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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Cortesia condicionada


Ela transformou-me numa pessoa aparentemente mais fria. Mudou os meus hábitos, o que seria de minha natureza fazer, caso ela não andasse por perto. 

Uma coisa que me dá prazer, é partilhar comida com outras pessoas. Não sei porquê, mas gosto. Se tiver a sobrar, ou não tiver mas for o suficiente para duas pessoas, ou se der para dividir um donut que seja... dá-me prazer fazê-lo. Está na minha natureza oferecer. Somente isso. Não faço alarido, não acho que seja um gesto especial. Somente faço-o, por me ser espontâneo.

Mas quando vim para esta casa, todas as minhas ofertas foram sistematicamente recusadas. Fosse eu a cozinhar, fosse comprado já feito, fosse em alimento ainda cru, vegetal ou fruto - recusado, recusado, recusado!


Não demorou muito para perceber (se acham que seis meses é pouco) que o problema não era eu não acertar com os gostos individuais de cada um, e oferecer sempre algo que não apreciam. Nem era oferecer na altura em que já estavam satisfeitos, de estômago cheio - porque a maioria das vezes ainda estavam por se alimentar.

Demorou a perceber que implicavam com a autora da oferta. E por isso nunca aceitaram nada do que lhes ofereci. As únicas pessoas a fazê-lo, foram o senhorio e a rapariga grega. Pessoas normais, com atitudes normais. A africana - bem que tentei, mas ela foi rapidamente «convertida» a adoptar o comportamento dos outros. Já maldizia os meus cozinhados antes mesmo de os provar. Lembro-me que na sua segunda noite na casa, disse-me que estava cheia de fome e que não tinha nada para comer, ofereci-lhe pizza. Ela, que ainda estava a "apalpar" terreno, não sabendo ainda quem era quem dentro da casa, aceitou. Minutos depois, a pizza que lhe dei ficou onde a deixou. Deve ter ido para o lixo. O rapaz rei-da-casa bate-lhe à porta para chamá-la para comer pizza com eles. Eu? O meu «convite» ficou extraviado no «correio», que é por onde o remeteram desde o início.

Porquê esta distinção de comportamento? Não sei. Não tem motivo, realmente. Nenhum. Demorei a percebê-lo, mas detectei os sinais de má vontade e implicância quase de imediato. Só que os ignorei, achando que era«impressão minha». Acho que lhes bastou olhar para a minha cara e foi aí que decidiram: esta, eu não gosto. 

Isso, e desejarem viver numa casa exclusiva para italianos e eu atrapalhei-lhe os planos. Era tarde demais para realizar esse desejo por o senhorio ter-me dado o quarto. Só depois o rei-da-casa chegou e impôs as suas regras.

Geralmente, quem ditava as atitudes era o rei-da-casa. Esse é que tentava logo tirar um raio-x da pessoa e depois comunicava aos restantes se estava "aprovada" ou não. Quando o conheci, ofereceu-me cerveja. Recusei, dizendo que não bebia «beer». Perguntou-me se não bebia álcool de todo, com aquela expressão de espanto que hoje em dia parece estar em voga fazer. (Hoje em dia é pecado não beber álcool e ser virgem ou ter comportamentos de abstémia). Respondi que bebia, mas não era muito de beber. Ele fez uma expressão de reprovação, mal disfarçada. No dia seguinte, voltou a oferecer-me cerveja. Como se fosse um segundo teste, no qual teria sido aprovada, caso aceitasse. Não aceitei - simplesmente porque não bebo daquilo. Aos poucos - sem que tenha demorado mais que uns dias, senti que não estava a ser realmente aceite. Sabem quando falam contigo com cerimónia, ou não têm interesse de todo? Tentas iniciar uma conversa e recebes monossílabos, seguidos de mudança de receptor da mensagem?


E gradualmente, fui percebendo que os jantares, almoços, docinhos, bolinhos feitos no forno, pizzas italianas caseiras, os lugares postos na mesa, a troca de mensagens - tudo isso que era partilhado com outros, nunca me era oferecido. Andava eu a oferecer-lhes TUDO, e eles, recusando tudo e não retribuindo o gesto de oferta com nada.

O rapaz até foi mais longe: disse-me que ia fazer uma pizza um desses dias, para eu provar. Vi-lo fazer muitas - ou melhor, fingir que fazia porque a mais-gorda é que é a cozinheira do grupo e nunca que qualquer um deles estendeu-me um convite para degustação. Tão ao contrário da minha natureza! 

