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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Escrever livros


Pergunto-me: se passasse por uma experiência socialmente conotada como especialmente trágica, se a seguir ia escrever um livro a relatar os factos.


Verifico que muitos que passam por certos dramas, pequenos ou grandes, escrevem livros sobre os mesmos. Depois, outro, e mais outro... Porquê?

Também tenho dramas. Que tenho vindo a contar nos meus diários ao longo dos anos. Mas desses ninguém quer saber, a menos que terminem em sangue ou morte. Porquê este fascínio pela derradeira tragédia conduz à escrita de livros??


Há apenas umas décadas, as famílias que passavam por tragédias remetiam-se ao recato, ao silêncio. Não ficava bem explorar o assunto. Algo privado e muito sensível, cujo respeito demonstrava-se por não forçar as vítimas a recordar nem o explorar de alguma forma. Actualmente ocorre o fenómeno oposto. Publicam-se livros, e depois outros, mesmo quando não se tem mais nada a acrescentar. Porquê? O que mudou? Não é o sofrimento igual? 



Natascha Kampusch, a menina austríaca raptada aos 10 anos de idade, escreveu, em 2010, um livro a relatar a sua história, quatro anos após escapar do cativeiro. Agora volta a escrever outro, supostamente a relatar como tem sido a vida nestes 10 anos de liberdade. Entre os dois livros por si lançados, existiu um programa de televisão, deu imensas entrevistas, a primeira logo 15 dias após a fuga, onde pagaram-lhe 290€ ao minuto, entrou com um pedido de 1 milhão de indemnização ao Estado Austríaco por incompetência dos serviços policiais em resgatá-la, comprou e ainda é proprietária da casa onde viveu em cativeiro e os pais escreveram os seus próprios livros: a mãe em 2007, o pai em 2013, ambos best-sellers. Agora, em 2016, Natasha, que diz querer passar despercebida, lança mais um livro sobre a sua tragédia pessoal.


Vivemos numa altura em que possuir no currículo uma tragédia pessoal é ter porta aberta para muita coisa. Exploram-se os dramas como se fossem limões que têm de ser espremidos até dar o máximo de sumo, colocam-se umas gotas desse sumo com muita água, e serve-se como limonada. 

Destaque na capa da revista TV GUIA, nº 1963
A distorção da realidade*1 - obvia para mim, mas certamente invisível para outros.


São as revistas cor-de-rosa e os jornais a destacar na primeira página qualquer «dramalhão», real ou fictício. Distorcem títulos para aparentarem um significado, sabendo que têm outro. São os programas televisivos de talentos - os quais não consigo ver por originarem repulsa - a inventar e a explorar dramas para «colar» aos concorrentes. Porque o que fica bem é ter pais toxicodependentes, pai na prisão, ter sofrido um acidente de viação quase fatal, é ser gay, sofrer de uma doença que gera comoção, é ter a avó internada no hospital às portas da morte ou melhor ainda: já ter um dos pais a servir de comida às minhocas, para que esse drama possa ser explorado para fazer um programa televisivo, ao qual os requisitos necessários para participar deviam limitar-se ao saber cantar, dançar, cozinhar, etc. Mas não! Isso é secundário. 

Escrever livros, participar em programas televisivos da vida real ou de talentos ou fazer capas de jornais e revistas explorando as tragédias pessoais.

Se ontem entendia o poder catártico da escrita e do livro, hoje entendo-o menos do que «ontem». E, sinceramente, tenho zero interesse por histórias que me são apresentadas desta forma. 


*1
Leitura real dos destaques da revista TV GUIA - a revista mais sensacionalista e que reserva uma secção nas suas páginas só para maldizer a concorrência (TV 7 dias):
FERIDO COM TRÊS FACADAS: o ex-concorrente de um reality show, mostrando, na verdade, o quanto está pouco habituado às lides do trabalho, cortou-se três vezes quando estava a cortar carne no seu talho. Diz ele que trabalhou até o fim sem se queixar e ninguém percebeu nada - depois de ter cortado a ponta do dedo e sangrado. Humm... vocês voltariam a comprar carne num talho onde o talhante sangra de um ferimento, arriscando a passar esse sangue para os alimentos e ainda acha que isso é de louvar?

