domingo, 31 de maio de 2020

Pessoas de fé?


Algo estranho acabou de acontecer. As minhas lembranças estavam todas a voltar a ele e com isso muito sofrimento o meu coração começou a sentir. Intensa dor, de novo aquela que parece que não passa e dói demais.

Decido fazer uma prece. Mas não peço a deus, jesus, nossa senhora, anjos da guarda... peço a eles. Abro-lhes o meu coração e explico-lhes o que sinto, o que quero que aconteça. Peço que me concedam essa oportunidade, pois se passado um ano ainda estou na mesma, preciso disso. Rogo-lhes por isso.

Instantes depois ele tinha desaparecido da minha mente. Está também um pouco sumido do meu coração. Sei que não vai durar. A questão estranha é que eu orei para ter oportunidade de estar com ele e o que me concederam foi o esquecimento.

Sim, porque algo aconteceu. O estado em que eu estava e como subitamente deixei de estar... depois de orar a eles.

O que não tem de ser, não tem de ser...

Mas eu pedi que me concedam a felicidade de voltar a sentir o que senti e poder viver isso. Foi por ele que o senti e dificilmente (como o exemplifica o post de ontem) vou sequer olhar para outro. Nunca fui de olhar, sempre... aconteceu.

Nao vou conhecer ninguem novo nos proximos tempos, tal como não conheci no ultimo ano. Muito menos alguém que me desperte o que ele despertou em mim. À minha volta ninguém é complicado e integrante como ele era. Eu vi o mundo por um prisma diferente, o prisma dele, e fez-me bem, pois é tão diferente do meu. Eu preciso desse outro prisma pois claramente, o meu veio defeituoso e está preso no set "todo o mundo é bonzinho". Ele tinha uma perspectiva diferente e não queria saber de ninguém. Mas foi doce e atencioso comigo.

Eu tenho tendencia para gajos perturbados, que sao timidos. Acabam por ser simpáticos e mostrar bom carácter para atrair uma presa mas depois sao ciumentos e possessivos. Julgo que não era o caso dele mas fico na incerteza devido a esta tendência do passado.

Orar resultou em esquecimento.
Curioso resultado....

sábado, 30 de maio de 2020

Sociabilidade


Um homem a passear dois cães parou ao lado do banco onde me sentei para ver o mar. Ele demorou-se, estava claramente a empatar e senti--me muito desconfortável com a sua presença. Não por a sentir ameaçadora, mas por me ocorrer que estava a ver se eu metia conversa com ele. Afinal, dois cães, uma pit stop ao lado de uma mulher sozinha num banco... decidiu dar água aos animais. Tambem eu tinha acabado de dar a um pombo os restos de uma maça que comi. Terá ele achado que eu era boa pessoa amiga de animais e se aproximado?

Continuei desconfortável.... olhei para ele umas tantas vezes. Pareceu-me simpático e não um "faz-se a todas"  mas o desconforto só desapareceu quando, sem nunca interagir com ele ou os animais, se foi embora.

E eu percebi algo a meu respeito. Sou um caso perdido. Tinha acabado de concluir que a minha vida como está não me leva a lado algum e merecia encontrar alguem especial. Aliás, só isso poderá trazer algim sentido ao resto dos meus dias. Mas mesmo que Deus ou o que seja providencie essa oportunidade, a verdade é que eu não estou pronta para agir em conformidade. Vou desperdiçar qualquer oportunidade e em breve será tarde demais. Ninguém sentirá mais o impulso de me abordar para me conhecer.

Vim arejar os problemas até uma cidade costeira conhecida pela praia e pela sua comunidade gay. De modo que pude notar que o rapaz com dois cães não tinha nada de gay.


Constato que vou desperdiçar oportunidades, sem sequer perceber quando se apresentam. Sempre fui distraida a esse ponto. Desaprendi as tecnicas básicas e para ser sincera, nunca as aprendi realmente. Sempre fui eu, espontânea, honesta. Jogiinhos de sedução se os fiz, foi naturalmente, fruto de milhões de informações que evoluem pelo DNA. Vemo-lo todas as primaveras... no comportamento animal. O ser humano gosta de se achar mais evoluido, mas faz parte dessa mesma cadeia.

Nota:
Obrigada a todos pelas palavras deixadas no post anterior. Percebi o quanto tenho leitores sensatos. Neste momento estou num fosso de depressão e o meu julgamento pode ser afectado por estas emoções todas. Mas quero que saibam que tudo o que li faz sentido.

