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quinta-feira, 7 de maio de 2020

O bom humor da gorda


A mais-gorda está bem humorada hoje. Não preciso de mais nada para saber que a conversa com o senhorio correu-lhe muito bem.

Ele esteve cá ontem, antes de ontem, no dia antes disso, etc. Mas sempre comigo ausente. Pura conspiração. Conversar comigo, comonlhe pedi, isso não lhe interessa. Fez a sua escolha: escolheu dinheiro sobre princípios.

O que não vos contei é que, antes de ontem, no dia 5, confrontei-a.

Ela enviou-me uma mensagem a avisar que deixei cair uma luva no WC. Ou eu ignorava ou reagia. Não à luva, mas ao descaramento de interagir comigo como se nada se passasse quando na vespera disse ao senhorio para me remover da casa.



Desci e disse-lhe:
Olha, vou fazer contigo uma coisa que tu nunca fizeste comigo: vou falar-te na cara.
Tu pediste ao senhorio para me tirar desta casa.

Negou. Disse que lhe disse que nenhum amigo dela quer viver nesta casa comigo, porque eu era estranha.

Ao dar a entender ao senhorio que eu era o entrave para ele encontrar pessoas para os outros quartos, ela deu o golpe certeiro, foi diretamente ao bolso deste, que é onde ele tem o coração.

Muito manipuladora. Mestre.

Sei agora que não devia ter-lhe falado, porque ela ficou a ruminar em cada aspecto do que lhe disse e tratou de anular cada argumento com outra armação. O espetáculo deve se ter dado ontem de tarde,  quando a plateia/senhorio chegou.

Este enviou-me um sms a perguntar quando era conveniente ou inconveniente entrar no meu quarto para tirar fotografias as alteracoes feitas. Sei muito bem o que pretendia. Nao me ter por perto para combinar uma nova estrategia diante dos novos acontecimentos. (Eu estar a par da tramoia).

Ela disse-me que nenhum dos amigos dela gostam de mim. Ao que lhe respondi:
-eles não me conhecem.

Ela ficou com um ar pensador.

Alguns nem dizem "oi". - acrescentei.

No meu entender para se gostar oh nao de alguem ao menos alguma interacção deve existir. Assim a implicância de todos eles, sejam 2, 20 ou 200, foi-lhes implantada no cérebro por ela. E disse-lhe assim:
-"isso é porque a todos eles falas da terrível portuguesa que vive nesta casa".

Tenho a certeza que ela viu uma "abertura" para a razão penetrar pelas suas mentiras e tratou de arquitectar alguma coisa para refutar este meu possível argumento com o senhorio. Porque ela ainda temia isso.

Mas este está conquistado.

Tenho a desconfianca que ligou para o único amigo que realmente é dela  (os outros vieram com os outros italianos e ela apropriou-se) para que este confirmasse com o senhorio, em inglês  a terrível portuguesa que cá vive.  O tal Pedro, que apagou do quadro da cozinha o meu desenho e mensagem de amor e compreensão deixando no seu lugar um falo.

Só classe!!!

"Ele também me disse que eu também teria de sair" -mentiu.
"Acredito mesmo nisso, fulana"- respondi-lhe.

Acabei a conversa a dizer que mesmo que o senhorio me disesse que a casa estava vazia e me pedisse para ficar nela, não ia querer. "Para mim a casa é veneno"- concluí.

Este diálogo aconteceu na presença dos dois italianos que restam. Que fingiram nada ter a ver com nada.

E nao foi dito aos gritos, nem com violência. Nao foi prolongado. Também me queixei de me colocar à parte em particular nos momentos especiais, como pascoa e natal.

"Eu nao estou cá no Natal"- respondeu.

Pois... para ela o Natal é o dia 25. O que faz Antes e depois não conta. Montar a arvore de natal so entre italianos, comigo em casa, tendo mostrado interesse em participar, não conta. Pendurar meias de natal na lareira com presentinhos para todos menos para mim - Não conta. Desprezar a fatia de bolo de rei que lhe dei, deixando-a por dias em cima da mesa.... Não conta.

