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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

DIFERENÇAS entre o UK e o resto da Europa

 

No UK nunca vai ver isto:

                                                                     1 - ESTORES




                                                    2 - CASAS SEM RADIADORES


                        3 - AUTOMÓVEIS COM VOLANTE À ESQUERDA

quarta-feira, 12 de julho de 2023

"Somos diferentes" - que o diga as Finanças

 

Por vezes recordo de coisas que me foram feitas e ditas quando me mudei para esta casa há três anos e percebo que já estava ali os sinais de como a M. realmente era. Tanta mas tanta coisa, que é incrível como eu, por ansiar como uma esfomeada por normalidade, continuei a preferir não interpretar pelo pior. 

Recordo que uma das coisas que a M. me disse bem no início, depois de me ter "esmiuçado" de cima a baixo, interrogado, ter feito os seus questionários e até, usar de NUMEROLOGIA de data e hora de nascimento para definir afenidades, foi: "não me vejo a ser tua amiga". 

Ela não é capaz de ser amiga de ninguém - essa é que é a verdade. Mas é uma coisa que não se diz assim, parece-me. Mas foi o que ela me disse, acrescentando que não eramos iguais. No sentido de, ela ter umas tantas qualidades que enumerou e eu.... não. 

Oh! Ela dizer isso, achando que a vantagem estava no seu lado, já diz tudo, não é verdade? O sentimento de grandiosidade do narcisita já a revelar-se. Talvez mesmo uma certo transtorno de personalidade antisocial. 

Mas eu não me abalei nem um pouco. Nos primeiros três meses, existiu cordialidade e muita conversa, onde tudo parecia correr pelo melhor. Embora eu já me sentisse incomodada com comportamentos repetitivos e de total desconsideração que lhe observava. Ainda assim, preferia achar que ela não tinha percepção que os fazia. (Santa ingenuidade!).

Neste tempo, ela e o rapaz do andar-de-baixo já discutiam dia sim, dia não, logo pela manhã. Chegava eu a casa vinda do meu turno da noite, adormecia e em 50 minutos acordava com os insultos trocados entre os dois, aos gritos. 

Daí adiante ela seguia-me pela casa a todo o instante, para fazer queixas dele e de todos os outros. Querendo que eu agisse e baragustasse. Foi muito desgastante para mim. 

A M. nunca deixou de procurar criar conflitos. Apenas foca-se mais intensamente numa pessoa de cada vez. A minha altura ia chegar. E foi este ano em Janeiro, quando o rapaz, finalmente, se foi embora. Agora ela deseja que eu seja a próxima. Estou a contrariá-la, permanecendo nesta residência. 

Segue-me pela casa inteira. Nem 30 segundos me dá - que é o tempo que leva para descer as escadas, abrir o frigorífico e tirar um iogurte, voltando de imediato para cima. Tem alturas em que é 24h/7 obcecada pela minha pessoa. Segue-me, entra dentro do WC se dele acabei de sair, não o usa, vai só espionar. É doente. Faz-me doente também. Tenho receio de me vir a tornar como ela. Mais anti-social. Ou totalmente anti-social. Agressiva ou irascível. Prefiro o isolamento do sossego - sempre fui assim. Mas agora temo me tornar numa pessoa inapta socialmente. Tal são as más influências que me rodeiam e as más situações às quais me sujeitei nesta vida.  

Será que pessoas como a M. nunca se dão mal? Nunca enfrentam as consequências dos seus actos e por mais que aprontem, caiam sempre de pé, que nem os gatos?



Voltando ao tema principal, dela dizer logo de início, muito convicta de si mesma que "somos diferentes". Sim, somos. E ainda bem! As pessoas devem ser diferentes e não todas iguais - para que possamos aprender umas com as outras. Mas ela não tem percepção disso. Mais recentemente, me disse: "Tu não és nada como eu!". Ao que instintivamente lhe respondi com uma sinceridade que deve se ter projectado nitidamente: "Thank God for that!". (Graças a Deus!).

O que a deve ter surpreendido, pois ficou muda. No seu entender, as pessoas devem almejar ser tal como ela. Inteligente, esperta, melhor que todos, sabe tirar benefícios próprios de tudo, levar a dela adiante, etc, etc. 

