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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Poema sobre o Natal pelo parecer de Gedeão



Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.


É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes.


De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica
.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.


Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha salta da cama,
corre à cozinha em pijama.


Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus, o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam que caíam crivados de balas.


Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão, (1906-1997), in 'Antologia Poética'

domingo, 19 de junho de 2016

Do casamento à pedofilia


Noivos de Sto António


Deve ser uma estoupada, passar o dia todo no ritual de um casamento coreografado e televisionado que, ainda por cima, é dividido com outros 15 casais. Mas ainda assim achei imperdoável os noivos não se olharem no rosto quando trocam os votos. "Eu, fulano/a, te recebo XPTO por minha/eu esposo/a e prometo amar-te e respeitar-te até o último dia da minha vida" - lol. Right!

Se nem se olham na cara ao dizer isto, está-se mesmo a ver que os votos são verdadeiros, eheheh!



Conselho; para a próxima aproveitem melhor esse momento. Sintam-no mais como o vosso momento e não apenas um ritual chatérrimo que repetem com gestos mecânicos e voz aborrecida ou nervosa mas, tirando isso, sem outra emoção.


ALGARVE
Fico com a sensação que o All-Garve é, desde há uns bons anos para cá (25 sensivelmente), um óptimo refúgio para pedófilos estrangeiros. Parece que ao se estabelecer uma comunidade de imigrantes aposentados com algum dinheiro, além do que é bom também aparece muita coisa má. E quando uma comunidade se fecha em si mesma - haja ou não dinheiro ou boa formação - nunca dela sai algo especialmente de bom.





sexta-feira, 1 de abril de 2016

Recordar um blogger

Quando me iniciei neste mundo, um dos primeiros blogues que comecei a ler com gosto e assiduidade foi Escritos Outonais - cujo autor, António Melenas, um senhor dos seus muitos e tantos anos, descreveu Moscavide e outros lugares por onde cresceu na década de 40/50, como se viveu naquele tempo e  como foi o seu encontro e o da família com a PIDE.  

Gostava de o ler e tenho recordado isso. António faleceu em 2008 e embora tenha encarregue o neto de terminar de publicar o seu texto, tal não veio a acontecer. Ainda assim, o blogue não foi deletado e, como pretendia em vida, a sua história está ali, aqui, no ciberespaço, registada para a eternidade. Pelo que vou prestar uma homenagem à sua memória e apresentá-lo a vocês, que provavelmente não o conheceram. 

Espreitem, que eu acho que ele lá no além está a torcer por isso :)