Querem-me dizer que todas estas atitudes contribuem para a harmonia e bem estar numa casa partilhada?

O meu erro foi ter ignorado/relevado TODAS.
Agora é tarde.
Toda a razão que tenho foi substituida pela intriga, que foi bem orquestrada, semeada com cslma, como quem planta sementes para verem germinar mais tarde.

Eu vi, pressenti e entendi isto tudo, sem nada fazer. Só esperando que melhorasse finalmente, um dia, por eu não ser má pessoa. E talvez alguém lhe fizesse frente e a visse por aquilo que realmente é.

A conversa que tive com ela foi gravada. Mas de que adianta? Se ela contar a sua versão, dizer-se assustada e com medo dos meus rompantes violentos, e escudar-se no apoio dos colegas italianos nem uma gravação importa.

E foi isto. Agora o que realmente me preocupa é o emprego. Já estão a cancelar todos os turnos. Não vou conseguir sustentar-me assim. A renda  vai subir, os empregos vao escassear.

E ela escolheu expulsar-me desta casa com as suas armações logo a seguir à pascoa e em plena quarentena de um virus que paralizou os serviços e a economia.

Está neste instante ao telefone a rir muito. Está de bom humor. A arquitectar o que se segue. O senhorio deve ter-lhe dito tudo o que ela queria ouvir.

E por esta altura ja deve ter percebido que os meus dias de ir trabalhar todo o dia ja  terminaram. Sabe que voltei a quase nada.

Deve estar ainda mais feliz.

O que é que este tipo de pessoas merece?
E porque nada lhes acontece para as punir pelo mal que espalham?




quinta-feira, 4 de julho de 2019

Falar, calar, comunicar e manguito


Falar ou calar? - Pergunta deixada neste blogue.

Esta questão motivou-me a vir aqui escrever sobre este lado da natureza humana: do falar e do calar.


FALAR:
Na viagem de autocarro ontem de noite, entrou um passageiro com aspecto de morador de rua e lentidão nos movimentos. Comprou bilhete com o motorista e enquanto lentamente colocava o bilhete na carteira  fez um comentário qualquer. 

O motorista parou o veículo, perguntou-lhe se estava bêbado e disse que queria-o fora dali, que recusava-se a transportá-lo. Portanto, ou ele saia, ou o autocarro não andava.

Quase 23h da noite. O autocarro cheio de pessoas ansiosas para chegar a casa. Todas a querer ver o autocarro a mexer. O homem, ficou parado e imóvel no mesmo sítio.  Um outro passageiro de fato e  gravata dirigiu-se a ele de forma autoritária, fazendo o papel que devia ser do motorista e disse com voz muito firme: "saia deste autocarro. O motorista pediu-lhe para sair, ele não vai arrancar com o veículo consigo cá dentro. Todos nós queremos chegar a casa, você já está a fazer-nos perder tempo.". Foi aqui que o homem estranho finalmente falou. E apenas disse: "comprei o meu bilhete quero viajar neste autocarro". Ao que o homem bem vestido retaliou: "Tem de sair deste autocarro agora. Comprou bilhete mas o motorista não o quer transportar. Portanto saia. Simplesmente saia. O motorista disse que podia usar o bilhete no próximo autocarro". E nisto toca no braço do homem estranho, querendo dirigi-lo à porta de saída. "Acalme-se. Não seja violento" - diz o homem-estranho. (aqui não se pode ter qualquer contacto físico, é onde estabelecem o limite, identificam quem toca como a primeira pessoa a iniciar o assédio).  Enquanto este diálogo entre passageiro indesejado e outro passageiro ocorria, o motorista manteve-se calado. E sossegado, no seu cubículo protegido por flexi-glass

O homem bem vestido, que se nota que é culto, inteligente, capaz em todas as suas faculdades físicas e psicológicas, continua o confronto verbal com o homem estranho, a maior parte das vezes mudo e sem reação. Repete-lhe a ordem para sair do autocarro e às tantas diz-lhe: "Quer discutir leis? Pois muito bem. Vamos falar da lei!".

