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quinta-feira, 19 de março de 2026

Misogenia

 

No emprego quando comecei a fazer uma determinada tarefa, notei uma mudança de comportamento por parte do "grupo" de pessoas com quem ia "partilhar" aquela tarefa em particular. 

O que comecei a fazer foi CONDUZIR. 

A conduzir uma máquina. A maioria daqueles que vejo a conduzir tais máquinas são homens. Até então nunca me tinham feito sentir tanto como uma mulher. Pessoas que antes falavam comigo e me cumprimentavam à vista, deixaram de me falar de imediato. Adotaram uma expressão carrancuda. E, pelas costas à mínima coisa que acham que podem apontar, vão ter com o gerente para apontar uma "falha" minha. São tão inseguros e se sentem tão ameaçados por mim a esse ponto. Ao ponto de o meu género feminino os incomodar! Talvez por acharem que o que fazem é super especial e distinto para o seu grupo: o masculino. E que nenhuma mulher deveria se introduzir naquela área. Escutei coisas como "aprende a conduzir!", e "estacionas como uma mulher". Mas de tudo o que é dito, é o que não é dito que é mais revelador. É o comportamento e a linguagem corporal. As contantes "caretas", a atenção prestada a cada movimento meu para ver se há algo que podem ir a correr apontar a um gerente - o esforço embutido para tentar me excluir daquele meio que, claramente, tomam como o seu território e pensam que têm legitimidade para selecionar quem merece ali estar e quem não. 



Estava a ver um documentário sobre acidentes de aviação e no Nepal um avião caiu do céu porque um comandante com mais experiência, que não estava naquele vôo no comando do avião, decidiu "instruir" a comadanta. Acabou que se distraiu e não percebeu que mudou a alavanca das hélices para a posição "neutro". O avião deixou de ter como se sustentar e acabou por cair, morrendo todos. Um dos passageiros estava em "live stream" - a transmitir em direto e acabou por registar a sua morte. 

O tempo todo eu estava a pensar: Este comandante está a dar tantas ordens e a decidir coisas porque está diante de uma mulher. Vê uma mulher, pensa que ela lhe é inferior. Ao mesmo tempo que pensei isto, percebi que a sociedade no Nepal é mais aberta para capitãs. Porque a senhora era a esposa de um piloto que havia falecido num acidente. Ela não era piloto até que ele faleceu. Ela tornou-se piloto de avião em honra ao marido, depois do seu falecimento. E no geral era admirada e muito respeitada por isso. Portanto, parece-me que a sociedade Nepalence é, provavelmente, bem mais aberta a ter mulheres em funções geralmente exclusivas para homens do que a Britânica. 

Durante os 10 anos em que viajo de avião, nunca que um deles foi pilotado por uma mulher. Sempre um homem. Tomamos isso como "normal". Mas será que é normal? Não, não é. É um sinal camuflado do que eu mesma vim a sentir no meu local de trabalho. 

Claro, há pessoas lá que me admiram e me elogiam imenso. Não por ser mulher mas por ser boa no que faço. "Fizeste essa curva muito bem! És boa a conduzir. Nunca vi ninguém fazer isso tão bem. A maneira como fizeste essa curva foi a melhor que alguma vez vi. Muito bem, eu não faria melhor" - são expressões que já escutei. 

Portanto há quem não se sinta ameaçado e há quem não se sinta intimidado. Mas há também os que sentem tudo isso. E esses também estão por detrás do volante. Acham que são especiais, melhores que os outros. E vem alguém que eles, assim se vem a descobrir, consideram inferior e é capaz de executar as mesmas funções? Ah, então não o poderá fazer bem! E qualquer coisinha que fizer menos correta vai ser apontada junto ao gerente que é para passar bem essa mensagem