Quase um ano depois, quando a rapariga africana veio para cá morar (muito graças ao meu pedido de ter alguém com quem pudesse falar inglês, já que todos eles falavam italiano e não me incluíam nas conversas ou convívios), no primeiro dia ele logo lhe disse que ia fazer-lhe pizza. Foi ela que me contou, incluindo-me no grupo, o que estranhei. Até lhe confidenciei que ele disse-me o mesmo mas ainda estava à espera. E depois sucedeu-se o que descrevi seis parágrafos acima deste. 


Isto tudo para confidenciar que me tem custado - muito - não oferecer nada. Já cozinho só para mim, mesmo quando estou cheia de vontade de partilhar o que vou fazer com alguém, «engulo» a pergunta "Queres?". 

Habituei-me a ter esta postura e não posso dizer que me agrade. Tenho-a aqui, com esta gente. Com outros, volto a ser eu mesma. Mas se calhar, nem sempre. Ontem repreendi-me porque senti vontade de oferecer comida ao senhorio e a um rapaz que cá têm estado a fazer obras na casa. Mas não o fiz, porque a mais-gorda estava por perto. Por mim, cozinhava algo rapidamente, e eles comiam rapidamente, sentados na mesa. Mas com ela ali na sala, a impor a sua presença como habitualmente faz todo o fim-de-semana... Sabendo eu que se acha dona do espaço e detesta ver outros a usufruir do mesmo e nisso quebrar-lhe a rotina, nada fiz. Faria, se ela não estivesse presente. Mesmo com os outros por perto, talvez oferecesse. Com ela... não.

Não me sinto confortável com ela por cá. Consigo sentir a sua energia de ódio, às vezes vibrando com tanta intensidade!! Nem sei como é possível outras pessoas não o perceberem.

Vim agora das compras e trouxe dois donuts de chocolate. Abri um para comer, o outro... para quê o ia guardar? Ofereci-o ao senhorio. 


Este já tinha demonstrado «curiosidade» pelo cheiro que saía do forno, onde a mais-gorda decidiu fazer um bolo. (cheio de aroma artificial a baunilha). E brincou se estava a fazê-lo para lho oferecer. De seguida perguntou se o fazia para levar para o emprego. Respondeu-lhe que era para ficar em casa. Ele voltou a brincar que o ia comer. Claro que, agora, ela vai ter de se armar em boazinha e lho oferecer. Mas sei que não o faria sem ser por se sentir obrigada ou então, por cair bem, para ficar nas boas-graças. Quer mais é vê-lo fora daqui o mais rapido possível. Portanto, jamais lhe ia oferecer bolo porque isso significa aumentar a sua permanência na casa. Mas ele praticamente convidou-se e ela percebeu que tinha de o fazer. Nunca que me ofereceu a provar nenhum dos bolos que faz. Mas oferecia-os aos outros. Assim que entravam pela porta. 

Isso não me incomoda mas acho surpreendente. Como pode uma pessoa auto-proclamar-se de bem educada, vinda de um povo que gosta e sabe bem receber, e comportar-se desta maneira?

Chiça!!
Então quando vir o que é bem-receber tuga vai auto-flagelar-se de vergonha e arrependimento.

Sejam felizes. 

domingo, 26 de janeiro de 2020

Footpath Rage - desviando do passeio



Uma das situações que muito me incomoda no comportamento das pessoas aqui na "parcóvia perto de Londres", é a forma como se fazem de empecilhos nas situações mais desnecessárias. É que não tem explicação!!!

Preparem-se... isto vai ser terrível.


Caminho no passeio, em linha recta, não vem ninguém no sentido contrário. Nisto aparece uma pessoa no meu lado direito, o lado da estrada. O que eu faço? Imediatamente posiciono-me do outro lado, o lado de dentro. 

O que vocês esperariam do comportamento do rapaz que desceu do autocarro e começou a caminhar pelo passeio nessa linha de direcção? Eu esperaria que se mantivesse nele. Ainda por cima, tendo-me visto a desviar-me do seu percurso. Pois o que ele fez foi por-se a caminhar na minha direcção! Contra mim! Quando o nosso caminho cruzou-se, EU tive de me desviar. Eu, que até estava a subir e ele, a descer. Eu, que sou mulher e ele homem. Eu, que já lhe tinha desobstruído a passagem e ele é que se meteu na minha frente. 


Lamentando este tipo de comportamentos, fui eu que voltei a mudar de sentido, ultrapassei-o pela direita e voltei a posicionar-me à esquerda. Nisto olho para trás e vejo o rapaz a mudar NOVAMENTE para o lado exterior do passeio! Para atravessar a estrada. 

