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sexta-feira, 31 de março de 2023

Um perfeito exemplo do que venho a dizer O23

 

Surpreendeu-me mas acima de tudo, desapontou-me quando, na busca de imagens dos óscares 23, encontrei este artigo, da revista Elle:



Traduzido à letra, o título por si só é extremamente controverso. Diz: "O POLICIAMENTO IRRACIONAL DAS MULHERES NEGRAS NOS ÓSCARES". 

Que raio quer isto dizer? Mas aconteceu alguma coisa que nós não vimos para, mais uma vez, estar a se fazer uma referência alegando maus-tratos à raça negra? 

Agora são controladas irracionalmente por uma polícia? Por serem negras? Então  e as asiáticas, que este ano povoaram a cerimónia dos óscares? Porque será que nunca outra etnia alega constantemente e a qualquer oportunidade descriminação, exigindo reparações?


Perco tempo a ler o artigo. Para ficar a saber que não tem nada. E me decepcionar por ser mais um exemplo de criação de controvérsia onde esta não existe. Mais um artigo dizendo "olha o quanto a raça negra ainda é pouco reconhecida e descriminada", com base em nada de factos e muita opinião pessoal e distorção.

Entre outras menções, este artigo da Elle, escrito por... sei lá, talvez uma mulher negra, só pode ser tendencioso e seguir uma agenda própria. 

O subtítulo para esta "notícia" é: Trabalhando duas vezes mais, pelo dobro do tempo e sendo julgadas duas vezes mais severamente

Acham que sim? Viram alguma coisa durante a cerimónia que vos fez pensar: coitadinhas, trabalharam mais, o dobro, e são severamente deixadas para trás? Porque eu não concordo em NADA com esta afirmação. De resto, especulativa, não parece relacionar-se com nada, muito menos com a cerimónia dos óscares. 

Este artigo, que agora não consigo ler por ter atingido "o limite de 3" leituras gratuitas, diz, entre outras coisas que recordo, que acham INJUSTO e POUCO o número de mulheres oscarizadas negras (mas o prémio é entregue de acordo com talentos não pela cor da pele) ao mesmo tempo que diz que a costume designer que venceu o oscar este ano também já venceu antes, sendo a primeira mulher negra a receber dois óscares. Ora, ao mesmo tempo que está a salientar um marco único, mesmo assim, continua a bater na tecla de que "são muito poucas". São? Pois recordo muitas outras e, se estamos a falar de talento, e não de cor de pele, julgo que a distribuição da estatueta é justa. Se existir injustiça deve ser exatamente por a Academia ceder a pressões racistas e premiar alguém por ser negro. Olhem só o ano passado, em que toda a cerimónia foi realizada, produzida, orquestrada e apresentada por artistas negros. Foi o GRANDE APOGEU, o grande momento da etnia negra artística, que todo o ano subia ao palco para se queixar e para fazer os outros se sentirem mal. 2022 deu-lhes o que queriam: TUDO PARA ELES. E em troca, recebemos um comportamento de guetto. 

Falam disso agora? Analizam, por acaso, estas pessoas que falam sempre da raça negra no contexto da cerimónia dos óscares, queixando-se de descriminação, por acaso escrevem eles o que aconteceu quando a cerimónia foi "All Black?". 

Não. Claro que não. 

Só mencionam o que lhes interessa, mesmo não existindo uma ponta de verdade. 


 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um documentário recente


Estou neste momento a ver um documentário muito especial: Unarmed Black Man. (BBC)
Relata a «guerra» racial nos EUA actualmente, entre policiais e as famílias de vítimas que calhem ser negras. 

Mãe a segurar retrato do filho morto. Atenção ao detalhe não inocente
muito comum neste tipo de situação: mostram sempre uma foto de quando mais jovem.
O rapaz não tinham 8 anos, como na foto, não era uma criança mas um adulto de 18, à altura dos acontecimentos

Willian Chapman - foi o homem de 18 anos que acabou morto pelas mãos de um polícia de nome Steve Rankin. Desarmado, num parque de estacionamento do Walmark, um centro comercial, em Portsmouth, Virgina, EUA. O rapaz, negro, foi morto com dois tiros. A questão é que, pela cor da sua pele, é armado um grande circo. Juntam-se multidões, fazem-se T-Shirts, cânticos, etc...  

"Queremos Justiça. Já!" - gritam.

A justiça que clamam nitidamente só será considerada como tal se tudo terminar como exigem. 

É Santo -  dizem os que falam da parte da família e de raça.
Um rapaz deliquente violento com um anterior registo criminal juvenil - diz a acusação.


Steven Rankin - o policia que disparou os tiros, aparece a testemunhar neste documentário. Assim como a sua ex esposa e a actual mulher. A mãe do rapaz morto também aparece. Assim como a mãe de um outro rapaz, também morto, pelo mesmo polícia, 5 anos antes. 

