Mostrar mensagens com a etiqueta hóspedes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta hóspedes. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Cordialidade e mistérios


Uma rapariga que ainda não vi está neste momento a dormir no quarto lá em baixo.

Como é que ela veio cá parar?


Há uns dias, a que dorme naquele quarto ouviu-me ir à cozinha pela manhã e apressou-se a aparecer. Digo isto porque nunca a vejo. É muito raro. Durante três dias o rapaz não estava sintonizado com os horários dela e ela ficou-se pelo quarto. Até pensei que não estava em casa, até perceber que de facto os barulhos que escutava eram os dela a ir à casa de banho.  Fosse de manhã, tarde ou já de noite, ela não apareceu. Nem para mim, nem para os outros. Aí, um belo dia, o rapaz ficou por casa e ela refloresceu ao convívio social. De repente é como se ela "existisse". Escuto-lhe a voz, as conversas, os risos. E depois EU É QUE SOU a flor de estufa!



O problema aqui é que eles se dão relativamente bem. Mas não comigo. Comigo é.. estranho. Não puxam conversa. São incapazes de trocar umas cordiais palavras. Não por iniciativa própria. Sou sempre eu que o faço. Ando a fazer o teste e a ficar calada... a aguardar que sejam eles. Que nada! Quando são eles a faze-lo QUEREM ALGO DE MIM. Sempre, sem excepção. Até decepciona. A "predictabilidade" é total. Se falam comigo... algo se passa. 


E foi o que a rapariga veio a confirmar. "Olha, já disse a todos mais vale dizer também a ti: Uma amiga vem cá passar uma semana. Ela chega dia 27". 


Não é uma pergunta: "posso convidar uma amiga para cá passar uns dias?" Nunca se conversou a respeito de trazer pessoas de fora. O máximo que aconteceu, foi a rapariga que tinha namorado tê-lo cá a dormir algumas vezes. Para meu espanto, percebi que isso não agradou OS RESTANTES. Quer dizer: logo eles, que estão sempre a colocar estranhos dentro de casa, sem dizerem cavaco. O rapaz traz miúdas para ter sexo que dormem cá e saem no dia seguinte bem cedo... para nunca mais voltarem. Estas coisas casuais para eles, tudo bem. Mas uma relação... incomoda-lhes. Foi o que menos me incomodou a mim. Faz sentido. É namorado! O que para mim incomoda mais é este entra-e-sai não sei bem quem-é, não me foram apresentados, não sei o nome - tipo de gente. Como se isto fosse um albergue. 

O namorado da que saiu até foi menos abusivo no usufruto do espaço do que muitos "amigos" que já vi passarem pela casa. 


Ontem de manhã - aliás, já não tão de manhã, quando desci para ir cozinhar, eram quase 11h, apanhei a rapariga do quarto de baixo a sair, a puxar o trolley e de uniforme. Ia trabalhar. Acenei-lhe e sorri para ela, mas ela não fez caso. Dirigiu antes a palavra ao rapaz, que estava na sala, para se despedir. Ele pergunta-lhe quando ela regressa e ela responde: "Prima" - eles são italianos, falam na língua deles. Mas o que é prima? Que eu saiba, é dia 1... 

Só sei que ELA OMITIU A PARTE de trazer uma "amiga" para dentro de casa, sem ela própria cá estar. Afinal "não vai dividir o quarto" com ela. Vai emprestá-lo! O que é muuuuito diferente. 

Mas e que tal CONTAREM ÀS OUTRAS PESSOAS que cá moram? Seria agradável, não?

O que consegui saber ONTEM, foi por iniciativa minha e sempre de forma curta e apressada. Até parece que conversar lhe custa, car...ho. Dar qualquer informação... é proibido. Dali só saem coisas pela metade. Nada é claro, nada é espontâneo. E tudo é calculado. 


