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domingo, 15 de novembro de 2020

Deem-me espaço, sff!




 Sabem quando só pretendes algo rapidamente, coisa de dois minutos, e nao pretendes encontrar ninguem?

Faz dias que não consigo ficar a sós. 

A casa pode estar silenciosa, sem ruidos de gente de um lado para o outro. Se aproveitar esse instante para ir à cozinha tirar algo do frigorifico com ideias de seguida subir novamente ao quarto, sei que em segundos aparece alguem. 

Nao importa a que horas o tente fazer. Tanto pode ser as três da manha, como as seis e meia. Ou sete. 

Esta gente nao dorme??

Estou a ir ou a chegar do emprego. Cansada. Sabe bem ficar apenas uns minutos sozinha e em silencio, sem que para isso seja preciso ir logo fechar-me no quarto. Tenho horarios noturnos e mais ninguem na casa os tem. Não há realmente justificação para andar a esbarrar em pessoas. Deem-me espaço, sff.

Só eu estou a ir trabalhar. Dois deles tambem podiam fazê-lo mas preferem a preguiça. Porque pagam-lhes na mesma. Então para quê se ralarem? Ficam por casa, desocupados. Vao as compras, vao passear... mas nao saem para trabalhar.

(Discordo totalmente desta postura. Mas isso é um à parte). 

Nesta clausura de ócio deixam de ter o que fazer e com o que se preocupar. Por vezes sinto que descem só para observarem o que posso estar a fazer. Escutam os meus passos a descer as escadas em madeira e decidem vir atras. 

Tambem e quando  lhes da vontade para tossir a grande e a francesa (o rapaz) sem cobrir a boca, porque  isso e para mariquinhas. 

Ou então, quando estou na cozinha, entram como quem nao quer a coisa só para olhar o que faço. 

Quando cheguei do trabalho sexta-feira de madrugada, ainda o dia não tinha raiado, decidi que ia tomar um duche, lavar a roupa e preparar o que comer. Mal ponho  a chave a porta vejo logo o rapaz, a preparar-se para sair pela outra porta para ir fumar. Lá se vai a chance da solidao matinal. Ponho a roupa a lavar na máquina e vou para o duche. O tempo todo oiço ruidos fortes na cozinha. Lá se vai aquele silencio sepulcral e tranquilizador que tanto almejava... 

Quando saio para preparar algo para comer, já não lá esta ninguem. Mas também, empatei-me no duche propositadamente para isso.

Reparo que o micro-ondas foi deixado aberto. Achei por isso que tinha sido a M. A autora dos ruidos que ouvi enquanto estava no duche, porque já presenciei que, pela manhã, ela é ruidosa na cozinha e deixa a porta do microondas aberta. 

Cortei um pao que tirei do frigorífico, estou a enfiar duas fatias na torradeira e aparece-me a M. Que se poe a preparar algo para ela também. Logo me pergunta porquê o frigorifico esta aberto. (Para depois ser ela a deixa-lo assim). Fica ali parada, a olhar para o frigorifico, maos a cintura, com ar de censura. Só o ja começar com as implicancias ja me chateia porque me priva da tranquilade com que sonhava por chegar a casa aquela hora. 

Pao com queijo e torradas nem é coisa para demorar muito a preparar. Mas foi tempo que nao me foi concedido.  Podia ser. Faço questao de os deixar a vontade quando precisam do seu espaço. Podiam fazer o mesmo comigo. Principalmente se sou a única a sair para trabalhar e estou a chegar do emprego, com fome, cansada e são sete da manhã! 

 

              O manipulo da porta das traseiras

Estamos todos a tentar manter a distancia de dois metros devido a pandemia. Quando estou na cozinha lavo o manipulo da torneira com sabao, limpo superficies, nao toco na porta do frigorifico sem ser com um papel guardanapo, caso contrario estou sempre a ter de lavar as maos por de seguida ter de tocar em comida. 

Dai a porta ficar aberta, enquanto retiro o pao, a manteiga e desvio do caminho tudo o que esta na frente, para voltar a encaixar tudo de volta na prateleira que me foi concedida como se um jogo de tetris se tratasse.