Sou boa, mas não sou perfeita. Ainda estou a "domar" a máquina. Mas eu e máquinas, geralmente, sempre nos damos muito bem. Agora dispensava a existência de machos tão inseguros e fracotes como alguns que por lá andam. Se sabem o que fazem e confiam nas suas competências, não deviam sentir-se minimamente incomodados. Será que não percebem que se estão a evidenciar como misóginos? Meros indivíduos inseguros, que não vêm as mulheres como iguais, que só se sentem confortáveis se o seu círculo de "machismo" não for perturbado. E deixem-me vos dizer: eles, os misóginos, têm todos os defeitos que gostam de atribuir como traços marcantes femininos: estão sempre a falar uns com os outros. Param o trabalho, descem do veículo para conversar com alguém. Andam uns metros, param novamente para conversar com outra pessoa. "Desaparecem" e não se percebe por onde andam só se percebe que o trabalho não está a ser feito. E a gerência naquele sítio... não vê. Ou se vê, fecha os olhos. No geral os gerentes atuam com base na regra principal: "Não quero chatices". Chamar alguém que trabalha há muitos anos ali à atenção, é puxar sarilhos. A pessoa pode não gostar e fazer a vida deles muito difícil. Puxar outros para esse meio. Ir ao sindicato fazer queixa e armar uma dor de cabeça. Então os gerentes não fazem nada, deixam andar. Só se "esticam" com pessoas com quem não estabeleceram uma relação mais próxima, as quais não temem por não as verem como pessoas capazes de ir de imediato fazer queixa ao sindicato e sobretudo para satisfazer os caprichos dessas mesmas pessoas que têm medo que lhes dêm dor-de-cabeça. 

Quanto a pilotos mulheres: partilhei casa por pouco tempo com um rapaz que estava a treinar para pilotar aviões da Easyjet. Ele tinha uma namorada e me disse que também ela treinava para piloto. Afirmou que eles (a companhia) pretende ser mais inclusiva e que tinha, talvez num grupo de 25, uma mulher. Tentam... mas não muito, entendem? É só mesmo PARA INGLÊS VER. 

E depois falamos de países menos desenvolvidos que a Grã-Bretanha, esta potência económica que já conquistou outros mundos, que é tão desenvolvida e em termos de misogenia... 

Onde está o progresso? 
Faz mais de um século que a mulher sufragista surgiu para ser vista como um ser humano igual ao seu semelhante em direitos. Elas sempre desempenharam papéis vitais na sociedade, ainda que por detrás de um homem. É que a mulher é pouco dada - a meu ver, à necessidade de aparecer. Ela sabe o seu valor sem precisar de o ostentar aos olhos dos outros. Só pessoas inseguras e que se sabem ou sentem sem valor algum sentem essa compulsividade. 


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Cotas da descriminação


Após uma conversa alongada com a nova colega sobre oportunidades e cotas, subi ao quarto exausta e com a sensação de desolação. "Se calhar sou eu que estou errada" - pensei. "Devo ter andado a minha vida inteira errada...".


Acredito que as pessoas, independente da sua condição inicial, devem ter oportunidades para atingir um objectivo. Mas não acho que devam ser seleccionadas por cotas - ou seja: raça, etnia, orientação sexual, género ou estatuto. Devem todas chegar lá, terem as mesmas oportunidades para se instruírem, mas, aquando a escolha, que esta recaia sobre os resultados, não sobre a cor da pele, orientação sexual, etc. 

Esta nova colega, de descendência Africana, não pensa assim. Ela defende a selecção por percentagem. A italiana-mais-velha, que escutava a conversa, também criticou acaloradamente o meu ponto de vista, dizendo que eu era ingénua. Admito, tenho um idealismo que muitas vezes me faz soar ingénua. De modo que saí da conversa a pensar se o que sinto está errado. Estes conceitos que nos são incutidos de igualdade... Até mesmo de justiça. Terei-os eu imaturos?

Sei que o mundo não é perfeito. O que agora se chama de cota bem se pode comparar ao que se chama de cunha. 

Mas o que é que a sociedade deve transformar em lei? Se formos a aceitar que as empresas contratem profissionais por cotas, estamos a efectuar uma impactante mudança social. Acho que é incorrecto  em relação a uma selecção por mérito. Parece-me uma medida discriminatória, que nada faz para combater injustiças, visto que actua com base na descriminação. Acaba que é insultuosa até para os indivíduos com mérito que possam dela ser beneficiados. 

Saí da conversa a por em causa os meus conceitos de igualdade e justiça. Estarei desajustada com a realidade? Deve a pressão moldar conceitos universais?


