Sou crente de que nenhuma morte é em vão.
Acho que todas servem um propósito.
Quando soube do incêndio em Pedrógão Grande, que vitimou 64 pessoas imediatamente senti que a morte de tanta gente ia servir um propósito. Esta ia ser a tragédia que ia mudar para sempre o trajecto que todos os incêndios com vítimas mortais há anos percorriam em Portugal: falava-se 5 minutos no noticiário, depois tudo era esquecido.
É a vida de um casal idoso numa aldeia qualquer menos valiosa do que a de um jovem, quando ambos partilham como causa de morte fogo gerado por um incêndio? Não. É tudo a mesma coisa.
Mas os nossos olhos não queriam enxergar. Não estavam a saber ler os sinais.
Então Deus enviou mais sinais. Rajadas de vento fortíssimas. O céu a ir de sol brilhante para escuro de tempestade. Foram horas de aviso antes do tal relâmpago cair e causar aquele fenómeno natural que apanhou toda aquela gente numa estrada rodoviária.
Pela primeira vez, não foi um fogo com mão criminosa que resultou na morte de seres humanos, animais e danos materiais. Foi uma causa natural. A «mão» de Deus...
De alguma forma, isso trouxe-me muito consolo. Detestaria saber que o responsável é uma pessoa como eram todas as que teria matado, com um rosto e um nome. Ia ficar a sentir raiva. Talvez ódio. Sentimentos que não ajudam a nada no processo de cura/aceitação.
Não existiu mão criminosa. No entanto, foi neste caso que o Estado Português viu-se forçado a apresentar condolências e a indemnizar familiares das vítimas.
Porquê? Pelo número de pessoas que faleceram, para começar. Duas, três, meia dúzia numa localidade qualquer no interior, era coisa que não estava a ser eficaz. Eficaz para os responsáveis questionarem a eficácia dos meios que têm à disposição e do sistema que elaboraram para combater incêndios. Mas, até mais importante do que combatê-los - porque, por vezes, nenhum esforço humano consegue dominar esse inferno, somos impotentes diante de ventos e chamas - o MAIS IMPORTANTE é saber como salvar pessoas e bens. Tudo pode arder. Custa. Mas se todas as vidas humanas e não só se salvarem, então teria sido uma operação de socorro bem sucedida. E é isso que tem acontecido ao longo destes anos? Não me parece.
Era preciso chamar a atenção para esse facto. E nada estava a dar resultado.
Um fenómeno natural causado por únicas condições atmosféricas veio a alterar isso. Sessenta e quatro pessoas faleceram. E quem eram estas pessoas? Deixaram de ser locais. Pessoas "Presas" pelas chamas. Mas familiares, amigos e conhecidos de Portugal Inteiro.
Toda a gente a telefonar a toda a gente, filhos nas grandes cidades a tentar ter notícias de familiares na zona, naturais da região aflitos e com coração apertado. O incêndio não apanhou só gente local. Apanhou pessoas oriundas de muitas partes do país. Julgo que até um turista - não tenho a certa se foi de facto, se foi invenção.
Apanhou o colega de trabalho, o amigo de infância, o filho do irmão, a mãe da melhor amiga, gente oriunda não só da zona, mas da cidade também. Afectou tanta gente que os olhos não podiam mais ficar fechados.
Se me perguntarem porquê Deus "permite" que se morra assim, não vou dizer que temos um Deus cruel. A vida é cruel mas Deus é misericordioso.
E não foram mortes misericordiosas. Poderia Deus ao menos ter concedidos-lhe isso? Podia. A alguns, talvez, tenha «suavizado» a travessia até junto D'Ele. Mas aqui também acredito que, antes de encarnarmos, já nos comprometemos a certos sacrifícios, onde se inclui uma morte trágica e dolorosa, que será recompensada com a eterna felicidade. "É uma eventualidade. Topas?" - pergunta Ele antes de nos enviar a caminho.
A maioria lá na paz do céu deve responder sim.
(é algo em que acredito).
Uma vez vi um programa sobre milagres e fenómenos inexplicáveis onde uma pessoa relatou que, enquanto estava a ser queimada viva num carro em chamas, "Uma voz" avisou-a momentos antes que isso ia acontecer e que ia ser muito sofrido, mas que ia salvar-se. Ela disse que conformou-se com o sucedido e que sentiu a presença de Deus o tempo todo com ela. Sabia que mesmo que viesse a falecer, seria acolhida na eterna graça do Senhor.
Outros programas fizeram-me acreditar que existe um sentido para todo o tipo de morte e circunstância com que esta possa acontecer. Perguntam-se para quê serviram as da 2ª GG Mundial? Não sei... parecem-me ser em demasiado número para tão pouca lição tomada desde então.
Mas pergunto eu: será que foi mesmo lição pouca? Não teria sido muito pior, não poderíamos nós, seres humanos, ser já uma raça extinta se não fosse por uma tragédia tão grande? Se não fosse pela explosão de uma Bomba Atómica que veio a mostrar ao mundo o seu poder devastador?
Não nos teríamos já morto uns aos outros e erradicado com o planeta?
 |
Há 73 anos, 6 de Agosto de 1945
Isto aconteceu no planeta Terra |
Acredito que cada morte e cada circunstância tem uma lição para ser tomada. Até mesmo a de crianças inocentes. Muitos são rápidos a dizer: "Deixei de acreditar em Deus porque nenhum Deus ia permitir a morte de uma criança inocente!".
Mas essa criança inocente antes de encarnar, deve ter concordado com o seu «sacrifício». (Mais uma vez, programas que vi). Algumas parecem ser de uma bondade pura. Tão pura como se fossem anjos na Terra. E anjos sacrificam-se pela humanidade.
Vi também alguns programas sobre homicídios. Nos quais crianças inocentes sofrem terríveis problemas de saúde ou de risco de vida, terminando por ser salvas. Os pais deliram de agradecimento perpétuo. É melhor do que ganhar a lotaria mil vezes. Tinham um filho em risco de vida, que se salvou.
Anos mais tarde, o pai que retirou dos escombros o filho quase moribundo foi assassinado à facada por esse mesmo filho. Que a seguir matou também a mãe e a irmã. Um outro, bebé ainda, com uma doença em que não era suposto ter sobrevivido nem sequer 24 horas, cresceu para se tornar um homem. Mas desde que era criança que tinha comportamentos sociopatas. Matava animais, era violento, fazia ameaças de morte muito graves, enchia de terror e pavor a própria mãe. Até que cortou a garganta da esposa, que "ousou" querer abandoná-lo para fugir às suas manias de controlo absoluto.
Se calhar, por vezes, um inocente não é suposto vingar.
Mas não creio que nenhuma morte seja em vão.
Todas servem um propósito maior, de constante aprendizagem. Se não for merecida para a pessoa que a perdeu (pois essa decerto não aprende nada se não permanecer viva) é certamente uma lição para aqueles que os rodeiam. Para a humanidade.
Existe muita crueldade no mundo. Por vezes esquecemos-nos disso. Tem de ser, ou seria difícil viver o dia a dia. Mas também temos de ser confrontados com ela para a saber combater.