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domingo, 21 de julho de 2019

Alguma coisa boa devo ter feito


Desde que saí do primeiro emprego em solo Inglês, no qual permaneci quase um ano, ocasionalmente sou reconhecida na rua por antigos colegas. A última ocasião em que isto aconteceu foi apenas há duas semanas. Aqui, perto de casa. Não estava nada à espera, principalmente na hora avançada da noite. E isso deixou-me contente. Alguma coisa de bom devo ter feito, para ter pessoas que me reconhecem na rua e ao invés de fingir que não me reconheceram, virem falar comigo.

Faz-me perceber que nem tudo deve ter sido mau, pois saí desse emprego a sentir-me uma párida. Foi uma saída injusta, embora eu tenha saído de cabeça erguida e tranquila com a minha prestação. A reacção das pessoas ao me encontrarem, um ano depois e agora já passados dois anos, traz-me alento. Nem todos eram ruins ou indiferentes à minha pessoa. Tive foi muitos maus momentos com quem trabalhava mais de perto e essas memórias marcaram mais, chegaram a torturar aquando as vivia. 

Hoje encontrei em ambos supermercados onde fui, duas outras pessoas com que convivi nesse emprego. A primeira uma colega da cozinha, que me reconheceu de imediato disse-me olá mas logo desviou as atenções para outra pessoa. Ainda assim é bom ser reconhecida como um rosto que um dia te disse algo. No supermercado seguinte, uma manager cumprimentou-me em português, mas também logo seguiu o seu caminho. Pela forma como me cumprimentou percebi que me avistou bastante tempo antes de eu a ver. Emiti-lhe um sorriso espontâneo e autêntico de surpresa mas antes de poder desenvolver o cumprimento que lhe devolvi de igual forma, ela logo seguiu caminho.

Já estive para vir fazer um post sobre este assunto há meses. Dos empregos que tive a seguir, algumas pessoas disseram que queriam manter o contacto, uma até disse que não queria que eu me fosse embora, queria que nos encontrássemos fora dali e manter a amizade. Mas delas não recebi mais contactos. Neste primeiro emprego onde sofri tanto, no qual tanto desejei mas não senti que dava para criar amizades, tem sido este a me devolver pessoas ao meu presente. Pessoas afáveis, que não viram o rosto e fingem não me conhecer. 


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Abolição do BOA TARDE

Gosto de dar os Bons Dias.
E por vezes dou o «bom dia» já de tarde.
Quando dou os votos de «bom dia» refiro-me às 24h que ele tem.


Hoje dirigi-me a um balcão de serviços e desejei os bons dias.
"Bom dia a esta hora? Quer dizer Boa tarde!" - diz a pessoa.

Fico a pensar nisto. Não é a primeira vez que me corrigem a respeito do cumprimento. Aliás, as pessoas tendem a fazer esse reparo. Como quem aponta o dedo a quem diz palavrão. Começo a achar que essa soberba é mais grave em termos de boa educação do que um «bom dia» desejado durante a tarde.

E fiquei a refletir nestas questões do "politicamente (in)correcto".

O dia tem 24h mas para os cumprimentos da praxe ficou estipulado dividí-lo em quartos. Temos a madrugada, a manhã, a tarde e a noite.

Não dizemos BOA MANHÃ.
Não dizemos BOA MADRUGADA.
Mas dizemos boa tarde e boa noite.
E depois dizemos "bom dia". Que nem faz parte dessa divisão por quartos. Ainda por cima ai de quem o use para as 24h que o dia dura. Ficou «reservado» para os momentos de luz, mas só até o meio-dia. Porque depois do meio-dia dizê-lo obriga a uma correcção imediata, como se tivesse sido pronunciado um disparate. Numa atitude de auto-censura estranha. É quase como achar que o conde drácula vai sair do seu caixão assim que a lua se põe, ou o gremling  reproduz uma prole de monstros ao ser alimentado depois da meia-noite.