Para tirar a mente destas demagogias, fui ver um episódio de Casos Forenses, um programa antigo sobre crimes de homicídio no qual a ciência Forense desempenha um papel decisivo na identificação do criminoso. No episódio em causa, surge a especialista forense Joyce Gilchrish. Uma mulher negra, com ar de quem sabe do que está a falar. "Ora aqui está uma mulher negra que chegou longe" - pensei. Acreditando que isso se deveu porque teve oportunidades e revelou mérito, o que a permitiu destacar-se na especialidade da química.

Depois vou ler a secção de comentários e deparo-me com uma enorme surpresa: a especialista foi acusada de falsificar provas forenses. Em 21 anos de carreira, Joyce testemunhou em mais de 3000(!) casos e ficou conhecida pelo apelido de "Magia Negra" por ser capaz de ter certezas onde outros colegas seus não conseguiam. Graças às suas conclusões forenses, muitas pessoas foram condenadas, entre as quais 23 homens sentenciados com a pena de morte, doze das quais foram executados. 

Fiquei aterrorizada. Isto para mim foi providencial, pois solidificou a importância do mérito e tornou visível o perigo das cotas. Porquê esta mulher subiu meteoricamente? Por ser negra? Porque foi promovida precocemente? Pela cor da pele? Se outros colegas colocavam em dúvida a sua competência como cheguei a ler, porque trabalhou ela 21 anos? 

Talvez por ser negra, mulher, símbolo das minorias, quem falasse mal ou pusesse em causa podia ser considerado de "mau tom"... racismo. 

Provavelmente, desde o início, a sua origem foi o que lhe abriu as portas. Certamente não foi a competência. Neste programa parecia tê-la, mas aparentar e ser são coisas distintas. Também me parece que era desprovida de uma sã consciência.  Como pode ela forjar provas?? E viver anos e anos despreocupada com a consequência dos seus desmandos? Esta mulher acabou por ser uma assassina! 


Alguns homens por ela ajudados a condenar, tiveram as provas forenses revistas por outros tantos cientistas e comprovou-se que eram inocentes! A irresponsabilidade, falta de ética, falta de tudo desta «especialista» forense causou danos irreversíveis: a perda de anos de vida livre, décadas de clausura, aquele aperto constante no coração dos familiares, a amargura de se saber inocente e condenado, o ser-se associado a um crime hediondo que não se cometeu...

E tudo isto, se calhar, por ela ser negra.
Por ficar "mal" ir contra uma profissional em ascensão que é de uma etnia/minoria.



Volto a esta imagem. O meu ponto de vista é este: deve-se dar a mesma oportunidade a todos. Todos ficam com os rostos acima do muro. Todos vêm o jogo de futebol. Mas se os três o quiserem comentar e só um possa ser selecionado, então que seja o mais eficiente.


Eu nao vou querer um cirurgião a operar-me se este não tiver competência para tal. Quero acreditar que qualquer um que me aparece à frente é competente. É bom! E se for indiano (como muitos por aqui no UK), ou de outra etnia qualquer, quero continuar a admirar a sua competência e a imaginar a sua luta. Não é reconfortante imaginar que é a condição etnica/social que o transformou em médico. 

Esta pode ser uma alavanca, mas não deve ser um caminho.

Entendem

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

#EusouNoa


Este post ia começar por algo positivo, que transmite uma luz no final do túnel. Mas como tudo, não vai terminar tão bem. Ainda há muito para falar sobre a forma como a sociedade aceita que alguns homens lidem com as mulheres.


Caso 1: O comportamento exemplar
Maura Quint é uma escritora. Certo dia decidiu colocar na sua conta de Tweet histórias sobre as vezes que NÃO FOI assediada por homens. Eis um dos seus relatos: 

«Uma vez durante o secundário, sentia-me insegura. Vesti um top apertado e curto, coloquei batom, coisas que não costumava fazer. Fui a uma festa e bebi imenso alcóol. Um homem perguntou se eu desejava sair da festa com ele. Respondi. "talvez". O rapaz respondeu: "um talvez não é um sim" e voltou a juntar-se aos amigos.»