E eu pergunto: Porquêê?? 
Eu é que tive de o ultrapassar e ele logo a seguir a ser ultrapassado muda de faixa e passa para o lado que eu tinha deixado livre?? Se pretendia seguir por ali desde o início, porquê não foi ELE a ultrapassar-me? Porquê não se manteve nessa direcção que eu havia deixado livre? Poupava-me o incómodo de ter de mudar de faixa, duas vezes!! Ainda por cima vi-o a sair do autocarro...  vinha sentadinho, não estava cansado. Desceu o passeio com as mãos enfiadas nos bolsos das calças, forçando-me a mudar de rumo para com ele não colidir. E para quê? Se já pretendia seguir pelo caminho que lhe desobstruí, porquê, que raio, porquêêê não continuou a seguir por esse caminho que lhe deixei livre, porquêê se meteu no de colisão, porqueêê me obrigou a contorná-lo para imediatamente a seguir a forçar-me a isso, ele mudar de faixa? 

Raios parta esta gente que não tem nenhuma noção de como circular nos passeios e o que é pior: é ingrata. 


Footpath Rage - atravessar a estrada


Noutro dia decidi não atravessar a avenida entre um momento sem movimento automóvel, como habitualmente faço. Segui pelo passeio, até chegar aos primeiros semáforos. Acontece que esse cruzamento é TERRÍVEL, porque movimenta três sentidos. Os carros que querem virar à direita, ficam parados. Os que querem virar à esquerda, vêm todos acelerados para apanhar o sinal aberto e depois que este fecha, abre o sinal para os da direcção oposta virarem para ali. O peão... vê os carros parados, vê que os outros ainda não podem virar... tenta atravessar a estrada. Porque sabe-se lá quando o sistema diz que "acabou o tempo para aquele, aquele e aquele, e é a vez do pedestre passar".  

Muitas vezes, é até mais fácil para os próprios automobilistas deixarem o peão passar. Porque assim este não pressiona o botão dos semáforos, o que deixa a circulação automóvel fluída, sem forçar uma paragem. 


Mas aqui no UK isso não é percebido assim e os automobilistas comportam-se como a querer reclamar toda a estrada para si, por terem esse "direito". Se um peão ainda estiver a atravessar a estrada na passadeira quando o semáforo para carros ficar verde, leva com uma buzinadela e os automobilistas não hesitam em por o carro em movimento. Se um peão atravessa a estrada fora da passadeira numa via dupla, ou mesmo tripla, num momento sem carros e surge um automóvel, o mais provável é este ACELERAR e escolher dirigir na faixa perto do passeio, mesmo quando, ao fazer a curva, não era essa a direcção mantida. É intencional. Mal intencionado. Aqui usam este recurso para "reclamar" o "direito total ao espaço". É uma forma de comunicar ao peão que não aprova que atravesse a estrada ali. Isso e buzinar. Adoram buzinar!



Já em Portugal, se a pessoa atravessar a estrada fora da passadeira, o automobilista muitas vezes reduz a velocidade, ou, pelo menos, não a aumenta. Vê o peão à distância e não se põe a acelerar. Há uma espécie de "acordo" mudo, de cortesia e entendimento. 


O caso mais recente que me incomodou, foi nesse cruzamento. Só os carros à minha direita tinham sinal verde. E não vinha nenhum. Acontece que a pressa deles é tanta, que dar três passos sem aparecer um acelerado não pareceu possível. Percebendo isso, recuei até ao passeio e fiquei à espera. Com os dois pés bem assentes no passeio, um automóvel que estava longe quando recuei, DEPOIS de fazer a curva e passar por mim, BUZINA. O que vem atrás, decide fazer o mesmo. Para quê??  Não tinham espaço suficiente na estrada? Eu de pé no passeio incomodei-os? Não têm mais nada com que se preocupar, não têm de se concentrar na condução, querem ver? É mesmo necessário, vital, essencial buzinar aos ouvidos do pedestre??

Perdi logo a paz de espírito que transportava comigo. Qual é a necessidade que um «cu tremido» (que é como defino os não-caminhantes carro-dependentes que confortavelmente viajam sentados) tem de buzinar a um peão que já não está a tentar atravessar a estrada? 


Dá vontade sabem do quê?
De transportar uma buzina e pagar-lhes na mesma moeda para descobrir se gostam. Ia dar-lhes uma valente e sonora BUZINADELA que é para com o susto se espalharem com o carro e saberem como é bom! Teriam de andar a pé ou ainda melhor, de transportes públicos, para sentirem o que é bom para as manias de soberba.


Andar a pé... coisa que muitos desconhecem desde que tiraram a carta na juventude. Apanhar vento, chuva, sentir os pés a bater no asfalto que aqui no UK é tudo menos plano, sentir aquela dorzinha na base da coluna cada vez que se tem de pisar um piso tão cheio de altos e baixos. Sensações únicas.


