Metereologia 24 h

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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

A saída da melhor na casa

A rapariga do andar de baixo abandonou a casa. Foi uma decisão repentina, motivada por um comportamento do rapaz com quem ela até simpatizava. 

Contei aqui sobre o episódio em que o rapaz se embebedou. A forma como reagiu comigo no dia seguinte. Desde então não nos falamos. O que me incomodou foi eu tentar lhe falar, pedir mesmo para que parasse para me escutar e ele a ter a postura de quem não quer saber, de quem tem razão para me maltratar. Nesse dia ele e ela até se entenderam bem, a respeito da bebedeira que ele apanhou e que ela teve de aturar, certificando-se que ele ia dormir sem se magoar. 

O que eu não sabia é que ele ficou bêbado mais vezes. Numa dessas passou das marcas com ela, deixando-a muito desconfortável. Ela achou que ele passou dos limites da tolerância. Fez as malas e foi embora.

Descobri-o porque estranhei não a ouvir. Quando não vi os seus shampôos no WC, pressenti o abandono. Foi rapidamente confirmado ao abrir a porta da dispensa e vê-la vazia. 

E assim partiu. Sem nada dizer. Está já a viver noutra casa.

Senti-me triste. De todos, era ela a que eu mais gostava.

De todos os companheiros, achava-a a mais fácil de lidar, descomplicada. Falamos algumas vezes e não existiu incompatibilidade.

Na casa era arrumada, limpa, não se queixava, não exigia nada, se usava algo comum da casa devolvia de seguida, (ao contrário da M.) não pedia muito espaço para as suas coisas... era realmente uma pessoa simples com quem conviver.

Enviei-lhe uma mensagem querendo saber o que se passou. E foi assim, enviando textos uma à outra, que fiquei a saber o verdadeiro motivo da sua decisão em sair desta casa. Até então achei que estava a adorar cá viver e tinha no rapaz o seu companheiro favorito. 

É o que faz as pessoas guardarem tudo para si. Até tinhamos coisas em comum mas, compreendo-a. Também não gosto de partilhar coisas menos boas com outros. Acabei por fazê-lo - acabámos, aliás. Por estas mensagens que enviamos uma à outra por um período de duas horas. 


Ela foi embora por causa dele. E nada mais que isso. Disse-me que pediu à M. para se despedir de mim por ela. Nunca recebi tal recado. A M. sabia que ela foi embora mas nada me disse. Ao invés de me contar, só sabe falar mal do novo rapaz. Assim que me vê é a primeira coisa que faz. Começa logo com as queixas. Comecei a evitá-la, só para não ser puxada de volta para esse vértice onde ela também enfiou o JS. 

É certo que ambos deixam um tanto a desejar no que respeita a atitudes que se devem ter ao partilhar um espaço com desconhecidos. Mas considero a marcação serrada, o descontentamento imediato e abrasivo, algo desconfortável. Implicância instantânea com a qual não concordo.  Sim, ele não é cuidadoso como nós. Não é a melhor pessoa com quem se dividir um espaço. Mas a falar é que as pessoas podem chegar a um entendimento. Ou não... se eu fosse inteligente nesse departamento, não teria passado pelo que passei. Se calhar a M. tem razão e é logo para se cortar a coisa pela raiz, antes que tudo piore.

Quando perguntei à M. porquê não me disse que a rapariga abandonou a casa, não respondeu. Quando lhe perguntei porquê ela foi embora, disse-me que foi por causa do novo rapaz. Claro. Ela não responsabilizá-lo é que seria inesperado.


E é assim que estamos. Todos um pouco desconfortáveis mas a levar a vidinha. A casa tem estado numa sujidade tremenda. Bagunçada. Felizmente hoje a senhora da limpeza apareceu. E fez a diferença. A carpete foi aspirada, desapareceu a lama deixada pelas botas do novo inquilino. O chão da cozinha foi varrido - desapareceu migalhas de todo o tipo de produto e até rodelas de cebola e batatas fritas deixadas pelo chão. 


As marcas de líquido salpicado pelas portas do frigorífico foram esfregadas. E finalmente houve quem tirasse toda a louça do escorredor e a arrumasse nos armários.


