terça-feira, 11 de abril de 2017

Autenticidade dos factos - expulsão Torremolinos


Acho que o que aconteceu em espanha, no hotel da localidade em Torremolinos, serve perfeitamente para exemplificar uma questão que já venho a querer abordar faz muito tempo. 

ACREDITAR PIAMENTE NOS MEDIA

Se alguns orgãos de comunicação se prestam a noticiar apenas o que sabem e escolhendo bem a terminologia com que afirmam alguma coisa, outros há que se ficam pelo alegado e o fazem passar por afirmado.

Como se sabe, um «grupo» com a módica quantia de 1000 teenagers foi fazer uma viagem de finalistas a espanha. Pagaram os pais o que tinham a pagar para que os seus mais-que-tudo ficassem alojados num hotel com o básico das condições de segurança, alimentação e conforto. 

Foram então expulsos por causarem danos ao hotel.

Pergunto: acreditam mesmo que todos os 1000 alunos foram responsáveis pelos desacatos e danos? Danos esses que não estão ainda listados?

Eu não acredito.

Um hotel aceita receber essa quantidade de pessoas - fossem ou não teenagers - para uma festa de bar aberto e com direito a música de concerto à beira da piscina. E o que espera? Uma reunião de freiras? Que fizeram voto de silêncio?

São jovens! Se já é complicado lidar com adultos nas mesmas situações ou mesmo dois ou três adolescentes, imaginem os 1000. Não é de propósito que são barulhentos, ou que falam alto quando passam nos corredores, ou que dão risadinhas. E não são todos os 1000 que agiram assim, decerto. Há sempre os sossegados e os eufóricos. 

Há sempre a meia-dúzia que vai para algum lugar no intuito de armar confusão. O que acontece é que pagam todos por esses pecadores. Podem ter sido expulsos todos os 1000, ou 800 como já li algures. Mas desses, talvez 12 andaram a ter comportamentos repreensíveis.

Tem de se dar educação aos nossos jovens sim. Mas pressupor que os pais são relapsos nisso, é outro erro

Quem já se esqueceu do que é ser teenager? E agora tentem imaginar o que é sê-lo nos dias de hoje. No meu tempo não existiam viagens de finalistas. Os jovens de hoje já contam com isso. Já sentem que é um direito adquirido, que faz parte da rotina de qualquer estudante, ter farras depois de terminar um qualquer objectivo académico. É a FORMA como esta sociedade consumista e capitalista os influenciou, já que das suas despesas tira um bom lucro. 

Antigamente o periodo da páscoa era um feriado religioso. Ainda se falava aqui e ali do corpo de cristo, de não se comer carne... Agora só se fala de coelhinhos da páscoa e ovos de chocolate. Os teenagers já não querem saber nem de uma coisa, nem de outra. Querem farra. Querem bebidas alcóolicas, querem fumar e agir como criaturas irresponsáveis...

Não é desculpa, claro. Mas é uma característica - não de todos - eu nunca fui assim. Mas talvez por nunca ter sido, consiga recordar como era não o sendo.

E como as coisas pouco mudam e a vida é feita de círculos, recordei a ocasião em que viajei na primeira e última viagem de escola com propósitos culturais: visitas a museus em Madrid. Mal entramos no hotel, ainda mesmo na recepção, já não haviam quartos suficientes para todos. Tivemos de dormir em maior número em quartos de outros para todos ficarmos alojados. Água quente, só muito raramente e por muito pouco tempo. Comida, uma lavagem. Não trocavam os lençois, porque isso era só quando a pessoa ia embora. E claro, fomos ameaçados de expulsão ainda mesmo na recepção da entrada, à chegada. E mal atendidos por alguns espanhóis com estabelecimentos nas redondezas, só por sermos portugueses. Era proibido ir aos quartos de outros a partir de uma certa hora. E fomos todos para lá com planos de passar os nossos dias a visitar museus. Só ao final da tarde regressava-se ao hotel. Agora imaginem o que é não existir nem esse propósito e só ter a DIVERSÃO como objectivo. Num hotel que não é uma estalagem, que tem piscina... 



Posso dizer que no meu grupo de não-recordo quantos mas menos de 60, existiram muitos jovens com aquela mentalidade: «longe de casa e dos pais, vamos fazer tudo o que não nos permitem fazer».  O que significa que podem fazer todo o disparate que lhes passar na cabeça. Nomeadamente, levar rapazes para os quartos, fumar, beber às escondidas e fazer traquinices com a propriedade alheia. 

Por isso acho que sei que, neste caso, a razão está dos DOIS LADOS.
Tanto o hotel tem razão em dizer que existiram comportamentos inaceitáveis, como os estudantes têm razão ao dizer que pagaram por um serviço que não correspondeu ao combinado. 

Se calhar o ERRO está nesta sociedade gananciosa de consumo. Para receber o dinheiro de 1000 hóspedes, dizem que «sim» a tudo. Depois não sabem que esse número requer cuidados especiais. Devem pensar que os festivais de música no verão são também realizados e frequentados por freiras e padres ... Lá porque é páscoa, não esperem milagres.

CONTUDO...
Depois de ler este artigo do público, acho que mudo um pouco de opinião no que respeita à desculpabilização. Tenho de concordar com ela. O que se diz aqui só fundamenta as acusações. Dizer-se que é "normal" numa viagem de finalistas existirem alguns danos já é aceitar um comportamento que não é suposto ser aceite. Lá proque todos o fazem e se torna rotineiro, não deixa de ser algo a combater. Não é porque todos viram carteiristas no Rio de Janeiro que agora faz bem roubar, não é?? Ainda por cima dizer que, lá por se ter cometido uma injustiça é aceitável "retaliar" isso está errado. O hóspede jamais tem o direito provocar danos conscientes como medida de retaliação. Afinal estes jovens estão a ser criados para serem excelentes dominadores da retórica ou da brutalidade?