A M. Apareceu, abre com as maos a torneira que eu lavei e por esse motivo terei de a lavar novamente ou tocar nela com algo descartável. Tambem tem o habito de falar por cima do tacho de comida que tenho ao lume e esses pequenos gestos acho que sao evitaveis. Numa cozinha pequena em que nos cruzamos para abrir armarios, quando estamos tambem a tentar manter a distancia de dois metros por causa da pandemia. Nao seria mais sensato deixar cada qual usar o espaço à vez?

Eu e a M. Temos muito presente a preocupação de contágio. Ela nao fala de outra coisa. E ate ligou para a linha do Covid a fingir sintomas para receber de graça um kit de teste. Ela teme que o novo rapaz esteja doente. O antigo também. Esta convencida disso.

Por isso somos as que tem mais cuidados ao tocar nas superficies como a porta do frigorifico e a manter as coisas limpas. Mas ela nao nota quando é ela a falhar. So percebe as falhas dos outros. 

Nessa madrugada a M. perguntou-me se estava zangada (porque lhe respondi que o frigorifico estava aberto porque eu o queria aberto) disse-lhe que nao, mas depois mudei para um sim. De certa forma. E apontei para a bancada. Uma gosma vermelha e seca estava em destaque. Mas nao roubava de todo o protagonismo das brancas e das migalhas por todo o lado. 

Vai ela, que sempre diz que é "ele" que deixa tudo sujo e faz gestos e caretas de nojo, sai-se com esta: "ah, esta vermelha acho que fui eu, ontem de noite".

Lol.

Depois da senhora da limpeza ter cá vindo fazer o que lhe compete, o vidro do duche no WC  de cima ficou quase translucido. Durou apenas instantes. Duas horas de M. Dentro do Wc e olhem o resultado:

                         Estas marcas sao do lado de fora!

Limpinha e asseada era a que saiu.
No wc dela este vidro estava sempre translucido.

quinta-feira, 21 de maio de 2020


Why when bad people get inside a house, they never leave?

Falo, claro, no caso de casas com quartos partilhados.

Enquanto estou aqui sentada na relva do jardim,  procuro a paz às aflições que me atormentam.

Primeira fotografia de mim no blogue.
Yeah!
Costuma ajudar. Mas já produz pouco efeito. Tenho de ir para outros jardins, onde o espaço não está carregado de hostilidade.

Na véspera de tudo acontecer (a gorda dizer ao senhorio: "tira-a daqui senão não trago ninguém para morar cá"), trouxe estas flores que colhi de noite, pelo caminho, enquanto regressava do trabalho.


Não são lindas?


Meti-as num copo de vidro alto, despejei água para dentro e coloquei esta jarra improvisada no centro da lareira, para embelezar o espaço.

No dia seguinte, como se qualquer intervenção minha na casa fosse intolerável, chamam o senhorio e enfiam-lhe pela goela abaixo um monte de malévolas mentiras juntamente com um pedaço de bolo pascoal e um cafezinho.

Antes e depois.
  Só desviei dois bonecos da esquerda para a direita 
e reposicionei o ovo.
É preciso frisar que antes do "antes", a jarra
 que vem a esquerda estava ao centro mas foi
rapidamente relegada para dar espaco a isto:

Uma especie de lareira
que vira prateleira de despensa
(Para armazenar paes, bolos e multiplos
ovos de chocolate exclusivos para consumo italiano)

Depois daquele dia comecei a procurar uma nova casa para morar, mas fui hesitante na seleção e nao tive sucesso. A ideia era sair de imediato. Percebi que já estava a demorar demasiado tempo e isso desagradou-me. Quanto mais tempo passar na casa, mais intrigas vão inventar para reforçar as mentiras inventadas sobre o meu caracter e comportamento. Uma coisa que não lhe devia ter dito quando a confrontei, foi que nenhum dos amigos (que supostamente não gostam de mim), me conhecia. Ela ficou espantada. Prestou atenção. Como já a temer que eu pudesse ter encontrado uma brecha na sua história inventada.

Deve ter pedido a uns para confirmarem a sua versão com o senhorio. Isso justificaria a presenca de uns deles na casa, ontem, anteontem e noutro dia. Deixando moedas e mensagens como que encantamentos.