O que achei inapropriado. O homem-estranho estava claramente numa posição de inferioridade e também não me pareceu ter capacidades intelectuais muito desenvolvidas. Nesse instante não gostei da atitude do homem-bem-vestido. Acho que não gostei quase de imediato. Acho bem que fale, que expresse a sua opinião. Mas há um limite entre o falar, o ordenar, o se mostrar e o tirar proveito de uma situação desfavorável para outra pessoa. Ele estava a ser mais confrontacional que a suposta ameaça e a retirar do motorista o dever de impor a autoridade. Este bem que se calou e não impediu ninguém no autocarro de confrontar o homem-estranho

A quietude deste tanto podia dar para a violência súbita, quando para a total incapacidade de reagir. Por isso cabe ao motorista zelar pelo bem-estar de todos os passageiros. Neste país faria todo o sentido se o motorista pedisse ao homem-bem-vestido para não intervir mais, pois já estava a chamar a polícia pelo rádio. Mas o motorista deixou as coisas rolarem. E se o homem-estranho, ao ser tocado, desse para desatar a bater em alguém? Podia ou não o motorista ser responsável já que não fez nada para acalmar os ânimos? 

Não simpatizei muito com a intervenção do homem bem-vestido. Que depois foi reforçada por outro homem bem-vestido que estava sentado ao meu lado. Dois galos de capoeira... contra um homem barbudo, transportando uma mochila de campismo nas costas e segurando um pau de caminhada. Dificilmente os seus movimentos podiam estar soltos para atacar alguém. Mas no caso de um ataque de fúria tudo é possível.

Este homem não falava, não se movia, foi como se tivesse sido apanhado de surpresa. Só então, muito depois, o primeiro passageiro que interviu decidiu entrar pela abordagem mais serena: "Tem algum problema médico? Precisa de tomar alguma medicação?". 

O homem nada dizia e não se movia. Eu é que me movi. Pedi licença para passar, dizendo que ia apanhar o próximo autocarro já que aquele não saia dali. Na realidade, mexi-me para ver se o homem-estranho também se decidia a sair, ao ver outra pessoa abandonar o veículo. E também porque não queria estar ali a presenciar mais aquilo. Sinto-me muito voyerista, embora o meu lado que sempre gostou de registar o quotidiano sentisse uma vontade compulsória para começar a gravar. Hoje em dia todos fazem isso porque existem smartphones, mas eu sinto estes impulsos desde criança, antes mesmo de câmaras de filmar estarem ao alcance do cidadão comum, quanto mais existirem telemóveis ou smartphones. Mas Mas agora que fazer gravações é algo banal e tão criticado, algo que me dava gosto fazer com todos os cuidados e respeito, já não faço com tanta normalidade. Resisto ao impulso.

Basta recordar aquele post onde contei que fui insultada por duas tipas que passaram por mim enquanto tirava fotografias a uma igreja. Por acaso esta é uma boa história para recordar, pois passei por lá faz dois dias e no exacto lugar onde eu me encontrava a tirar a foto, estava uma outra rapariga a fazer o mesmo. LOGO me ocorreu que ela era uma sortuda. Porque eu não ia parar e recriminá-la por aquilo que estava a fazer como as outras duas doidas fizeram comigo. E ela pode seguir caminho sem nunca conhecer a sensação que é passar por aquilo.

Bom, regressando ao episódio no autocarro. Eu saí, outra passageira veio atrás, depois outro mas a verdade é que a pesar de o autocarro estar imobilizado fazia já muito tempo, o próximo ainda estava a 12 minutos de distância! Não sei como mas o homem-estranho acabou por sair. E nós regressamos ao veículo. Eu agradeci ao homem-estranho, que estava como um zombie parado no lado de fora do autocarro e agradeci ao motorista ao entrar. Sentei-me e senti um tanto de desconforto com a gargalhada e risos que o homem-bem-vestido exibia à medida que relatava o seu confronto com o estranho. Disse ele que era capaz de o arrastar para fora do autocarro se fosse preciso.

Um tanto gabarolas para o meu gosto pessoal. 