Logo a seguir às buzinadelas, passa por mim um rapaz agarrado ao telemóvel, e, sem hesitar, atravessa a estrada, seguindo caminho. E eu refilo. Pois refilo! Olho para os carros parados no mesmo semáforo... Onde estão as buzinadelas agora? Eu no passeio e ele atravessou a estrada! Com um telemóvel na mão. Podia estar distraído, já eu, tomei a decisão consciente de recuar para o passeio, por estar até muito atenta às minhas chances de passar para o outro lado. Os carros parados não reclamaram porquê? É descriminação de género? LOL.  Mais uns passos à frente, depois de passar o cruzamento, tive de me desviar desse mesmo rapaz que, continuando a olhar para o telemóvel, tinha virado de direcção e claramente estava a procurar seguir as indicações de localização do Google Maps

Aprender a ter mais consideração pelo lado em maior desvantagem. É só isso que quero ver acontecer. Quero sentir que há pessoas educadas que, mesmo não concordando que o peão atravesse a estrada fora da passadeira, perceba que, por algum motivo, ele tomou essa decisão. E não lhes custa nada abrandar... ou simplesmente, manter o limite de velocidade. Já para o peão, parar consome segundos, mesmo minutos. Que estão contabilizados em passos, em mais ou menos tempo debaixo da chuva, neve ou frio, em vontade de ir ao WC, ou aquecer-se... No meu ver o que é pior, é a quebra do ritmo, que vai realçar o cansaço ou stress. Dali a três segundos, o carro e todas as pessoas que viajam nele já estão a metros de distância. Mas o pedestre continua a atravessar a estrada. 


Footpath Rage


Footpath Rage quer dizer "Raiva no Passeio".

Este é um tema que já quis abordar. Diz respeito ao equivalente do Road Rage (Fúria na Estrada) que descreve um comportamento de certos automobilistas que estão sempre zangados e a mandar vir, mostrando adoptar uma condução agressiva.

Eu sou peão. Peão profissional!
E como tal, tenho já uma certa tarimba. 
Aqui no UK não se diz sidewalk (isso é americano!), diz-se Footpath... então sofro, desde que cá cheguei, de footpath rage.




Enerva-me. Imediatamente. Posso estar super feliz mas basta uma coisinha relacionada com certos comportamentos tanto de outros peões, como de automobilistas, para me azedar o dia. 

Quando estive em Portugal até fiquei a sentir-me MARAVILHADA, porque todas as pessoas no metro posicionavam-se corretamente. E todas estão tão apressadas quanto eu! Mas não perdem a classe, a educação, a etiqueta. E, principalmente, não exibem a arrogância como se fosse um troféu. Sei que podem questionar-se mas, enquanto em Lisboa, todas as pessoas que encontrei no metro, sem excepção, pediram desculpa pelo mais ligeiro encontrão. Todas corriam para as escadas rolantes mas posicionando-se para ceder passagem a quem as quisesse subir... e pedindo desculpa quando não eram rápidas o suficiente! Foi uma lufada de ar fresco e familiar que acolhi com deleite.  
Ver a multidão com estes comportamentos quase que dá vontade de chorar, pela surpresa da falta diária que exemplos destes nos fazem. Nem tinha percepção do quanto em Lisboa as pessoas são bem educadas! 

Nesta parcóvia a algumas horas de Londres... Já vos conto!!

O Reino Unido abriu o seu primeiro supermercado somente depois da 2º GG
(12-01-1948) E vejam nesta imagem, já de início... nenhuma regra de circulação e comportamento!

SUPERMERCADO
Empurrava um carrinho, tenho pessoas paradas à direita a ver coisas numas prateleiras, então vou para o meio, já que quatro passos à esquerda, um casal acabou de se agachar até ao chão para espreitar algo na prateleira mais rasa. Uma mulher sem sacos, sem carrinho, bem vestida, com o cabelo solto e louro platinado, faz a curva e entra no mesmo corredor, atrás do casal agachado. Ao invés de ficar PARADA nesse lugar para me ceder passagem, pois já estou no meio do corredor com o carrinho em frente da barriga, desvia-se do casal, metendo-se à minha frente e pára. Fica ali parada, como se não tivesse acabado de se transformar num empecilho e eu tivesse de lhe ser grata. Há direita tenho pessoas, à esquerda tenho pessoas, ao meio, a bloquear-me a passagem, pôs-se ela. Demasiado "chique" para se desviar.  

Também fico parada. Uns segundos, a tentar perceber como sair dali... porque as pessoas aqui no Reino Unido não funcionam com regras de etiqueta que nós, portugueses, seguimos por instinto! Como por exemplo... não nos tornarmos um empecilho para a circulação dentro dos supermercados ou centros comerciais.