Sim, porque a M., por mais que fale, tem a sua cota-parte de responsabilidade no desmazelo da casa. Ela deixa o seu kispo na cadeira, como se esta fosse cabide. Faz já mais de um mês. Se fosse qualquer outra pessoa a exibir este comportamento ela ia insurgir-se. Mas como é ela, tudo bem.... A julgar pelo estado em que recorrentemente deixa o WC e por ser ela que esteve o dia todo em casa na cozinha, vou também presumir quem sujou o frigorífico. 



Certamente foi ela que deixou um frasco de molho de carne vazar para a prateleira que a (agora ex) colega tinha acabado de lavar. Faz mais de mês e o líquido ainda está lá. O frasco "culpado" já saiu, mas as outras embalagens que ela ali mantém por teimosia e insensatez continuam mergulhadas naquela gosma. Quem é realmente asseado assim que vê sujo, vai logo limpar. Ela não. Mas sabe apontar o dedo aos outros.


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Dados viciados


Se fosse pedir um milagre antes do Natal, pedia para que a próxima pessoa que viesse ocupar um dos quartos nesta casa fosse decente, reconhecesse actos de maledicência, se revoltasse e, para variar, gostasse de mim.

É mesmo preciso um milagre! Sei que os dados estão viciados. É como desejar ter sorte no jogo mas não possuir dados normais.


O rapaz está de saída. O senhorio mostrou a casa a dois candidatos. Quando cheguei, estava cá o último. Não era italiano, mas foi indicado pelos italianos cá de casa. Sei disto porque não sou parva e a experiência assim o tem ditado. Não falha uma!

E o senhorio... anda muito esguio... como andou quando pediu aos que cá estão para arranjarem alguém para o outro quarto. Ele já nem procura, vai directo à fonte. As mensagens a avisar que vem mostrar o quarto são uma tentativa de ilusão para ajudar a ocultar o facto de que foram os italianos a indicar os candidatos. 

Já sabia que as pessoas que vinham ver o quarto seriam indicadas pelos que cá estão antes mesmo de ter percebido que o rapaz que estava a ver a casa, ficou cá depois do senhorio sair. Estava na conversa com o mais-novo! Na maior intimidade. O mais-novo mudou para cá à coisa de mês e meio mas já está infiltrado nestas operações "clandestinas". Lamentável. 

Era vê-lo, a sair do quarto e a dizer "Olá Portuguesinha" ao mesmo tempo que descia os degraus fazendo caretas, como que a dizer "anda aqui este a ver a casa". 

Como se não conhecesse o indivíduo!
A fazer-se de parvo...

Este candidato não era italiano e eu até prefiro que o próximo inquilino seja. Pelo menos teria isso em minha vantagem. Se aparece outro "convertido", já a pensar antes de me conhecer que sou péssima pessoa e decidido a não me falar - isso dá a entender que o problema sou eu. Claro, que nem me é dada uma hipótese! Os que cá estão tratam disso. Vão encher a nova pessoa de "mimos" e atenções, para a conquistar e converter. Afinal, não precisam de odiar mais ninguém, escolheram-me a mim como o seu alvo e jamais vão admitir que me degridem intensamente aos ouvidos de todos os que cá entram. 

Desta vez parece-me é que querem um rapaz!!
Italiano ou não-italiano. Talvez até prefiram um gay. Já que o que cá está também o é. Se antes eram só raparigas e o rapaz-que-vai-sair era o "rei do castelo", agora os candidatos são todos MASCULINOS. 

Creio que é porque a «sedutora» mais-velha dá-se melhor com esse género. Uma mulher pode gerar conflictos - principalmente se for mais velha e experiente. Uma miúda nova, como a anterior, a mais-velha converte com facilidade. A "vítima" nem sequer percebe o que a atinge. Este rapaz é gay, adora coscuvilhar - isso deu para perceber a léguas. Falou que falou da vida de toda a gente. Fácil, fácil de converter...

Deste não gostei. Viu-me e fingiu não ver, até eu ser muito directa e ele não ter senão como me cumprimentar.

Um lado bom é que estou cada vez mais indiferente a esta gente.
Tenho dias bons e dias maus. Ontem, foi um dia mau. Hoje, foi um dia bom, em que gosto de cantarolar pela casa.

Isso fez-me perceber que se calhar tem fundamento aquilo que dizem: "os outros só nos fazem mal se deixarmos". O problema é que não é assim tão simples. Sinto. Sou ser humano, tenho sensibilidade, e é natural que essa sensibilidade seja canalizada para o humor e estado de espírito. Não é todos os dias que, com a vida a correr menos bem, se pode cantarolar.