Concordo com este artigo de opinião.

domingo, 9 de abril de 2017

Hábitos e práticas para serem relembrados


Ainda bem que alguém fez isto!
Sempre tive curiosidade e era da opinião que não podia ser um bicho de sete cabeças. Faz um pouco de confusão pensar que os hábitos mudam com o tempo e que, só por causa disso, caem em esquecimento. Mas aqui está: como iam as senhoras à casa-de-banho quando usavam aqueles vestidos do século XIX??


Pois achei ainda mais fácil do que quando eu vou com calças, Kkkk.


PS: Não acham a indumentária de antigamente tão linda e feminina?

sábado, 8 de abril de 2017

Terá sido o gato ou a Brenda?


Hoje o trabalho correu bem. Fiquei feliz com o ambiente - livre das pragas infestantes dos que têm má energia. Finalmente algo que vinha a pedir fazia dois meses foi realizado. E para completar, atendi um cliente simpático, inteligente e poliglota - cinco línguas (entre as quais árabe) que durante anos exerceu a mesma profissão em que me formei. Só por ter esse breve contacto já fiquei feliz. 

A meio da tarde terminaram as minhas 9h de trabalho. Estava um sol radioso, muito surpreendente para uma manhã nublada, em que a respiração saia do nariz em forma de vapor. 


O que fazer? Ir para casa descansar ou ir para o parque espairecer?

Vontade tinha eu para as duas coisas. Optei por ir para casa. O sábado é um dos dias de trabalho de um dos ocupantes. Com sorte, a outra ocupante também estaria fora e eu poderia simplesmente relaxar, sabendo-me só. Cheguei, desabafei com os meus botões sobre a minha felicidade pela conversa tida com a tal pessoa interessante e só reparei que não estava sozinha em casa quando fui petiscar à cozinha e avistei um rosto à janela. Com o sol das 17h a brilhar lá fora, decidi sair. Finalmente ia ao «meu» parque. Já tinha vontade de lá passar faz um bom tempo.

Apanhei o autocarro e fui. Cansada de andar com malas, optei por enfiar o que precisava nos bolsos do casaco (já que não tinha outros): O telemóvel, a carteira e a cartão do passe. Na mão, apenas uma garrafa de água e posteriormente um pacote de batatas fritas, que, pelo sim pelo não, comprei antes de entrar no autocarro.

A viagem foi rápida. Julguei-a mais demorada mas foi num ápice que me vi a sair na paragem da rua com o nome de um famoso pintor inglês. A caminhada para o tal parque ainda é longa. Mas compensa. E se compensou! Nunca lá tinha ido a um fim-de-semana. O parque parecia transformado. Era outro. Conclui que durante a semana é um parque diferente daquele que é nos fins-de-semana. Estava cheio de crianças cujas vozes entusiastas de pequenos seres a se divertir a brincar ecoavam por toda a parte num certo frenesim barulhento, sobrepondo-se ao perpétuo chiar dos pássaros. E cheio de pessoas de diversos tons de pele, a falar todos o tipo de dialectos, usando diferentes tipos de indumentária. 

Explorei novas partes do extenso parque. Aquilo mais parece uma floresta! Cheguei mesmo a encontrar uma extensão de densas árvores altas, por caminhos estreitos de terra batida e cheguei a pensar... «talvez não seja muito aconselhável trilhar por aqui». Mas trilhei. Era uma zona de "Ape experience". Os britânicos colocam cabos bem no alto das árvores e sobem lá acima, preso por arnazes, indo de árvore em árvore, seguros pelo cabo. Vi uma rapariga a executar esses procedimentos e devo dizer que me pareceu demorado e monótono. Os «macacos» (apes) não se demoram assim, eheheh.



Antes de chegar a essa zona mais isolada, quando ainda estava perto do extenso relvado verdejante apinhado de famílias em pique-nique, casais deitados a namorar, jovens a fumar e pessoas a jogar badminton, vi muitas pessoas a aparecer com cones de gelado na mão. Deu vontade. Mas, onde os teriam obtido? Não foi preciso pensar muito: sabia onde ficava o único sítio que parecia ser comercial. Um bar-restaurante dividido no espaço de duas grandes casas em madeira, que sempre tem a tocar uma deliciosa música country. É um estilo que muito me apraz e garanto que dá vontade de ali passar e ali ficar sentado um bocadinho, a relaxar.

Nem posso falar da vista para o lago! Não posso, porque o meu telemóvel perde bateria muito rápido. E perdeu antes de conseguir tirar uma fotografia. A única vez que me sentei num dos muitos bancos que por lá andam - o banco da Brenda - foi a vez que me proporcionou a melhor vista para as águas do lago. Uma paisagem quase cinematográfica que pode tirar o fôlego. Aquele parque agradou-me ao espírito e à alma logo na primeira visita. Os pulmões foram os primeiros a se sentirem felizes. O ar que se respira ali é mais agradável. Nunca lá tinha ido num dia como o de hoje. E desta vez estou a falar do solo. Porque sempre fui em dias que o chão tem consistência de lama. Desta vez tudo estava tão seco que pude caminhar tranquilamente por todos os recantos. É um lindo parque mas, se se optar ir para lá numa de aventura entre a natureza, regressa-se sujo, empoeirado e enlameado.

Mencionei o «Banco da Brenda». O que quer isso dizer - perguntam.

Bom, como acho que já havia mencionado, por cá têm o hábito de colocar nos bancos de jardim placas com o nome de uma pessoa falecida. Como já expliquei, acho isso um pouco estranho. Porque é o mesmo que dizer às pessoas para se sentarem num túmulo! Pois se tem data de nascimento e falecimento, nome da pessoa e as habituais referências de "adorada mãe e avó, para sempre nos nossos corações" brrrrrr!