Quanto ao homem-estranho, não sei o que lhe aconteceu. O motorista alertou o motorista seguinte, fez a descrição física completa do indivíduo e acusou-o de o ter insultado e recusado a abandonar o veículo. Não cheguei a entender se existiu insulto, embora o homem tenha ruminado algo ao entrar. Agora ficou marcado, como se calhar também eu podia ter ficado naquele mesmo dia, caso o motorista ao qual fiz o gesto do manguito, tenha achado esse gesto ameaçador e impróprio para a sua nobre pessoa. 

Acho que aqui abusam nos direitos e esquecem-se um pouco da educação. Como se sabe, em Lisboa, se um motorista passa com o autocarro cheio de passageiros e não pára quando fazes sinal, é costume ele assinalar com um gesto de mão ou abanando a cabeça - mas é RARO não existir essa comunicação. Existe o cuidado, a atenção, de deixar saber aos passageiros à espera na paragem o que está a acontecer. Aqui não. Estou à espera do veículo, vejo-o a aproximar-se, faço sinal. Espero que se aproxime mais, volto a fazer sinal. E este passa por mim sem reduzir velocidade, o motorista nem me olha na cara, vem a mascar pastilha e ignora-me! Acho isto do mais rude que pode existir. Acho-os muito rudes muitas vezes, naquilo que podiam ser gestos muito simples e fáceis de ter.

Custava acenar com a cabeça? Fazer um gesto? Deixar-me saber que não ia parar?
Como era a única na paragem e obviamente ninguém tocou na campainha para sair naquela onde me encontrava, o motorista ignorou-me! Senti-me insultada. Fiz-lhe rapidamente um manguito que espero sinceramente que ele tenha visto através do espelho retrovisor.

Já que não sabe comunicar, eu sei! Se não aprendeu o que é comunicação visual, eu ensino-lhe.
Se eles, motoristas, sabem acenar uns aos outros quando se cruzam e sabem fazer sinais de luzes para se cumprimentarem, o que custa? O que custa comunicar ao passageiro que ignoras que não paras por algum motivo de força maior?

É que é muito rude.
Muito mesmo.

Novamente hoje, já com a paragem cheia, o autocarro passa a alta velocidade e não pára para nos deixar entrar. Todos olharam uns para os outros. Obviamente. Ninguém gosta de ser ignorado! Não sou só eu, foi a paragem inteira. Mas desta vez, viu-se um outro autocarro a aproximar-se. No meu caso, eu vi DOIS passarem enquanto caminhava para a paragem mais próxima e aguardei aquele por cinco minutos.

Estava longe de esperar que fizesse aquilo. Já tinham passado DOIS! Esperei mais 17 minutos pelo próximo. E aqui é muito tempo! Porque é suposto eles passarem em intervalo de seis minutos entre si. 


Bom, mas desviei-me muito do tema principal. Há dias assim. 

FALAR ou CALAR?

No caso do homem-estranho, ele devia ter-se calado ao entrar. Não calou, o motorista achou que tinha sido insultado e reagiu de forma extrema. Escudado pela lei, ninguém o podia punir. Está no seu direito e nem digo que tenha feito mal, pois quando vi o homem estranho entrar, pensei comigo mesma que ele não devia entrar. Era muito lento nos gestos, estava a tomar o seu tempo... como se vivesse num tempo próprio, só seu. E isso não cai bem ali. Até nem procurou se sentar de imediato, levou o seu tempo, tanto tempo que ruminou alguma coisa que despoletou tudo o que aconteceu de seguida.

E FALAR?
Devia ter falado quando lhe dirigiram a palavra. Devia ter tentado justificar-se, defender-se, até mesmo desfazer qualquer equívoco. E agir. Mas calou-se quando não devia e falou quando devia estar calado.