Só consegui sair do súbito cult-de-sac (a expressão usada aqui no UK para "beco sem saída", curiosamente, nada inglesa) quando um deles se moveu. Os da direita. Só então pude manobrar o carro para a direita para me desviar da tipa.

E a reacção dela quando a ultrapasso? 
Com um ar de desdém, como se tivesse razão de queixa, diz:
-"You are welcome!"  (Não tem de quê!)

Ainda queria que lhe agradecesse por se fazer de empecilho e forçar-me a ter de empurrar o carrinho aos zig-zags. 

É o tipo de comportamento estúpido que mexe com a minha tranquilidade interior!

Vocês talvez não saibam, mas aqui no UK os ingleses têm muito o hábito de insultar as pessoas de RUDES. E fazem-no, principalmente, com estas atitudes de desdém, dando a entender que a outra pessoa lhe deve um agradecimento ou pedido de desculpa. Para mim, exibir este tipo de atitude é o a própria definição de uma pessoa RUDE. Mas na cabecinha deles... acham que os outros é que são escumalha e eles estão correctíssimos.

Esta tipa pertencia, sem dúvida, a este grupo de gente.

Respondi-lhe logo: "Queria o quê? Que passasse por cima das pessoas agachadas no chão?".

Ela fingiu não ouvir, com aquele ar superior que os ingleses gostam de meter e provavelmente a desprezar-me pelo meu fraco inglês que, naquele momento, não saiu da melhor maneira. É que me enerva esta arrogância e petulância que a maioria exibe com vaidade e altivez. 

Mostram-se cheios de soberba, mas comportam-se em lugares públicos como se nunca tivessem sido apresentados a regras básicas de boa etiqueta. É que as ignoram totalmente. Nunca foram ensinados. Não tiveram aulas de boas-maneiras! E a culpa deve remeter para o tal Rei que rompeu com a Igreja Católica... porque em países onde o catalocismo durou mais tempo, regras de etiqueta e boa educação foram passadas de geração para geração. Dar prioridade aos mais velhos, ceder passagem à pessoa certa, não caminhar atrapalhando o caminho de outros, seguir numa direcção a direito e desocupar a outra para quem vem na direcção oposta...

Eles não se comportam assim. Não aqui onde moro, vos garanto. Vá lá, sabem conduzir carros e cumprir essas regras, porque o código de estrada está escrito. Como não há nada escrito a ensinar como se comportarem em supermercados, passeios, etc, têm comportamentos que lhes deixa expostos à sua ignorância, como se fossem selvagens que nunca foram apresentados à civilização moderna. 

O post já vai longo, por isso este assunto vai ser por partes. `
Ainda tenho de falar (claro), do que é ser peão no passeio. Ui! Aqui é ainda melhor!!!

Bom Domingo.

terça-feira, 5 de março de 2019

E já está!


E pronto: disse.
Confrontei a situação.
Alguém tinha de mostrar a esta gente como se faz, pelos vistos nunca aprenderam regras básicas de etiqueta. (E ainda criticávamos a bobone... aprender etiqueta faz falta).


Estava na cozinha a lavar louça quando a visita entra. Não oiço nenhum cumprimento. Isto azeda-me de imediato o dia. Estava particularmente feliz por ter estado a banhar-me com o sol matinal antes de meter as mãos à loiça. 


Enquanto lavo olho para o lado vejo-a passar da dispensa para a sala. Quando termino com a louça vejo-a sentada na mesa, a ouvir algo no telemóvel e a tomar o pequeno-almoço.

Não aguentei. Era agora ou nunca.

-"Viste-me na cozinha quando entraste?"
-"Sim".
-"Então da próxima vez cumprimenta-me. Não suporto que não digam os bons-dias".
-"Estavas ali assim... por isso é que..." - diz ela pouco afetada com a situação.
-"Estava a lavar a louça."

O que era suposto fazer numa cozinha para merecer um cumprimento? - fiquei a pensar. 
Ficar ali parada, espetada, a olhar quem aparece?

Continuei caminho. Ia para o quarto. Mas a pesar de ter pedido para ser cumprimentada, ainda sentia um amargor na alma. Não quis parecer brusca mas... já me chega algumas pessoas que moram na casa. Têm esse péssimo hábito também. A falta de educação é algo muito contagioso, que se espalha rápido. Ás tantas nem eu estou tão imune de me tornar igual. E se continuar a engolir estes desaforos, provavelmente eles vão alterar-me como pessoa. Tantos já alteraram. (Fiquei idiota).

Depois de recolher a roupa que ia por a lavar, desci, passei pela rapariga, coloquei a roupa na máquina e voltei a dirigir-me a ela:

-"Outra coisa que devia ter sido feita: (e estendo-lhe o braço num cumprimento). 
-"O meu nome é Portuguesinha, e o teu?"
-"Chamo-me Emma".

