a maioria a preto e branco. Mais tarde já recorreram a algumas imagens de filmes. A Tvi24 foi «mais longe», mas também usou e abusou de imagens do ator nas suas novelas. Em suma, ninguém estava preparado. Mas foram rápidos a recolher depoimentos - aí tiro-lhes o chapéu. 

Apesar do despreparo, aposto que, nos próximos dias, as estações vão mostrar e falar muito de Nicolau Breyner.

Não deixo aqui um RIP porque acho que ele conduziu a sua existência na paz... e a carregou consigo. A sua presença parece ter sido tão marcante que permanece forte nos que o conheceram, mesmo tendo partido. Não está lá, ainda está cá, mas não está... E como, segundo os testemunhos, era uma pessoa tão esclarecida, acho que ia querer aligeirar a situação e não a levar tanto a sério.... :)

sábado, 12 de março de 2016

Opá. O que é isto?!???

Encontrei esta imagem no mural de facebook de outra pessoa e tive de fazer um print. 
Digam-me lá o que é que é isto??


Deixem-me já dizer que me REPUGNA mensagens como esta constantemente a serem partilhadas na rede como se o cancro fosse um pretexto para ganhar simpatia e notoriedade. "Olha que giro, eu jovem e careca! Bora lá fazer um chorinho «ninguém gosta de mim» e porquê? Porque tenho cancro. Assim toco no botão de culpa e pena das pessoas e consigo ser notada. Assim que soltar a palavra "cancro" ninguém vai ousar recriminar-me. Cancro=Coitadinha. Bora! Vou fazer pose à Miley Syrus enquando paquita da Xuxa e ninguém, absolutamente ninguém vai OUSAR fazer uma crítica que seja, porque senão um batalhão de pessoas desconhecidas que se armam em carrascos, vão se manifestar em peso, a insultar, a fazer votos de igual sorte e a ameaçar quem se atrever a tecer uma crítica que não seja positiva a alguém que apareça com a cabela raspada e chore: tenho «cancro». Porque uma vez mencionada a palavra «cancro», tudo o resto é proibido. Nenhum julgamento pode ser passado a quem é vítima desta doença.

Ainda que quem seja vítima da mesma decida transformar-se numa celebridade das redes sociais "à pala" disso. Ainda que se use uma doença que merece respeito para futilidades relacionadas com a vaidade e a necessidade também fútil de ganhar atenção. Ainda que existam outros possíveis motivos ainda mais repugnantes por detrás desta ostensiva partilha de jovens - que vão de crianças a adolescentes - sempre carecas a dizerem-se com cancro.

Já repararam que o Cancro que é «belo», o cancro que é para «mostrar» não parece atingir pessoas idosas? Ou não atraentes, já agora?

Está a GLAMOURIZAR-SE a doença com actos repugnantes de ostentação. E isso é tão verdadeiro que estão ausentes dessa corrente os homens - que pelo vistos não sofrem de cancro nem rapam o cabelo - e os velhos. Nenhuma mulher idosa surge de cabelo rapado. Ninguém com rugas, aliás! É uma doença exclusiva das mulheres jovens e atraentes.

Não defendo que quem está a lutar contra a doença deva fechar-se em casa nesta era que vivemos, esconder-se em «vergonha». Mas porra!! Bom senso, gente, bom senso!!

Nada de extremos. Sinto vómito a querer formar-se quando deparo-me com uma coisa como esta. Ainda mais quando usam uma criança linda, e metem o dizer: "Já sei que ninguém gosta de mim porque tenho câncer". "Partilha se gostas". WTF??

Cá para mim não me surpreenderia se muitas destas «partilhas» camuflassem pedofilia.
E pronto. Disse. Quem concordar partilhe e comente, porque já sei que, se não o fizerem, é porque «não gostam de mim» lol :P


It's so f... cute!


Eu só ri, e ri ao ver isto.
O rapaz - o youtuber melhor dizendo - tem talento. Mas o divertido é descobrir que alguém realmente criou um jogo de computador, baseado no estilo dos clássicos dos anos 80, com o Leonardo Di Caprio e a sua perseguição ao Óscar. Esta hilário.... Vejam. Quem entende bem o inglês penso que vai surpreender-se.