Só acho que é tarde demais para "um burto velho aprender linguas". Nunca vou conseguir deixar de possuir certas caracteristicas que são tão inatas em mim e que irão sempre empurrar-me para "debaixo das rodas de um camião". Mesmo não sendo defeitos isoladamente, acabam por ser, pois  perpetuam que vá sempre sujeitar-me aos maus tratos de qualquer um. Acho realmente que é um mal incurável e mesmo que o cure agora, já perdi metade de uma vida. Paciência.

Fiquem bem.
Felizes e com saúde :)


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Felicidade num aglomerado de cacos quebrados


Sou muito feliz quando estou a trabalhar. Se o trabalho correr bem e sem pressaltos, fico mesmo de sorriso aberto de um canto ao outro.

Foi assim hoje quando terminei o meu turno as 6 da madrugada. Vinha a andar na minha scooter a cantarolar, a saborear o ar matinal que tanto aprecio e a ver o dia sob aquela luz maravilhosa. Sempre atenta na condução, para nao esbarrar em ninguem. Mas a verdade é que fiquei surpresa por não encontrar nada nem ninguém pelo caminho. Ė como se o mundo tivesse parado e só eu estava a circular pelas ruas. Vim o caminho quase todo com a scooter na velocidade cruzeiro por isso nao precisei estar a controlar os comandos.

Estou feliz.
Mas depois chego a casa.
E a cabeça, o coração, a vida...

😥


Às 18 estava novamente a trabalhar. Saí às 22 e lá vim eu, na scooter, feliz e a cantarolar uma musica que passou numa novela brasileira há muitos anos. Porquê, não sei.

Ė o trabalho bem feito, concluindo com sucesso e sem sobressaltos que me deixa com boa disposição.

Mas depois...
Depois é outra coisa.

Fui ver quartos. Na primeira casa, gostei das pessoas. Só lá estava um rapaz, com a namorada. Gostei do quarto, a cozinha é um cubiculo, mas tem sala e jardim. Guardam bicicletas ali na boa e isso fez-me perceber que aquele não é um lugar com gente esquisita, que se vai por a ditar onde os outros nao podem deixar as coisas mas fazem o mesmo ou pior.

Tambem gostei do quarto na segunda casa mas todo o espaco nao tinha alma. Nao tinha gente e estava decrepito. Sinais claros de que o senhorio está mais focado em receber rendas do que no conforto do espaço. Mostrou-me a casa sem me incentivar a explorar e não desenvolveu nenhuma questão.

Também é a que fica mais longe, por isso acho que esta não entra na equação.

O problema da outra é que as contas sao pagas à parte. Isso pode ser um grave problema.

Mas sabem o que temo de verdade?
Temo não agradar aos outros.

Percebi que estou emocionalmente danificada. A portuguesinha que chegou a esta casa há dois anos nem sequer se preocuparia com isso. Bastava-lhe ser ela própria, achava que a sinceridade e a autenticidade são sempre bem acolhidas.

Dois anos a viver em ansiedade e stress devido às falsidades, que culminaram com uma conspiração cheia de mentiras ao ponto de me deixar de queixo caido no chão.

Resultado? Estou quebrada.

Acho até que já nem sei como agir em grupo dentro deste contexto de partilha de casa. Deixei de saber usar uma cozinha para preparar uma refeição. Perdi o hábito espontaneo de partilhar mantimentos e oferecer comida porque nesta casa recusaram sempre tudo que lhes propus como se vivessemos numa época há muito passada e eu fosse tao repelente e indesejável quanto um leproso. Dialogar normalmente, sem o outro mostrar-se frio ou desinteressado... nao recordo como é  e como se deve retribuir. Desaprendi a conviver nos padrões normais de interacção social.

É como me sinto.
Foi ao que me sujeitei.

Serei eu capaz de estar com pessoas normais? Temo que os danos causados no meu emocional irão comprometer as minhas interaccoes e capacidade para distinguir momentos certos, menos certos... Temo que algo wue faça possa ser mal interpretado e me falte capacidade de acção para erradicar este tipo de situação e o perigo que representam.

Mas terei de ir à luta, bem sei.

Estou fragilizada. Mais do que podia perceber. Talvez mais do que dá para aguentar. As mentiras horríveis, a vontade do senhorio em embarcar nelas e as acções que ele próprio tomou... É todo um embaque emocional intensamente forte.