E é isto que faz um BOM DOCUMENTÁRIO. Tem de se escutar ambos os lados. O documentário mostra partes do julgamento, realizado este mesmo ano. Existem testemunhas que relatam que o rapaz não ofereceu confronto, e outras que dizem que sim. Existe uma gravação em video em que o rapaz fala com o polícia de forma provocadora. 
-"Não vais usar o taser porque eu não fiz nada" - diz.
-"Tire as mãos dos bolsos" - diz o polícia.
-"Não vais usar o taser porque não fiz nada" - repete, provocativo.

O policial diz que o indivíduo fica violento e num movimento faz-lhe saltar o taser (arma que dispara uma corrente eletrica e imobiliza a vítima) da mão para o asfalto, o que o fez alcançar a arma e disparar. O vídeo não mostra esses 15 segundos. De acordo com os especialistas, ao cair ao chão, o taser desactivou-se. Pelos vistos a camara estava nele... 


O documentário recua 4 anos e revela que o mesmo policial já havia disparado para matar um outro indivíduo. Desta vez um rapaz, também desarmado, só que, de pele branca. De nome Kirill, originário do Cazaquistão. Nenhumas acusações foram tomadas na altura. O policia disparou 12 tiros contra Kirill que se encontrava bêbado, desarmado e estava a bater à porta de um edifício com intenções de entrar. Quem chamou a polícia foi uma sua amiga, dizendo que um indivíduo estava aos pontapés na porta.

O ex-comandante do policial diz claramente que ele é o tipo errado de polícia. Conta que o denunciou por exagero de violência e julgou que o iam demitir. A ex-mulher também afirma com todas as letras que ele é um tipo de homem que gosta de disparar. Já a actual mulher diz que é muito difícil, as pessoas o julgam sem o conhecer, refere que sofreu de imediato ameaças de morte e que no momento que a América atravessa, é muito perigoso ser-se polícia. 



Até entrevistaram os Júris... que são sinceros na forma como encararam os factos. Uns dizem que não foi uma questão racial. Outros dizem que sim. Um dos juris diz que podia ser um irmão ou um primo dele... certamente não se está a referir ao facto de serem da mesma localidade, mas na cor da pele. Logo, para ele, a morte do rapaz é uma questão de racismo. Ainda que a anterior vítima mortal do polícia tenha sido um jovem branco do cazaquistão, morto com 12 tiros, o que claramente contradiz a versão de "polícia racista".  

Em Porthsmouth, 54% da população é negra, 42% branca. Se quem dispara não é negro e quem recebe a bala é, grita-se racismo. Mas será mesmo isso que acontece? Reparem só nos números... 



Yelena, a mãe desse anterior rapaz morto também foi chamada, do Cazaquistão para os EUA, para estar presente no julgamento e fazer parte do circo mediático. A mãe de William dá-lhe a mão diante das câmaras, passa-lhe o braço pelas costas, não entende uma palavra do que esta diz mas vai logo concordando com a cabeça, dizendo que vão condenar o polícia e que a justiça será feita... Mais uma vez, mencionam justiça sem que esta pareça comportar como definição um resultado que não seja o por eles desejado. 

3 de Agosto de 2016: O jurí está reunido para dar o veredicto. Por unanimidade, o júri considerou o policia não culpado de assassinado de 1º e 2º grau mas culpado de homicídio voluntário. 

No WC do tribunal a familia do rapaz que começou a dizer ao policia que este não podia usar o taser e não removeu as mãos dos bolsos, canta de alegria. O policial condenado diz que vai tentar encarar tudo com profissionalismo. Os media continuam a seguir a família da vítima como se fossem superstars. A defesa argumenta que não foi possível apresentar o passado violento da vítima e que isso era essencial para mostrar que ele foi um indivíduo violento e mau. Diz um elemento do júri, uma mulher branca: Ele devia ter tirado as mãos dos bolsos quando solicitado e ele não devia ter reagido. Ele escreveu o seu próprio final

Outro júri, negro, diz que o juiz (negro) fez bem em manter-se com o essencial. Que tudo o resto não é importante.  

A mãe do jovem do cazaquistão está feliz com a condenação, faz as malas e parte para a sua vidinha, agora que já não é necessária. 

11 de Outubro: um dia antes da sentença. 
O policial ainda pode ser sentenciado a liberdade condicional. A expectativa é grande, para o policial e para a esposa. 

"Todos que tiram a vida de alguém merecem castigo. Tenho muita raiva e tenho direito a ela" - diz a mãe de William para as câmaras de TV. Sobressai nela e na sua comitiva um excesso de vaidade com a aparência. Surge toda emperiquitada, produzida em excesso em todos os níveis: cabelo, ornamentos no pescoço, uma espécie de teara nos cabelos, brincos gigantes, colar grande, saia minúscula...  


O juiz condena-o a 2 anos e meio de prisão efectiva. A esposa fica parada no banco, arrasada, chorosa, mas sempre com vestimentas simples. Cá fora a família de William e demais celebram a condenação do policia, efusivamente. Na sua casa, ainda toda emperiquitada, a mãe de William deseja que Steven passe muito mal na prisão, que seja atacado e sente-se feliz com a perspectiva deste se sentir miserável. Justiça - aparentemente. Na sua casa, a esposa de Steven mostra a bandeira policial, fala de como está triste.