Hoje não foi um bom dia. Voltei ao emprego, só para ouvir que não vou ser mais precisa para o resto da semana. No emprego da tarde, não existe disponibilidade horária. Ou seja: vou ficar por casa! Sem ganhar dinheiro para pagar a renda. E vai ser assim provavelmente até o Verão!

Para somar a esta maravilha de situação, vem o Brexit e estou rodeada de gente tão generosa e atenciosa que faz o meu coração transbordar de.... indiferença. 

E sigo cantando. Quem canta, os seus males espanta.
Preciso cantar até perder a voz. 


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Mais um sumiço


Já é a terceira ausência de férias em que no regresso, constato que as gravações deixadas na box de TV foram eliminadas.

A mais-velha sabe que estou a gravar uma série inteira no intuito de a manter num disco rígido. Para esse efeito adquiri um aparelho que coloquei no móvel da sala. 

Nas férias de Junho, quando regressei, tinham, pela segunda vez, apagado todo o conteúdo da box.

Tal como tinha acontecido nas férias de Fevereiro

Como em ambas as vezes todo o conteúdo foi eliminado, quis acreditar que era coincidência. Embora também me lembrasse que quando vim para esta casa e aprendi a usar a box, encontrei gravações que datavam de 2016! Uma delas, o eurofestival da canção, a mais-velha atribuiu ao "gostos" da rapariga cujo quarto vim ocupar - dando um tom de censura e repreensão aos mesmos e dizendo não partilhar dessa preferência. "Eu não vejo isso!" - afirmou ela com cara de nojo. Este ano ficou na sala a ver o mesmo festival que disse desprezar, do início ao fim!!

Segundo ela, a função de gravação da box é "inútil" e não entende como alguém pode dar uso aquilo. Disse-me que ela nunca se servia da função gravação, por "não precisar" e "ver sempre" os programas que queria. Também disse que não entendia porquê alguém ia querer gravar fosse o que fosse quando tudo está disponível online. (não é nada assim, e expliquei-lhe que aquela série não estava, mas ela acreditava e insistia que sim). 

Se anteriormente tudo foi eliminado, nesta ausência de Setembro, mantiveram gravações de AGOSTO. E que gravações são essas? Séries que ELA está a ver!!

Tudo o que é série de romance, de época, tudo o que é reality show de culinária e todo esse junk TV mascarado de "erudito ou histórico", ela "papa" tudo. As receitas são sempre as mesmas (e não falo dos programas de culinária), mas mesmo repetidas até a exaustão, ela vê tudo. Sempre as mesmas formulas e histórias. Aliás, nunca vi ninguém consumir tanta televisão! Nem eu, nos meus mais dedicados dias.

Mas ela diz que não. Que muitas vezes só liga a TV para "escutar vozes".


Como esta série  tem 12 temporadas de vinte e tal episódios, até passarem todos e voltar ao início (a série por enquanto repete-se) passam-se meses. Mas eu vou insistir! Os actos mesquinhos dela só adiam ou perpetuam a minha necessidade. Quanto mais apagar, mais tempo vou precisar. 

Como tal, de Junho até ao momento, não liguei a tv na sala nem coloquei nenhum episódio a gravar. Por ainda não ter chegado à primeira temporada - aquela em que me faltam muitos. 

Ainda assim, estavam lá gravados 30 episódios de outras temporadas. 

Agora, com tudo eliminado excepto a série que ela vê, vou demorar ainda mais tempo para conseguir reunir todos os episódios e ficar com a série completa.  Mas não vou desistir, não lhe vou dar esse gosto.

Ela também voltou a desligar os cabos de ligação do meu aparelho. Para isso tem de ir atrás do móvel e puxá-los, tendo cuidado para não desligar nenhum dos outros. O cabo da tomada do aparelho, esse sou eu que só o ligo quando o vou usar. Pelo que o aparelho nem sequer está a consumir energia, pois nem ligado à corrente.

Ainda assim, ela tem necessidade de interferir e sente-se incomodada com a presença de algo meu na sala.

Deve estar feliz, porque a jarra decorativa, essa removi-a antes de ir embora.

Já as duas com flores naturais que cá deixei na minha ausência, continuaram no mesmo sítio, sem sofrerem manutenção. A murchar... Ninguém trocou a água. Nem sei se ela conhece que esse procedimento deve ser feito! Pois colocou um ramo de flores num copo ao lado, sem sequer remover a película em plástico, e também essa água está turva, esverdiada e quase evaporada. Nunca a vi compor flores numa jarra, ela simplesmente deixa-as a um canto.