Quantos de nós não faz o mesmo?
Infelizmente identifico-me bastante com essa parte do estar calado quando se devia estar a falar. Há situações em que se está tão certo que quando se escuta tanta coisa errada, fica-se mudo. Pela injustiça. Já vos aconteceu?


segunda-feira, 29 de abril de 2019

Trailer trash made in UK


Hoje o dia não começou bem.
Foi muito frustrante ir à marcação no Centro de Emprego. Não imaginam como é... como foi. Sentes que és uma nulidade. A preocupação contigo é zero. A ajuda, sub-zero. Sentei-me, disse que tinha perguntas para fazer, recebi como resposta: "nada de perguntas agora. Primeiro temos de seguir os procedimentos".

E os procedimentos foram:
"Diga-me o seu nome completo". 
"Data de Nascimento".
"Morada".
"Número de Contribuinte".

Cada vez que lá vou tenho de "confirmar a minha identidade" desta forma. É só isto que lhes interessa. Rigorosamente mais NADA. Escrevem no computador que compareci na data combinada, querem saber se estou a trabalhar e apressam-se a mandar-me embora. Não há "tempo para perguntas" porque já estão "atrasados para atender o próximo". Disse-me quem me atendeu, que "já tinha passado o meu tempo". Quis saber quanto tempo disponibilizam para o atendimento. Soube que eram 10 minutos por pessoa. Só que o PORMENOR dele me ter atendido 6 minutos depois da hora marcada foi conveniente deixado de lado. Não estava ali há mais de três. Logo fui "educadamente" convidada a sair. "We are finish. You can go".  

Era preciso registar no computador dados vitais sobre o meu part-time mas "o sistema estava em baixo". O que não acreditei. Com tanto apressar, para mim tratou-se de um pretexto para não prejudicar a sua média de atendimento elevado (mas ineficaz). Atirou para o próximo essa responsabilidade. Tive apenas tempo de informar que havia um dia que não podia comparecer à marcação. Perguntei se podia adiá-lo. 
- "Não. Tem de aparecer".
- "Mas não posso. Não vou aparecer. O que acontece se não puder comparecer?".
- "Tem até 5 dias para aparecer ou desaparece do registo. Convém aparecer no dia seguinte".
-"Não posso. Só no quarto dia". 
-"O que é que vocês fazem aqui para realmente ajudar alguém a arranjar emprego?"
-"Fale com o David da próxima vez que vier, ele é que é o seu working coach. Adeus.".
-"Ok. Obrigada".



Senti-me desmotivada. E fiquei com a sensação que os astros não estavam a conjugar as suas energias para que o meu dia corresse melhor. Decidi não ir a mais nenhum lugar e permanecer o resto do dia em casa. Tinha planeado passar por umas lojas mas decidi ir só a uma, pela urgência.  Não encontrei o que pretendia e de certa forma isso não me surpreendeu, tendo em conta a forma como o dia tinha começado. Saí da loja, esgotada, sem energias... precisei de me encostar e sentar no chão. Caminhar pareceu algo penoso e o percurso até casa leva um quarto de hora. Optei por apanhar o autocarro gratuito que ia aparecer dali a três minutos. Fico na fila a aguardar a vez... o autocarro chega, atrás de um outro, que leva o seu tempo a "despejar" passageiros. Quando me preparo para entrar no que estava atrás, verifico que já tinha partido. Habitualmente eles não fazem isso. Só partem após avançarem à frente. Mais uma vez... senti que era a energia dos astros que não estava boa para mim. Era urgente ir logo para casa. E não sair mais de lá.

Chegada, enfiei-me debaixo do chuveiro - algo que estava prestes a fazer antes de ter saído para o Centro de Emprego, quando dei conta que me enganara na hora da marcação e tinha de sair de imediato. 

Tomei o duche e preparei-me para um exílio caseiro. Precisei telefonar para uma instituição governamental a fim de esclarecer o tal "erro" do centro de emprego, e fui instruída a enviar uma carta ainda hoje para um certo endereço. (Vá lá, aqui foram simpáticos, prestativos, não me despacharam e tudo correu pelo melhor). Soube então que tinha de sair novamente de casa. Mas era para um bem maior. De banho tomado e tendo falado telefonicamente com uma pessoa decente, até senti que alguma energia pouco benéfica se tinha esvaído... Planeei na minha mente a forma mais prática e cómoda de fazer o procedimento e lá fui. 