Perguntei se estava tudo bem, disse-lhe que era bem vinda e desejei-lhe sorte. 

CUSTAVA muito terem feito isto no início?


PS: surprise, surprise: a miúda vai ficar a morar aqui muito mais que os sete dias que me foram ditos (!!) e ia ser sempre assim. Sem cumprimentar, mas a usufruir de tudo na maior. Conseguem imaginar ao que me estão a sujeitar? Tenho tantos problemas importantes para resolver - a falta de emprego, a busca por um melhor, a minha saúde... e estou a desgastar-me com isto.

Não dá. Decidi ser mais verbal. 

Ao escutar as nossas vozes o rapaz apressou-se a aparecer, com aquele olhar persecutor. Também entrou sem cumprimentar. (argh, nada muda). 

A parte da hóspede ficar cá sem a amiga e durante mais que sete dias foi CONVENIENTEMENTE excluída da conversa que a P teve comigo para me alertar para a chegada da estranha. Ela disse-me que ia receber uma amiga (mas para tal tinha de estar presente, caso contrário não está a receber ninguém) e esta ia cá ficar sete dias. Mencionou que a amiga já tinha encontrado uma casa para morar, só ela e uma outra. (deve ser a tal que daqui a uma hora já cá deve estar para almoçar). A P. não mencionou que ia estar fora, nas ilhas canárias... enquanto a estranha passeia-se pela casa, com uma amiga, sem dar cavaco aos que cá moram. 

Isto é com cada situação...
Interrogo-me se a juventude na casa dos 20 é toda assim. Será?

Não imagino a minha enteada a ficar na casa de uma amiga e não cumprimentar os seus familiares e amigos que lá estejam. Nem me passa pela cabeça. É totalmente inconcebível. 

Mas aqui acontece. Sempre.
Espero que este seja um gene defeituoso exclusivo de italianos!


ADENDA:
Hora do almoço: tal como previsto, as italianas duplicaram-se. Em vez de uma encontro duas na cozinha, em volta do forno e dos bicos do fogão. A minha conversa matinal surtiu efeito. Ao passar, escuto um ténue e tímido "Hei" da parte da convidada-da-convidada. Ao qual dou retorno.

De seguida lavo a caneca que me levou até ali e pergunto:
- "Ès tu a amiga que vai dividir casa com ela?"
- "Sim".

O rapaz, que está presente, subitamente diz-me que ele e a P vão de férias daqui a 10 dias.

Quando eles dizem-me algo voluntariamente, para quem lê o que aqui escrevo, sabe que é porque querem alguma coisa. O que é que ele queria?

Dizer-me que a convidada-da-convidada ia ficar a dormir no quarto dele nesses dias.

Lol!





terça-feira, 21 de novembro de 2017

Fui um pulha - 2

Como contei, tinha acabado de me sentar no transporte público, grata e aliviada por ter conseguido lugar, quando entrou um senhor idoso, que de início nem vi.

A rapariga à minha frente inicia o movimento para se levantar e lhe ceder o lugar. É aí que dou conta da presença do homem, porque este diz-lhe para se deixar estar. Não precisa que lhe ceda o lugar de propósito, só aceitaria se ela fosse sair na próxima. A rapariga deixa-se, então, estar. E eu estou quase para fazer o mesmo que ela, levantar-me e insistir para que o senhor tome o meu lugar, quando dou conta do meu cansaço mas, também, do jovem rapaz que está sentado à minha frente.

Erámos todas mulheres naqueles quatro bancos. Excepto ele. 

Não é a primeira vez, nem a segunda. Provavelmente nem a vigésima mas é recorrente. O simples conceito disto desilude-me mas é uma realidade que consto facilmente nos transportes públicos: quando alguém vai para se levantar do lugar para ceder o espaço a uma pessoa com mais idade, essa pessoa NUNCA É UM HOMEM. 

Está sempre a acontecer: entram pessoas a quem é suposto ceder o lugar por terem prioridade - grávidas, pessoas com crianças, idosos ou pessoas portadoras de bengalas ou deficiência e NADA de um mancebo que está mesmo ali se levantar. 

São quase sempre as mulheres que cedem lugar, mesmo quando sentadas ao lado de jovens rapazes.

Mas o que é que se passa com o «cavalheirismo», morreu de vez?
Se temos noção de que devemos ceder o lugar, então também sabemos como deve funcionar as prioridades. Também se sabe que fica bem a um homem que viaja sentado ceder o lugar a uma senhora que está em pé. Porquê? Pelo mesmo princípio pelo qual o cedemos a idosos, crianças e pessoas de fraca mobilidade! 