Banco raro, com duas placas com nomes de pessoas falecidas

Se é por essa razão, não sei. Mas a verdade é que não é fácil ver alguém sentado num desses bancos. Eu tive a audácia, depois de muito caminhar, de me sentar num. No banco da Brenda. Só me lembro do primeiro nome porque, de certa forma, pedi mentalmente «licença» à Brenda para me sentar no banco dela... Como se o corpo dela tivesse enterrado por debaixo e o seu espírito fosse possessivo e por ali se mantivesse. Sentar num banco com o nome de um morto... Mas todos os bancos vêm com nomes de mortos. O que fazer? Uma pessoa tem de descansar.

Por esta altura estava um pouco triste. Tinha passado por umas pequenas flores azuis e senti o impulso de colher um raminho. Coisa que só não fiz porque o parque estava cheio de gente e mesmo num canto distante, sempre aparece alguém. Nesta ocasião foi um casal com um cão (e se os há por lá!) a falar polaco ou uma língua similar, pois não a conheço em concreto. Decidi então levantar-me do banco da Brenda e voltar atrás. Tinha apanhado um pequeno ramo florido. Mas era pouco. Senti vontade de decorar o quarto com mais alegria floril. Voltei ao espaço que me tinha agradado - o jardim da paz - e apanhei outro raminho, coisa pouca e a tal flor azul em último. Esta tinha o cale leitoso. Percebi que precisaria de a colocar em água rapidamente.


O resultado final.
Não ficou bonito?




Só então prossegui caminhada para sair do parque. Secretamente ia a tentar adivinhar onde poderá vir a ser o meu banco. Sim, porque quero um. É curioso. Estranho mesmo este costume dos britânicos em darem o nome de mortos aos bancos de jardim. Mas desde que os vi naquele parque quero um. Mas só ali. Noutro lugar não me apraz. O cantinho ainda está para ser descoberto. Não o quero na «lama». O branco da "Brenda" está completamente fora de questão em dias que não sejam de verão. Até chegar a ele enterram-se os pés!

Homem com cão
Pelo caminho avistei por trás o perfil de um senhor idoso com chapéu, bengala, uma sacola vermelha pelas costas e um cão delgado, tipo galgo, ambos a contemplar o horizonte. Imaginei que o senhor estaria a pensar onde ia querer o seu banco. Apressadamente, retirei o telemóvel do bolso esquerdo do casaco, na esperança que ao re-acender o aparelho já sem bateria, ainda teria energia suficiente para registar aquele instante. Mas já não fui muito a tempo. Homem e cão retomaram marcha e o que registei empaleceu diante do que vi.


Ser sábado também trouxe outro tipo de surpresa... Foi encontrar alguns desses bancos com flores e vasos de plantas depositados ali como se um túmulo fosse! Flores frescas, cheias de vigor, flores de verdade. Colocadas em ramos em cima dos bancos... Ora, isso é o quê? Só pode ser uma oferta ao falecido. Uma cena de facto rocambolesca.... Será que visitam os bancos como se fossem túmulos? 

Ramo de flores e vaso de era com brilhantes dourados
firmemente atados num banco com placa referindo um marido
saudoso, falecido em 1988, com 50 anos.


Caminhei. caminhei... já passava das 19h30.. Queria chegar à paragem do autocarro antes deste acabar de partir. Estar vazia era um mau sinal. Mas é sábado, fiz questão de perguntar ao motorista do autocarro no qual fui para lá se este tinha hora para cessar serviço. Disse-me que não, que até de noite havia autocarro. Por isso sosseguei. Aqui os sábados, domingos e os transportes não «casam» muito bem... Hoje atrasei uns minutos a chegar ao emprego, mesmo tendo saído de casa dois quartos de hora antes do tempo máximo que leva o dito autocarro a percorrer a distância. E, como é sábado e ainda nem eram 7 da manhã, o autocarro nem sequer viu UMA VIATURA à sua frente enquanto fez o percurso. Ainda assim, atrasado chegou. A tal da pontualidade britânica é um mito.

Cheguei à paragem às 19h44m. O painel eletrónico indicava que a próxima viatura passava naquele lugar dali a 26 minutos!! Uma eternidade, para os meus pés cansados, numa altura em que o dia estava já a falecer para dar lugar à noite. Foi então que comecei a sentir uma mudança de energia. Um receio, uma sorte má. Não quis dar ouvidos mas estava receosa de ali ficar tanto tempo, sozinha. Um homem «mau encarado» andava próximo. Ia e vinha, mas não se aproximava. O que quereria? Mantive-o debaixo de olho. Mantive todos os que se aproximavam debaixo de olho. Passou uma mulher com um andar algo cambaleante e uma postura estranha. Parecia drogada, pela forma como andava sempre com as mãos unidas à sua frente mas com os braços todos caidos para baixo, pelas suas roupas e botas datadas no tempo sendo ela visivelmente jovem. Mantive debaixo de olho todos aqueles que chegavam e entravam dentro das suas casas. Caso precisasse correr e bater por ajuda em alguma porta. Coisas que nos passam pela cabeça quando se vive ou viaja sozinho.

Mal cheguei à paragem e aparece de imediato um autocarro, mas no sentido contrário. Controlo o impulso de atravessar a estrada e meter conversa com o motorista. Porque era o mesmo que me trouxe até lá e me deu as informações. Queria dizer-lhe que a minha espera era de quase meia-hora! Provavelmente indo a pé em 30m chegaria a meio do caminho... Mas acordada desde as 5 da manhã, de pé durante 9h de trabalho e mais duas horas de caminhada a ideia era absurda e de imediato foi descartada. 