O rapaz é o epicentro da casa. Não me espanta que não queira ter outro rapaz a cá viver. É ele, rodeado de mulheres. Essas ele sabe controlar. Sabe seduzir, sabe usar o seu charme para conseguir os seus intentos. E principalmente, deve saber que mulheres com mulheres por vezes não são muito simpáticas. Ele é a típica pessoa que fica EM CIMA DO MURO. 

Ontem, quando desci para cozinhar, o rapaz estava, como de costume, na sala. Mas logo se levantou e saiu. Ai sim? Saíste porque eu cheguei? Optimo. Obrigado por me disponibilizares a sala (fazia mais de 20 dias que não a via vazia). Aproveitei e fui buscar as minhas traquitanas. Instalei-as ali enquanto ao mesmo tempo tratava do almoço. 


Fico com a sala para mim. 

Mal tinha começado a preparar o almoço oiço baterem à porta. Vou ver o que se trata. Quando já a estou a abrir, o rapaz está a descer as escadas. É o correio. Pego na encomenda e entrego-a a ele, que já está ali ao meu lado. Pergunto-lhe, sem tempo para olhar: "É para ti?". 


Pergunto-lhe algo, ao que ele deixa escapar:
- Pensei que era uma amiga.
Fez-se um click, ao que pergunto: 
- Quando é mesmo que a nova rapariga chega?

- Hoje.
- Hoje?! Mas... a P... não foi embora?
- Foi.


Mesmo que me ocorre-se fazer outra pergunta, ele já estava no topo das escadas e a fechar a porta do quarto. Foi este o curto instante do seu tempo que se dignou a disponibilizar para clarificar a situação da casa. 

Não estava apreensiva até a luz desta nova informação. 
Então a amiga não ia cá estar para a receber? Quem era esta pessoa? Ia aparecer dali a minutos ou dali a horas? Como é que ia entrar na casa? 


Passava já das 17h quando tive oportunidade de esclarecer estas dúvidas. Ia a subir quando ele vinha a descer. Mais uma vez, é aquele espaço encurralado que proporciona uma troca de palavras. Pelo menos até a pessoa que desce ou sobe terminar o percurso. (Não é triste e patético??)

Ele descia os degraus tendo trocado a roupa de estar por casa por roupas para sair e eu, no fundo das escadas, perguntei, por preocupação genuína:
"A nova rapariga tem as chaves da casa para entrar? .... Tem a chave do quarto?"

Ele, como sempre, hesita em dar resposta, que será sempre vaga e imprecisa. Por isso é que demora segundos a sair.

- Ela chega mais tarde.  O que não responde à minha questão.

 - Ou vai bater à porta?"- acrescento, preocupada e na dúvida.

- Eu estou em contacto com ela.

Mais uma forma vaga de responder. Já com os pés fora dos degraus, o seu corpo estava agora a preparar-se para virar para entrar na sala.

Mas é tua amiga também? Conheces-a?
-Sim.

E já está na sala.

Pronto. Foi este diálogo apressado que ele se dignou a me facultar. é que nem para, é de passagem mesmo. Parar para trocar cordialidades, só quando quer ALGUMA COISA de mim. Ou quando se quer mostrar de optimo colega de casa.


O fato dele a conhecer deixou-me menos apreensiva. Nao estava a sentir-me assim, até perceber que uma estranha vinha morar para esta casa durante sete dias sem que a sua amiga que a convidou estivesse presente.


Não me surpreende que ele a conheça. Eles são como uma máfia. E sendo italianos, a palavra aqui serve como uma luva. Qualquer conversa é mais em privado, a partilha de informações que diz respeito a todos, fica restrita, etc. Mas tudo, quase tudo, tem a "cabeça" no rapaz. O Rei do nada fazer ou dizer. Uma qualidade vantajosa nos tempos que correm. É a típica pessoa que se vai dando bem. Não tem grandes dissabores (desde que nao lhe peçam para trabalhar arduamente), vai avançando por entre os pingos da chuva... e ninguém lhe quer mal, mesmo quando acabou por ser responsável por alguma contrariedade. 