Mas a verdade é que nunca fui mal educada. Eles traziam pessoas cá para dentro sem nunca partilharem comigo essa informação. Eu ficava a saber por esbarrar nas pessoas, geralmente quando tentava aceder à cozinha. Convivios, jantares... Nada me foi dito. Era propositadamente colocada de parte por eles e depois davam a entender aos convidados que era eu que me excluia.

Tudo manipulação. Sempre falsos, sempre alertas à percepção dos outros.

Naturalmente, sou surpreendida quando entro na sala e encontrou um bando de gente. Digo "hello" e meio que fico à espera de uma apresentação. Mas não me diziam o nome, não se apresentavam, não me apresentavam a ninguém.  Muitos nem me olhavam na cara quanto estabelecia com eles contacto visual e lhes dava um timido mas genuino sorriso, quanto mais me falar.  Nem uma curta interacção, uma pergunta, nada. OK, não me querem junto deles. Fazem-me sentir uma intrusa na propria casa onde pago para morar, pelo que faço o que tinha ido ali fazer e deixo-os sossegados.

A ela só lhe disse que muitos nem um "hei" diziam e respondi à resposta dela sobre os colegas "ninguém nesta casa gosta de ti" com:

-"isso é porque tu dizes a todos que aqui entram "que terrivel portuguesa mora aqui!"

Voltando aos malmequeres, ao fim de algumas noites, reparei que continuavam resplandecentes. Deixei-os ficar. Não pensei que durassem tanto. Mais uns dias se passaram, a busca por um novo quarto atingiu uma percepção de calamidade e desânimo. Os malmequeres continuavam visosos. Contudo, comecei a associar a presença deles com o início deste novo tormento.

Será que, enquanto ali estivessem não ia arranjar um novo lugar para morar?

Se nada aparecesse dentro de dias, ia deita-los fora.

 Assim, 18 dias depois de os ter colhido. Removi-os, para ver se me trazia sorte.


Passaram-se mais quatro e até agora, nada.

Só mais uma epifania:
Quando no pico do medo e pânico comparas um virus mortífero como o Covid29 com os teus colegas de casa e concluís que este é uma ameaça menor, ficando feliz por poderes sair de casa todos os dias para ir trabalhar, isso devia ter servido de pista.

Estou só a tirar estas coisas dentro de mim.
I was blind but now I see!
(Will I ever, really?)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A Páscoa correu bem



Passei um Domingo de Páscoa agradável, porque estive a trabalhar. Trabalho intenso, físico, de longa espera até poder fazer uma pausa. Mas relaxado, num ambiente amigável. 

Que melhor podia pedir?

Dentro de casa sei que ia encontrar o oposto. O que ia estragar o meu dia, fazer-me ficar deprimida, magoada, em sofrimento e a soltar lágrimas. O trabalho foi a minha salvação.



Quando regressei, os sinais de farra estavam visíveis. Os italianos decidiram comer no jardim - factor raro - e moveram a mesa de ferro forjado para junto da vedação do vizinho. Porquê? Não sei, não me interessa. A mais-gorda quis logo saber, ao me ver entrar, se tinha ido trabalhar. Respondi-lhe que sim. 


Troquei-lhe as voltas. Ela tinha preparado todo um festim para mo exibir debaixo do nariz, mas no qual me deixava excluída. Como sempre fez. Inclusive, mudou-o para o jardim, lugar onde eu costumo estar, onde costumo ir para comer. Também queria privar-me desse prazer, decerto. E eu não estive presente para lhe dar esse gostinho. Nem dei sinais de ausência. Deixei o saco que uso todos os dias no lugar, para que a sua ausência não lhes servisse de pista. Ouviram-me sair, mas decerto deduziram que podia voltar a qualquer instante.

Na sexta-feira Santa montaram um jantar todo caprichado, mas não me convidaram, nem sequer mencionaram que tinham esses planos. Não foram capazes de oferecer um chocolate dos muitos que abriram nem uma taça de vinho (com tanta garrafa que trazem e armazenam logo quatro no meu frigorífico). Não escrevi eu aqui que ela precisava recordar-se do significado da quadra, por isso o escreveu  "Esta é a semana santa" no quadro negro na cozinha?


Eles não têm um conceito real do que significa a Páscoa. Continuam maldizentes, intriguistas, mesquinhos e pateticamente embrulhados nestes actos de ostracizar o semelhante.