Continuei vigilante ao que me rodeava. Aos postes de iluminação ainda apagados. A luz do dia quase a desaparecer, tépida. A lua branca lá no topo do céu, mesmo à minha frente. Foi então que avistei um gato preto à minha esquerda, um tanto distante. Atravessava a estrada para a rua em frente. De imediato lembrei-me da crendice: "Gato preto dá azar!". Mas tentei afastar essas superstições, enganando a mente da seguinte forma: "ele não se atravessou à tua frente. Se não passar à tua frente, não há mal algum". Vejo-o atravessar e logo depois põe-se a caminhar para a direita. Passa por uma porta de uma casa, depois outra, outra sebe... até que não o vejo mais passar. Ufa! Penso. Foi por pouco. Passado um bocado o gato completa o resto do percurso e passa todo lagueiro à minha frente. "Bolas" -pensei. "Mas foi do outro lado da estrada, talvez não conte".

Espero e espero e espero... Os minutos parecem não querer passar rapidamente. Está a escurecer. Os candeeiros acendem-se. Faltam 10 minutos para o autocarro. E é aí que surge outro, no sentido oposto. Reparo então numas pessoas com crianças a correr. O homem toma a dianteira a ver se consegue chegar à paragem a tempo de mandar parar o autocarro. Sim, porque aqui meus queridos, nenhum pára alguns centímetros antes, ou depois. Nem sequer param se estiveres a fazer sinal e a correr para o alcançar. Já vi muitos a «molengar» na paragem, com percepção de que pessoas estão a correr para o alcançar e depois arrancam quando a pessoa está quase a conseguir. Aconteceu comigo uma vez e já vi acontecer com outras pessoas também. Portanto, para mim, isso é um costume. Aqui não existe a CORTESIA que existem em Portugal. No que respeita a motoristas de autocarro, existem boas diferenças. São cordiais, claro. Mas nestas pequenas coisas que fazem toda a diferença, são todos «fodidos». 

Ocorre-me que podia atravessar a correr para o outro lado da estrada e assinalar ao motorista para parar, de modo a dar tempo à família de o apanhar. Porque eu não ia querer entrar na viatura que não se dirigia para onde pretendia ir. Era só mesmo para ajudar aquelas pessoas e «tramar» o motorista que, quase de certeza, não ia parar. Mas ao mesmo tempo que senti este impulso muito rapidamente também me ocorreu que ter uma família de 5 crianças e 3 adultos por perto era-me vantajoso. Não queria estar ali sozinha. Ao menos sentia-me mais segura tendo por perto pessoas  aparentemente inofensivas. 

Por mais que o homem corresse e apanhasse a dianteira da corrida, não chegou a tempo ao poste que assinala a paragem. E eu vi, nitidamente, o motorista do veículo a virar o pescoço e olhar para o homem no preciso momento em que o ultrapassou. E continuou a andar, sem parar para os deixar entrar. A um SÁBADO, final do DIA, uma família com cinco crianças, sabendo que a frequência das viaturas é muito espaçada entre si. Não teve esse gesto de cortesia. Aliás, desconhecem-nos de todo. Seja o motorista inglês ou polaco, africano, etc... 

A família, de origem desconhecida mas com ascendência africana e a falar um linguajar num misto de francês, com africano e inglês, era barulhenta e irrequieta, mas normal. Acabaram por atravessar a rua para o meu lado, para a minha paragem. As crianças, duas meninas gémeas e três rapazes, corriam à volta da paragem, falavam e gritavam alto, pediam comida à mãe, uma das mulheres pôs-se a falar ao telemóvel... Uma família barulhenta com miúdos irrequietos e pouco disciplinados, mas uma família boa e normal, podia perceber. Os miúdos tinham uma cara linda e imaginei que iam se transformar em adultos charmosos. Uma das meninas tossia cada vez que dava dois passos de corrida. Achei que pudesse sofrer de asma... Coisas que nos passam pela cabeça assim, sem mais nem menos. Faltavam então 8 minutos para o autocarro aparecer. Mas ao invés do autocarro o que vejo aparecer à minha direita, vindo da frente do passeio para o meu lado, é o tal gato preto. Ele traçou um quadrado perfeito em torno de mim. Não me deixou nenhum «flanco» em aberto...


Faltam dois minutos para o autocarro aparecer, os miúdos estão numa algazarra e eu decido tirar logo o passe do bolso para o ter à mão e rapidamente o usar. É então que não dou com ele no bolso direito do casaco. Espreito no do esquerdo. Não sinto nada! Não tenho mais bolsos, não está no pacote de batata frita... Perdi-o. Ao mesmo tempo que isto me alarma, ao mesmo tempo sinto que não vou ficar apeada. Não tenho dinheiro comigo para a compra do bilhete com o motorista. Só tinha cartão de débito - e estes não são aceites. O próximo autocarro chegaria dali a tanto tempo que sabia que não podia esperar. O autocarro chegou enquanto ainda procurava, em vão, dar com a carteirinha do passe. Não dei. Preparava-me para entrar em primeiro lugar na viatura quando as crianças e o pai já se estavam a tentar enfiar primeiro. Uma das meninas entrou e correu para o fundo do autocarro, sendo de imediato reprimida pelo motorista, que gritou para que voltasse, perguntou se ela estava comigo, porque não podia entrar sem a presença de um adulto. A menina recuou e eu comecei a explicar ao motorista que tinha acabado de perceber que tinha perdido o passe.

A reação dele? Aqui não querem saber. Não tens como pagar o bilhete, não fazes a viagem. Simples, seco, sem peso de consciência.

Perguntei-lhe quanto custava o bilhete. Nem lhe disse para que destino - não pareceu fazer diferença. Ele logo respondeu: 2£40. Eu só tinha 2£ comigo... porque guardava na carteira uma moeda de estimação. Nova e reluzente. Era também uma moeda cunhada por ocasião especial, mas já nem recordo qual. Tive de a gastar por causa do gato preto ter-se atravessado no meu caminho...