E depois acha-se uma pessoa de classe.
Conhecedora de etiqueta.
Vende-se assim, mas as suas acções mostram quem realmente é.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A presença e a mensagem


Desabafei aqui noutro dia que me surpreendi com o ruído de alguém, uma mulher, a entrar porta a dentro e a gritar o nome de um dos rapazes que cá mora.

Desci para ver quem era pois a voz não era igual a nenhuma das mulheres que cá vive. Quem terá entrado nesta casa sem bater à porta? Sem qualquer cerimónia? Como se a casa lhe pertencesse?

Seria a mãe de uma colega?
(na altura os pais de uma das raparigas cá de casa estavam cá a dormir).

Não. Era a rapariga da casa ao lado, a tal que me infernizou a vida quando lá vivi temporariamente por umas semanas. A que deixava recadinhos escritos na porta do frigorífico, todos para me provocar. A mentora da "brincadeira" do mantimento desaparecido, a "chefe" da matilha e a mais barulhenta e desrespeitadora de todos na casa ao lado. A sua voz estridente e os seus gritos e berros são para mim intoleráveis. Felizmente, só os tenho de aturar da outra casa para esta. Sempre posso fechar a janela ou recolher-me do jardim para o interior. 

Antes mesmo de sair da casa ao lado, por saber que aqui vinha morar um jovem rapaz a trabalhar na mesma empresa que a histérica vizinha, temi que isso fosse um elo que a metesse novamente na minha vida. E temi o que vi acontecer naquele dia: que ela o usasse como pretexto para se infiltrar regularmente nesta casa

A vizinhança sempre existiu, mas não ao ponto de se frequentar a casa uns dos outros. Apenas sabiam da existência de inquilinos por se ter a senhoria em comum. Em mais de um ano, os outros nunca cá tinham entrado nem sabiam como a casa era ou quem cá mora. 

Imatura e mal intencionada como sei que ela é, cheia de joguinhos e indirectas, seria de esperar um comportamento destes. Sabe que não é bem vinda, pelo menos por minha parte. Claro que isso a faz desejar impor a sua presença com regularidade.

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Ontem, depois do emprego e de uma passagem pelo supermercado do qual trouxe mantimentos que pensei partilhar com os restantes, cheguei a casa e fui surpreendida por uma festa. Estavam todos a conviver, a comer e a beber, ocupando a sala, a cozinha e o jardim. Ao todo, quatro ou cinco outras pessoas. 

Temi de imediato a presença da histérica. E claro, não foi preciso esperar muito e ela apareceu. Toda produzida, no seu "melhor" comportamento, a lançar charme como toda a jovem com um palmo de cara julga saber fazer e a procurar conter-se no histerismo. Sei que sabe representar com eficácia porque tem de ser boa atriz para se manter no emprego que tem, lidando com o público de forma respeitosa e tolerante. Coisa que não é da sua natureza. Estranhamente, muito comum nas pessoas que partilham aquela ocupação. 

Não me cumprimentou. A sua "boa" educação resumiu-se a cumprimentar os que faziam parte da festa. E, claro, eu não fui convidada a participar. Mais uma vez, sou a que ocupa a casa mas não sou incluída. Logo no dia em que estava a pensar oferecer-lhes, mais uma vez, uns mantimentos que havia comprado e, quem sabe, havia a oportunidade de fazer uma refeição juntos.

Mas não deixei que nada disto me afectasse

Mal dava para me mexer na cozinha. Ao invés disso, fiz o que planeava fazer - com a excepção para o cozinhar um peixe no forno. Mais uma vez dediquei-me ao "jogo de Tetris" que é tentar encaixar os mantimentos na pequena prateleira de frigorífico que me cabe. Depois dessa morosa tarefa, decidi comer um pouco de salada e, usando o anexo à cozinha onde estão as máquinas de lavar que dá acesso também à lateral da casa perto do jardim, terminei a almoçar uma salada, posteriormente acompanhada com um copo de vinho tinto. E soube-me muito bem! Os ruidos da festa estavam num volume aceitável, quando se vai para aquela zona da casa. Adoro aquele cantinho. Disse que almocei e eram já umas seis ou sete da tarde, porque não pude comer antes. O trabalho foi tanto que nem ao WC fui.