TRAI FAMÍLIA POR CEM MIL EUROS: Todos já sabem que a ex-concorrente de reality show está a participar noutro programa, em frança. A "traição" é o isco usado para chamar a atenção. A realidade é tão somente essa. O prémio final são 100.000€, fácil de deduzir. 


domingo, 26 de junho de 2016

Liberdade de imprensa e o lado do microfone


Ao deparar-me no facebook com uma partilha de uma página que pedia a "todos" para bloquear a CMTV no canal MEO, percebi uma coisa muito importante que está a ser negligenciada nesta história toda do microfone lançado ao lago: A liberdade de Imprensa.


Digam-me: vocês têm noção do quanto existir liberdade de imprensa é importante para a sociedade? 

É quase como oxigénio - na minha opinião.


Tão importante quanto respirar!


E é por isso que agora largo o humor atribuído a esta história e vou falar do ponto de vista do «micro». Não interessa se é a CMTV, a SportTV, a BenficaTV... 


 Um repórter tem um trabalho a realizar. Cabe-lhe tentar chegar o mais longe que conseguir, para trazer mais informação, para fazer uma melhor cobertura de um acontecimento, etc. 

Ao ver a página a pedir para bloquearem o Canal só por causa deste incidente, cheirou-me claramente a censura. A abuso de poder. E não gostei. Acho bem mais escandaloso do que qualquer outra coisa até então relacionada com este episódio. Estão a incentivar um boicote com base nisto?? E os insultos que o «pasquim», como gostam de o referir, tem sofrido desde então? 


É o Ronaldo uma máquina de merchadising inatingível, todo poderoso, que não pode ser arranhada? É crime um repórter legalmente credenciado chegar perto da «vedeta» e lhe fazer uma pergunta cliché?

E decidem que a penitência por tamanha ousadia passa por insultar o repórter, a estação para qual trabalha e sancionar/censurar um meio de comunicação social. E este, seja qual for, é um pulmão português. 

Hoje foi a CMTV, amanhã vai ser outro qualquer que interfira com o humor do cacre. É isso?

Censura...

É isto que as pessoas acham certo?



Ronaldo não é mais que ninguém. E neste aspecto tenho de concordar com as palavras da Ana S. no seu blogue Escrita Desajeitada - ela que escutou em direto uma destas «espécimes» defensoras a todo o custo dos comportamentos das vedetas. 

Que muitos estejam dispostos a se juntar ao fanatismo ou que a máquina de celebridade do Ronaldo esteja tão bem oleada que possa gerar estes movimentos "anti-qualquer coisa", é ao mesmo tempo assustador e um atentado à Liberdade

Ronaldo até pode ter tido as suas razões. Mas são dele. Os teleespectadores em casa não têm nenhuma. Queixam-se do quê? De poderem estar confortavelmente sentados no sofá da sala enquanto 22 tipos correm por um campo de futebol atrás de uma bola? E de poder assistir com detalhes ao ponto de perceberem cada gota de suor que lhes corre no rosto? 


Curem-se. 


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

AINDA... Charlie Ebdo


O título diz "ainda" porque, tirando este desabafo que deixei no blogue do Observador, a verdade é que ainda não me pronunciei a respeito deste assunto.