Têm sido uns atras dos outros. O mais intenso foi a paixonite. Passou quase um ano, ainda doi muito e não passa um dia em que esse aperto na alma não se faça sentir. Isso também fragilizou a percepção de auto-valor. Como podem as pessoas num dia dizerem-me que gostam de mim, que sou tão boa pessoa, que sou especial, para depois serem frias e desaparecerem da minha vida?

Isso machuca.
Isso pode até desiquilibrar uma pessoa emocional e psicologicamente.

Preciso de me rodear de pessoas boas que me mostrem o caminho certo e retornem a normalidade de volta à minha vida.

Mas se vou conseguir, não sei.

Talvez devesse viver sozinha por uns tempos. Se pudesse... mas sozinha aumentaria a solidão, a percepção do vazio e das perdas. Talvez me tornasse numa pessoa realmente estranha, distanciada.

Preciso de aprender e reaprender.

‐-----

Ps: tres da manhã e vou consultar o email. Encontro uma mensagem a cancelar o turno de amanhã. Os cancelamentos e as limitacoes chegaram rápido com o "final" do corona. Há um mes imploravam para ir todos os dias e atebpediamnpara fazer ruenos de 12h. Agora estao a cancelar, a reduzir, a limitar bastante.

Sabem o que é que nós valemos para os outros? Absolutamente nada.

Esta constatação, levando em consideracao tudo o resto... entrei num pranto. Mas nem posso chorar à vontade e em plenos pulmões. Nem o sofrimento poee escoar livremente.

Bom, mas "amanhã" será outro dia.
A ver se depois de dormir (se conseguir), desperto optimista, com vontade de ir a outro round de luta diária, luta essa que estou claramente a perder. Merece a pena??
👶👩‍🎓👮‍♀️💔☠













quinta-feira, 28 de maio de 2020

A young man with a high potencial (filme para ver já!)

Vi um filme maravilhoso do qual nunca tinha ouvido falar. Data de 2018, muito recente. O filme tem uma história incrível, perturbadora em certos aspectos e impressionantemente realista. As interpretações estão fantásticas. O actor principal é tão bom que nem o vemos. Só lá está a autenticidade da personagem.


Traduzido para português o título do filme significa: "homem jovem com alto potencial"

E do que trata a história? Bom, ele é um geek que não sabe socializar, ė estudante e vive num dormitório. Uma jovem atraente pede-lhe para ser sua colega de trabalho num projecto e ele sente-se atraido por ela. Mas carece de experiência na corte. Quando a beija, ela diz-lhe que nunca pensou nele dessa forma. Ele sente bastante a rejeição e quando surge uma oportunidade para satisfazer a sua curiosidade e fantasias, decide aproveitar.

Mas a coisa não lhe corre bem. Vai correr ainda pior para ela.


Pelo meio surge uma senhora que trabalha na cantina que é sagaz e entende o que se passa, ainda assim participa, não se escandaliza nem procura saber a verdade.

O filme está tão bem feito que várias vezes levo as mãos para tapar a boca que abriu de espanto. O mesmo para os olhos. Por vezes até me levantei da poltrona.


Um filme capaz de despertar estas emoções vale mesmo a pena ver, não concordam?

Quando foi a ultima vez que um filme vos provocou isso? Lembram-se de que filme se tratou?

terça-feira, 26 de maio de 2020

Desde que regressei de Portugal que o meu metabolismo funciona de forma diferente. Como em Inglaterra isso sempre aconteceu, atribui a imediata mudanca à geografia e aos diferentes alimentos que por ca se encontram.

Todas as manhas, independentemente da hora a que adormeço, desperto cedo com uma sensacao incomoda. Acabo por levantar para ir ao WC. Uma vez la, tudo acontece por tres etapas. A primeira, é o insucesso. So consigo aliviar-me dos liquidos. Desisto, saio do wc e passados uns 15 minutos, da-me novamente a vontade e sou bem sucedida. Sai pastoso, quase solido. Depois disto sempre me sinto fraca e com sede, pelo que bebo apenas um gole de água. Cansada, regresso à cama para tentar retomar o sono. Mas depois deste ser interrompido, achar que vou ser bem sucedida revela-se sempre uma ilusăo. Ainda não estou totalmente bem. Sinto algo mais nas tripas a querer sair, mas por algum motivo nao conseguiu chegar a tempo da "primeira carruagem deixar a estacao".