Noutro relato, aos 20 anos numa saída com amigos, Maura conheceu um empregado de mesa. No final do turno deste aceitou ir conversar com ele fora do bar. O rapaz disse-lhe que vivia ali perto e perguntou-lhe se queria ir para a casa dele. Com dúvidas, Maura hesitou. O rapaz disse-lhe que ela podia voltar para o bar, se era o que queria fazer. E foi o que fez. Com estes epísódios ela concluiu que não sofreu nada, porque naqueles dias não conheceu um violador. 
Talvez um dos subconsciente motivos pelos quais não aprecio talent shows infantis que "adultizam"  crianças. No Brasil uma menina de 12 anos foi sexualmente assediada em comentários no tweeter, enquanto participava em Mastershef - um programa televisivo onde crianças entram em competição umas com as outras para serem eleitas "melhor chef" de cozinha. Um homem escreveu assim: "se for consensual é pedófilia"?

Este caso levou uma organização a lançar no tweeter a hashtag #PrimeiroAssedio.
E a conta foi entupida de relatos de mulheres a contar que o primeiro assédio acontece na infância. 

E esta é uma triste realidade. O assédio começa, por vezes, mesmo antes do corpo feminino se tornar mais adulto e sexualmente apelativo. Há cérebros que não fazem distinção, olham para a criança como um pedaço de carne que irá florir para algo que já lhes apetece provar. A ideia de vir a ser o "primeiro" a proporcionar a experiência sexual a uma fêmea é primária em alguns homens.

#PrimeiroAssedio
Aquele que lembro mais ancestral, remota a uma ida à praia onde um homem de cabelos brancos muito velho e barrigudo não parava de olhar para mim, criança de uns seis ou oito anos. Ele andava de um lado para o outro, mas sempre fixado. Tentou aliciar-me a ficar perto dele. Aquilo deixou-me desconfortável e fez com que não me apetecesse ficar na praia. Senti vontade de vestir a camisa e ficar quieta a um canto.

Por favor, sejam homem ou mulher, deixem aqui na secção de comentários, a vossa #PrimeiroAssedio

Na Holanda, país que julgamos avançado no pouco que lhe conhecemos uma jovem, de nome Noa, sai todos os dias à rua para ir trabalhar, mas o que mais a incomoda é o previsível assédio diário. Vai que decidiu tirar uma selfie cada vez que se sentia assediada e colocar na sua conta no tweeter, seguindo de um texto assim: "Caro assediador...". A experiência durou um mês. Vejam o tipo de foto que ela publicou e digam se não vos parece familiar.  


Mona só terá chances de sair à rua sem ser assediada quando envelhecer ou se prescindir do uso de roupas normais e bonitas ou andar com o cabelo menos vezes solto que apanhado. É como se impusessem uma burka invisível, porque, na prática, tens de estar com uma aparência que não chame a atenção dos olhares masculinos, para poderes ser... respeitada.


#EusouNoa
Já quando tinha transitado para a possibilidade de andar na rua sem ser alvo de olhares ou comentarios (algo obtido através de anos de uma atitude de nenhum contacto visual, ignorancia e indiferença, perfeitamente assegurado pelo uso de roupas velhas, largas, simples e aparência nada atrativa), sai naquele dia à rua com casaco e calça preta. Cabelo solto, ao invés de apanhado. Quando fui a atravessar a estrada, notei os carros a abrandar, ao invés de acelerar e sem buzinar se lhes "passasse à frente". Notei, inclusive, enquanto esperava o semáforo ficar verde para os peões, esses carros a desacelerar ao invés de acelerar para passar o sinal ainda "amarelo". Era o que habitualmente fazem. Quando atravesso a passadeira, sinto e percebo que o homem que vinha no carro e levou o seu tempo para parar, gostou de ficar a olhar enquanto lhe passava à frente. O seu pescoço acompanhou todo o meu movimento. E quando o sinal para automóveis ficou verde, ele não reagiu de imediato. Foi preciso levar com uma buzinadela do de trás para arrancar. Eye-candy, como dizem na américa. Uma visão que dá gosto ver. Como os comportamentos mudam! Nesse dia,  a única coisa que alterou na minha pessoa foi a indumentária. Contudo, a atitude das pessoas foi mais civil, mais tolerante, mais simpática. 

