Encontrei dois antigos colegas no supermercado e começamos a falar. Eles continuam no mesmo lugar, do há três anos já se queixavam que queriam sair, não aguentavam mais. São sempre os que falam alto que nunca mudam, por isso não me surpreendeu sabê-los ainda lá. Nem um pouco. Perguntaram o que eu fazia, eu respondi. Perguntaram se eu gostava. Respondi, muito com o coração:
- I love my job. Love it, love it, love it!
O cupido sádico, aquele anjo-demónio que está sempre de ouvidos em riste à procura de saber o que nos faz feliz para a seguir nos tramar, ouviu. Tão certo como eu ter pronunciado estas palavras tão verdadeiras, aquele foi também o último dia que trabalhei na empresa, sem o saber.
Soube hoje, quando lá cheguei, que tinha sido dispensada.
Nunca mais, mas nunca, nunca, nunca mais.
Vou evitar ao máximo.
Dizer que gosto de alguma coisa...
Demonstrar que algo me deixa contente, feliz.
Assim que abro a boca para o expressar, tudo se desvanece. Chiça.
Parece que cada vez que tenho algo, quase ao meu alcance, subitamente, puft! Desvanece-se no ar. Foi "ele" tão súbito, é agora o emprego onde o chefe me disse tanta vez que pretendia me manter e garantiu que me queria neste mesmo dia. Só para isso regressei de Portugal. Feliz. Com saudade de labutar. Vontade de meter a mão no trabalho. Ah, a ironia!!
Com os receios do virus simplesmente a carga de trabalho na empresa diminuiu drasticamente.
E quem não faz parte dos quadros, "dança".
Corona: deve ser esse o nome desse anjo-demónio!
A partir de agora já sei que nome lhe dar.