Eu só não compreendo como é que eles não são capazes de se comportarem como a maioria dos comum dos mortais, e simplesmente dizerem, numa conversa só, o que se passa: "Olha, uma amiga vem para cá uma semana, eu não vou cá estar, mas fulano x também a conhece e vai abrir-lhe a porta, ou emprestar chaves... " . Normal, não?

Esperava algo do tipo: "Portuguesinha, amanhã vou fazer aqui um almoço e convidar uns amigos. É só para te avisar". Ou então quando uma pessoa entra dentro da casa que está a pagar para viver e se depara com um rosto estranho, que a reacção fosse as apresentações: "Olá, esta é a fulana X, uma amiga".

O não ser convidada para participar em festas, almoços, jantares isso não dói tanto quanto a inexistência destas atitudes. Para mim, fazem parte da educação que recebi em pequena. Foi o que sempre vi todos fazerem uns com os outros. Esta nova realidade ainda me apanha desprevenida. 



quinta-feira, 16 de março de 2017

Um pouco blue


Os que sabem que vivo numa casa partilhada onde existem alguns problemas, sabem que por causa do último, procuro mudar de lugar.

Pois bem. Encontrei um, que fui ver ontem ao início da tarde, antes de entrar no emprego.


Barato como muito dificilmente vou encontrar outro, quarto de tamanho médio agradável, casa igual a todas por aqui - tudo velho mas utilizável e só teria 2 colegas de casa. Quem ma mostrou foi o proprietário, que logo me garantiu que é selecto com quem mete a viver nas suas casas e, entusiasticamente, me disse repetidamente que conseguia me ver a viver lá. Disse que tinha a certeza que eu era a pessoa certa. E disse também para lhe dizer se o desejava, porque a primeira pessoa que vê o quarto - eu - tinha prioridade, mesmo que aparecesse outra depois. 

Até gostei disso, pois numa ocasião também fui eu que estava a procurar quem me ocupasse o quarto que ia vagar e obedeci a essa regra: quem chega primeiro e mostra interesse, leva o quarto.

Depois de ter feito o primeiro contacto telefónico com ele, voltou a ligar-me quase de imediato. Horas depois, volta a ligar para perguntar se vou aparecer como combinado. E depois de o ter deixado após a visita, ligou-me e ficou uns 10 minutos a falar comigo, a explicar-me onde ficavam os transportes naquela rua, insistindo em mos mostrar, da mesma forma estranhamente insistente com que primeiramente se apresentou. 


O quarto só ficará vago lá para 10 de Abril. E por isso pensei cá com os meus botões que a «urgência» em dar resposta certamente era menor que o quarto que fui ver na véspera, que estava disponível a qualquer momento. (Embora o morador ainda lá estivesse, com toda a roupa nos armários).


Tive de ir a correr para o emprego e durante essas horas só conseguia pensar na decisão que tinha de tomar. Já a tinha tomado - queria ir para aquele quarto. Mas estava a trabalhar e só de manhã poderia telefonar ao senhor. Afinal, ele disse-me que os primeiros tinham prioridade e eu ia dar-lhe a resposta em menos de 24 horas. 

Durante a noite relembrei uma ligeira impressão que recebi: o homem tinha mudado ligeiramente de comportamento aquando a última despedida. Pareceu mais seco e diesinteressado. Foi só uma ligeira impressão com que fiquei, de tão esfuziante que ele se mostrou de início, daquela forma melosa e cheia de «namoro» - não o estava a ser na despedida, como foi em todas as outras.

Hoje, 10 minutos depois das 8.00am, enviei-lhe mensagem. Para o telemóvel pessoal, que ele fez questão de me dizer que não o dava a qualquer pessoa mas eu devia usá-lo para o contactar. Adormeci eram quase 7am, acordei passado apenas uma hora. Claramente não ando a conseguir dormir nas últimas duas noites. Na mensagem dizia querer viver na sua casa. 

Ele respondeu, também por mensagem:
-"Lamento, dei o quarto ontem à tarde. Mas obrigado por me dizer, boa sorte".