Partilhem o vosso #EUsouNoa na secção dos comentários.

A Holandesa nas selfies com os homens que se meteram com ela
e disseram/fizeram algo que a deixou incomodada



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Para reflectir - igualdae?






À medida que se envelhece percebe-se que um relógio que custa 300 euros e outro de 30 dizem ambos as mesmas horas. Uma mala Michael Kors ou outra da loja Forever guardam a mesma quantia. Seja uma casa de 100.000 ou uma de 300.000 em ambas se pode sentir solidão. Um Bentley conduz-te ao mesmo lugar que um Ford. A verdadeira felicidade não se encontra no materialismo, mas no amor e riso que se encontra em todos nós.

Permanece humilde... o buraco que nos será cavado no chão é do mesmo tamanho.


Em teoria devia concordar com tudo o que aqui está escrito, pois vivo a minha vida seguindo estes princípios. Mas em toda a honestidade que a experiência de vida e a constatação diária de eventos me obriga, não concordo nada com as ideias neste texto paternalista. 

Com o avançar da idade também se apreciam coisas boas. Descobre-se que um bom bife faz melhor para a saúde que a carne do macdonalds. Então mais vale pagar mais, mas ter algo melhor. E nem toda a juventude se prende com o materialismo e a busca de coisas caras. Quanto ao tamanho do buraco que nos é cavado no chão... isso mudou. De tamanho de corpo passou a tamanho de "vaso". Isto para gente comum. Porque os poderosos, esses continuam a ser diferentes até na morte. Alguns querem os seus corpos preservados para a eternidade, outros vão ser enterrados dentro do seu carro desportivo favorito ou mandam construir uma autêntica "pirâmide" cheia de ouro e até escravos, para na outra vida poderem usufruir do mesmo nível de comodidade e riqueza.




Não.
Nunca fomos todos iguais.

O que partilhamos em comum é a MORTALIDADE.




terça-feira, 8 de março de 2016

O significado de 8 de Março

Não sou de dar destaque a datas mas, já que existe uma, quero que entendam a minha compreensão da mesma. 

Feveireiro 2016 - Equador

Duas jovens Argentinas queriam conhecer o mundo e começaram por uma viagem para o Equador. Não mais deram notícias. Foram encontradas assassinadas. Nas redes sociais começaram a censurar as duas amigas: Elas não deviam ter ido. Deviam ir só com a presença de um homem. Desacompanhadas fizeram por merecer. Provavelmente queriam andar na borga, insinuarem-se aos homens com os corpos expostos em roupas sedutoras. Foi delas a culpa do que lhes aconteceu - agressão, violação e assassinato por faca. 

6 Março 2016 - Índia


Uma jovem de 20 anos pula de uma varanda para escapar a uma violação em grupo. Está no hospital. Um dos três homens que a pretendiam violar era o seu namorado. Na Índia as mulheres são violadas em grupo com frequência, sendo que nem com os namorados estão a salvo. Os homens responsabilizam qualquer mulher pela lascívia que sentem. E reagem com o impulso selvagem de as possuir e descartar de seguida - nem sempre vivas. As violações de mulheres - não só indianas como também turistas - ganhou projecção mundial em 2012, quando um grupo de seis rapazes a viajar num autocarro, espancou brutalmente o namorado de uma rapariga para de seguida a violarem em grupo. A violação incluiu tortura com objectos metálicos inseridos na vagina e intenção de morte. A jovem de 23 anos foi depois atirada para o asfalto e só não lhe passaram com o autocarro por cima porque o namorado, igualmente atirado borda fora, conseguiu puxá-la para fora do alcance dos pneus do veículo. O motorista do autocarro testemunhou o seguinte: "não dei por nada".

A grande maioria dos homens e também algumas mulheres insurgiram-se e gritaram: "Estes rapazes são inocentes"! "Ela é que é a culpada!".

