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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Cortar pessoas... quem é o próximo?


Dei por mim a perceber que queria falar com o homem que me dá boleia do emprego até ao parque do supermercado. E não gostei de perceber isso. Acho que ele terá de ser um dos que "vou cortar".

A última vez que ele me deu boleia, foi no dia 29 de Outubro, aquela que mencionei aqui. Foi ele que ma ofereceu por mensagem, sem sequer me ter visto no emprego. Nessa noite que ele ficou a conversar comigo no parque de estacionamento até depois da meia-noite, mostrou-me fotos da sua viagem em família e contou-me muito sobre si. Daí para cá, têm existido troca de mensagens, todas elas começando pela oferta da boleia. 

Desde que fui seguida por um indivíduo numa dessas ocasiões em que não apanhei boleia com ninguém e fui a pé, pensei em contar-lhe. Na segunda-feira, ele viu-me no trabalho, chamou por mim e falámos brevemente. Nessa noite porém, preferi apanhar boleia com uma colega que me deixa a meio do caminho e o resto faço a pé. Na terça-feira, também foi ele que meu viu sentada na área de convívio e cumprimentou-me, embora eu tenha estranhado a frieza. Nem parou, continuou percurso - o que nunca antes tinha feito. Tal como na véspera, no final do turno, se eu esperasse um quarto, meia-hora, ele disse-me que podia dar-me boleia. Mas preferi vir a pé e enviei-lhe uma mensagem nesse sentido. Ele ligou-me, para dizer-me que estava perto e perguntar se eu já tinha saído. Disse que sim, que me apetecia caminhar e que não queria que ele se apressasse. "Eu nunca tenho pressa" - respondeu-me. 

Ainda me perguntou se queria que apitasse se me visse a caminhar na estrada no seu regresso, mas respondi-lhe que não devia ver-me, pois tinha cá para mim que ele ia demorar-se e pelo tempo que ia levar, eu já devia estar perto de casa. Decido entrar no supermercado para uma compra urgente (mais um grande doce de chocolate quase todo comido nessa noite) e nisto acho que o vejo num dos corredores. Era bem possível, já numa outra ocasião encontrei-o ali. 

Decido cumprimentá-lo. Ele mostrou quase indiferença e pareceu não querer conversa, continuou a olhar para as embalagens de comida que segurava, aparentemente indeciso quanto ao que levar. Já na primeira vez que o encontrei no supermercado, logo no dia a seguir à primeira segunda boleia, altura em que me contou que pela manhã ia justificar-se sobre um incidente no emprego, ficou claro que não queria muita conversa. Bastava-lhe um simples cumprimento, algo quase imperceptível, de colegas que não trocam mais que isso em palavras. 

Também com vontade de chegar a casa, não puxei conversa, não perguntei se havia chegado à muito tempo, se me viu na estrada... Decidi deixá-lo em paz e despedi-me: "Bom, vemos-nos amanhã... ou não". E fui embora. 

Antes das 11h da manhã seguinte um novo SMS dele: "Olá. Chego tarde esta noite e eles querem que faça um pouco mais de horas. Provavelmente vou terminar pelas 23, 23.30. Se ainda estiveres por perto, és bem vinda a uma boleia". 

Uma coisa que registei na grande conversa que me deu naquela noite no parque de estacionamento, foi ter-me dito que, se achasse que eu lhe dava sinais de interpretar a boleia como outra coisa ele ia inventar uma desculpa e dizer que já não estaria disponível. 

Disponível ou não, eu é que não quero confusões. Chega-me aquela pela qual passei, que até hoje não sei o que me atropelou. Já lhe disse que pego boleia dele se o vir no trabalho. Se não o vir, não conto com ele. Não me parece bem. Ao que ele respondeu: "Somos amigos, não tem problema, eu dou-te boleia". 

O que percebi é que já tinha coisas que lhe queria contar, não pude e já estava a adiar essa ideia para uma melhor ocasião. NÃO GOSTO DISSO. É-me demasiado familiar. E depois... se ele é todo afável dentro de um contexto e não o é diante de outro em que há pessoas e/ou CCTV por perto... dá que pensar.

Por via das dúvidas... só com uma vara de 10 metros!



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O tipo da boleia


Tenho de tomar cuidado com o parque de estacionamento do supermercado.
Então não é que passei outras duas horas na conversa??

O homem que me deu boleia do emprego até casa perto de onde moro, o tal que mencionei não parecer interessado em nada mais que ser simpático, deu-me novamente boleia. Ao chegar ao destino - o parque de estacionamento, ele quis mostrar-me fotografias das suas férias em África. E saiu-se com uma novidade: é casado. E a esposa vive lá. Já não a via fazia alguns anos. Problemas com o visto. Depois separaram-se e agora, segundo me contou, reconciliaram-se. Está apaixonado e pretende lutar para que a esposa consiga o visto.

Entre outras coisas, fala-me da família, dos filhos, ele é pai e mãe de ambos. Cria-os sozinhos. Foi violento na juventude, ia rumar para uma vida de crime até que se alistou no exército, onde ficou 9 anos. Foi há bósnia e a uma série de países de conflicto bélico. Agora está a trabalhar no mesmo lugar que eu.

Notei que precisava de conversar. Muito. Como se não tivesse oportunidade de o fazer com ninguém. Eu não me incomodo. Gosto de ouvir histórias de vida das pessoas. Gosto verdadeiramente. Contou-me tanta coisa em duas horas!! Eu estava com vontade de ir ao WC, desconfortável por uma embalagem de leite que comprei no supermercado estar a verter da minha mochila para as minhas pernas. E com vontade de abrir a janela, devido a um cheiro estranho que vinha da viatura. Mas fiquei a escutá-lo falar da sua vida, que foi da adolescência até ao presente, passando pela família, pais, avós, irmãos, filhos, ex mulheres...

Há tanta gente com vida vivida, em cheio, em pleno, como se fosse num filme. Comparando com a minha, nem sequer existo.

Também foi muito franco a respeito disto das boleias, e da forma como pode ser mal interpretado. Confesso que fui a caminhar para o carro dele a recear sentir que ia fazer um avanço. Ele mencionou isso. Percebi que tem muito tacto para estas coisas, pois soube sempre mencioná-las na altura certa. Disse-me que quis mostrar-me as fotos da família e da esposa, para que eu soubesse, sentisse mais à vontade.

Ainda assim, terei cautela.
Ex soldado, treinado para matar, ex cabeleireiro, ex criminoso, origens ciganas, pai e mãe de dois adolescentes... Uma história e tanto.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Ir de boleia para o emprego


Queria apanhar a boleia com o cabelo solto. É tão rara a oportunidade de andar com ele dessa forma. Mas não vou. Porque ele gostou de me ver assim e já me enviou uma mensagem a dizer que sou engraçada e o faço rir.

Não vou cair nessa novamente. Nem dá.
Ele não é o outro e, se alguém mais aparecesse, tinha de possuir algumas características que todos os que me apanharam o coração tiveram em comum. O que é raro de aparecer. E mais raro ainda, encontrar quem tenha esse denominador comum e não seja cruel na sua natureza.