Mas já não se faz isso nem com idosos, como deu para perceber. O rapaz ali sentado nem se mexeu. Estar rodeado de três mulheres, uma prestes a ceder o lugar a um homem idoso, não o sensibilizou para o seu «dever». Aceito, um pouco com maus olhos, que um jovem aparentemente saudável na flor da idade e cheio de vitalidade, acabe por não ceder o seu lugar a uma mulher que, aparentemente, não tem nenhum problema. Pode viajar em pé, simplesmente é mulher e provavelmente está mais cansada ou carrega mais sacos e malas... Mas um jovem rapaz, saudável, capaz de sair dali a correr e subir todos os degraus da escadaria aos pulos, saltando dois em dois...

Fica mal. 

Ainda na véspera, fui eu que cedi lugar a uma senhora que entrou no eletrico (daqueles antigos) com uma criança pela mão. Ainda aguardei uns segundos a ver se o homem ao meu lado ia ter esse gesto de cortesia. Ou qualquer outra pessoa ali, realmente. Mas NINGUÉM reagiu e eu não esperei mais tempo e perguntei à senhora se queria sentar a criança no meu lugar. Ela nem me ouve há primeira, distraída que está a tentar certificar-se que paga a viagem e a criança está junto dela. Pelo que tenho de repetir para que me oiça e para que seja ela a ficar com o lugar, e não outro que vem atrás. 

Nestes preciosos segundos, o homem ao meu lado não tomou a iniciativa, nem nenhum outro naquele eletrico. Não cedem o lugar a mulheres, a idosos nem a crianças. De facto a MULHER tem muita mais sensibilidade. Muitos homens parecem ser uns insensíveis. Até que um dia, sejam eles a precisar de lugar.

E quem é que lhos vai ceder?
As mulheres. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Inglaterra: Desfazendo Mitos -p3

EDUCAÇÃO DE BERÇO

Observei no mesmo dia, à mesma hora, no mesmo restaurante. Uma criança japonesa com talvez 5 anos, acompanhada dos pais. E uma criança inglesa ainda bebé, talvez de um ano e pouco, também com os pais. Ambas as famílias sentadas à mesa de almoço.

A família japonesa surpreendeu-me. O pai brincava com a criança entusiasticamente ao mesmo tempo que esta comia umas bolachas em miniatura que trouxe de casa. Tinham-nas colocado em cima de um guardanapo em papel e a criança petiscava-as sem fazer sujeira. Pareciam pessoas bem educadas. A mesa em si tinha o normal de se encontrar numa mesa de restaurante... e um smartphone com que a criança e o pai se divertiam num misto de brincadeira, com convívio e aprendizagem. Os pratos, talheres e demais utensílios encontravam-se num estado normal.

A família inglesa também surpreendeu-me. A criança bebé, sentada na sua cadeira alta, diante do seu prato de comida tipicamente inglesa, distraía-se tirando as ervilhas do prato, esmagando-as de seguida com os dedos e colocando-as no tampo da mesa. Já tinha uma pilha considerável de ervilhas esmagadas, aquilo mais parecia puré. Os pais limitavam-se a observá-la, sem fazer nada. Não a repreenderam, não a ensinaram a não brincar com a comida no prato, nem sequer tentaram com que ingerisse alguma coisa. Não se envergonharam com a cena. Nem mesmo quando o empregado chegou e meteu-se com o bebé. Não mostraram qualquer impulso de se desculparem ou de simularem quererem desfazer a sujeira das ervilhas, por exemplo, por pegarem num guardanapo em papel para apanhar o montinho de puré que a criança estava a deixar na mesa para o empregado limpar. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O mundo é Chinês


Estou a preparar uma festa e como sou dada a bricolage, tive ideias para as decorações. O material que necessito para levar as ideias adiante nem é complexo: toalhas plásticas, umas folhas de e.v.a. de grandes dimensões, papel autocolante de veludo.

Pois bem... Já corri tudo o que é loja nos arredores e proximidades e NADA de encontrar o que preciso. Isto acontece sempre. É o que mais me frustra quando me lanço num projecto criativo.

Placas A4 de E.V.A - poucas cores e tamanhos limitados


Em termos de electrónica, procurava também uns leds de pilha, coisinha simples, que deviam ser vendidas às centenas nas prateleiras de muitas lojas da especialidade e não especialidade por aí. Mas não se vendem. Só encontrei duas ou três lojas online, o que é uma chatice. Queria ir a um local, escolher, poder trazer só uma unidade. Lojas online não se prestam a isso. 

A alternativa às pilhas, seria fazer as próprias... com um condensador e uma pilha de relógio. Numa operação simultaneamente simples e complexa. Mas e encontrar a alternativa à alternativa? Ainda é pior: boa sorte nessa empreitada!