Assim que o senhorio abandonou a casa nesta sexta-santa, (veio cá com o pretexto de acabar de arranjar o WC), eles começaram logo a preparar a sala. Dava para sentir no ar, que só estavam à espera que ele saísse. Pouco depois, escutei baterem à porta da rua. 

Convidados? Em pleno Covid-19 lockdown?? Anda a polícia a divulgar cartazes para que as pessoas não se reunam em grupos nas suas casas nesta altura da Páscoa, para não fazerem churrascos e festas no jardim, com convidados... e estes italianos trouxeram cá para dentro um outro italiano. Sei lá eu se saudável! É simplesmente um comportamento que não se pode tomar. E eles tomaram-no. Em plena quarentena.


Tenho sorte em poder ausentar-me desta casa para ir fazer algo útil, mais útil ainda neste conceito de Pandemia Mundial. O meu trabalho de armazém consiste em separar correio postal. Ajudo a que as pessoas que estão fechadas em casa possam receber, enviar e ter em suas mãos algo que alguém que lhes quer bem desejou lhes enviar. Esse é o trabalho que mantenho há quase dois anos, mas por uma agência, como trabalhadora ocasional. Dava muito pouco dinheiro - nem o suficiente para metade da renda.

Agora com a situação que vivemos, perdi o emprego principal que tinha há dois meses e que podia gerar um contrato, mas em contrapartida ganhei horas e turnos decentes neste que já dura muito mais e com o qual estou satisfeita. Ali muitos me conhecem, muitos gostam e mim e no geral é um ambiente simples e descomplicado onde se trabalhar. Tudo o que quero. Pagam melhor do que em qualquer outro lugar, mas não davam nem 10h por semana. Com o Covid, isso mudou. Está muito melhor agora. É lamentável que esteja a correr riscos, mas penso que é o mesmo risco que qualquer outra pessoa que tem de se deslocar para o trabalho corre. Excluindo os profissionais de saúde, que esses estão mesmo no epicentro das pessoas contaminadas que procuram auxílio. Porém, quantas contaminadas que não o sabem podemos nós nos cruzar na rua e emprego?

No armazém onde trabalho, que é enorme, estão também outras três centenas de pessoas. Lidamos com camionistas, que viajam por todo o lado e carregam e descarregam os camiões com os carrinhos de correspondência e encomendas. Tocamos em mais de 1000 pacotes por dia. Sabemos lá qual deles pode transportar um vírus.

Sem dúvida, é um risco.
Mas para ser honesta, o Covid fez-me perceber que ficar em casa é-me muito mais prejudicial.

Hoje, segunda-feira, é feriado. Então fiquei mesmo por casa. Não é bom. Dos poucos segundos que tive em contacto com outra pessoa, passaram-me a sensação de não me desejarem por perto. Se não aguentam a minha presença nem por segundos num único dia da semana... Até conversa de treta não consegui estabelecer por mais que alguns 5 segundos. Tal era o desinteresse.

Não me rala. A única coisa a que tenho de estar atenta é onde ponho as mãos, o que uso para comer, para preparar comida... Porque não sei onde os restantes andam com as suas, nem para onde espirram. Sei que não são de tomar tantos cuidados quanto eu. Tenho estado atenta ao comportamento da rapariga do andar de baixo, que praticamente tem estado a viver enclausurada dentro do quarto. Não é muito habitual e fica claro que algo se passa. Com ela ou com o namorado, que está ainda mais "invisível" que ela. Se algum deles apresentar sintomas de gripe ou constipação, SEI que vão procurar ocultá-lo de mim, do senhorio. Vão mantê-lo em segredo, tentando que eu não o perceba. Sei que não posso contar que tenham um comportamento exemplar e atuam como pessoas decentes e responsáveis. Têm demonstrado não saberem o que isso é. Para os italianos, qualquer sintoma é de outra coisa qualquer, não é Corona. "Como ousas insinuar??" - é o tipo de atitude que têm. Claro... como se desse para saber.