Qual assunto? A ilustração feita por aquele Jornal satírico Francês que se tornou mundialmente conhecido em Janeiro do ano passado por ter sido alvo de um atentado do Daesh - o Charlie Ebdo. Aqui fica ela:

Este foi o PRIMEIRO contacto que tive com a notícia. Assim, em forma de pequeno destaque online no site da RTP notícias. Onde, MAIS UMA VEZ, não se privaram de usar a imagem real e por esta altura icónica de uma criança afogada para fazer referência ao "novo uso" que lhe deu aquele jornal satírico.

polémica é que o referido jornal, além de TAMBÉM usar a imagem do menino afogado (à semelhança de tanta imprensa), ainda que apenas em contorno e num desenho inteligentemente SEM COR, fez particular REFERÊNCIA ao menino falecido com uma questão situada debaixo do TÍTULO que anunciava o tema "Migrantes": "O que faria o pequeno Aylan se tivesse crescido?" E depois faculta a resposta: "Perseguia nádegas na Alemanha".


Ora, isto pode parecer chocante. E foi, ao primeiro contacto. Mas depressa recuperei do choque e reflecti no que estava a ser mostrado. Até porque o maior choque, o que me chamou a atenção para aquele pequeno quadrado de imagem pouco perceptível, foram as palavras do título do artigo, também ele uma INTERROGAÇÃO, que surge a azul e pergunta: "Quando o Charlie Hebdo estica a corda ainda "somos todos Charlie"?

"Ainda somos todos Charlie"? a meu ver, é uma pergunta ridícula. Revela ignorância. E eu, particularmente, não gosto quando a imprensa é ignorante. Não gosto porque ela tem o dever de informar, não de desinformar. E muito menos gosto que, desempenhando um papel tão fundamental na formação das mentalidades, esta siga o caminho simplista e põe todos a raciocinar de forma equivocada. 

Traduzido para português claro, a pergunta realmente colocada aos portugueses pelo artigo da RTP é esta: "Ainda somos todos a favor da liberdade de expressão"?

Claro que somos! Mas que estupidez ponderar sequer o contrário. Há algo neste título especialmente chamativo que é perigosamente enganador e subvertido. 

O conteúdo também não traz nada de esclarecedor. Pareceu-me, inclusive, tratar-se apenas da necessidade de falar da «mais recente polémica» sem nada de mais acrescentar. E adoptou um estilo noticioso um tanto tendencioso, já que dá a resposta à própria pergunta. 

Penso ser difícil encontrar em mim um traço de xenofobia ou racismo. E penso que as pessoas por detrás destas ilustrações satíricas provavelmente também fazem esse género. É difícil, de início, olhar para aquela imagem bem pequena da ilustração e ler aquelas palavras. Bem sei. Mas contextualizando-as, são brilhantes. 

Sou a favor da ajuda aos refugiados, sinto o terror que está a ser esta "invasão" de milhares que chegam por uma Europa a dentro e que, em grande número, olham para o que aqui existe com desconfiança e censura - de tão terrivelmente pecaminoso que lhes parece aos seus olhos. As europeias não cobrem os cabelos com lenços e têm tantas atitudes que condenariam à morte tantas destas mulheres refugiadas! Percebo os receios dos que cá estão. O medo do terrorismo. Entendo que não vai dar, que a Europa não tem como acolher a população inteira de outros continentes em guerra e que muitos voluntários e políticos, por muito que se esforcem, não vão conseguir encontrar uma solução que não estoure com o actual padrão social dos países de acolhimento. Contudo, jamais defenderia a criação de milícias ou ia aderir a grupos mascarados que desatam a dar pancada a pessoas de aparência não-ariana, como aconteceu recentemente em Estocolmo, na Suécia.  

Não creio que a sátira deste cartoon do Charlie Ebdo esteja a um nível superior de inteligência como me fez questionar este artigo da revista Obvious(br) que vale mesmo a pena ler, mais que não seja pelo fantástico título que faz juz às considerações no conteúdo. É somente um nível de registo no qual não estamos acostumados a raciocinar nem a ele somos ensinados. Mas tal como um dia já existiu uma sociedade inteira, inclusive mulheres, ensinadas a pensar de forma limitada por acreditarem serem incapazes de  exercer o voto político ou terem direito a herdar bens, também chegará o tempo, daqui a 15, 20 anos, em que a maioria será capaz de racionalizar um pouco "fora" das convenções. E aí todos terão chegado onde eu penso que alguns já conseguem chegar: na «futura» norma.  :P

E agora, para reforçar a ideia do que disse, mostro-vos isto:

Há necessidade? A mensagem é qual, mesmo?
Ao menos o jornal tinha umas!