25 Março 1911 - EUA

Em pleno optimismo gerado pela revolução Industrial - que prometia uma melhoria de vida para homens e mulheres, em particular para os Imigrantes chegados aos EUA, um incêndio num prédio de Nova Iorque onde estava em funcionamento uma fábrica de confecções de roupa foi a causa de morte de 125 mulheres e 21 homens*. As operárias costuravam camisas quando as chamas as apanharam no 9º andar. Em pânico e sem alternativas de fuga, foram vistas pelos transeuntes a se alinharem no parapeito exterior do prédio. Mas pior do que ver este cenário de horror foi conhecer-lhe as causas. Muitas destas mulheres, na sua maioria jovens de menos de 25 anos e imigrantes italianas, foram vistas com as chamas a subir pelas saias, com o cabelo a arder enquanto se atiravam do 9º andar, outras procuraram no salto alcançar a escada dos bombeiros, que só chegava até o 6º. Estatelaram-se no chão. O barulho surdo dos seus corpos a ficar gravados na memória de quem assistiu, sem poder fazer nada para as salvar. 

A cerimónia fúnebre e os milhares que choraram a tragédia
Só depois de apagado o fogo se descobriu o verdadeiro alcance da catástrofe e do horror. Algumas mulheres haviam caido no poço do elevador, na tentativa de fuga, outras desceram pela escada do poço que, com o peso, colapsou e atirou-as mais rapido para a morte. Outras foram encontradas carbonizadas debaixo das secretárias mas a maioria dos corpos foram encontrados amontoados uns em cima de outros junto às portas de saída - uma estava fechada à chave por ordem expressa dos patrões - que haviam escapado do incêndio pelo telhado e posteriormente foram inocentados de qualquer responsabilidade. 

Ao contrário de quem trabalhava no e 10º andar, as operárias do 9º não foram avisadas do incêndio. Uma das duas saídas de emergência tinha sido trancada para salvaguardar a hipótese de furtos ou pausas. Estas mulheres eram submetidas a um verdadeiro trabalho de escravo. Eram intensamente controladas por capatazes, que cronometravam as suas idas à casa-de-banho, trancavam a porta de saída de emergência para que não pudessem sair e fazer uma pausa e escutavam cada conversa que conseguissem ter umas com as outras - usando para o efeito uma recente invenção que os permitia aproximarem-se sem serem escutados: os sapatos com sola de borracha. Os capatazes/feitores tinham o poder de fazer com que fossem demitidas. À mínima coisa, perdiam o emprego.
A sinalização indica a «saída em caso de incêndio» (foto provável da referida instalação)
(subitamente esta imagem fez-se recordar os modernos callcenters)
Na fábrica existia um cartaz com o dizer: "Se não vieres trabalhar no Domingo, não precisas de vir na Segunda" - isto porque as greves sindicais a protestar por melhores condições de trabalho (ordenados, carga horária e folgas) e de segurança estavam na ordem do dia.  As operárias desta fábrica trabalhavam 14 horas diárias, por vezes horas extras, fazendo camisas - e ganhavam à unidade. Mas mesmo a mais rápida e eficiente das costureiras não conseguia mais que um modesto salário de 6 a 10 dólares/semana. Mal sobrava para comer, depois de pagarem o aluguer dos quartos onde moravam. Escravatura moderna, portanto.


O dia Internacional da Mulher já foi comemorado em muitas datas: 28 de Fevereiro, 15 e 25 de Março. A ONU declara o ano de 1975 como o ano da mulher e em 1977 é adoptado pelas Nações Unidas o 8 de Março como o dia internacional da Mulher. Mas como tudo o que... vem de um Homem - sem querer desmerecer nenhum - a data foi escolhida em «homenagem» às vítimas de um acontecimento fictício: um outro incêndio fabril de 1857, que nunca aconteceu. 


É ou não importante fazer para que se entenda por este mundo o conceito e direito de igualdade? A mulher não é feminazi nem muito menos feminista - termos estes inventados por alguns homens, que assim os usam como alimento para tentar justificar o injustificável: o seu desprezo, ignorância e idiotice. 

Que esta data traga cada vez mais a igualdade a muitas das mulheres por este mundo fora, mulheres que ainda vivem sem saber que são iguais ao seu semelhante Homem e merecedoras de respeito e admiração. 

*outras fontes indicam 129 mulheres e 17 homens.