A rapariga do andar de baixo não só anda muito enclausurada no quarto, como começou a fazê-lo depois de regressar de uma interrupção de quarentena. Ela e o namorado ausentaram-se por três dias. Não sei para onde foram, com quem estiveram, nem o que andaram a fazer. Sei que regressaram faz duas semanas, e quase de imediato comecei a ouvir a rapariga a tossir e a assoar-se constantemente. Parece estar a querer evitar o contacto e vive enfiada no quarto. Daí vai para o WC tossir e assoar-se, e de volta para o quarto. Deixa as suas coisas espalhadas pela casa, as toalhas que usa nas cadeiras, sofás, etc e sai de vez em quando, para alimentar-se e parece estar bem... mas hoje ao passar por mim na cozinha, olhou-me intensamente. O que não é habitual. Geralmente recebo aquele olhar "mal olham para ti". Que foi o que ela me deu na sexta-feira Santa, quando cá receberam o italiano. Fiquei ali parada a olhar para eles, à espera que se dignificassem a dizer algo, a apresentarem-me o indivíduo (porque o sabia um candidato) ou a mexerem-se para que eu pudesse passar e alcançar a cozinha. Ela só me olhou de relance, com um desdém do tamanho do universo. Típico de quem sente que está a aumentar em número... Quando recebo olhares não de relance mas que olham no olho,  sei que está a acontecer algo menos bom. Isso e mostrarem-se mais afáveis na voz. É sempre mau sinal. Para mim aquele foi um olhar de "estou a esconder alguma coisa", que me disse que se estava a passar algo que eu ainda não sabia, mas que ela sabia e estava a rejubilar-se nisso.

Uma dessas coisas pode ser o facto de estarem à procura de outro italiano para cá vir morar. Foi isso que os espevitou há dias, depois da rotina desta quarentena já estar a desmotivá-los. Um dos rapazes abandonou o quarto, por estar em quarentena em Itália e não querer pagar renda. O quarto vai vagar no final do mês, Mas já está tudo em movimento para cá enfiarem alguém do seu agrado. Alguém com o "selo de qualidade". Estão a falar com todos os italianos, procurando encontrar quem queira mudar-se para cá. Pintam a casa como um lugar ideal, toda italiana, com festas e festins italianos. Só tem um inconveniente... ainda cá mora uma portuguesa. Mas ela é posta de parte, não conta.

A necessidade de meter outra pessoa cá dentro tem-nos dado um novo alento, um novo propósito. Têm estado a sondar quem pode vir para cá, quem é o melhor candidato. Ontem à noite, estava quase a adormecer, quando tenho de ir buscar algo lá abaixo e voltar para a cama. Nisto quando estou a passar rapidamente pelo sofá, a mais-velha, que está a falar por video-chamada no telemóvel, no alto do seu cinismo, chama o meu nome, o que é insólito, vira o telemóvel  para mim e diz: "Fulano está ao telemóvel".

Fulano é o "rei", o ex-colega que saiu desta casa. Nunca quiseram saber de mim. Não falaram comigo cá dentro. Passavam-se horas com nós os dois na sala e ele não abria a boca para me dizer um ai. Não me desejou feliz ano, nem feliz Natal... Nada. E agora, subitamente, estava interessado em me cumprimentar?

Claro que não. Foi só mais uma provocaçãozinha, porque entretanto, eu já deixei claro que não gosto dele. Quando cá esteve limitei-me a cumprimentá-lo secamente. Queria o quê? Reverência? Nunca fui uma das suas vassalas. Fui simpática porque é de minha natureza e porque dividi o mesmo espaço que ele. Mas depois disso, não tenho qualquer obrigação, sem ser por minha natureza cordial. Não sou hipócrita, não vou perguntar como lhe está a correr a vida. Mesmo que a minha natureza seja essa - e é - no caso dele e de outros cá dentro, não são merecedores desse tipo de carinho. Sim, porque se trata de uma forma de mostrar carinho por alguém - perguntar como está. Nem isso quero saber.

O que é revelador, é a atitude da mais-velha. Para agir como agiu, mal me viu, é porque estava muito feliz. Provavelmente estava a "descascar" na minha pessoa nesse preciso momento. O "rei" deve ter sido contactado para dar continuidade a uma das suas principais anteriores funções: recrutar italianos-moradores. Se bem que é uma pessoa muito narcisista. A partir do momento em que deixa de ser um problema que o afecte, não vai perder muito tempo com isso. A menos que lhe seja fácil. Se for difícil, não se dá ao trabalho. Mas por maldade... fazem tudo.