Mas ser como ela significa, por exemplo, estar cheia de dívidas. Tirar dinheiro de pessoas, instituições e prestação de serviços sem ter intenções de pagar. Surpreende-me que, no Reino Unido, isso seja tão simples. Porque é.

Recentemente recebi uma carta das "Finanças", sobre os impostos que paguei no ano passado. Tenho a receber o valor de £160. Como não reclamei o valor online, irei receber um cheque pelo correio. Hoje fui à caixa da correspondência e lá estava um envelope das Finanças. Mas não era adereçado a mim, mas à M. É fácil de adivinhar o conteúdo. Surpreende-me que, passados meses, ainda seja o mesmo! A leveza do envelope castanho e a sensação fina ao toque já diz o que se trata. É dinheiro em dívida.

A M. DEVE DINHEIRO às Finanças. A primeira carta que tirei da caixa deve remontar a Abril. Desde então já lhe vi outra em envelope castanho. Isto sem prestar atenção. Apenas estando a tirar a correspondência e a colocá-la na beirada da janela, onde a vamos consultar. Só com o primeiro envelope tentei perceber o que dizia. Consegui reconhecer as palavras "dívida" e também "multa". Sendo que a multa era já diária, por ter sido ignorada um contacto anterior.

Presumi que a M. se precipitaria a pagá-la, visto que é uma dívida ao Estado. E ia ter de pagar já com uma multa, eheh. Até recordo de pensar que, finalmente, agora veria-se forçada a arranjar uma ocupação e ir trabalhar! Depois não pensei mais nisso. 


Hoje quando vi aquele envelope das finanças endereçado a ela sentindo a sua leveza nas mãos, lembrei-me logo do que acima descrevi. Senti revolta. Caramba! Nem às finanças ela perde o sossego ou paga as dívidas! Sim, somos diferentes. Eu tenho a receber, ela tem a pagar. Isso diz muito sobre as nossas diferenças. Eu trabalho bastante e desconto. Ela não trabalha quase nada e não paga o que deve. Eu estaria toda temerosa, a querer pagar a dívida o quanto antes, porque dizem que sobe £10 por dia! E ela a deixar os meses passarem. Cada 24h são cerca de 12 euros a mais em que fica endividada. 

E os envelopes castanhos a chegarem, todos os meses... 

Até quando?

Até quando poderá ela safar-se com todas estas tramóias?

Agora temo que o meu cheque chegue pelo correio e seja interceptado por ela, e que ainda acabe por arranjar uma forma de se benificiar. Não que acho que vá acontecer mas, não estou exatamente a tratar com uma pessoa muito correta, estou? 

Vou ausentar-me daqui a uns dias. Não vá o envelope castanho, mas mais espesso, chegar nessa altura. Da última vez que fui de férias, duas semanas, ninguém tirou a correspondência da caixa do correio. Na volta fui eu que o tive de fazer. O que não quer dizer que se repita.

Agora outra curiosidade:

Ao entrar no site das finanças, vi estipulado como o dinheiro que eu paguei de impostos, foi utilizado. Surge assim:


No ano anterior, contribuí com £2.736 para impostos. 

Para minha surpresa e felicidade, quando fui buscar a carta enviada faz umas duas semanas, puxei de um envelope castanho que correspondia ao ano fiscal 2021-2022, ao invés de 2022-2023, o anterior.  Ou seja: dois anos fiscais atrás. E ali estava... um cheque. No valor de £81. 

Ri tanto, mas tanto! Tinha esquecido completamente dele. Havia colocado esse envelope em cima de uma caixa, para ficar bem visível. Porém, ele deve ter deslizado para trás do móvel. Na rotina diária de trabalho e com o stress doméstico, sem o ter à vista, devo ter esquecido da sua existência. Recentemente removi o móvel e arrumei um envelope castanho que encontrei caído, nem tinha percebido do que se tratava. Pensava ser uma documentação solicitada. Datava de Outubro de 2022, mas ainda foi possível descontá-lo. Eu a precisar de um boost de dinheiro lá na altura do Natal.... com £81 caídos atrás do móvel.