Terminadas as burocracias (sim, porque não foi só enviar uma carta...esse foi o último passo), não fui ao supermercado no qual gosto de ir. Sabia que o correcto era regressar a casa. Pelo caminho entrei no MacDonalds, talvez comprasse um hamburguer. Mal entro, não sei se foi o cheiro, se foi outra coisa, começo a sentir-me indisposta. Meter algo no estômago naquele instante tornou-se inviável. 

Optei por seguir caminho direta a casa. Algures um sino eletrónico bateu palidamente as 17h. Não era o som do sino que gosto de escutar: o da minha igreja. Em frente, há uma igreja antiga - bastante antiga até, já que a parede da estrutura principal data do século XIII. É uma visão e um lugar que me faz sentir bem e me ameniza. Foi ali que fui quando estava a lidar com a tragédia de Pedrogão. Acolheram-me, sorriram, cantou-se, foram simpáticos. Foi um momento espiritual. Ali pedi uma reza pelas almas dos familiares que faleceram. Pouco depois disso e de outras formas de rezar, senti que estavam em paz. Talvez também por este motivo tenha ficado a simpatizar ainda mais com aquele pequeno edifício de uma torre e uma nave. 

Há outra igreja mesmo ao lado e nem dou por ela. Talvez devido a ter um portão, com cancela e sinais de proibição por toda a parte. Muito pouco "cristão".


Estava a rumar para ela. Para a "minha" igreja. Queria, precisava. A igreja fica entre passagens pedonais movimentadas. Enquanto seguia na sua direcção, tentava decidir por quais dos caminhos ia atravessar. Quase segui o mais comum e agradável, rodeado de arbustos e árvores. Mas estava muito movimentado e por isso optei por contornar a igreja pelo exterior, grata por poder apreciar as suas vistas, agora mais visíveis devido à sebe ter sido podada. Decidi tirar fotografias.

De todo o dia, aquele foi o instante que fez o negativo dissipar-se. Até o mal estar ao entrar no MacDonalds um minuto antes já tinha desaparecido. Estava serena, feliz por olhar a arquitectura da igreja. Ia fotografá-la e levá-la comigo para apreciar tranquilamente em casa. 

Sinto muita gente a passar atrás das costas e pensei comigo mesma que desejava que não houvesse tanto movimento. É desconfortável. Não permite ter alguma privacidade para tirar umas rápidas fotografias. Com tanto instante para passar, tinha de aparecer muita gente durante o meu impulso fotográfico?

Mas a linda visão da igreja dissipou este pensamento. Concentrei-me no acto, pois era impossível com a claridade, precisar se estava a enquadrar bem a igreja ou até se a imagem estava focada. Queria ser o mais rápida possível mas ser artística, encontrar um bom ângulo, que fizesse sobressair aquela beleza. Fui por tentativas. A expectativa de chegar a casa e ver como as imagens ficaram toda igual à expectativa daquele instante em que se regressava da loja fotográfica após levantar as revelações de um rolo fotográfico. 

Nisto sinto alguém passar de trás para a minha frente e uma voz feminina com sotaque britânico diz aquilo que mais me repugna escutar no Reino Unido:  
-"That's rude!".

Os britânicos desta terrinha fedorenta gostam muito de virarem-se para desconhecidos e acusarem-nos de terem qualquer comportamento "rude". 

Essa petulância quase me tira do sério. 
Rude é a atitude que acabaram de ter.