Onde fica a revolta?
Por ser «arte», já tem mais aceitação. Por não usarem um manequim de uma criança, mas um homem adulto, não choca. Pode ser uma "afirmação pessoal" e artística... tudo bem, entendo. Entendo mas questiono. Não a vontade, mas a intenção. O artista podia dizer que estava a recriar qualquer vítima de afogamento. Qualquer uma. Mas anexar o nome da criança traz projecção internacional...

A meu ver, este aproveitamento até pode ser um insulto a toda e qualquer vítima de afogamento. Que fiquem a relembrar e a chorar as mágoas e as dores todos aqueles que já perderam entes queridos para as águas do mar. Pelos vistos, presentemente, todos os afogamentos vão-se espelhar, na arte, na crítica, em tudo, no daquela criança Síria. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fanatismo Extremista através dos MEDIA


Tenho de falar sobre um fenómeno. Um fenómeno que ocorre entre as massas, que acontece com mais regularidade do que gostamos de admitir. É um fenómeno que me preocupa bastante. Não sei bem que nome lhe dar e decerto que haverá um termo mais preciso para o definir, mas acho que o conheço bem. TRATA-SE do FANATISMO.

Falo do FANATISMO EXTREMISTA, que ocorre entre as MASSAS após algo ser vinculado através dos meios-de-comunicação, em particular a TELEVISÃO. Por isso não vou usar como exemplos rixas entre adeptos de clubes de futebol ou defensores ferrenhos. Vou antes dar como exemplo deste fenómeno, Orson Welles e Adolf Hitler.

Quem?? Esses dois??
Sim. Para muitos não será novidade, para alguns talvez seja. Adolf Hitler foi um grande MANIPULADOR das massas. Ele percebeu o poder dos meios de comunicação e utilizava a rádio para emitir os seus discursos por toda a parte. Passou a controlar os conteúdos emitidos. Mas basta recordar aquelas imagens das multidões a prestar-lhe reverência, para entendê-lo. Imagens essas que hoje existem porque Hitler acreditava que devia documentar tudo o que estava a fazer. Algo que acabou por funcionar contra si mas a favor da Humanidade porque, tem de ser dito, se não existissem filmes das atrocidades cometidas, fotografias e documentos, será que hoje a humanidade ia acreditar no que aconteceu? Longe da vista, longe da percepção... é o que ainda acontece pelo mundo. Massacres, Genocídios, fome, guerras... Como todo o «bom» ditador, Hitler era um indivíduo perigosíssimo, capaz de cometer qualquer acto desumano. O «legado» que deixou documentado e registado em vídeos e imagens não deixam dúvidas.
Mas como era ele pessoalmente, entre os seus? DESCRITO como um CAVALHEIRO, muito educado, cordial e gentil. Charmoso com as MULHERES.
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Orson Welles foi um actor, director e dramaturgo americano que em 1938 e com 21 anos trabalhava como director e locutor de rádio. Era noite de Halloween, as pessoas andavam a questionar-se se os EUA iam entrar na 2ª Guerra Mundial e é neste contexto social que Welles decide interpretar no seu programa um episódio do romance "A Guerra dos Mundos", escrito por H.G. Wells, onde é relatado uma invasão por extraterrestres. A escolha foi pensada e não derivou de um acto inocente como se perpetuou mas a realidade é que este relato assustou alguns ouvintes, que tinham falhado o aviso inicial de se tratar da adaptação de uma história. Alguns telefonaram para a estação e outros pensaram coisas piores e prepararam-se para a invasão alienígena. Embora depois tenham exagerado nos relatos de PÂNICO que a emissão causou e Orson Welles tenha aproveitado a atenção recebida para fazer mais publicidade e acrescentar uns tantos pontos na história, ele conseguiu o que pretendia: MANIPULAR os ouvintes.