Seco, não? É que se o tivessem visto e escutado, todo amistoso, de uma forma que a nós, portugueses, parece estranha e exagerada. Mas depois pensamos: "é o jeito da pessoa ser". Nem respondi de volta, porque sabia não fazer diferença. Não o relembrei que, poucas horas antes, disse-me que tinha prioridade. Que me queria a vier na sua casa.  Eu respondi-lhe o mais rápido que pude. Trabalhei até às 2am, não ia ligar-lhe nessa altura, não é?

Mas não tem importância. Eu acho que ele decidiu enquanto me dizia adeus. Despedimo-nos às 16h da tarde e ele deve ter dado o quarto a outra pessoa 15 minutos depois.

Agora estou assim, a sentir-me um pouco blue...
Porque foi uma oportunidade que tive em mãos e deixei passar. 
Mas passa. 

Aqui tem de ser vapt-vup! Vês, tens disponível, pega! Aqui não existe palavra. Quem tem o poder, usa-o. Pode dar o dito pelo não dito. Quem tem dinheiro, e acena-o, disponibiliza-o, leva o brinde.

O anúncio não ficou nem 24h activo no site. A procura é muita, a oferta também e uns dão para ser «selectos», principalmente os que vivem na Grã-Bretanha mas têm raízes em culturas muçulmanas.
Querem sempre não fumadores, que não levem pessoas para dentro de casa, que não bebam e não tenham maus hábitos.

Noutro dia ainda foi pior: vi dois anúncios de aluguer de quartos mas só aceitavam candidatos vegetarianos. Lol! Isso é que é impor o seu estilo de vida a outra pessoa.

Quanto às pessoas muito simpáticas, o problema é que elas tanto adoram como deixam de adorar. Num piscar de olhos. Tem uma fachada social agradável, mas são de humores.


Quando vim para cá umas pessoas que já ca moram sempre me disseram que temos de ser mentirosos e fingidos, para conseguir estas simples coisas. Eu não consigo. Sou logo sincera. Não sei fazer "jogos". Que coisa! Acho que faz parte da vida de qualquer adulto independente ter de passar por situações em que é conveniente se dar ares de algo que não é, não pensa ou não concorda. Eu não tenho a mínima máscara! Mas não é só uma questão de máscara per se. É uma capacidade de analisar as situações e adaptar-se a elas de forma a tirar o maior proveito para si mesmo.

Sei lá...
Enfim. Fiquei um pouco triste, mas passa. Um quarto como aquele e àquele preço, jamais. Não se encontra em lado algum. Mas eu queria mais do que um quarto barato. Eu queria sentir-me bem a viver na casa. E só pretendia como condição, que fosse bem localizada. Ele disse que pretendia o mesmo do seu inquilino. Rejeitou a rapariga que chegou depois de mim por esta ter dito que "apenas queria um lugar para dormir". O que o revoltou. 

O quarto onde estou agora é um... palácio. Comparado com o que existe por aí. É o quarto principal de uma casa típica inglesa. É do tamanho da sala de muitas. Tenho um colchão de casal e muito espaço para cada um dos lados. Durante os primeiros meses, achava-o mais do que precisava. Mas depois acostumei-me... E agora aprecio-o. A maioria dos quartos dos anúncios de aluguer mostram cubículos deprimentes, com uma cama e uma cómoda. Têm duas prateleiras minúsculas para a roupa, porque não há espaço para guarda-vestidos. E costumam até ser mais caros! Mesmo os que ficam pior localizados. Este era médio, tinha cómoda e guarda-vestidos. E o preço! Se for a pensar bem, era uma pechincha.  

Espero ter Deus do meu lado da próxima vez, tal como tive desta. 
Eu é que não soube lidar com a situação da melhor maneira.
Esqueço-me que aqui é pega ou deixa-ir.

E mesmo assim, no dia seguinte a menos que o dinheiro entre na conta, nada está garantido.