Tudo terminou. Não. A família entra com um processo e vai receber uma indemnização de 1 milhão de dólares, embora desejasse mais. 

Ah, o vil dinheiro!!
Parece que existe sempre um preço a pagar... em moeda corrente.

Será que é por isso que aparecem tantos familiares, tanta gente, tantos amigos a dar «apoio»?? Estão sempre à espreita de algum dinheirinho fácil??

domingo, 28 de abril de 2013

Sabem como sei que não sou racista?



Bom, se nenhum outro caso servisse para o saber, tenho de relatar uma coisa que se passou comigo quando estudava no secundário. Estava a conversar com um colega por algum tempo, até que este se afastou. Fiquei sozinha mas logo outro apareceu e perguntou-me o seguinte:
-"Quem era aquele preto?"
-"Quem?"
-"Aquele preto com quem estavas a falar".

O meu cérebro ficou ali uns instantes sem entender nada até que de repente percebi e disse:
-"Ah! O António! Chama-se António, e foi da minha outra turma".

Bom, eu não sou cega, à que dizê-lo. Mas por nada fui capaz de associar aquela palavra com a pessoa com quem tinha estado a conversar. Agrada-me que a minha mente não fez logo essa associação. Acho que mais puro que isso não deve existir :)


PS: (O tema mais aprofundado fica para outro post)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O LUTO

AS VIÚVAS

Já não se vêm mais por aí: mulheres de idade vestidas de negro, de saias e lenço na cabeça, que povoavam as cidades como Lisboa. Morreram as viúvas.

Estas mulheres vestiam-se de negro após lhes falecer o marido e não trajavam outras vestes até elas mesmas verem a sua altura chegar.
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Simpatizava bastante com as mulheres de traje negro. A minha avó era uma viúva de marido vivo. Vestia-se de negro mesmo antes deste falecer, e assim permaneceu até o seu último suspiro. Eram talvez mulheres despojadas das vaidades que hoje vemos por aí. E se olhassem para o seus rostos, talvez reparassem o mesmo que eu: eram mulheres lindas.

Hoje já não se usa o luto. Não nas vestes. Mas sabem? Acho que se devia.

O luto é um sentimento de sofrimento que carregamos pela recente perca de um ente próximo. Antigamente usava-se, além do traje escuro, a fita negra no braço dos homens. Esta era removida pouco tempo depois mas, tradicionalmente, o luto devia permanecer nas vestes por um ano.

A primeira vez que me vesti toda de negro, desejo que acalentava à algum tempo, foi no meu 14º aniversário. Apenas há 15 anos atrás talvez, mas ainda assim todos me interrogaram: "Morreu alguém?" - "Não!" - respondi eu umas tantas vezes. "Apenas estou vestida de preto".

Surpreendeu-me nessa altura que uma pessoa não pudesse estar vestida de negro, que se assumia que era luto. Estavamos nos anos 90... uma professora espantada disse-me que era incomum por ser jovem. Aparentemente, jovens de 14 anos vestidos de preto só podiam estar vestidos assim em sinal de luto ou se calhar, por terem algum problema emocional profundo.

Penso que as mulheres de negro que povoavam as ruas de Lisboa e desapareceram há quase uma década, eram mulheres que carregavam as suas tradições. Mulheres criadas ou nascidas na província, vindas do norte, que davam mais valor ao sentimento que à vaidade. Antes delas, outras mulheres se vestiam de negro. Era assim e assim o faziam.

Hoje nada é assim. Nada relacionado com a morte é igual. Tudo mudou, mas não para melhor. Hoje tem-se mais receio, mais desconhecimento do que é morrer e o que é um cadáver. Quase que temos medo. Antigamente não. Mas este será um próximo tópico: a morte!

Porquê acho que o luto das roupas devia ser (também) usado e não esquecido? Porque ele é um símbolo, que revela a estranhos o momento pelo qual estamos a passar.
Porque avisa as pessoas que há que demonstrar um pouco de respeito pela dor.

Quantas vezes não estamos nós num dos momentos mais difíceis da nossa vida, vamos para as ruas, vemos todas aquelas pessoas a circular, a luz maravilhosa, o céu azul e pensamos: "Se soubessem! Como pode o dia estar tão lindo e eu a sofrer tanto"?

O luto é um pouco isso. É dizer sem falar que estamos a sofrer. É pedir respeito quando hoje este já não é dado. Porquê temos de estar a chorar para que estranhos se apercebam que sofremos? Porquê só o choro é capaz de alertar a solidariedade das almas alheias?

Isto partindo do pressuposto que ainda existem muitas almas solidárias. O que vi na minha geração a crescer foi miúdos cruéis, que gozavam com quem se mostrava vulnerável e ainda se punham a fazer intrigas. Solidariedade para com um estranho ou mesmo amigo? Onde anda?

Nos meus momentos de luto, não disse a ninguém pelo que passava. Sou introspectiva, tenho esse defeito. E assim, sofrendo em silêncio, algumas pessoas mais afastadas me achavam estranha nesses intantes. Desconhecendo a perca pela qual acabara de passar. Talvez devesse andar de luto, para dizer o que tinha de dizer, sem falar.