Ao deparar-me no facebook com uma partilha de uma página que pedia a "todos" para bloquear a CMTV no canal MEO, percebi uma coisa muito importante que está a ser negligenciada nesta história toda do microfone lançado ao lago: A liberdade de Imprensa.
Digam-me: vocês têm noção do quanto existir liberdade de imprensa é importante para a sociedade?
É quase como oxigénio - na minha opinião.
Tão importante quanto respirar!
E é por isso que agora largo o humor atribuído a esta história e vou falar do ponto de vista do «micro». Não interessa se é a CMTV, a SportTV, a BenficaTV...
Um repórter tem um trabalho a realizar. Cabe-lhe tentar chegar o mais longe que conseguir, para trazer mais informação, para fazer uma melhor cobertura de um acontecimento, etc.
Ao ver a página a pedir para bloquearem o Canal só por causa deste incidente, cheirou-me claramente a censura. A abuso de poder. E não gostei. Acho bem mais escandaloso do que qualquer outra coisa até então relacionada com este episódio. Estão a incentivar um boicote com base nisto?? E os insultos que o «pasquim», como gostam de o referir, tem sofrido desde então?
É o Ronaldo uma máquina de merchadising inatingível, todo poderoso, que não pode ser arranhada? É crime um repórter legalmente credenciado chegar perto da «vedeta» e lhe fazer uma pergunta cliché?
E decidem que a penitência por tamanha ousadia passa por insultar o repórter, a estação para qual trabalha e sancionar/censurar um meio de comunicação social. E este, seja qual for, é um pulmão português.
Hoje foi a CMTV, amanhã vai ser outro qualquer que interfira com o humor do cacre. É isso?
Censura...
É isto que as pessoas acham certo?
Ronaldo não é mais que ninguém. E neste aspecto tenho de concordar com as palavras da Ana S. no seu blogue Escrita Desajeitada - ela que escutou em direto uma destas «espécimes» defensoras a todo o custo dos comportamentos das vedetas.
Que muitos estejam dispostos a se juntar ao fanatismo ou que a máquina de celebridade do Ronaldo esteja tão bem oleada que possa gerar estes movimentos "anti-qualquer coisa", é ao mesmo tempo assustador e um atentado à Liberdade.
Ronaldo até pode ter tido as suas razões. Mas são dele. Os teleespectadores em casa não têm nenhuma. Queixam-se do quê? De poderem estar confortavelmente sentados no sofá da sala enquanto 22 tipos correm por um campo de futebol atrás de uma bola? E de poder assistir com detalhes ao ponto de perceberem cada gota de suor que lhes corre no rosto?
No blogue da fofucha da Ana S. encontrei um post sobre o eurofestival da canção. A querida Ana S. discorda da canção vencedora do eurofestival 2016.
Na maior descontracção e numa de relaxar, sem sequer me ocorrer que daqui podia resultar um motivo para fazer um post, coloquei "play" nos vídeos que a Ana deixou: o primeiro da música vencedora - da Ucrânia, e o segundo da favorita do júri - pasmem-se, a música da Austrália!
Se o meu conhecimento do mapa-mundi ainda se mantem actual, não se trata de uma região que se integre na europa. Mas nestas coisas sou liberal e deixem lá um país não-europeu participar... Não é o fim do mundo.
O importante deste simples contacto, é que escutei no relax ambas as músicas. E embora tenha lido o típico comentário "faz muito tempo que o eurofestival não é mais a mesma coisa", "é só politiquices", etc... Esta música vencedora fez-me reflectir numa questão bem mais ampla.
Acontece que eu gostei da canção. Achei-a claramente superior à outra. E quando a escutei, ainda que sem entender bem a lírica, pois só algumas palavras em inglês soaram legíveis para mim, a verdade é que a achei profunda. Emotiva ao ponto de se assemelhar, nessa perspectiva, ao nosso fado. Numa segunda vez sensibilizou-me ainda mais, a certa altura fiquei com vontade de chorar e senti uma tristeza e agonia...
Só então fui realmente tentar entender o seu significado e porquê estavam "contra" a vitória da canção. O que por si só é já uma tradição... não é? Geralmente fazem-se sempre críticas aos critérios, avança-se que é tudo uma questão política... etc.
Este ano o festival incluiu a votação por televoto. O que eu acho interessante. Assim, não são só os júris dos países a votar. Mas como consequência, o primeiro lugar do júri foi para a Austrália e o primeiro lugar do televoto para a nação mais obcecada pela vitória: A Rússia. Contudo, o que conta é o somatório destas duas... e aqui é que está o twist: tendo a austrália obtido um 3º honroso lugar no televoto, saiu do pódio... A rússia nem sei onde ficou na votação do júri, mas não foi entre os dois primeiros, porque esse lugar obteve-o a Ucrânia, que ficou em segundo nos votos tanto pelo Júri, quanto pelo televoto. E por isso ganhou!
