Este post já era para o ter feito há mais tempo, perto do Natal. Adiei e depois quando me preparava para partilhá-lo surgiu nas redes sociais e imprensa o vídeo da Sofia Ribeiro a cortar o cabelo. De alguma forma não quis qualquer associação de uma coisa com a outra.
Quem me lê há algum tempo deve lembrar-se que confidenciei sofrer de alopécia. Apesar de prolongada nos anos a condição ainda não era perceptível para quem se cruzasse comigo na rua. Tinha até pessoas que me elogiavam o cabelo, desconhecendo pelo que estava a passar. O ano passado, logo após o pico do verão terminar, esta condição fez-se sentir em força. Já perto do Natal senti outra redução gigantesca. Perdi metade do que tinha nos primeiros meses do ano, quase que posso garanti-lo.
Não sei se sabem como é, mas posso tentar descrevê-lo. O cabelo solto está por todo o lado. Aparece nas roupas quando as vestes, aparece quando as tiras, aparece quando te calças, aparece nos lençóis, e, claro, quando te penteias. Cada vez que passas os dedos pelos cabelos, sai sempre fios. Nunca pára. Nunca aquele fio é o último a desprender-se. O volume que tenho hoje só tem réplica com o de antes se dobrar o cabelo que me resta em cinco ou seis partes.
Não sei se sabem como é, mas posso tentar descrevê-lo. O cabelo solto está por todo o lado. Aparece nas roupas quando as vestes, aparece quando as tiras, aparece quando te calças, aparece nos lençóis, e, claro, quando te penteias. Cada vez que passas os dedos pelos cabelos, sai sempre fios. Nunca pára. Nunca aquele fio é o último a desprender-se. O volume que tenho hoje só tem réplica com o de antes se dobrar o cabelo que me resta em cinco ou seis partes.
E aqui está uma imagem de uma ocasião no Natal passado em que uma pequena escovagem que logo travei resultou nesta quantidade de cabelos soltos:
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| (Agora já sabem que sou morena, ehehe!) |
Desculpem, tentei tirar uma foto "artística" de fios de cabelo numa escova com alguma beleza no enquadramento, mas foi isto o melhor possível. Afinal de contas, todos os cabelos são lindos quando reluzentes e presos na cabeça. Damos-lhes festas, beijinhos, algumas pessoas não conseguem parar de lhes tocar mas quando se soltam... Para a maioria são quase tão repulsivos quanto uma barata.
Sempre tive muitos cuidados nesse aspecto. Retiro todos os fios soltos e saio à rua com o cabelo bem preso, dificilmente cai quando está bem preso. Só cai quando solto ou quando escovado. Aí é que se dá a grande "avalanche" de queda de fios.
Confesso que este ano receio bastante a chegada do fim de verão. Aquela altura do ano em que tudo começa de novo... É que já não resta mais nada para ser levado que não vá, desta vez, fazer uma substancial diferença no visual. Da próxima vez que o cabelo cair desta maneira, será definitivo. Diante da quantidade diminuta que me sobrou, grandes pedaços carecas de couro cabeludo vão dar o ar de sua graça, com quase toda a certeza. A «sorte» que tenho mantido ao longo destes anos é que ele cai mas os fios continuam bem distribuídos. São poucos, cada vez menos, mas ainda falta a evidência da visibilidade de áreas com grandes carências de fios. Só esse detalhe ainda tem mantido oculto esta condição. Mas creio que não é sorte que me vá mais acompanhar.
Por vezes esta condição faz-me sentir deprimida, outras nem por isso. Desta vez é "nem por isso". Mas também, o cabelo parou de cair... quando recomeçar sei que vou ter momentos em que a depressão vai escalar! Hoje gostaria de o cortar acima dos ombros, de lhe dar um estilo mas confesso temer o corte. Não por temer a tesoura porque isso nunca temi, nem mesmo agora. Mas por saber que dificilmente vou reconhecer-me. E essa nova pessoa, uma pessoa sem volume nos cabelos e quase sem fios, não sei como vai ser... vê-la. E ter de viver com ela. Para sempre. Voltar a ter o cabelo curto irá trazer, provavelmente, um pouco dessa tristeza que de momento quero evitar.
Ninguém sabe a causa da queda de cabelo. Eu acho que tem muito a ver com algo relacionado com o se guardar para dentro sentimentos como ansiedade, depressão e stress. Há uns anos estava a trabalhar, o dinheiro entrava regularmente todos os meses, andava feliz com a vida, vi um anúncio de cuidados capilares e decidi fazer algo por mim. Fui consultar um especialista. Optei por fazer um tratamento. Fiquei feliz. Sabia que era a atitude correta, ainda que não tivesse garantias. O mais certo era apenas adiar o inevitável. Ainda assim, achei valer a pena. O custo do tratamento foi elevado para os meus rendimentos mensais mas não me custou mesmo nada ir às economias e tirar metade.