Já escrevi muito. Mas apeteceu-me ir aos detalhes. Resta-me incluir que a minha reacção quando ela virou o telemóvel para mim e mostrou-me o rosto dele, outra forma de continuar a invadir o espaço, eu reagi assim:
"Quem é fulano?" "Olá, boa páscoa".

E foi só isso.
Fulano ainda pronunciou, com atraso considerável "Olá portuguesinha".

Lol.
Nunca usou o meu nome enquanto pode. Privou-me de vários olás cordiais enquanto cá esteve.
Agora pode enfiá-los todos num lugar que eu cá sei. AHAHAH.

Boa semana para todos.
E acreditem, estou bem.
Quero que estejam bem também.

Noutra ocasião, vou deixar-vos ideias com que possam se entreter enquanto se prolongar a quarentena. Forte abraço, obrigada e Força.




sexta-feira, 13 de março de 2020

Medidas de precaução com o Corona e a ausência das mesmas


Gostei de ler aqui nos comentários gerais que vocês são da opinião que se deve ter cuidado e adoptar um comportamento de precaução em relação à pandemia do Corona.


Vir a Portugal tornou-se necessário. Mas já estou de saída.
Antes de entrar no autocarro que me levou para o aeroporto, mantive-me de luvas calçadas e coloquei a máscara FFP 3 RD no rosto. Não é das cirúrgicas, nem das que não têm válvula. Supostamente é a única capaz de impedir a passagem das partículas realmente perigosas, onde se incluí o vírus Corona.

Fui o caminho todo com luvas. Coloquei o passaporte aberto na página de identidade dentro de um saquinho transparente com selagem. Porque o fiz? Simplesmente porque me lembrei de o fazer. Quantas mãos tocam naquele passaporte?  Achei uma boa ideia e verifiquei que era prático. Quando isto passar, vou continuar a fazê-lo. 


Escrevo sobre isto não para falar das precauções que tomei (e fi-lo a pensar nas pessoas à minha volta e nas que ia visitar, não em mim) mas para contar o que observei e também o que senti por parte dos outros por estar a usar uma máscara. 

Foi muito estranho, estar num dos principais aeroportos de Londres e não ver uma única outra pessoa com máscara no rosto. Desde o chegar, entrar, ficar na fila da companhia aérea para ser atendida, ir para a segurança, passar pela segurança, atravessar o duty free e sentar na área de espera a aguardar a indicação do Portão de partida, não vi uma única alma de máscara que, como eu, usasse uma máscara. Telefonei a uma pessoa e perguntei:

-"Sabes quem é a única pessoa no aeroporto inteiro a usar máscara?"
- "Tu".

Até aquele instante, fui mesmo.
Depois, ao me dirigir para a porta de embarque, dobrei uma esquina e vi um rapaz sentado, usando uma. Fiquei grata, já não era a única. Chegando à porta de embarque em si e ficando na fila onde estávamos todos coladinhos uns aos outros, a rapariga atrás de mim também apareceu de máscara mas o rapaz à minha frente, que vinha a falar ao telemóvel, não. Sabem que idioma falava? Querem avançar com um palpite?

Acertaram. Italiano. Pensei cá com os meus botões: não me livro de italianos onde quer que vá. Até no natal, nas duas vezes que andei no metro em Lisboa, foi italiano que escutei na pessoa sentada à minha frente e no casal atrás de mim. 

O rapaz disse a palavra "Portugal" e aí pareceu-me escutar uma entoação diferente. Nisto ele faz outra chamada e começa a falar português fluente. Mas na versão português-brasil. Portanto, estava diante de uma pessoa provavelmente com pais de nacionalidades diferentes. Um brasileiro e uma italiana? Ele estava a falar com alguém sobre família em itália. 

Depois de terminar de falar ao telemóvel, ele coloca uma máscara no rosto. Um homem à frente dele também havia colocado uma daquelas máscaras cirúrgicas. Uma vez dentro do avião, ele removeu a máscara algumas vezes. Mantive a minha durante a viagem inteira e até o momento de entrar no carro, já no destino. Não ia arriscar nada, removendo a dita por um motivo qualquer. Nem para comer.