Orson Welles veio a público acalmar os ânimos. "Não é verdade" - teve de esclarecer nas entrevistas, entre rejubilo pessoal. Depois deste episódio que orquestrou ficou conhecido por todo o país, acabando por entrar no mundo do cinema. Foi outra figura a utilizar a Rádio para se promover e MANIPULAR pessoas.

No post anterior falei de OJ SIMPSON. Em 1994 esta ex-estrela de futebol americano de bom porte e aparência sentava-se no banco dos réus a ser julgado pelo assassinato da ex-mulher e de um amigo, ocorrido em casa desta com os filhos do ex-casal a dormir no andar de cima. Estranhamente a chacina deu-se fora da habitação, no haal do jardim. O julgamento é televisionado, com emissão em DIRECTO e sem interrupções em alguns canais de informação. Lembro-me de assistir através do satélite a um desses canais: a CNN.


Mas o que me afligiu foi perceber que os Americanos não estavam a olhar para o caso com olhos de ver. Alguns talvez sim mas existiu uma maioria televisionada que se deixou levar por outros critérios. Existe muito «circo» e muita PROPAGANDA em casos de julgamento. A defesa parece uma matilha de cães raivosos que tudo vão buscar ou INVENTAR para ilibar o seu cliente. A fortuna e fama de OJ «comprou», ou melhor, OBSTRUIU a justiça. Decerto que uma das estratégias passou por contratarem pessoas para irem fazer manifestações à porta do tribunal e em frente às câmaras das televisões mundiais. Mas a coisa acabou por pegar tão bem que depressa ocorreu uma ONDA NACIONAL de apoio incondicional a Simpson.

Mulheres e homens, na maioria negros como o acusado, gritavam e protestavam a sua inocência. Acusavam a sociedade de ser racista. Nicole, a ex-esposa assassinada com cerca de 17 FACADAS era branca. O povo estava a olhar para a «embalagem» e não para o acto. Deixou-se claramente MANIPULAR por todas as acções dos advogados de defesa.


A pobre Nicole até pareceu ser uma protagonista secundária no julgamento do seu próprio assassinato. Poucos falavam dela, pensavam nela e na forma violenta e passional em que morreu. Só se lembraram de ver a coisa por cores: PRETO E BRANCO. (deviam lembrar era do vermelho-sangue). Parecia que uma maioria ia para os telejornais defender a imagem de SIMPSON de forma muito acérrima, doentia até. Preocupava-me muito este tipo de comportamento.


(nota: fotografias susceptíveis de impressionar. Nicole foi quase decapitada à facada. O estado do amigo denuncia a violência do acto. Mas como é esta a realidade escolhi publicar as ilustrações. Para quem gosta de ficar mais informado, descobri no processo o suposto relatório de autópsia)

Sabe-se hoje que OJ Simpson é culpado e cometeu os gestos que conduziram ás fotos acima reveladas. É um ASSASSINO. Mas foi inocentado. A proclamação da sua «inocência» alegrou muitos apoiantes e foi dito que, caso isso não acontecesse, a população estava pronta para realizar motins e distúrbios racistas. Senti que aquelas pessoas a dar a cara, que choravam compulsivamente ou gritavam de felicidade, iam acabar por ser confrontadas com estas suas acções. Quando a poeira assentasse e elas fossem olhar para os factos novamente e reflectir na atitude que tomara, teriam de «engolir» o que estavam a fazer. PASSADOS TANTOS ANOS, este FENÓMENO MEDIÁTICO AMERICANO que foi o julgamento de OJ Simpson, não produziu nenhum documentário ou filme de análise. Ao contrário do que esperava não foi ainda fruto de grandes análises psicológicas, como os americanos tanto gostam de fazer. Esperava voltar a ver alguns daqueles rostos que em 1994 surgiram em defesa de Simpson de volta à televisão, a dizer agora como se sentem. Mas não. Ocultaram o fenómeno em vergonha, só pode...