Nem olhei para as feições da moeda, de modo a me despedir dela. Quando a apresentei ao motorista, que me ordenou que lha mostrasse, pousei-a no recipiente para o efeito que existe na porta que separa o condutor dos passageiros. Foi aí que quase tive a visão ofuscada pelo seu brilho reluzente. Tão nova que parecia acabada de sair da casa da moeda. O motorista, seco, indiferente, pegou nela e olhou-a por uns estranhos segundos, como que a duvidar da sua autenticidade. Depois repetiu que não podia me deixar entrar sem que pagasse o valor do bilhete. Ao que eu me virei para trás e pedi àquela família que me emprestasse os 0.40p. Algo me dizia que ia conseguir chegar a casa nesse sentido, e não me enganei. Uma das senhoras não hesitou em completar o valor, ao que lhe agradeci e como gesto de reconhecimento ofereci um snack que encontrei no bolso: uma barra de cereais. Mas ela compreensivelmente recusou. 

Entrei então com bilhete comprado... Mas não graças ao motorista. Por esse podia ficar a dormir na rua, eles não querem saber.

Muito diferente de portugal, decerto. Não que os nossos nos deixem entrar sem bilhete (bom, muitos fingem não ver os que o fazem de propósito). Mas nós temos mais coração e mais alma. Temos ainda isso... Eles já os perderam para as normas e regras.

Lembro-me perfeitamente de uma ocasião em Lisboa, no terminal rodoviário, em que esqueci a carteira em casa e não tinha dinheiro comigo. Precisava entrar na camioneta para ir trabalhar. Expliquei tudo ao motorista que, ao contrário de todos os outros dias, não reconheci. Novo ali, um homem de outra nacionalidade, algures de um país de leste. Que me estava a ver pela primeira vez. Ele foi tão simples e descomplicado, deixou-me entrar só com a promessa de que depois pagaria o bilhete - o que fiz, com ele próprio, na ocasião em que o avistei pela segunda e última vez. Ele foi tão... que eu o tomei por um anjo reencarnado. A sério que sim! Parece uma coisa ridícula mas, se existirem anjos deste género, eles são um pouco como o Michael Landon no seu seriado "Um anjo na terra". Parecem-se com homens comuns, não têm nada de especial, podem até ter um ar rude, feio, estranho. Mas se eles te virem a alma ou receberes um gesto especial, entendes.


No autocarro continuei a «sentir» com as mãos os bolsos do casaco na esperança de encontrar o passe mensal. Sei que não está comigo, mas isso não me impede de repetir o gesto. Chego então ao destino, saio do autocarro - já o motorista é outro, pois mudaram na paragem anterior - e vou a caminhar para casa a pensar na despesa que vou ter de fazer pela manhã, quando tiver de apanhar novamente o autocarro para ir trabalhar. Vou gastar umas 8 libras para pagar viagens que já havia comprado. Perder o passe não me incomoda, porque acho que posso pedir outro, ainda carregado com essas viagens. Mas acho que a companhia não vai fazer isso, e se fizer, não será rápido. Embora fazer um passe seja no próprio instante. Mas uma segunda via não sei qual o processo,muito menos a um Domingo. Podem até estar fechados.

No meio desta falta de sorte trazida pelo gato preto, existiu alguma sorte. De tudo o que tinha nos bolsos do casaco - telemóvel, carteira com documentos, passe de autocarro e barra de cereais, podia ter perdido coisas mais importantes. Como a barra de cereais, ahahaha!

Caminhava então para casa, desejando encontrar no chão uma moeda para contrariar a má sorte. Já avistava a esquina com a luz do candeeiro que antecede a escuridão, quando dou por mim a pensar no gato preto e na autenticidade dessa crendice. E nesse instante, quando vou para passar pela esquina, penso: "Espero que ao dobrar a esquina não me apareça outro gato à frente".


Dobro a esquina e logo me aparece junto com um Miau um... gato! Vem direito a mim, roça-se nas minhas pernas, mostra-se meigo, mia, cheira o saco das batatas fritas, volta a enrolar-se em mim... Um mimo. É um gato felpudo, de pelo algo branco e alaranjado, com uma cauda comprida e felpuda, meio gordo.


Provavelmente uma gata, pois só elas são assim dóceis. Já a havia avistado antes, em Dezembro, através da janela do quarto. Percebi que era gato de rua, talvez cuidado por pessoas, mas de rua. E é destas redondezas. Nunca mais o avistei, até este instante que descrevi.

Acariciei-o de volta e perguntei-lhe:
"Olá fofinho. Vens me dar sorte? Não és como o teu amiguinho, que me deu azar, não é?".

Acariciei-o mais vezes, ele continuou a roçar-se nas minhas pernas. Início de cio? Não me pareceu... Ou talvez. Não importava. Os gatos são por natureza fugidios e este «saltou» á minha frente para me acariciar. Agradeci-lhe. Mas precisei continuar caminho, estava quase perto de casa. Decidi dar um passo em frente, sem saber se a gata ia reagir afastando-se. Ela pareceu querer seguir-me. Ainda se roçou um pouco mais nas minhas pernas, seguiu-me até o atalho e ficou a roçar-se numas ervas altas. Eu prossegui caminho pelo carreiro estreito e ela ficou algures na escuridão. Entrei em casa direta para a cozinha, peguei num recipiente em plástico, numa lata vazia que vi na reciclagem, enchi a lata de leite, aqueci no microondas a única comida que tinha em casa - pedaços desfiados de borrego e fui deixar lá, onde avistei a gata pela última vez. Porque já não a encontrei. Será ela a decidir se vai querer encontrar-me novamente.

Recuei e não pude deixar de reparar na lua. Está próximo o dia 11/12/13... datas que têm implicado consternações no passado. Coincidentes com o início do dia de lua cheia. Tudo isto são crendices mas digo-vos... estou muito mais sintonizada com este género de coisas do que gostaria. Começo a aceitar que possam ter fundamento. Porque são coincidências... que coincidem demais.