Quando precisei ser informada sobre as regras da Easyjet no balcão, o rapaz que me atendeu foi um tanto antipático. A minha pergunta era específica e a resposta que me deu, generalista. Quando perguntei novamente tentando fazer-me entender, ele recusa-se a explicar-me de outra forma, repete-se como um disco riscado e dispensou-me com um "próximo!" - acompanhado da total ausência de contacto visual.

Não tive direito a um "adeus", "faça uma boa viagem", nada. Foi mesmo "vai-te embora".
Achei que essa antipatia deve ter sido efeito da máscara no rosto. Da estranheza e desconforto que causa nas pessoas. Era a única viajante em todo o aeroporto com uma.

Segui para a porta de embarque. Lembrei-me que, para sair no meu destino em Lisboa, tenho de fazer a leitura aos olhos/rosto pelas máquinas de scanner. Uma funcionária da segurança estava mesmo ali, não havia nenhum outro passageiro por perto, então aproximei-me dizendo-lhe que estava a usar a máscara a pensar na minha família e perguntei-lhe se, com ela posta, seria possível fazer a leitura de scanner nas máquinas, visto que os olhos continuavam à vista. Ela quis saber qual o meu destino e respondeu-me que só os vôos domésticos (dentro do Reino Unido) usam scanner. Uma nulidade informativa - foi o que pensei. Mas também ela já estava a mover os braços sinalizando para que continuasse viagem e quando avanço, escuto uma gargalhada de uma viajante que entretanto aproximava-se. Não sei se relacionada mas, seja como for, não caiu bem.

Durante o processo de remover a roupa e colocar os pertences no tabuleiro da máquina de raio-x, tudo foi normal. Nada a relatar. Excepto uma mulher ao meu lado que se virou para mim e disse algo numa língua estrangeira que não entendi e quando lhe respondi: "Desculpe??" ela ficou a olhar para mim uns segundos e foi embora, sem nada dizer. Mas não creio que esse comportamento estivesse relacionado com a máscara.

Uma vez colocando uma, não se nota que a tens. Eu pelo menos, não sinto qualquer incómodo. Vou confessar que até é agradável. Esteticamente pode parecer horrível mas usar uma é melhor do que imaginava. Permite um respirar mais dinâmico. Não sei se melhor ou pior, mas quando a usei de casa para o emprego para me proteger da poluição, foi quando descobri que chegava ao destino com mais energia do que quando não a colocava.

Outras pessoas que não revelaram qualquer problema com o uso da máscara foi uma senhora no duty free a vender perfurmes de marca "compre dois leve um terceiro grátis", pela módica quantia de 65 libras cada. Mas não gostei do aroma. Um horror!

Uma das mulheres que estava a lançar para o ar um brinquedo boomerang que voltava para as suas mãos, a quem me dirigi interessada em saber sobre o mesmo, também falou comigo com naturalidade.

Mas tirando isso, foram os próprios funcionários da companhia aérea da Easyjet os únicos a causar desconforto à minha viagem. Uma vez dentro do avião, desconhecendo que o uso do telemóvel para gravar vídeo era proibido, achei curioso um detalhe e filmei um bocado do corredor. Não aparece nenhum rosto de passageiro (tenho esse cuidado) e a tripulação só apareceu ao longe. Subitamente uma delas aproxima-se e pergunta: está a filmar? Sim - respondi. Posso ver? Acho que me vi no vídeo.

Mostrei-lhe, ela "pediu" com autoridade, como se eu fosse uma criminosa que tinha acabado de cometer um delito terrível. "Basicamente é isto" - surgia apenas o meu rosto, parte do corredor... e parei o vídeo. Ela ordenou: "não desligue, mostre-me o resto". E lá mostrei. Enquanto isto acontece, chamando as atenções, ela pergunta-me, sempre num tom agressivo, se sei que é proibido filmar a bordo. Respondi que não sabia. (e não, não é coisa que informem na mensagem audio, não se vêm símbolos informativos antes do embarque, etc, etc). Achei que era bom senso apenas. No youtube encontram-se centenas de vídeos domésticos dentro de aviões e eu, pessoalmente, fartei-me de filmar decolagens. Nunca nenhum assistente de bordo da easyjet mandou-me baixar o telemóvel, exigindo que parasse de fazer um filme.