Concluí - na realidade faz até bastante tempo - que Portugal é chinês.


Não se encontra mais nada. Antes, uma pessoa encontrava de tudo. Tecidos, electrónica, metais, ferramentas, tintas, cordas e cordéis... Uma pessoa sabia que podia ir "aqui" ou "ali", a certas lojas, ou mesmo a certas ruas, e era garantido: quase de certeza não só encontrava o que se pretendia, como surgiam outras alternativas e se ficava a conhecer outros novos objectos.

Hoje com a abertura do mercado à China... é uma calamidade!!

Seja o que for que se procure, tudo está standarizado e muito limitado. Os chineses, ainda por cima, são DITADORES. Limitam o tipo de produto que exportam e não apresentam variedade. Eles ELIMINARAM o comércio tradicional, que era vasto, amplo e de qualidade. Saudades das retrosarias, do comércio especializado, que tinha de tudo... Obras no WC? Vá a uma drogaria! 


Isto que digo é muito sério. Saudades imensas das "ias".... Mercearias, drogarias, retrosarias, papelarias!

Vive-se no centro de uma cidade grande, na teoria, isso significa uma maior variedade e facilidade em encontrar qualquer tipo de produtos. Mas na prática... nada.
Antes fosse uma aldeia, menor mas, onde se fosse procurar, saber-se o que se vai encontrar.


Acredito que o futuro é online. Acabando-se o comércio tradicional, ficando apenas as grandes e standarizadas grandes superfícies, ou as lojas tax-free dos chineses, vamos nos virar para o online! Para quê ter tanto trabalho em deslocações se é tudo igual em todo o lado?

Eu vi as mesmas toalhas, somente nas mesmas quatro cores (nenhuma azul ou vermelha), não encontrei em parte alguma papel autocolante em veludo (coisa que antes se encontrava sem dificuldade alguma e em variedade de cores) e as folhas de E.V.A. são uma desilusão: pouca variedade nas cores e dimensões e ,nos hipermercados, a aposta vai para as pequenas folhas com "floreados" impressos. 

Fui a três sítios com uma amiga que procurava comprar molas para prender a roupa: hipermercado, loja dos chineses e outra loja qualquer. 

Pois todas vendiam o mesmo tipo de mola, ,com o mesmo formato, o mesmo material... Nenhum demonstrava grande segurança na construção. Todas aquelas molas para a roupa pareciam frágeis, capazes de se partirem por nada, se quebrarem com dois dias de exposição ao sol...

De onde vem esta padronização de produtos? 

"Brinde" que veio com uma compra no site Aliexpress

Já acho que fiz mal em não mandar vir estas coisas da china. Pelo menos vinha diretamente e sem preocupações! Porque outra coisa que me impressiona é que tudo onde coloco as mãos vem com "fabricado na RPC". Como se uma pessoa não soubesse que China ou República Popular da China é exatamente a mesma coisa! 

Todo o produto vem em destaque "IMPORTADO POR...". Mas de onde? Da China. Ainda não encontrei uma única coisa - desde peças de roupa a artigos de decoração, a material escolar ou de papelaria, que não tenha como local de fabrico a China. Seja esta condição camufladamente indicada com minúsculas letras da sigla RPC ou não.

Uma britânica fez uma compra na Primark....
E eu fico seriamente a pensar se quero compactuar com o enriquecimento de uma nação que usa e abusa do trabalho manual infantil, que despreza os direitos dos trabalhadores e faz prática do trabalho de escravo

Uma ida a uma dessas lojas me causou impressão, pois os Chineses cá estão a adoptar uma nova alternativa à habitual vigilância: contratam pessoas locais só para seguirem os clientes pelos corredores. E desta vez não foi um homem que vi, mas uma criança! Loura, de um metro e 30 de altura... Podia até ser quase de maior, mas duvido muito. 


Agora até o esquema de trabalho infantil eles importam para cá. Não registam as vendas, cada vez que compro algo e peço o talão eles o fazem sem a caixa registadora fazer um piu... O que fazer? Deixar de comprar quando tudo já é feito lá? Por mãos tão pequenas quanto provavelmente o são as mãos daquela adolescente a trabalhar numa loja de chineses? Gostava de ter alternativas. Só que não há alternativas. 


Se as houver, viraram alternativas de "luxo", para padrões económicos mais elevados. O comércio Tradicional... vai passar a ser uma espécie de «museu». E o restante está todo contaminado pelo vírus do RPC.

"Obrigado" governantes! Tirem-nos desta latrina, sff!




O Mundo é chinês e é de Reles Qualidade.


Ver também: a pegada desoladora