A canção vencedora tem o título "1944". Ora, só pode ter algum significado importante - pensei. Googlei «Ucrânia 1944» e fui parar à canção do eurofestival, claro. Mas também ao TEMA. O primeiro resultado, da página da Wikipédia já disse tudo: Batalla de Crimea (Guerra da Crimeia).
A intérprete, de nome Jamala, escolheu escrever uma música em parte dedicada à sua bisavó, que integrou as muitas famílias Tártaras que, em Maio de 1944, foram retiradas da região da Península da Crimeia pelos Russos e deportadas em vagões de mercadorias para a "quentinha" Sibéria, por ordens de Estaline, que na altura usou o pretexto de combater as tropas alemãs e os povos "traidores" para se "livrar" das inconveniências e matar muitos. Uma das filhas, portanto, uma prima-avó da intérprete, morreu na viagem e simplesmente o seu corpo foi atirado para fora do vagão.
Ler aqui sobre a deportação do dia 18 de Maio de 1944
Se isto é política?
É, para os que estão na política. Não é para os que apreciam música e são artistas.
Sobre o que uma artista pode escrever? Amor? És a minha única paixão? Só te quero a ti? Hoje eu e tu vamos dançar? Claro, pode... Mas também há alturas em que as canções dizem mais que isso. Vão mais fundo. Ela apostou e ganhou.
Continuando a pesquisa, li neste artigo do jornal Público as reacções dos políticos ucranianos, certamente felizes, e as reacções dos políticos russos. O que dizer? A comunista e cada vez mais ditatorial Russa chegou ao ponto de apelar ao boicote do festival no próximo ano.
Um artigo pessoal num jornal russo teve o título: "Como o júri Europeu roubou a vitória a Lazarev" - o concorrente Russo, pois claro. Pobre coitadinho, foi roubado pelos mauzões dos júri. Porque a vitória era dele, pois claro... os restantes 25 concorrentes não tinham nenhuma hipótese de vencer. lol.
O concorrente Russo durante a sua actuação
Ler neste artigo da Visão o quanto a Rússia se empenhou nesta vitória
Ver vídeo da actuação aqui
O presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros russo, Konstantin Kossatchev, escreveu na sua página de Facebook (admira-me que, tal como na China, a Rússia não proíba esta rede social que não controlam, embora tenho a certeza que censuram). que a vitória da canção Ucraniana "pode comprometer o tenso processo de paz na zoa leste da Ucrânia" e por isso, a "Ucrânia perdeu e a guerra ganhou". Falando de um exemplo ao estilo: "professora, explique-me o que é incutir exageradamente nos outros uma responsabilidade que não lhes pertence e negar a realidade..." Outro senador, Frantz Klinsevitch, disse que "não foi a ucraniana Jamala e a sua canção 1944 que ganhou" foi a "política que bateu a arte".
Será?
É que eu escutei uma canção emotiva, penso que o júri e quem a escolheu também. Se calhar são os políticos que não foram capazes de se conectarem à arte, incapazes que são de se separarem da primeira.
E é por este motivo que defendo que se deve pensar bem antes de fazer eco destas pré-noções. Criticar a música por não gostar, é uma coisa. Aceito, é saudável e tratando-se de música, cada qual tem o seu gosto. Criticar dizendo que venceu só por questões políticas... O sensato era dizer que podia perder por questões políticas... Mas a arte VENCEU a política. Ou auxiliou as conveniências de uns e não de outros. E isso deixa muita gente a precisar de Renie... má gente.
A propaganda manifesta-se de muitas formas, quase sempre na crítica depreciativa. E por isso jamais vou voltar a dizer -se alguma vez o disse - que as músicas vencedoras do eurofestival são somente seleccionadas com base em política. Espalhar essa ideia pela europa é conveniente a muitos que são contra a liberdade. Soa-me que ficamos todos a concordar com os Russos só por "espalhar" essa generalização... E essa simples conivência parece-me atroz.
Eu gostei da música, bem mais pela letra da canção, pelo sentimento que quase de imediato me despertou, ainda que não entendesse mais que duas ou três palavras. Até ter ido pesquisar. O que só comprova a autenticidade da canção.
Portanto, vamos aplaudir. Porque cada aplauso acaba também por ser menos um incentivo a regimes que se guiam pela política da ditadura, da manipulação, do genocídio, da corrupção, do crime organizado e que, por uma simples canção num festival, demonstram um mau perder capaz de insinuar ameaças de guerra e boicotes.