Mais 15 minutos se passam e la vem ela: a necessidade indiscutivel de deixar as tripas totalmente vazias. Sai quase liquido, mas sai tudo.

No final sinto-me drenada de energia, embora nao tenha feito esforco algum. A minha respiracao esta acelerada e eu fraquinha, quase a desfalecer, por vezes.

Eu nao costumava ser assim. Isto acontece aqui, no Reino Unido e muito depois daquele mal que me acomodou na passagem para o ano 2019. Aponto a agua como uma provavel causa mas seja o que for que tenha sido, estes momentos de estafa, sejam matinais ou nao, ja estao demasiado presentes e começo a achar que nao Sao meras indisposicoes ocasionais.

Diabetes, anemia e problemas de colon intestinal: é o que me ocorre.

Agora com o Covid19 é que nao da exatamente para ir verificar o que se passa. Se antes os profissionais de saude ja faziam de tudo para evitar ter pacientes, agora deve estar mil vezes pior.

No emprego, quando pedi para deixar de fazer o trabalho pesado, nao se deveu apenas ao esforco muscular. Percebi que algo estava diferente. Cansava-me depressa e nao tinha energia. Comprei a scooter para agilizar esse cansaco mas continuo cansada, mesmo com a poupança de caminhadas diarias de tres horas.

Voltar a meter algo no estomago tem de ser devagarinho e a tentar perceber o que lhe agrada. Ele reclama, tem voz, emite sons de grunhidos, como um leão. Biquei  uma torrada e nao apeteceu mais. Mesmo que quisesse. Foi preciso cerca de uma hora a bicar lentamente a torrada e a beber sopa quente para recuperar, pelos vistos, em pleno. Mas deixa so ate ser preciso fazer outro subito esforco para ver se a fraqueza nao regressa.

A boa saude e o melhor que podemos possuir. Cuidem-se!

27 MAIO ADENDA:
Hoje ja tive successo à primeira, talvez porque ingeri uma destas ontem. Pelo sim, pelo nao, fiz o mesmo esta manha.

Afinal, o que mais me surpreende nesta alteração de funcionamento estomacal é que tudo o que meto para dentro pouco depois quer Sair. Não é suposto os nutrientes serem absorvidos?

Obrigado a todos que se preocuparam, em particular aos que fizeram uma visita ao googledoctor 😂😘


segunda-feira, 25 de maio de 2020

A analogia da rã

Ainda estava a gargalhar do video-apanhado anterior, quando veio a ilustracao do video seguinte, que segue automaticamente.

De imediato o sorriso vira uma expressão séria. A analogia que usei para descrever como desenvolvi sentimentos por ele foi a primeira coisa que me veio à lembranca. E hoje ja me lembrei dele duzias de vezes. Nao sei o que vinha ai, mas adivinhava.


Também posso usar esta analogia em tantas outras coisas que sempre se passam comigo. A minha tolerância, paciência e recusa em entrar em conflito transforma-me numa rã dentro de um tacho com água ao lume. Tolero tudo e depois, quando percebo, é tarde para mudar. Move on.

Vejam, merece a pena.


https://www.facebook.com/jerseydemic/videos/229128051420548/?extid=jnXRlqs8amBl3YMn&d=null&vh=e


domingo, 24 de maio de 2020

Livro lido: dias infinitos

Mais um livro lido.
 E este nao foi na transversal.


Li o primeiro capitulo faz muito tempo. Numa noite da semana passada apeteceu-me apanhar ar. Fui para o jardim. A noite estava morna e agradavel. Uma brisa perfumada soprava, para minha delicia.  Convidava o silencio à leitura. Assim me apeteceu, assim o fiz.

Soube muito bem!
Quando me cansei (provavelmente por ter o rabiosque sentado numa cadeira metalica) fui para dentro e continuei a leitura no quarto.

Finalizei-a em dois dias.
(Confinada durante o dia ao meu cantinho para evitar o dissabor de me cruzar com a malevola intriguista mentirosa gorda e com dois dias sem ir trabalhar,  ler foi um prazer).

A obra ja foi escrita ha 10 anos, mas isso para mim é irrelevante. Podia ter sido há 100, 500...

Menciono-o por nao a conhecer de nome. Não acompanhei nenhuma triologia ou saga sobre vampiros, por isso é natural que fosse uma temática que passou debaixo do radar.