Bem sei que não se trata de um presente. É dinheiro restituído por pagar impostos em excesso. Mas é uma boa sensação, ter a receber. Ao invés de ter de pagar ou tudo estar correto. Subitamente foi quase como que tivesse ganho o euromilhões. 

Queria partilhar isto. 


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Pequenas diferenças


O meu tempo de permanência em Portugal já está em contagem decrescente.


Foi curto e serviu, na sua maioria, para tratar de assuntos burocráticos ou relaccionados com necessidades médicas. Somente estes últimos dias têm sido dedicados ao lazer. Nomeadamente, ao descanso. O doce "no fare niente"... 


As condições climatéricas que aqui encontrei surpreenderam-me. Pela positiva. Queria ter "férias de verão" e tal tem sido possível. A praia convida a um passeio e eu, que não sou de praia ou de torrar ao sol, não resisto a passear à beira-mar. Adoro a maresia. O cheiro e os sons.


Porque será que custa tanto mudar?
Quando estava para vir a vontade era pouca. Agora que estou para regressar, a vontade também é pouca. Não me apetece deixar para trás o clima daqui. E não me apetece regressar para um lugar onde já está escuro como breu quando aqui ainda o sol brilha e a praia convida a um último passeio.


Mas é a vida.


............

As pequenas diferenças é que nos fazem girar. Ficar é não encontrar emprego. E viver em stress. Partir é encontrar emprego - reles mas emprego, e viver com muito menos stress. Diz-se adeus à familiaridade, ao clima e à gastronomia. Nem me lembrava mais do quanto se come mal em Inglaterra até ter voltado a comer alguns pratos confeccionados em Portugal. Trouxe uns aperitivos ingleses comigo que me sabiam tão bem... E cá souberam tão mal!

É o paladar que se adapta às coisas de lá mas reconhece e reajusta-se aos sabores de cá. O reajuste vai tornar a acontecer. 

Outra pequena diferença está nos hábitos. A condução dos ingleses é algo que, em certos detalhes, me incomoda. São lentos nas curvas, quando vêm um peão a atravessar a estrada fora da zona designada é como se estivesse a cometer um crime e gostam de tocar a buzina. Quando não o fazem, e têm espaço para passar, fazem-no devagar. Alguns chegam mesmo a parar. Como se não soubessem continuar o percurso só porque uma pessoa está ali a passar na berma da estrada, quase com o pé no passeio. Têm tanto espaço e não sabem o que fazer com ele. 

Curioso vir formatada com as coisas de lá. Mas reconfortante reconhecer as de cá. O melhor exemplo que vou dar é uma miudeza. Mas foi o que mais me tocou emocionalmente.

Estava a atravessar uma entrada de um estacionamento quando um automóvel em manobras prepara-se para sair exatamente no momento em que eu vou chegar. Quero atravessar aquela pequena entrada asfaltada e não me apetece esperar que o veículo se posicione, se enfie no meu caminho, fique parado a ver se pode virar, se não puder espera que os outros passem.... E eu que estou a subir a rua e nesse instante quero atravessar aquela parte cuja passadeira está tão sumida que mal se nota, não quero ter a minha caminhada «empatada» por um veículo que, claro, parecia estar à espera que eu quisesse passar para se por a mexer.

Dito isto, o condutor acaba de manobrar o veículo e o posiciona com a frente para sair. Mas deixa-me passar. Quatro ou cinco passadas e já estou do outro lado. E então o automobilista segue o seu caminho. Isto não acontece em Inglaterra. Pelo menos onde vivo, não é normal acontecer. Os carros são egoístas. Uma vez no seu território, se julgam prioritários em qualquer caso de manobra, estacionamento, saida ou entrada. 

Se vou no passeio e chego à intercepção entre a estrada e a continuidade do passeio e um automóvel aparece nesse exato instante, eles não estão acostumados a parar. Esperam que seja o peão a parar e a dar prioridade. Porque eles vão na estrada. E o peão no passeio. Isto enerva-me profundamente porque, em Portugal tenho a distinta sensação de que existe cortesia ao contrário. Se vais atravessar e um carro surge, este deixa-te passar, na maioria das vezes. Até porque não se pode enfiar assim sem mais nem menos. Mas em Inglaterra eles enfiam-se, metem a frente do carro para fora e depois decidem se podem passar. O peão que espere... E isso enerva-me. Gosto de caminhar a um ritmo que não exija travagens bruscas seguidas de paragens forçadas. Ahah. Afinal, um automóvel leva meio segundo a passar e quem anda de pé demora minutos para fazer o mesmo percurso que um veículo faz em poucos segundos. Nada mais justo que dar prioridade ao peão.