Esta capacidade de fazer humor com as coisas, acaba por aligeirar o stress e relativizar o não tão importante. Vejam o filme. Além do Leo, surge a Lady Gaga e o Mat Dammon vestido de astronauta! Opá, deu para rir e isso é bom :D


Também quer jogar? Carregue aqui.

PS:
Agora compreendo porque é que o tipo do vídeo está sempre a mandar a Lady Gaga dar uma volta! É que ela atrapalha mesmo o Leo, eehehe.  Lutei com um urso, pude ver o Leo a «atuar mais intensamente» e, claro, andei à «caça de gambuzinhos». Ups! Quero dizer... nomeados. Hilário! Se ao menos por cá alguém fizesse um jogo destes com o Coelho e a sua ilusão de que ainda é Primeiro Ministro... era fazê-lo ir inaugurar escolas abertas há anos e principalmente, ir inaugurar o Convento do Carmo em Lisboa, ahahahah!!!!

Diverti-me!


terça-feira, 8 de março de 2016

O significado de 8 de Março

Não sou de dar destaque a datas mas, já que existe uma, quero que entendam a minha compreensão da mesma. 

Feveireiro 2016 - Equador

Duas jovens Argentinas queriam conhecer o mundo e começaram por uma viagem para o Equador. Não mais deram notícias. Foram encontradas assassinadas. Nas redes sociais começaram a censurar as duas amigas: Elas não deviam ter ido. Deviam ir só com a presença de um homem. Desacompanhadas fizeram por merecer. Provavelmente queriam andar na borga, insinuarem-se aos homens com os corpos expostos em roupas sedutoras. Foi delas a culpa do que lhes aconteceu - agressão, violação e assassinato por faca. 

6 Março 2016 - Índia


Uma jovem de 20 anos pula de uma varanda para escapar a uma violação em grupo. Está no hospital. Um dos três homens que a pretendiam violar era o seu namorado. Na Índia as mulheres são violadas em grupo com frequência, sendo que nem com os namorados estão a salvo. Os homens responsabilizam qualquer mulher pela lascívia que sentem. E reagem com o impulso selvagem de as possuir e descartar de seguida - nem sempre vivas. As violações de mulheres - não só indianas como também turistas - ganhou projecção mundial em 2012, quando um grupo de seis rapazes a viajar num autocarro, espancou brutalmente o namorado de uma rapariga para de seguida a violarem em grupo. A violação incluiu tortura com objectos metálicos inseridos na vagina e intenção de morte. A jovem de 23 anos foi depois atirada para o asfalto e só não lhe passaram com o autocarro por cima porque o namorado, igualmente atirado borda fora, conseguiu puxá-la para fora do alcance dos pneus do veículo. O motorista do autocarro testemunhou o seguinte: "não dei por nada".

A grande maioria dos homens e também algumas mulheres insurgiram-se e gritaram: "Estes rapazes são inocentes"! "Ela é que é a culpada!".

25 Março 1911 - EUA

Em pleno optimismo gerado pela revolução Industrial - que prometia uma melhoria de vida para homens e mulheres, em particular para os Imigrantes chegados aos EUA, um incêndio num prédio de Nova Iorque onde estava em funcionamento uma fábrica de confecções de roupa foi a causa de morte de 125 mulheres e 21 homens*. As operárias costuravam camisas quando as chamas as apanharam no 9º andar. Em pânico e sem alternativas de fuga, foram vistas pelos transeuntes a se alinharem no parapeito exterior do prédio. Mas pior do que ver este cenário de horror foi conhecer-lhe as causas. Muitas destas mulheres, na sua maioria jovens de menos de 25 anos e imigrantes italianas, foram vistas com as chamas a subir pelas saias, com o cabelo a arder enquanto se atiravam do 9º andar, outras procuraram no salto alcançar a escada dos bombeiros, que só chegava até o 6º. Estatelaram-se no chão. O barulho surdo dos seus corpos a ficar gravados na memória de quem assistiu, sem poder fazer nada para as salvar. 