Sobre os atentados do 11 de Setembro de 2001 já se fizeram inúmeros documentários, filmes e programas. Um deles mostrava uma consequência interessante mas negativa para a sociedade e estrutura familiar... As viúvas dos bombeiros do 11 de Setembro foram consoladas por colegas do falecido marido, um gesto comum de camaradagem entre a profissão. Como consequência desta aproximação emotiva, muitos destes bombeiros casados, pais de família, deixaram as esposas para se juntarem ás viúvas. O 11 de Setembro também teve como resultado um impressionante aumento de casos de divórcio entre Bombeiros que fizeram parte das buscas. É um fenómeno social interessante que resultou numa desestrutura familiar sem precedentes: "as viúvas e as não viúvas de bombeiros que acabaram divorciadas" pós-11 de Setembro. Podia ser um facto de desconhecimento geral, contudo não é. Teve, como costuma ser hábito americano, documentários para reflexão. Porquê, aparentemente, o caso de OJ Simpson continua na penumbra?

Mais recentemente e em solo NACIONAL ocorreu um bom exemplo de um destes fenómenos de fanatismo das massas através de um meio de comunicação: a TELEVISÃO. A emissora TVI exibiu um reality show de nome "Casa dos Segredos 2", que chegou ao final no dia 1 de Janeiro. Este programa em particular, embora não vá marcar por aí além a história da televisão porque os reality shows já perderam essa capacidade, foi um dos mais interessantes e ricos em termos da diversidade de personalidades e da análise que o diferente público fez de uma mesma situação.

Como acontece na estrutura da maioria dos Reality Shows, este pautou-se por gerar muitas opiniões contrárias. TODOS viam a mesma coisa, mas cada um tinha uma interpretação por vezes surpreendentemente diferente. Não é por isso de espantar que entrasse na equação desta análise o factor "idade" e "género", para se tentar entender o porquê das opiniões contrárias.

O caso mais exemplificativo encontra-se no concorrente que acabou por se singrar vencedor. João Mota, um rapaz de 21 anos com pretensões para virar actor de televisão. O seu comportamento dentro da casa logo de início caracterizou-se pelo ISOLAMENTO dos restantes concorrentes. Se inicialmente esta atitude foi atribuída como consequência da possessividade de uma concorrente feminina de nome Fanny, que não largava o rapaz nem de dia nem noite, com o tempo começou a perceber-se que o concorrente João gostava de estar separado dos restantes. Começou a afirmar que ninguém ali prestava, acabando por chamar nomes a todos: "Este Paulo é um gajo que só anda por aí a mostrar o rabo, não faz cá falta nenhuma", o Marco era "o macaco, um nojo, não percebia como ainda estava ali", a Daniela P "Não confio nela, fala muito mas não diz nada", a outra Daniela "Uma falsa, uma cobra" e todos, sem excepção, acabavam por merecer por parte do concorrente uma avaliação cheia de adjectivos surpreendentemente nada favoráveis. Na realidade, percebeu-se que João Mota não gostava de ninguém e falava mal de todos, excluindo apenas os poucos com quem estabeleceu alianças. Depois também começou-se a perceber o quanto manipula as nomeações. Para o efeito usava sempre a Fanny, que o defendia acima de tudo, e a mandava indagar e convencer as colegas a votar em quem ele pretendia. Depois quando havia confusão e brigas, ele e o parceiro, Miguel, ficavam isolados e longe da confusão. Como mentores, arranjaram a marionete Fanny. Que não era santa alguma, a rapariga entrou na casa noiva mas em 48 horas agarrava-se muito explicitamente a este João.

João Mota descrevia-se como uma pessoa humilde. Disse que não falava mal de ninguém e se fizesse alguma coisa era porque já lhe tinham feito primeiro. Mota dizia isto e por uns tempos a maioria acreditou, mas como não o demonstrava em acções, depressa a opinião pública começou a mudar. Mas não para alguns. Alguns, perante tudo e mais alguma coisa, mantiveram-se de pedra e cal na defesa da imagem do «menino-lindo».