Achei o livro bem escrito. Não pelo palavreado floreado, ou a gramática e síntaxe perfeitas, mas por ter a história bem colada uma na outra, com diálogos  e situações credíveis.

A permissa também é interessante: uma vampira que vira humana 500 anos após a sua morte.

Toda a explicação para esse desejo, para a violencia da morte, voltar a ter sensacoes humanas versus as de vampira...

É lindo.

Menos bem conseguido, A meu ver, esta a historia de amor. Entendo a atracao fisica, entendo a quimica mas na intelectualidade e no emocional fica um pouco aquem. Principalmente o rapaz. Habituado a ser o mais atraente e mais desejado de todo o campus, acho que seria preciso algo mais impactante para essa cumplicidade e paixao surgir.


Outro lado que nem foi explorado e nao é comum em romances, é o momento em que o casal se ama pela primeira vez. Suspeito que, talvez porque se trata de uma historia tambem para o publico infanto-juvenil, com protagonists de 16 anos, nao existe neste livro nenhuma descricao de intimidade ou acto sexual. No maximo temos um beijo, nada muito descritivo e depois a porta do quarto fecha-se com os dois amantes la dentro.

O leitor nao acompanha a intimidade das personagens. Fica um pouco menos facil de acreditar na solidez dos afectos, sem a habitual descricao das caricias, as sensacoes provocadas, os actos supreendentes e a apoteose.

Ja a relacao de amizade dela com o colega "japones" gostei bastante. Chega a ser sofrivel quando os dois se afastam.

Recomendo a leitura deste livro, mas acho que nao vou procurar a sequela. Pelo que li parece-me que pode estragar esta historia.

FICO por aqui.
Este e mais um livro do qual nao me vou desfazer. Vai ficar na minha "estante".


sábado, 23 de maio de 2020

A fruta já não é o que era...


Acreditam que comi estas uvas ontem, dia 22 de Maio e estavam deliciosas?


Não sei o que se passa com a fruta. Temos esta concepção de que é perecível em 24, 48h, duram uns dias, vá lá. Talvez uma semana. Mas na realidade, desde a concepção à manutenção todo o processo industrial é feito a pensar em maximizar os lucros e reduzir as perdas. Dai que sejam geneticamente alteradas para saberem melhor, aumentarem de tamanho mas principalmente, durarem mais e não serem atacadas por pragas. O resultado é atingido com sucesso, mas em troca geralmente já se tem pouco de fruto. Só a aparencia dele, talvez um ligeiro gosto e, como extras, uma serie de produtos quimicos e geneticos invisíveis que todos ingerimos sem saber bem se nos vai prejudicar.

Por vezes imagino o que terá sido, em tempos idos, colher o fruto da árvore e simplesmente come-lo.

Uma arvore que nao foi geneticamente alterada para produzir mais, para repelir pragas especificas, alterando assim o sabor e o seu fruto.

Se antes existiam perigos, as pessoas também os conheciam. Sabiam distinguir o que era comestível do que nao era, conheciam a época da fruta, quando a colher, quando esperar, como eliminar pragas de formas naturais. Como terá sido comer fruta assim?

Vem-me à lembrança a senhora dos figos, com quem esbarrei na rua ha mais de 10 anos. Apareceu no meu caminho vinda do nada. Um caminho que fazia todos os dias há anos e nunca que me cruzei com ela.

Pediu-me para lhe comprar dois sacos de figos. Nem me lembro quanto me pediu por eles. Mas nao foi muito. Eu é que não o sabia, porque, como lhe disse, não sou muito de consumir fruta. Se não a compro, desconheço quanto vale nos supermercados. Na minha cabeça ela pediu o justo. Comprei-lhe dois sacos que tinham cada um o mesmo peso em quilos (não lembro quanto) mas percebi que ela queria que eu levasse mais dois, porque assim mo pediu.

O que eu ia fazer com quatro sacos de figos?? Disse-lhe que me bastavam dois.

Lembrei-me de uma colega no emprego que sempre me dizia adorar fruta. "Eu como muita fruta. Alias, tenho de ir comprar laranjas que acabei ontem". Umas vezes fomos de carro até à feira local para ela a comprar. Por isso pensei imediatamente nela e decidi partilhar com ela metade dos figos no saco. Eu certamente, não seria capaz de comer tudo aquilo, sou muito esporádica no consumo de fruta. Assim que entrei no escritório, dei-lhe um saco. Fiquei com o outro.