A lua hoje está praticamente totalmente CHEIA.
Surgem gatos pretos e gatas laranjas felpudas...

Agora resta saber se foi o gato preto ou a ousadia de me ter sentado no banco da falecida Brenda!
Mas cá para mim foi o gato.

Voltei depois a sair. Lembrei-me que podia ter levantado o dinheiro que vou precisar para a passagem logo pelas 7h da manhã. Costumo ir sempre à multibanco do meu banco, que é perto mas como fica no centro da cidade, dá muito nas vistas. E a zona não é bem frequentada quando anoitece. Por isso precavi-me. E por estar cansada, usei a máquina MB do banco que fica mais próximo, nas traseiras da minha casa. Procurei confirmar se era "Free", porque aqui cobra-se uma taxa por se usar os terminais multibanco. Lá dizia que permitiam levantamentos «de graça» aos cartões de débito. O meu é de crédito. Mas quis acreditar que o FREE era sem restrições. Afinal, free é free. E tinham-me dito que basta ter essa indicação que não vão cobrar dinheiro. Lembrei-me apenas ao chegar a casa, de olhar o recibo. Mostrava o saldo disponível e o saldo. Com uma diferença de CINCO libras. Fiquei sem saber que diferença era essa. Depois poderei confirmar mas, acho cá para mim que o poder do gato preto perpectuou-se e esse valor foi quanto me custou o levantamento naquele terminal.

Haja formas estúpidas para se gastar dinheiro arduamente ganho!!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A loja reabriu...


A Poundworld é uma loja cá do UK que vende todos os artigos por uma libra. São o que foram as extintas lojas dos 300, antes de aparecerem as dos chineses a vender «mais barato». Infelizmente por cá a Poundworld também anda a puxar um pouco a brasa à sardinha. E apresenta cada vez mais artigos com um custo superior por uma qualidade que não o justifica.  

No dia 1 passei por uma destas lojas e encontrei este curioso aviso:

Lamentamos, esta loja vai fechar para melhoramentos - sabado, dia 1 de Abril às 19h.
E abre Quinta dia 6 de Abril às 10 da manhã
.
Achei muito curioso o aviso porque na primeira leitura o que percebi é que a loja está fechada no sábado. Vi que não estavam em obras, nem sequer mudaram estantes de lugar. Era só uma mudança de material de um lado para o outro. Pensei eu que ia abrir logo no dia seguinte... Mas para meu espanto precisaram - nesta loja pequena, de 5 dias para tal coisa!!

Na véspera de abertura, no dia 5 de Abril pelas 17h da tarde, passei pela dita para tirar esta fotografia:


Como se vê, está o material todo atolhado. Bolas, arcos, produtos de higiene... Um caus. Nem parece que a «grande abertura» é na manhã seguinte. Agora imaginem o que não deve ser o ARMAZÉM desta loja. Devem ter atirado todo este material para a parte que ninguém vê. 

Fiz questão de passar por lá ontem, após sair do trabalho, para ver o que ficou. Assim que entrei pelas portas tive vontade de chamar o gerente e perguntar que idiota é que tinha tomado a decisão de dispor dos artigos daquela maneira. ANTES, ao entrar, existiam artigos de jardim, brinquedos e utilidades diversas. Agora decidiram meter BEBIDAS e CHOCOLATES à entrada da porta!! O que está mal? Bom, é que durante todo o dia aquela zona é banhada pelo SOL!!!


Percebi que nunca mais ia comprar chocolates nesta loja. Não estou para consumir alimentos adocicados que ficam todos os dias 12 horas ao sol! E as estantes laterais? De todas as que podiam ter escolhido, vejam só o que decidiram meter na mais exposta à luz do sol: 


Ainda assim passeei-me pelo familiar espaço com a esperança de constatar que tinham existido melhorias. Mas sinceramente, pela primeira vez abandonei a loja com a sensação de que ali não ia encontrar nada que me agradasse. Costumava ser a minha predileta - mesmo existindo outra com o triplo do tamanho, era nesta que achava coisas mais «mimosas». Agora posso dizer que nem isso. Quando cheguei comprei dois travesseirinhos muito mimosos, cada um a 1 libras. E a loja ainda os tinha à venda antes de fechar para «melhorias». Agora esses mesmos travesseirinhos, apenas ligeiramente maiores, estão à venda pelo preço de QUATRO libras. Para quê quero eu dar tanto dinheiro por algo que mal se nota a diferença na dimensão, se antes tinha praticamente o mesmo quatro vezes mais barato??

E depois meteram muitos artigos a duas libras e outros tantos que variam entre as cinco e os quarenta. Acho que começam a esquecer-se que o que atrai o público são as promoções e a ideia de que ali vai encontrar tudo a uma libra. Os artigos de eletrónica, brinquedos e jardim aos quais achava piada e custavam 1£, desapareceram todos. Para mim a loja ficou sem atrativos. É lamentável.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Assédios, inércias e oportunismo


Tanta coisa para... desabafar.

O indivíduo já saiu de casa. Mas ainda pode exercer direitos de propriedade. Descobri através da senhoria que amanhã a colega de baixo vai trazer um «friend» para ver o quarto. Não sei porquê, mas já tinha pensado que ela ia fazer exatamente isso. É o meu dedinho de adivinhação. 


Mas também vos digo: se esta atmosfera de «cada um fechado no seu quarto», que não implantei e sinto que fui forçada a seguir continuar quando aparecer o  novo ocupante do quarto - então acho que vou parar de pensar sempre mais nos outros do que em mim. Por exemplo: tenho fome não vou comer porque é tarde e não quero fazer barulho. Quando chego de madrugada não tomo banho para não fazer barulho... Não cozinho nunca porque há sempre alguém que cozinha sempre. Já chega. 