Principalmente em dias de chuva e vento.

Por tudo isto, gostei que, ao invés de se ter atirado para a saída do parque de estacionamento, forçando a minha paragem, o veículo tivesse esperado eu passar para dar início à sua marcha. Esse simples detalhe fez-me sentir em casa. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Uma geração de diferenças

É comum existir uma diferença entre gerações. Quem eu sou hoje é fruto de uma conjectura social, educacional e familiar.

Sempre achei que não seria difícil dar a entender a minha história. Quando me imaginava a falar da minha vida com alguém, lá para a frente, quando quase toda ela está no passado, não o imaginei ineficaz, por existirem obstáculos na comunicação.

Vivo com a sensação que, um dia, terei esta necessidade de narrar o meu caminho. Explicar porquê estou onde estou, apontar onde errei, quais erros podiam ser evitados por mim e quais não podiam por força das circunstâncias. É preciso tempo para se ver com clareza estas certezas. E, ao tê-las, é preciso divulgá-las aos que estão com dúvidas.

É isto o aprendizado. É isto a vida.

Mas nunca imaginei que o receptor pudesse ter dificuldades de entendimento que vão para lá da sua consciência. Não tinha compreendido que as conjecturas alteram a nossa percepção, como se o frio de Inverno no dia de hoje em nada consiga ser igual ao frio de tempos atrás.

Mas não falo apenas das grandes mudanças sociais. Não aquelas que até aqui têm pautado a continuidade das gerações. Não é da pobreza e inexistência de automóveis na infância de meus avós, quando comparada às mudanças que a televisão trouxe para a infância de meus pais ou a internet acarretou para a minha. Não falo destas coisas óbvias e singulares. Refiro-me a transições menos perceptíveis, que decorrem em muito menos tempo e que são menos perceptíveis de consciencializar.

Se explicar agora como foram os meus estudos, o receptor mais jovem já não vai ter como compreender o que tenho para contar, porque esta é uma realidade em constante mudança. Comigo deram-se sucessivas mudanças, imagino que agora não é muito diferente!

Como pode o entendimento ser eficaz, se uma mentalidade não conhecer, ainda que empiricamente, os factos que foram a realidade de outra?

De que adiantam os desabafos escritos? Os legados?
O que é que os olhos que lhes botarem a vista em cima vão achar dos momentos de dor, conflito, dualidade, quando já os avaliam com uma percepção diferente?

Eis a ironia desta questão. Embora as coisas sejam linearmente as mesmas e nada realmente mude, existe toda uma conjectura que faz com que nada seja assimilado com a capacidade de compreensão que só quem nasceu num determinado período de tempo e com determinadas conjecturas é capaz de compreender. Há muita coisa que nós achamos que entendemos do passado, mas não passam de uma interpretação da realidade. Quem somos nós para entender a mentalidade social, educativa e familiar de indivíduos que povoaram a Terra no século XVIII, XIX, se já não sentimos o frio de Inverno da mesma maneira?



segunda-feira, 9 de junho de 2008

Pais, Filhos e Órfãos

Aquilo que vamos conseguir na vida, e a forma como a vivemos depende, muita vezes, dos pais que temos. Se os temos, ou se não os temos, para começar.

Em determinados sentidos, não tê-los é uma benção. Mas quem nunca os teve, não sabe se lhe foi atribuído a benção ou a desgraça. Outros, talvez o possam adivinhar.

Um órfão pode idealizar os progenitores. Na sua cabeça, se tivesse pais, ia experimentar um certo tipo de felicidade, viver determinadas experiências, receber amor, carinho...

A maioria das crianças recolhidas em centros não são órfãs. Têm pais e outros parentes. A história delas é bem mais triste que a simplicidade do órfanato. Estão abandonadas. Vêm de um meio de miséria, tristemente mais mental que económica. Muitas são abusadas, maltratadas.