Por isso acho que se devia abolir o BOA TARDE.
Só serve para atrapalhar. E não faz muito sentido. Ou se usa todos os quartos do dia ou nenhum! Sou contra a descriminação.

Acho que eu é que estou correcta eheh. Bom dia - para TODAS as 24 horas dele, ou boa noite, se alguém quiser particularizar o detalhe da falta de sol. Que vos parece?

Não acham estranho que nos dias de hoje a nossa sociedade (outras sociedades têm formas de se cumprimentar diferentes e também interessantes) ainda siga este padrão? É que tudo ficou menos convencional e banalizado. No entanto, no que respeita aos cumprimentos durante a tarde, ainda se mantém uma postura rígida, como se conseguisse ver as damas e os cavalheiros se cumprimentando a cada passo da caminhada do passeio: "boa tarde, tenha uma boa tarde", seguido da vénia. É um disparate notar esta convenção rígida e impregnada de censura.

Reflictam nisto e digam-me o que pensam. :)


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O cumprimento cordial

Estava a passar na rua. Viro-me e reparo numa senhora de uma certa idade que caminha na minha direcção. Olho para o seu rosto e depois desvio o olhar. A senhora já vinha a olhar para mim e continuou a olhar para mim. Mas sinto que quando desviei o olhar, esta ficou decepcionada. 

De seguida cruzei-me com outra pessoa. Nenhum de nós se olhou. E depois com outra. Também não me dirigiu qualquer olhar.

Mas a questão é que eu sinto-me estranha quando não sai da minha boca um "bom dia" dado a um desconhecido de uma certa idade que nos olha na rua de uma maneira que não sei bem especificar, mas que é em si uma espécie de cumprimento, de convite ao cumprimento, uma postura diferente de estar. Uma postura calorosa. E o meu olhar de reconhecimento rápido é o meu cumprimento, o meu tímido cumprimento que depressa se desvia porque da boca não sai o "bom dia" que a mente está a produzir. 



Esta geração de que falo foi educada a dar os "bons dias" a toda a pessoa com quem se cruzasse na rua. Os senhores até levavam a mão à aba do chapéu. Deve-lhes custar e ser estranho a ausência deste costume na sociedade actual. Mas o estranho sou eu. Que sou de outra geração, a geração que cumprimenta quando interage, quando conhece, mas que não cumprimenta desconhecidos sem uma causa específica. Pode parecer estranho, pode até ser interpretado como um comportamento de «maluco». 


No entanto fico estranha por não verbalizar um "bom dia" a uma estranha destas na rua. Isto já me aconteceu mais vezes. Numa ocasião cruzei-me com um casal de idosos que, de braço interlaçado, caminhavam na minha direcção com uma postura e um ritmo que pareciam dessassociados deste tempo e era. Eles avistaram-me rápido e não tiraram o olhar de mim. Eu continuei no meu passo apressado e quando me cruzei com eles, ao invés dos "bons dias", olhei rapidamente e desviei o olhar. É a minha forma de cumprimentar. Mas creio que não alegra este género de pessoas desconhecidas. Acho que as entristece. 

Oh sim! Deve existir uns tantos por aí... Sobreviventes de outros tempos e costumes. Que vagueiam por estas ruas e se cruzam com uma imensidão de gente e se perguntam o que se passa e se sentem estranhos e desajustados. Têm-se uns ao outro - aqueles que ainda vivem em casal, e pouco mais. Tudo o que aprenderam e que era o seu mundo está tão diferente! Se calhar dariam tudo para ter alguém a lhes olhar no rosto por mais de um segundo e perder um instante a dizer "bom dia" e um sorriso. 

Eu quero fazer isso. Mas estranho porque é estranho e não sou capaz. Talvez perca um dia esta timidez e quebre com uma educação que é a minha, que é cosmopolita e igual a tantas outras pessoas que sabem que não dá para cumprimentar todos os estranhos com que nos cruzamos na rua... Mas nem todos os estranhos são iguais. Alguns dão-me mesmo vontade de dizer um grande e sorridente BOM DIA.