O chato vai ser se a rapariga - que parece continuar a evitar-me (mas porquê, que raio??) cá meter um amigo/a e depois dois unidos mas separados dos outros é sempre algo chato. Um encoberta o outro, torna-se os olhos e ouvidos para o outro e temo que ao invés de uma atmosfera mais leve e de convívio venha a existir outra sobrecarregada de vigilância. 

No emprego...
No emprego tenho tido horas difíceis. Não pela função, mas pelos colegas.  Um em particular, que está sempre a tentar me deixar mal vista. Ele não cessa nunca. Todos nós somos vulneráveis ao erro. Mas os dos outros são invisíveis. Os meus são criados, imaginados e inventados. Dois meses disto e já estou a ficar nervosa, ansiosa... tudo cá para dentro. Hoje era suposto estar a dividir a minha tarefa com outra pessoa - duas para a mesma função é agradável - aligeira um pouco a carga. Mas qual quê! Então não é que o rapaz não fez nenhum?? De tudo o que podia fazer - escolheu não fazer nada. Ficou mais tempo a passear pelo espaço, a falar sobre o seu jogo de futebol e a conversar com o tal que me quer deixar mal vista que a trabalhar. Depois chegou o gerente e, para meu espanto, o rapaz conversou também com este! Depois chegou a gerente-chefe que ali ficou a tratar de umas coisas e pareceu alienar-se para a inércia do rapaz. E eu que a julgava sagaz. Costuma estar quase sempre de uma forma simpática a chamar a atenção daqueles que já estão no «faz nenhum» por demasiado tempo.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Homem negro desarmado - o doc


Lembram-se deste post sobre um bom documentário?
Não, estou certa que não.


Escrevi sobre «homem negro desarmado» aquando a sua exibição num canal nacional, a dois de novembro do ano passado. Pois andava eu pelo youtube quando me deparo com o mesmo. Achei por bem partilhar aqui o vídeo. Para que possam assistir e tirar as vossas próprias conclusões. É um daqueles RAROS documentários que nos fazem refletir e nos apresenta a perspectiva de AMBOS os lados. O que todo o documentário, reportagem what-ever devia fazer. Muito bom, é como o posso descrever. 


Mas vejam e ditem a vossa sentença.
PS: (sem legendas em português)


terça-feira, 4 de abril de 2017


Hoje fui ao supermecado no intuito de comprar umas coisinhas baratas, tipo snacks e coisas de comida rápida. Gosto de sopa e descobri que prefiro as enlatadas a quaisquer outras. Ao todo trouxe 19 artigos. Sete eram latas de sopa, a 0.39p. Barato, né? Pois ainda existem outras mais baratas. Aqui existem alimentos e artigos a preços muito reduzidos. Talvez não sejam os mais aconselháveis mas no que respeita a sopas, como disse, prefiro estas. Testei outras, mais caras, sem ser de lata e em lata e acabei preferindo estas, da marca do supermecado. O artigo mais caro que trouxe custava 1 libra. Trouxe uns três desse valor: uma salada, um folhado de salsicha quark (apropriado para vegans e vegetarianos porque não tem carne) e outra mariquice qualquer. O resto foi pela metade. Foi com surpresa que no final a conta totalizava 10.59 libras.  


Dinheiro é para se gastar e não obstante a surpresa, ao cair da noite fui a outro supermercado (onde pretendia comprar uma salada de salmão que me estava a criar água na boca há uns dias). 

Assim que entrei vi as roupinhas para criança e não resisti: Oito libras foram para uma Tshirt mágica (muda de cor com o sol). Eu adoro este tipo de coisinhas :) A combinação de imaginação, brincadeira, tecnologia e roupa. Em Portugal é difícil encontrar indumentárias com estas peculiaridades a preços normais ao invés de exorbitantes. 

Dirigi-me então para a secção de saladas onde encontrei apenas um exemplar da minha desejada de salmão... Um pouco com ar murcho mas ainda assim, não lhe resisti. Como eles fazem uma promoção - oferta de bebida se comprar também um snack - trouxe um folhado de salsicha (este com carne mas que, se calhar, de carne também não tem nada) e o meu suminho de laranja. Tudo ficou por 3 libras. 

Perdi-me foi com a diversidade de bebidas tipo-leite. E incapaz de me decidir por uma trouxe todas as que me despertaram mais a atenção.


E foi aqui, mais numas outras coisinhas de baixo valor, que elevei a conta para 18 libras. Como 8 foram para a roupa infantil, no fundo hoje gastei 20 libras em supermercado. Talvez um pouco excessivo para o género de coisas que trouxe. Talvez essas 20 libras fossem melhor empregues no pagamento de uma refeição completa. Quatro euros aqui, outros cinco ou dois acolá... Com os descontos a que tenho direito no local de trabalho, dava para tomar uma refeição quente (paninis, hamburguers, eggs benedict) por uns dias. 

Mas não me importei nem um pouco. Tenho de travar sim, esta minha compulsão para compras diárias. Nunca me senti muito confortável com a ideia de que o dinheiro que ganho é também gasto no local onde o ganho. Parece-me um plano elaborado por um ganancioso patrão... E depois de uns problemas que a empresa resolveu inventar relacionados com as refeições dos funcionários, achei por bem passar a trazer a comida de casa. E foi aí que os meus gastos subiram um bocadinho, devido à compulsão de ir mais vezes às compras. 

Se bem que o dia começou com uma ida aos correios, fazer um envio para portugal... Um pequeno embrulho de 409 gramas. No interior vai um produto que me custou 2 libras. O envio em si, ficou por SEIS libras. Isto escolhendo a opção mais ECONÓMICA, claro. porque as outras são para esquecer. Usar os correios do UK é altamente desaconselhável.

segunda-feira, 3 de abril de 2017


Despertei tarde. E o meu pensamento imediatamente «voou» para o que decidi ontem e o que é viver nesta casa.