As pessoas mais próximas de mim censuraram-me pela atitude. As mesmas que há anos me torturam por não prestar muita atenção na aparência, por não cuidar de mim, como elas sabem cuidar de si. Essas pessoas diante de um gesto que lhes provava o contrário, disseram-me que o tratamento era para enganar idiotas e um desperdício de dinheiro. Com o mesmo dinheiro podia comprar um carro em segunda-mão, uma mota ou fazer umas boas férias! "Se fossem elas" a ter aquela quantia de dinheiro, gastavam antes «nisto ou naquilo». E incentivaram-me a parar de ir às consultas e a pedir um reembolso. Mas eu sou da opinião que cada um sabe de si, não acham? Para mim o que resulta numa sensação de bem-estar pode não ser o mesmo que resulta para os outros. O que acho ser dinheiro bem gasto pode não coincidir com os gostos de outras pessoas e vice-versa, mas a diferença é que não lhes vou atirar na cara que deviam economizar o dinheiro ao invés de o torrar numa pintura nas paredes e num sofá novo e não ter o suficiente para comer no mês que vem, por exemplo.
Aliás, esta postura negativista ainda contribui mais para um problema. Para alguém que guarda para dentro emoções negativas tais como a ansiedade, stress e depressão, este tipo de criticismo «manda abaixo» «faz o que mando» é exactamente o tipo de coisa que não se deve dizer a alguém que está a tentar fazer algo pela sua saúde. Acaba-se por ajudar mais na doença que na cura!
Na altura tentei argumentar, expor os meus pontos de vista. Independentemente das garantias, precisava dar uma oportunidade, preocupar-me e agir. Sentia-me tão bem cada vez que tratava de mim que isso enchia-me de generosidade. Fazia-me desejar poder providenciar o mesmo a outros. Cheguei a conjecturar levar um familiar que sofre do mesmo problema a uma consulta, mas essa pessoa negou-se sempre, insistindo que era vigarice.
Curiosamente, há uns meses percebi que as pessoas que, naquela altura, mais me criticaram, sofrem do mesmo problema e estão bem mais carecas que eu. Com largas exposições de calvice. Porque será que são as que também precisam as que mais mandam abaixo? O pior é que sei que elas estão bastante conscientes da sua condição e tentam vários truques para a disfarçar. Escolhem bem o shampôo que usam, sempre anti-queda, pintam o cabelo, fazem nuances, acrescentam extenções, detestam ficar ao ar livre sujeitas à brisa e ao vento. Temem não manter a apresentação do penteado e que alguém repare.
Li na imprensa que a Sofia Ribeiro está no caminho da cura e recuperação, e irá em breve regressar a uma novela. Ainda bem para ela. Não que tenha comparação - porque não tem - a doença dela é cancro e a minha é alopécia. Ainda que a minha seja embaraçosa, não a «trocaria» por a dela :P
O que me faz cair o cabelo é desconhecido, definitivo e irreversível. O que lhe fez cair o cabelo a ela e a todos que se sujeitam aos actuais tratamentos para combater o cancro é o tratamento em si, que é bastante agressivo. Mas uma vez curada, a pessoa recupera os cabelos e, pelo que me foi dito até por quem já os perdeu para se tratar de cancro, os cabelos crescem até mais vistosos que antes. Entre tanto mal fico contente que pelo menos haja a possibilidade desse benefício! É justíssimo.
Vou ter de me preparar para um futuro de calvice acentuada. Ainda sou «jovem», o que significa grandes mudanças num curto espaço de tempo. Assim que a menopausa se instalar - ela que muda tanto o corpo da mulher - as coisas só podem piorar - e muito. Às vezes penso que não vai fazer diferença. Aceito tudo o que a vida me trouxer. É a vida! É a própria condição de se estar vivo. Mas noutras vezes, principalmente quando noto como a sociedade trata os menos favorecidos, os menos jovens, menos atraentes, menos afortunados - isto me revolta e sinto-me deprimida.
Acho que não me incomodaria de cortar o que me restasse de cabelo para ficar careca. Acho - mas não sei ao certo. Talvez me habituasse à calvice. Talvez fosse gostar de usar perucas diferentes quase todos os dias (quando era adolescente desejava que fosse moda usar perucas para mudar de penteados com frequência). O que desconfio que iria incomodar mais seriam os olhares alongados ou assustados, as pessoas que passariam a deixar o assento do autocarro ao meu lado livre, as fofocas, as conjecturas pelas costas e as críticas das "tais" pessoas que não me iriam poupar, decerto.