A cerimónia fúnebre e os milhares que choraram a tragédia
Só depois de apagado o fogo se descobriu o verdadeiro alcance da catástrofe e do horror. Algumas mulheres haviam caido no poço do elevador, na tentativa de fuga, outras desceram pela escada do poço que, com o peso, colapsou e atirou-as mais rapido para a morte. Outras foram encontradas carbonizadas debaixo das secretárias mas a maioria dos corpos foram encontrados amontoados uns em cima de outros junto às portas de saída - uma estava fechada à chave por ordem expressa dos patrões - que haviam escapado do incêndio pelo telhado e posteriormente foram inocentados de qualquer responsabilidade. 

Ao contrário de quem trabalhava no e 10º andar, as operárias do 9º não foram avisadas do incêndio. Uma das duas saídas de emergência tinha sido trancada para salvaguardar a hipótese de furtos ou pausas. Estas mulheres eram submetidas a um verdadeiro trabalho de escravo. Eram intensamente controladas por capatazes, que cronometravam as suas idas à casa-de-banho, trancavam a porta de saída de emergência para que não pudessem sair e fazer uma pausa e escutavam cada conversa que conseguissem ter umas com as outras - usando para o efeito uma recente invenção que os permitia aproximarem-se sem serem escutados: os sapatos com sola de borracha. Os capatazes/feitores tinham o poder de fazer com que fossem demitidas. À mínima coisa, perdiam o emprego.
A sinalização indica a «saída em caso de incêndio» (foto provável da referida instalação)
(subitamente esta imagem fez-se recordar os modernos callcenters)
Na fábrica existia um cartaz com o dizer: "Se não vieres trabalhar no Domingo, não precisas de vir na Segunda" - isto porque as greves sindicais a protestar por melhores condições de trabalho (ordenados, carga horária e folgas) e de segurança estavam na ordem do dia.  As operárias desta fábrica trabalhavam 14 horas diárias, por vezes horas extras, fazendo camisas - e ganhavam à unidade. Mas mesmo a mais rápida e eficiente das costureiras não conseguia mais que um modesto salário de 6 a 10 dólares/semana. Mal sobrava para comer, depois de pagarem o aluguer dos quartos onde moravam. Escravatura moderna, portanto.


O dia Internacional da Mulher já foi comemorado em muitas datas: 28 de Fevereiro, 15 e 25 de Março. A ONU declara o ano de 1975 como o ano da mulher e em 1977 é adoptado pelas Nações Unidas o 8 de Março como o dia internacional da Mulher. Mas como tudo o que... vem de um Homem - sem querer desmerecer nenhum - a data foi escolhida em «homenagem» às vítimas de um acontecimento fictício: um outro incêndio fabril de 1857, que nunca aconteceu. 


É ou não importante fazer para que se entenda por este mundo o conceito e direito de igualdade? A mulher não é feminazi nem muito menos feminista - termos estes inventados por alguns homens, que assim os usam como alimento para tentar justificar o injustificável: o seu desprezo, ignorância e idiotice. 

Que esta data traga cada vez mais a igualdade a muitas das mulheres por este mundo fora, mulheres que ainda vivem sem saber que são iguais ao seu semelhante Homem e merecedoras de respeito e admiração. 

*outras fontes indicam 129 mulheres e 17 homens. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não foi uma torneira, foi um conta-gotas

Não resisti: procurei, encontrei e vi o filme "Sufragistas".

Ao contrário dos últimos que visionei, o final é a parte mais forte. Nesses créditos surgem as datas em que o direito das mulheres ao voto é finalmente obtido na Inglaterra. Logo de seguida passa uma lista de muitos outros locais no mundo onde o direito ao voto no feminino é permitido, e respectivas datas. Infelizmente não aparece Portugal. 