Primeiro as actualizações: Dois dias depois de ter ficado triste por ter perdido um bom quarto, barato, numa casa agradável mas menos bem localizada, soube por um email da senhoria que o indivíduo vai sair desta casa. 



A minha necessidade de mudar o quanto antes ficou assim alterada. Se ele vai sair, daqui a sensivelmente 15 dias, então eu poderei ficar. Como havia perdido o tal quarto e mais nada estava a aparecer, comecei a ponderar permanecer aqui, onde, pelo menos, já sei com o que contar.

É então que o telefone toca.
É o senhorio da tal casa. Disse-me que tem um outro quarto a ficar livre. Ainda não o havia publicitado, preferiu dar-me a possibilidade de escolha. Então ontem lá fui, visitar novamente a casa, para conhecer o «outro» quarto. Gostei. Quarto tão amplo quanto aquele que tenho agora. Mas ainda mais aconchegante. 




Mais uma vez só o senhorio pareceu estar em casa. Um Domingo e não dei conta da presença de mais ninguém. A rapariga que ficou com o quarto sobre o qual supostamente eu tinha prioridade, fiquei a saber que se muda hoje e é espanhola. Pareceu-me possível viver numa casa harmoniosa, com inquilinos que começam, quase todos, ao mesmo tempo a habitar o espaço. Assim nenhum se acha com «mais direitos» que outros. Tudo pareceu bom. Com excepções. 

Para lá chegar demorei sensivelmente 17 minutos a mais do tempo que imaginei. A «curta» caminhada senti-a longa. Cansei-me um pouco, devido à rua ser a subir e o sol estar forte. Se o meu trabalho não exigisse de mim um esforço físico que me cansa o corpo, tudo bem. Mas imaginei-me exausta a tentar chegar a casa o quanto antes e ter pela frente aquela caminhada. 

As lojas locais - das quais não detectei nenhuma útil, estavam fechadas. E a caminhada da paragem de autocarro até casa, mais longa e cansativa que a caminhada pelo atalho que vai dar ao centro da cidade. Ora, no centro já vivo eu. Se tiver que caminhar do centro para a casa pelo atalho todos os dias, o que implica ainda atravessar uma passagem aérea, se calhar mais vale ficar onde estou. Quando faço noites e saio de madrugada, como foi o caso de ontem/hoje, será seguro aquele percurso nocturno? 

Optei então por dizer que não queria ficar com o quarto. 

A localização é a principal razão de me querer manter onde estou. Ou se calhar a segunda, porque o facto de já estar acomodada pode ser a primeira. 


Eram cerca de 9.30 am quando acordei. Com barulhos do indivíduo que vai sair e todos os dias anda a tirar objectos aos poucos. A claridade imensa que entra pelas frechas dos estores e cortinados também tornam difícil o regresso ao sono. Por isso o meu primeiro despertar foi matinal, não tardio. É então que oiço um bater à porta. Como por vezes é na porta ao lado que se dá o toque, fiquei na dúvida. Levantei-me e espreitei à janela, mas nada vi. Porque as janelas de baía e o alpendre tiram a visibilidade e omitem a presença de qualquer um. Ao invés das pessoas darem a volta e sairem pelo portão, passam de alpendre em alpendre.

Bateram então nesta porta. Voltei a levantar-me para ir abrir mas a rapariga que dorme no quarto de baixo chegou lá primeiro. Fiquei a tentar perceber se a encomenda era para mim. Quando fecham a porta ao carteiro e vejo que ela deixa a encomenda, como é hábito, no móvel da entrada. Se fosse para mim, geralmente ela poderia dizer: "É para ti". Mas ao invés disso apressou-se a entrar no quarto, evitando qualquer contacto ou interacção.

E voltei a lembrar-me da outra casa.
Fiz uma opção. Que espero ter sido a correta. Tenho uma intuição que me diz que sim, fiz a melhor escolha. Foi então que decidi vir aqui contar as novidades e deparo-me com o comentário da Tuga em Londres - um blogue interessante que me fez uma visitinha. E diz ela: 

«De qq forma, devo dizer que isso de não teres ficado com esse quarto parece do melhor. Não confio nada em casas onde é o senhorio a mostrar a casa em vez dos flatmates porque isso significa que vais estar num ambiente em que cada um arrenda o seu quarto e passa a maior parte do tempo no quarto fechado evitando viver em comunidade com os outros flatmates. Esse é um ambiente muito estranho e totalmente desaconselho-o». 
Ora, a minha realidade é mesmo essa. Vivo numa casa onde os outros inquilinos passam a maior parte do tempo fechados no quarto evitando viver em comunidade com os outros flatmates. Se não era isso que pretendia ou imaginei ao vir visitar a casa - que me foi mostrada pelos flatmates por insistência da senhoria - essa tornou-se a realidade pouco depois de começar a morar aqui. Eu mesma praticamente fui forçada a agir assim após o que aconteceu antes do Natal. Estava nos meus planos sugerir fazermos um jantar colectivo. Até me enviaram o bacalhau de Portugal... Comprei decorações natalícias com o intuito de trazer para o lar um pouco da harmonia e espírito natalício. A realidade é que as decorações foram ignoradas assim como o email personalizado com desejos de feliz natal. 

A partir daí segui as «regras da casa».


Mas lamento que assim seja com a rapariga do andar de baixo. Porque com ela consegui ter conversas sem estarem relacionadas com a casa em si e falamos por muito tempo, naturalmente. Mas ela lá tomou a decisão de que não querer mais envolver-se com nenhum outro flatmate, sensação decerto reforçada pelo apreço que tem em viver na parte de baixo da casa. Diz ela que gosta muito mais, por não estar no meio da «confusão» (dos outros dois rapazes) e por ter mais liberdade de entrar, sair, trazer pessoas para casa, sem que isso dê muito nas vistas - já que todos costumam estar no andar de cima, nos quartos.