"Porquê estás a dar-me figos?"- perguntou ela desconfiada.

Expliquei que uma senhora mos tinha vendido e eu comprei-os para a ajudar e porque pensei nela e o quanto proclama adorar consumir fruta.

A colega mencionou que hoje em dia era perigoso, alguem podia colocar veneno na fruta, etc.

-"NÃo me pareceu ser esse genero de pessoa. A senhora pareceu-me precisar mesmo de dinheiro mas pretendia obte-lo de forma honesta, não queria esmola".

Digo isto porque ao tentar segurar tudo nas maos, a pequena carteira onde enfiei o passe, o cartao e umas notas caiu ao chao, espalhando tudo. A senhora ajudou-me a apanhar e logo avistou uma nota de cinco euros. Voltou a insistir: "mas tem aqui dinheiro, leve-me os outros figos".

O que ia eu fazer com tantos figos? Nem compro fruta e subitamente estava a gastar mais do que pretendido em algo que nao desejava. Por isso disse-lhe que nao. Agradeci e talvez lhe tenha desejado boa sorte.

Tambem me ocorreu pensar onde ali nas redondezas ela os tera ido buscar. Nunca vi uma figueira e palmeei a localidade toda a pe. Sera que os tirou de uma propriedade vizinha abandonada? Se calhar a árvore estava perto do esgoto ao ar livre que por ali passava e essa ideia repudiou-me. Sabia lá que figo era aquele...

Mas fiquei a pensar se devia ter arranjado forma de lhe dar os meus cinco euros para emergencias. Precisava apanhar a camioneta de volta para lisboa todos os dias e já me tinha acontecido não ter 20 centimos que chegassem. Uma vez, vi um taxi a parar para largar passageiros e decidi entrar. Perguntei ao senhor quanto ficava a corrida e disse quanto tinha comigo. Nao chegava. Garanti-lhe que subia a casa e lhe pagava o devido. Ele foi simpatico, nao levantou problemas e pelo caminho ate me perguntou se eu me importava se ele fosse apanhar a filha pelo caminho.
Conversamos e tudo ocorreu bem. Ele era taxista local e cada vez que me via a subir ou descer a ingreme rua, se pudesse, parava e dava-me boleia aquele bocadinho. Em troca deixei-lhe uma revistas que ele me disse que a filha gostava de ler e uma vez uma embalagens de sumo que me tinham sido oferecidas e nao as ia consumir todas. Pensei ca comigo: se um dia ganhasse o euromilhoes esta seria uma pessoa que ia contactar e oferecer assim, sei la, 100,  500 euros, so por ele ser como era. Atencioso com as outras pessoas.

Este tipo de pessoa e tao rara que, no minimo, merece ser recompensada pela sua forma de estar na vida, por ajudar o proximo e sentir verdadeiramente compaixao.

Bem que desejei, mas nunca mais vi a senhora dos figos. Desejei dizer-lhe que eram deliciosos, os melhores que alguma vez comi na minha vida. Ate hoje, passados 10 Anos, nunca mais comi um figo tao delicioso.

A doucura e o sabor deles fez-me desejar comer fruta desta qualidade o tempo inteiro. Salivei por mais figos daqueles. Queria encontrar a senhora para lhe dizer que lhos comprava todos e que lhe pagava ate mais por eles se quisesse. Era fruta merecedora disso. Ao contrario de muita que encontrava pelas feiras e supermercados.

E agora, por causa destas uvas ainda deliciosas (dentro dos parametros da actual fruta) consumidas passados exatamente dois meses apos a sua data de expirar, tudo isto veio a lembranca.

Gostei de recordar. Ja havia esquecido o taxista. E isso seria um esquecimento lamentavel. A colega a quem dei fruta, veio a mostrar-se de ma indole. Foi por causa dela que pedi ferias do emprego e nunca mais voltei. Ela esgotou-me e torturou-me psicologicamente, foi uma decepcao que ja estava a influenciar outros.

Este tipo de injustica sempre foi o meu calcanhar de aquiles. Devemos nos recordar das boas pessoas que cruzam o nosso caminho. E nos esforcarmos para esquecer as más.


E hoje devo isso a uma uvas!
🌈

Bom fim-de-semana a todos.
Sejam bons uns com os outros.