O ponto de viragem foi a expulsão de um novo aliado do grupo de Mota, Paulo, que revelou seguir a mesma "cartilha" moral de João. Foi nas semanas seguintes que este concorrente destilou tanta maledicência e ódio por tudo e por nada que acabou por tirar quaisquer ilusões sobre o seu verdadeiro carácter. Na casa, João disse coisas atrozes, como desejar a morte a colegas e encabeçar planos para esconder e envenenar comida. Mas por acaso tinha ele integridade para debater algo que o chateasse com a pessoa com quem estava chateado? Será que ele dirigiu-se a alguém para iniciar uma conversa e esclarecer o que o incomodava? NÃO. Pela frente não dizia nada e até era capaz de ser falso e covarde, dando a entender que estava tudo bem quando minutos antes tinha estado a falar muito mal. MUITO PREOCUPANTE. Incapaz de se mostrar outra coisa senão «cordial», ainda que de forma pouco convincente e assustadoramente fria. Manteve, durante três meses, distância de todas as pessoas. Excepto daquelas com quem
estabeleceu uma aliança: Fanny e Miguel. Estes três depressa estabeleceram grupos na casa: o do quarto azul - onde dormiam e os do quarto rosa - todos os restantes. E começaram, para meu espanto e preocupação, a auto-dominarem-se OS PUROS. Só eles é que tinham a razão, eles tinham os comportamentos exemplares, eles é que faziam tudo bem. OS BONS.

Esta alusão à PUREZA e a determinação em eliminar os "Impuros" como chegaram a referir-se a outros concorrentes, faz lembrar aquilo que foi a base dos planos de Hitler aquando o Holocausto - matar todos os que não fossem de raça ariana PURA. Porque analisando bem as coisas, ali estavam aqueles dois rapazes de 20 e poucos anos a ter comportamentos que podem servir de sinal para detectar um indivíduo com potencial perigoso: formação de "quadrilha", ideologia "purista", separatismo, planos de conspiração, manipulação, actos de vandalismo e de atentado à integridade de terceiros.

Contudo depressa a aparência de João Mota gerou uma onda de apoiantes. A grande maioria, sem dúvida, feminina e criança. Numa faixa etária diria que nos 12-14 anos (maioria). Como sei que se alguém tiver paciência para ler todo este post de análise e reflexão sobre o poder dos media na MANIPULAÇÃO DE MENTALIDADES vai logo perguntar de onde tirei esta «estatística», digo já que é pessoal, obtida através da idade admitida ou "denunciada" dos apoiantes que se manifestaram em blogues, facebook e entrevistas de televisão.

Este programa em particular, embora não vá marcar por aí além a história da televisão, foi um bom exemplo para analisar os efeitos da TELEVISÃO na MENTALIDADE do PÚBLICO. Tal como o julgamento de OJ Simpson teve mulheres histéricas a proclamarem a beleza como sinal de inocência, o mesmo aconteceu com João Mota aqui no singelo Portugal e no pequeno Casa dos Segredos2. Uma vez o programa terminado é que se vai ver, tal como sempre acontece, como o público vai reagir fora do calor do momento. Muitos continuam ainda com as hormonas a falar mais alto e atacam, à mínima contrariedade, qualquer opinião não positiva sobre o concorrente vencedor. Os elogios que lhe fazem dificilmente passam do "é lindo" e é "humilde", coisa que caiu por terra na sua prestação na casa.

Na perspectiva de análise dos efeitos dos MEDIA na mentalidade das pessoas, gostava de saber qual é a opinião deste público «defensor acérrimo» daqui a uns anos, quando já tiver acumulado um pouco mais de experiência de vida. Se voltassem a rever cada imagem, continuariam a achar que estão a olhar para um homem «lindo e humilde» ou também já seriam capazes de lhe reconhecer graves defeitos que uma maioria adulta depois lhe reconheceu?