Só uma das visitas se aproximou de mim quando estava na cozinha e falou comigo. Pressenti de imediato que seria a pessoa que vinha para cá morar - e estava certa. Ela logo me disse que seria ela a ocupar o quarto que vai ser vago pela rapariga jovem que não me cumprimenta quando entra num cómodo onde me encontro. 

Pareceu-me uma pessoa de bem e só posso esperar que o seja. A pesar de ser outra Italiana - o que significa que as conversas nesta casa vão continuar a se manter nessa língua, penso que vai ser uma troca para o melhor. A rapariga que vai embora nunca foi acolhedora. Pelo contrário. Desde que entrei nesta casa (e ela só entrou uma semana antes de mim) não exibiu comportamentos de pessoa acolhedora. Pelo contrário. Não me fala quando entra na sala e me encontro nela, quando me cruzo com ela no corredor e vou para cumprimentar, vira as costas ou quando é ela que aparece quando estou a passar, não me diz nada. Tenho cá para mim que, pelas costas, não hesita se puder me deixar mal vista.

Ela faz parte do "casal" e esse casal tem comportamentos esquisitos. Fiz um teste antes de ontem. Ao invés de ir para o quarto e descansar, fiquei pela sala até quase às 8 da noite. Quis ver se eles se iam reunir como habitualmente naquele espaço ou se, por eu ali estar, ia cada qual para o seu quarto. Durante muito tempo, mantiveram-se nos quartos. Eventualmente uma desceu e começou a cozinhar. Mas o casalinho, esse, manteve-se de portas fechadas, a ziguezaguear por entre os dois quartos que lhes pertencem, um no andar de cima, outro no de baixo. Nunca entendi como é possível ficar uma hora nisso mas, esse é um assunto à parte. Eventualmente, sentindo-se "apoiados" pela presença dos restantes, entraram na sala quando eu ia a sair. E o convívio entre eles deu-se naturalmente daí a diante.

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Não sei quando a festa terminou. Adormeci que nem uma pedra. Não sei se alguém ficou cá a dormir ou se todos foram embora. Nessa manhã despertei cedo e apeteceu-me de imediato começar a preparar o peixe para assar. Desci à cozinha, pus legumes a cozer. Descasquei cebola. Aos poucos, fui preparando o almoço. 

Numa dessas andanças reparo no quadro a giz, onde tenho conseguido que fique apenas um desenho humorístico. A histérica decidiu deixar dois recados escritos: "eu amo os meus vizinhos" - uma forma de me provocar, ao mesmo tempo que tenta garantir mais convites para entrar nesta casa. O outro apenas dizia: "(nome) loves you!" -  o que pode ser interpretado como "eu amo-te" ou eu "amo-vos". Qual a interpretação? Deixou ali o nome de propósito, isso nota-se. O intento bem pode ser impor-se a mim como impor-se ao rapaz. Como se não fosse suficiente referir-se como «vizinha» no escrito anterior para se identificar. A língua inglesa não especifica o(s) destinatário(s) na frase "I love you" mas a ter em conta o espanto do rapaz quando se deparou com aquele dizer, penso que ele interpretou aquilo como uma mensagem directa a ele. 

O que pode bem ter sido. 
Vários coelhos numa mensagem só... não fosse ela dada a deixar escritos indirectos para atingir certos fins. 
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Não deixei que me afectasse. Ela colocou ali o nome dela, impondo-o aos meus olhos, como uma provocação mesquinha. Uma forma indirecta de invadir a casa mesmo quando não cá está. Ao mesmo tempo que seduz os restantes para se tornar uma presença constante. O que poderia fazer para a remover dali? Não me incomodei se ali ficasse. Não ia deixar me afectar por tamanha infantilidade. É só um nome num quadro. Por mais que ela invada esta casa e tente que a sua presença seja regular, quem cá vive sou eu e ela é visita ocasional. Pelo menos por enquanto.

Na casa onde vive ela é rainha. Manipula as situações e manda em todos, que fazem exatamente o que ela quer. Ela faz tudo o que lhe apetece, sem respeitar ninguém. Que fique por lá. 

Penso que será apenas uma questão de tempo até o rapaz se cansar e a aparente simpatia e beleza que ela não possui senão como máscara, acabe por se tornar visível. 

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Após cozinhar, sobrou-me muita comida. Pensei de imediato em partilhá-la com os restantes. Mas teria de esperar que entrassem em casa para lha oferecer. Foi então que se fez luz. Porque não deixar um recado escrito no quadro?