Ela mandou-me apagar o vídeo, ordenou que baixasse o telemóvel para ouvir as instruções de segurança. Foi desnecessariamente agressiva no tom. Sabem a doçura, a gentileza que ainda existe na mítica ideia do início dos vôos, quando a Pan-Am era toda gentil com cada passageiro? Pois, isso não existe mais. É como querer ver um dinossauro de volta à vida. Está extinto.

Antes de ter feito aquele pequeno filme (pode-se fotografar mas não filmar? Estranho...) estava já em posição de descanso, de olhos fechados, pronta a relaxar. Reassumi essa posição e durante a hora seguinte permaneci assim. Geralmente, em todos os vôos que faço, é sempre assim que estou: sentada no meu banco, não me levanto, não chamo um assistente... faço a viagem toda sossegada e sem incomodar ninguém. Mas cada vez que acontece "qualquer interacção", parece que somos imediatamente assinalados como "passageiros problemáticos". A postura dos profissionais é passivo-agressiva por defeito. Em todos os vôos. A simpatia é falsa como Judas. O que lhes interessa é vender, e vender rápido. Têm um gravador que repetem até a exaustão, onde colam entoações de falsa simpatia para agradecer e desejar uma boa viagem ao passageiro que acabou de lhes dar uma comissãozinha por lhe comprar um perfume, uma sandes, uma bebida, etc, etc.

Eu como sou das quietas, que senta e levanta no final da viagem - não causa problemas mas também não se deixa levar pelas "fabulosas venda de produtos" a bordo, tornei-me o tipo de passageiro que não agrada ao tripulante. Aquele que só viaja. Não compra nada.

A única interacção que voltei a ter com a tripulante, foi quando passou com o saco para o lixo. Tinha um pequeno lenço de papel e decidi tirar proveito, visto que foi a primeira vez em todas as viagens que fiz com a easyjet, que eles realmente ESPERARAM com o saco aberto na mão, e não passaram a correr, sem dar tempo a ninguém para realmente dar uso ao mesmo. Deve ser por causa do Corona Virus, aposto!

Mas sabem o que ela fez? Ela estendeu o saco aos passageiros na fila da frente, impedindo assim que eu pudesse colocar o lixo se o saco ficasse ao centro. Eu já estava com o papel na mão erguida, bastava enfiar. Mas ela estendeu os braços com o saco perto do rosto das pessoas na fila da frente e também ao rapaz da mesma fila que eu, mas do lado oposto. Mas não estendeu o saco a mim, que estive o tempo todo de braço erguido. Podia ter atirado o papel para o interior da abertura, mas depois ainda falhava e ela aproveitava-se para me "acusar" de ser precipitada e não esperar. Tive de esperar e ela lá avançou um passo, sem grande vontade, lá colocou a abertura de forma a poder usá-la.

Achei mesquinho demais mas típico e de se esperar do que hoje em dia é a postura de uma "assistente de bordo". Para o final da viagem, notei que o papel publicitário do assento à minha frente era o único em todo o avião - que pudesse avistar, que estava dobrado. Sabem aqueles papeluchos de publicidade colados no encosto da cabeça? O meu estava todo dobrado para fora. Pode ser cá coisa minha, mas achei que era a forma deles assinalarem uns aos outros os "passageiros problemáticos".

"Fui marcada" - imaginei, sem me ralar muito.

Hoje em dia é o passageiro que tem motivos para querer "assinalar" os assistentes de bordo, por toda uma postura agressiva que assumem como piloto automático. A gentileza é tão falsa que causa impressão. O homem ao meu lado, achou que tinha alguma intimidade com a tripulação por trabalhar no aeroporto e disse à hospedeira. "Eu daqui a bocado vou já ter convosco para conversarmos um bocadinho". E eu pensei cá com os meus botões: «Ela deve estar mesmo ansiosa para conversar com um passageiro. Quer mais é ficar lá atrás sossegada. Na sua cabeça já te está a maldizer e já sabe como te despachar». E na verdade, o homem não saiu do seu assento por muito tempo.

Fiquei a pensar também se o uso da máscara facilitou este tipo de comportamento. Talvez não. Talvez sim. Máscara, luvas... as pessoas são mesmo estranhas. Aqui estávamos todos dentro de uma atmosfera fechada, impossível de controlar, num cenário de pandemia mundial. E era a pessoa a demonstrar mais consideração pelos outros aquela que estava a receber mais olhares.