É por isso que o órfão nunca saberá que versão da paternidade o destino tinha-lhe reservado.

Depois temos as que não são órfãs e não vivem em instituições mas em família. Têm um tecto, vão à escola e têm os progenitores ao seu lado. Fazem festas de aniversário e recebem presentes. Mas nem por isso a vida vai-lhes correr melhor.

A miséria atinge todos estes casos. Não existe excepção. A criança que aparenta ter tudo por vezes não tem o que realmente importa: afecto. E por estar menos exposta que aquelas que a sociedade "classifica" como carenciadas, muitas vezes são as que menos chances têm para um futuro melhor.

Não é que alguns pais não sintam afecto pelos filhos. Mas muitas vezes não sabem como expressá-lo. Têm de ser ensinados mas como adultos que são, criaram já uma arrogância e uma ignorância que os impede de ser humildes e procurar ajuda. Temem os rótulos e não querem ser apontados por outros pais como uns fracassados.

Mantêm as aparências e a verdade fica oculta entre as quatro paredes.

Muitas vezes reproduzem décadas de erros aos quais, provavelmente foram expostos. Abusam dos gritos, ameaçam, recorrem á violência física, são castradores e proibitivos. Responsabilizam a criança pelos seus erros, atribuem-lhe defeitos e responsabilidades que não lhe pertencem. Não sabem ouvir. E assim permanece a relação até a idade adulta.

Uma criança nasce com capacidades incríveis. Ela tem uma percepção do mundo que tantas vezes serve como elixir curativo para um adulto. Esta aprende, mas também ensina. Um adulto só tem de escutar o que ela diz.

É um erro achar que aquele pequeno indivíduo é inferior e deve submeter-se ás ideias do adulto. Porque o adulto é que sabe tudo. Não. A criança ensina. E a uma determinada altura da vida, ela tem de ensinar os pais a lhe darem liberdade para se desenvolver feliz.


CASOS:

Um episódio que jamais esqueci e remonta aos tempos do inicio da adolescência, passou-se comigo. Meus próprios pais, apontaram na rua um rapaz que sabiam órfão e a viver com a avó. E me disseram: "Estás a ver a sorte que tens?" "Deves dar graças a Deus por nos teres. Aquele ali é um pobre coitado, que vive com a avó. Vivem do dinheiro da reforma e ela pode morrer a qualquer momento. E depois, ele vai ficar na rua, sem ninguém para cuidar dele. É um desgraçado. Já viste a sorte que tens em nos ter?"

Bem, não vou falar o que achei desta intervenção muito pouco adequada de meus pais. Vou falar do rapaz.

Conhecia-o, estudava na minha turma. E embora nem sempre as coisas são o que aparentam ser, a verdade é que dele saía uma energia positiva que me pareceu legítima. Ele era feliz. Não podia dizer o mesmo a meu respeito. Eu parecia estar bem, mas não estava. Ele parecia ter menos a seu favor, mas teria?

Não deixei de lhe atribuir os seus momentos de tristeza, e de receio, medos. Saudades do que poderia ser, de se imaginar a viver com os pais como os outros vivem... mas achei precipitado colocarem-no na categoria de "pobre coitado". E também que minimizassem a capacidade da sua avó. Podia jurar que ele era muito amado e ia ter sucesso na vida. Dinheiro não é tudo. Afecto e saber como demonstrá-lo é. Ele sentia-se de bem com a vida. A avó soube educá-lo com afecto, sem o estragar com mimos, pois sempre se rectificava das suas traquinices e não ia longe demais.

Este rapaz não foi o único indivíduo que conheci, criado pelos avós. Outros casos obervei e todos vieram a comprovar esta minha teoria de que o que importa para uma criança é receber afecto. Que este venha de pessoas menos "convencionais" - avós, primos, tios, vizinhos, é tão legítimo como o que vem de um casal parental.

Os casos que conheci, mostram que estas crianças crescem saudáveis e atingem o sucesso na vida, tanto profissionalmente como emocionalmente.


Ninguém nasce ensinado. É difícil ser-se pai, é mais difícil ser-se filho. Tudo é melhor quando chegam netos e depois se vira avós.

Mas porquê esperar tanto tempo?
Mude já!