Olhei na direcção da voz e vejo uma jovem com ar de Trailer Trash


Foram os americanos que inventaram esta expressão "trailer trash". É um termo pejorativo que faz referência a pessoas de raça branca, pobres e que vivem em caravanas. Tenho percebido que encaixa em algumas pessoas desta cidade na perfeição. Estas jovens podem não viver em caravanas (eram duas, uma estava atrás de mim, e segurava um carrinho de bebé. Se havia uma criança dentro não percebi mas por essa possibilidade a "mãe" devia ter mais juízo). Inicialmente só dei conta da mais-gorda à minha frente. Ambas "encurralando-me" entre si. Sabia que devia ignorar, mas elas estavam a querer provocar. No meu instante de serenidade com o lugar. Acabei apenas por dizer que se tratava de uma linda igreja. "That is rude! Taking pictures!" - repete com altivez a gorducha. Rude, se elas quisessem saber, era tirar selfies de biquinho e postar no facebook - acrescentei, sabendo que o conceito dificilmente ia cair em terra fértil. Fiquei incomodada por não poder tirar rápidas fotografias em paz. E por elas terem conspurcado aquele momento de serenidade.  


A trailer trash mais-gorda, de chinelo, leggings e t-shirt justa, reforça o ataque:
-"Isso é rude! Tirar fotografias às campas! Esta não é a tua gente!".

As igrejas antigas têm campas. Não é nada de extraordinário. Toda a cidade as têm. Não é proibido fotografar nem sequer é proibido entrar e olhar. Muitos cemitérios hoje em dia - principalmente os antigos, disponibilizam visitas guiadas ou permitem que sejam uma via de passagem. Mesmo que fosse indelicado - que não é, existe respeito, pelo menos de minha parte. Estas campas que apareciam no espaço à volta da igreja tinham formas diferentes, letras totalmente esbatidas ou estavam parcialmente destruídas. Tenho muita curiosidade em saber de que ano datam, se contam as suas histórias... mas só uma vez me aproximei, sem ser muito evasiva. E depois, nessas mesmas campas vi eu, por muitos meses, uma tenda de campismo. Alguém estava a dormir no cemitério. 

Os mortos decerto não se incomodaram. E os responsáveis pela igreja pelos vistos permitiram. O que só reforça a boa energia que o lugar me deu. Vemos sem abrigos sentados por todas as ruas da cidade. Está a tornar-se desolador. Quando para cá vim há dois anos não haviam tantos. Essa visão é para mim algo bem rude e difícil de ver. 


Entre outras coisas, mandou-me foder a minha mãe, fez o movimento pélvico para trás e para a frente e mostrou-me o dedo do meio.

A rapariga a empurrar um carro de bebé ria-se, gargalhava. Mal virei as costas, também ela me chamou rude e ambas continuaram caminho mas na direcção oposta à que seguiam quando começaram o ataque verbal. Provavelmente satisfeitas consigo mesmas por terem conseguido provocar uma discussão com uma estranha. Não precisavam mais de ir para outro destino... já tinham despejado a verborreia toda.


Este lugar está cheio delas e deles. Trailer trash à moda do Reino-Unido. São um "cozinhado" onde a maioria é muito jovem, falam com um sotaque afectado, fervem em nenhuma água e cospem asneiras cada vez que abrem a boca. E o país ainda teme a entrada de estrangeiros... Por pior que sejam, ainda não encontrei UM que não viesse atrás de uma vida melhor e, mal ou bem, pronto a trabalhar para isso. 


Já para estes jovens na casa dos 20 anos, aqui nascidos, trabalhar parece uma palavra que os assusta e uma actividade que é para evitar ao máximo. Eles, pelos jardins e bares, envoltos em atividades ocultas, agrupados de forma suspeita. Elas já de bebé a xular os benefícios do governo, para os quais contribuem o salário dos estrangeiros. 

Roubos, crimes com faca, mortes e violações. Não são poucos os casos a acontecer nesta localidade. Isso me espanta, porque há coisa de três meses uma mulher foi violada no jardim local durante a manhã. E têm havido esfaqueamentos - entre este género de indivíduos trailer trash que cada vez mais habitam esta zona.

Não fosse pelos estrangeiros trabalhadores e alguns poucos bem educados e instruídos britânicos que imagino existirem a trabalhar em empresas de pessoas requintadas e por isso inacessíveis ao comum mortal, pouca coisa se aproveita do original que por cá anda.

Se é este o futuro do Reino Unido, tenho de emigrar novamente e rapidamente.

Mas para onde?

Isto tudo para concluir: a sensação estava certa. Hoje não era um dia para sair de casa.