Foi o que fiz. A esponja passou por cima das mensagens de amor e do nome da intrusa. E tudo voltou ao normal. Até a próxima investida... porque ela não vai desistir.

sábado, 7 de julho de 2018

Truques de magia caseira


Desapareceu um frasco do frigorífico. No seu lugar está outro frasco, mas aquele que me pertencia não está mais lá. Procurei em todo o lado, até no segundo frigorífico, que nunca antes tinha aberto.


Que importância tem o desaparecimento do frasco?

Fico aqui a pensar. Se devo dizer alguma coisa, ou fingir que não dei por ele ou não dar importância. São coisas pequenas como esta que podem escalar para uma convivência desagradável.


Nunca antes havia desaparecido algo no frigorífico. Coisas eram mudadas de lugar constantemente. Praticamente assim que as colocava nas prateleiras da porta, por falta de alternativa. Alguém decidia tirá-las de lá e enfiá-las à força na minha prateleira, já a abarrotar e sem espaço algum. 


Pensei estar a dividir a casa com pessoas mais tolerantes. Capazes de sustentar a presença de um frasco numa parte do frigorífico que devia ser em comum com todos.

E depois verifico pelos comportamentos que não é nada disso.

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O problema é que, quando estive na outra casa, também desapareceu uma coisa do frigorífico. Antes de perguntar se alguém a tinha visto - pois num frigorífico partilhado alguém podia ter mudado algo do lugar - procurei exaustivamente. Esvaziei a prateleira totalmente. Procurei no outro frigorífico, por toda a cozinha e nos caixotes de lixo.

Escrevi uma nota perguntando se alguém tinha visto. Não acusei ninguém, apenas perguntei. Como resposta o objecto miraculosamente apareceu, e nele escreveram: «esteve sempre aqui, da próxima vez procura melhor».

Mas não esteve coisa alguma.

Entendi que me tinham estendido uma armadilha. Queriam fazer passar a ideia de que eu era aquele tipo de pessoa que acusa as outras do desaparecimento de algo que sempre esteve à sua frente. Uma reputação que não podia estar mais longe da pessoa que sou. Antes de perguntar por algo desaparecido, procuro-a e não levanto falsas suspeitas.

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Não quero estar a cair noutra semelhante. Até porque, descobri este desaparecimento dois dias depois de ter apanhado a mentora daquela armadilha dentro desta casa, entrando sem cerimónias pela porta deixada destrancada e invadindo o espaço como se fosse seu.

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Somos cinco nesta casa a dividir os mantimentos por dois frigoríficos pequenos. Foi-me atribuída uma prateleira. Por sinal, a menor em altura. Costumava chegar a casa toda feliz contando a todos que tinha comprado mantimentos a bom preço e os partilhava com gosto se precisassem. Nada mais natural que precisasse de um pouco mais de espaço, temporariamente. Numa dessas ocasiões em que entrei em casa e vi alguém, perguntei se havia alguma hipotese de arrumar uns congelados numa gaveta mais vazia. A resposta foi:


-Tu compras demasiada comida. Temos direitos iguais. Tu tens o teu espaço e ninguém pode ter mais que os outros".

- Ok, ok, entendi. Eu viro-me. 

Nunca pude contar com outros mesmo. Mas por a porcaria de um pequeno espaço durante um dia no frigorífico... foi a primeira.

Contudo fiquei a pensar nas suas palavras: "Direitos iguais". Espaço igual...

Onde?

Estava claramente em desvantagem por qualquer ângulo da situação.

Os dois congeladores são compostos de seis gavetas, três em cada. Somos cinco, sobra uma. Alguém tem de estar em vantagem. Os frigoríficos têm três prateleiras cada, mais uma gaveta, mais espaços na porta. A mim foi-me concebido apenas o espaço de uma prateleira. Quem está a usar a gaveta e as divisões da porta?

No wc não tenho sequer um rolo de papel higiénico. É um wc de boas dimensões, com arrumos e está cheio do chão ao armário. Nunca ninguém me apontou um espaço e disse: "esta área está designada para ti".

Portanto aquela conversa em tom acusativo dando a entender que eu queria mais para mim tirando dos outros, não podia ser mais desadequada.

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Estou a pensar não dizer nada sobre o frasco de molho que sumiu do frigorífico e no seu lugar surgiu um com pickles.

QUAL a vossa opinião?