A Nova Zelândia detém um título de causar orgulho: foi o primeiro país a conceder às mulheres o direito de sufrágio. Mais de 30 anos antes do Reino Unido. O último a fazê-lo foi a Arábia Saudita, em Dezembro do ano passado. Acho que é um momento digno de livro! Se fosse uma mulher saudita, faria por escrever um livro detalhando os acontecimentos e até já tenho título*: Dedo Púrpura.

mulher muçulmana a mostrar o dedo de voto
Mas então e Portugal? Fui verificar. Já tinha lido sobre a primeira mulher a votar em Portugal- Carolina Beatriz Ângelo, médica cirurgiã, viúva e com filhos. Aproveitou uma lacuna na lei e em 1911 votou! E ainda bem que o fez, faleceu pouco tempo depois, coitada!! Trataram logo de mudar a lei, não fossem aparecer outras mulheres com as mesmas pretensões. 

à direita: Carolina no dia em que votou (28 de Maio de 1911)
à esquerda: Ana de Castro Osório, escritora e presidente da liga de sufragistas portuguesas
A segunda mulher a votar em Portugal só o pode fazer 15 anos depois de Carolina, em 1926. Mais uma vez, o acto de cidadania só era autorizado às mulheres com curso superior ou ensino secundário completo, que fossem maiores de idade e chefes de família. Em 1931 estendeu-se um pouco mais as condições, que ainda assim permaneceram restritivas. Em 1933 novas mudanças... as solteiras de boa índole poderiam votar... para as juntas de freguesia, somente. A total igualdade constitucional só surgiu de verdade depois do 25 de Abril de 1974... Mais precisamente na constituição portuguesa de 1976!

Foi só aí que as mulheres adquiriram um estatuto de igualdade. Passaram a ser cidadãs de primeira classe, não de segunda. Acabaram-se os mitos de que não tinha capacidade intelectual para votar, que tinha de ficar em casa a cuidar dos filhos, não podiam estudar porque o seu cérebro era menor do que o do homem e por isso não ia aguentar tanta informação... Acabou-se! 

Repararam que o direito ao voto conquistado pelas mulheres foi tudo menos uma torneira que se abriu? Não foi uma coisa que estava vedada e subitamente um decreto fez com que passasse a existir. Como toda a ideia legítima, encontrou sempre uma tremenda resistência, da parte da lei, do governo e dos Homens. E quando finalmente esta atrocidade foi eliminada, não foi como abrir uma cancela e deixar passar as mulheres até às urnas. Esta dívida da lei e do governo foi «paga» a conta-gotas. 

Primeiro autorizaram só as ricas e instruídas, depois só as casadas, depois as solteiras de boa índole mas só para um tipo de voto...  Ou seja: tanto aqui em Portugal, como em qualquer parte do mundo, esta igualdade não foi uma torneira que se abriu e pronto: está feito. Nada disso! Foi a conta-gotas que chegou. Terrível, não? Só de pensar que no que verdadeiramente importa foram precisas décadas para atingir um tratamento não diferencial e igualitário...

Que por vezes, até nos dias de hoje, nas sociedades mais desenvolvidas, falha:


«Mulher no Brasil impedida de votar (2014)»

Emocionam-me estes factos e fico com enorme curiosidade por descobrir mais, ao mesmo tempo que percebo o quanto desconheço tanto. Hoje apetece-me conhecer mais sobre estas mulheres - que não estão tão distantes assim. É uma geração de lutadoras que ainda respira e vive. Devia-se explorar este tema quase até à exaustão. Como povo, se não nos conhecermos e à nossa história, perdemos um pouco a nossa identidade. 

Espreitem aqui este sintético excerto em vídeo dessas histórias de lutadoras portuguesas - infelizmente hoje praticamente desconhecidas.

Ainda vos deixo com este vídeo dos óscares 2015... Além de admirar esta atriz que sempre intuí como uma pessoa muito humana, simples e despretensiosa, além de verdadeira artista, ela chegou ao palco e disse! Em Hollywood fala-se muito de «respeito à diversidade» mas tal como em qualquer parte do mundo - inclusive aqui - o que se diz e o que se faz, muitas vezes são coisas diferentes. Todo o seu discurso abrange o que precisava e vai mais além, é ao mesmo tempo de agradecimento mas também de activismo, simples e inteligente. Afinal, este é o momento em que «o mundo» está de olhos postos naquele evento. Muitos dos agraciados pretendem cunhar com cidadania um momento destes. E ela o faz dentro do limite de tempo, sem excluir nada, de forma brilhante. A reação na plateia também foi clara. Convosco, Patrícia Arquette.


*Primeiro faria a pesquisa para saber se as votações na arábia saudita foram de dedo pintado - pois não me parece terem sido, ainda assim, o livro podia falar não apenas deste país, mas do direito das mulheres muçulmanas ao voto por toda a parte. Iam ler este tipo de livro?

Os filmes que NÃO vão aos Óscares


Fala-se muito sobre filmes na altura dos Óscares.

Surge a lista dos nomeados à estatueta dourada e começa-se a conjecturar: Qual o favorito? O melhor ator? O melhor filme?

Eu aconselho as pessoas a procurarem filmes que não tenham chegado à lista dos nomeados. É sempre uma surpresa quando se procura fora do circuito de filmes "restritos". Filmes que tenham andado em festivais ou filmes pouco divulgados.

Nos últimos tempos tive essa experiência. Após um rol de maus filmes, encontrei dois que me surpreenderam. Ambos são thrillers/suspense e são de 2015. Um chama-se "Carro de Polícia" (Cop Car) e tem Kevin Bacon como um dos protagonistas. Já saiu em blue-ray. 


Pela sinopse uma pessoa talvez não lhe ache piada, pelo começo também não. Mas assim que se percebe o que está a acontecer, o filme revela-se uma maravilha. Ora uma pessoa diverte-se, ou fica apreensiva e extremamente receosa que uma catástrofe vá ocorrer. Fica-se com o "coração na boca" grande parte das vezes. Quem é o bom e o mau? - é a dúvida. O final pode desapontar aqueles que gostam tudo preto no branco, mas recomendo: procurem ver Cop Car. Incríveis prestações, bom texto, boas viradas na trama.

O mesmo posso dizer do filme "The Gift" - O presente. Com Jason Batman como um dos atores, tem também Joel Edgerton, que é igualmente o autor e realizador do filme. 
A história às tantas é previsível - eu pelo menos cheguei lá com bastante antecedência - mas isso é fruto de ter visto muitas histórias para entender as dicas mostradas e interpretar o que significam. Em nada desmerece a realização, o ritmo como a trama é contada e nos envolve. Mas é um thriller bem feito, o que por si só é um feito, já que se torna comum usar sempre a mesma linguagem para contar uma mesma história. 

Há mais tempo vi também Coherence - que traduzo para coerência. É a história melhor realizada que vi na vida! Os movimentos da câmara com timming dos atores é de causar inveja. As atuações são totalmente credíveis, soberbas. Uma dádiva. A história também é boa. O final não é claro e para mim foi despontante. Estragou tudo. Mas recomendo.

Não recomendo - aliás, afastem-se mesmo de filmes como "San Andreas", "Paper Town" que é pior que péssimo e está «taco a taco» com "Exposed", com Keanu Reves. Estes filmes de 2015 não são maus... são piores que isso. Fujam!

E se 2016 mal começou, muitos ainda estão para vir. Um que criou expectativas, já passou pelos festivais Europeus e não sei se alguma vez já cá chegou é "As sufragistas", com Meryl Streep, terminado em 2015. 

Não sei se é bom, ainda não o vi, a academia nem o nomeou. Mas só pelo tema - que a meu ver merece mais destaque no universo de Hollywood, chama muito a atenção. A verdadeira batalha da mulher pelos direitos mais básicos tem servido para fazer piadas de mau gosto e diminuir todas as mulheres, que é o uso que hoje mais gostam de lhe dar. O tema merece ser reconhecido pela força da luta por uma igualdade, pelos nomes de algumas heroínas, pelas suas conquistas que hoje tomamos como garantidas mas que há bem pouco tempo nem existiam. Espero que valha a pena.

Muitos atores de gabarito acabam por fazer filmes que não ganham tanta projecção or parte da academia, mas têm bom conteúdo. Nem por isso estes fazem boicote aos óscares, rssss. 

Já viram algum destes? Do que viram, o que recomendam?

terça-feira, 1 de março de 2016

Um momento no tempo

Se pudessem congelar a vossa vida num determinado momento no tempo, QUAL SERIA?
E porquê?