É que a culpada pela calvice sou eu. Não sabiam?
Bem que a sociedade podia aceitar as diferenças, sem rótulos, sem julgamentos. Até aceito que se brinque com desgraças, que se brinque com os estereótipos, que se faça humor com a tragédia. Que se brinque com o preconceito, inclusive. Acho saudável. Mas desconfio não ser por aí que estamos a evoluir cá em Portugal, pelo menos.
Bom, o tempo dirá! E dirá já depois do verão...
Sempre tive muitos cuidados nesse aspecto. Retiro todos os fios soltos e saio à rua com o cabelo bem preso, dificilmente cai quando está bem preso. Só cai quando solto ou quando escovado. Aí é que se dá a grande "avalanche" de queda de fios.
Confesso que este ano receio bastante a chegada do fim de verão. Aquela altura do ano em que tudo começa de novo... É que já não resta mais nada para ser levado que não vá, desta vez, fazer uma substancial diferença no visual. Da próxima vez que o cabelo cair desta maneira, será definitivo. Diante da quantidade diminuta que me sobrou, grandes pedaços carecas de couro cabeludo vão dar o ar de sua graça, com quase toda a certeza. A «sorte» que tenho mantido ao longo destes anos é que ele cai mas os fios continuam bem distribuídos. São poucos, cada vez menos, mas ainda falta a evidência da visibilidade de áreas com grandes carências de fios. Só esse detalhe ainda tem mantido oculto esta condição. Mas creio que não é sorte que me vá mais acompanhar.
Por vezes esta condição faz-me sentir deprimida, outras nem por isso. Desta vez é "nem por isso". Mas também, o cabelo parou de cair... quando recomeçar sei que vou ter momentos em que a depressão vai escalar! Hoje gostaria de o cortar acima dos ombros, de lhe dar um estilo mas confesso temer o corte. Não por temer a tesoura porque isso nunca temi, nem mesmo agora. Mas por saber que dificilmente vou reconhecer-me. E essa nova pessoa, uma pessoa sem volume nos cabelos e quase sem fios, não sei como vai ser... vê-la. E ter de viver com ela. Para sempre. Voltar a ter o cabelo curto irá trazer, provavelmente, um pouco dessa tristeza que de momento quero evitar.
Ninguém sabe a causa da queda de cabelo. Eu acho que tem muito a ver com algo relacionado com o se guardar para dentro sentimentos como ansiedade, depressão e stress. Há uns anos estava a trabalhar, o dinheiro entrava regularmente todos os meses, andava feliz com a vida, vi um anúncio de cuidados capilares e decidi fazer algo por mim. Fui consultar um especialista. Optei por fazer um tratamento. Fiquei feliz. Sabia que era a atitude correta, ainda que não tivesse garantias. O mais certo era apenas adiar o inevitável. Ainda assim, achei valer a pena. O custo do tratamento foi elevado para os meus rendimentos mensais mas não me custou mesmo nada ir às economias e tirar metade.
As pessoas mais próximas de mim censuraram-me pela atitude. As mesmas que há anos me torturam por não prestar muita atenção na aparência, por não cuidar de mim, como elas sabem cuidar de si. Essas pessoas diante de um gesto que lhes provava o contrário, disseram-me que o tratamento era para enganar idiotas e um desperdício de dinheiro. Com o mesmo dinheiro podia comprar um carro em segunda-mão, uma mota ou fazer umas boas férias! "Se fossem elas" a ter aquela quantia de dinheiro, gastavam antes «nisto ou naquilo». E incentivaram-me a parar de ir às consultas e a pedir um reembolso. Mas eu sou da opinião que cada um sabe de si, não acham? Para mim o que resulta numa sensação de bem-estar pode não ser o mesmo que resulta para os outros. O que acho ser dinheiro bem gasto pode não coincidir com os gostos de outras pessoas e vice-versa, mas a diferença é que não lhes vou atirar na cara que deviam economizar o dinheiro ao invés de o torrar numa pintura nas paredes e num sofá novo e não ter o suficiente para comer no mês que vem, por exemplo.
Aliás, esta postura negativista ainda contribui mais para um problema. Para alguém que guarda para dentro emoções negativas tais como a ansiedade, stress e depressão, este tipo de criticismo «manda abaixo» «faz o que mando» é exactamente o tipo de coisa que não se deve dizer a alguém que está a tentar fazer algo pela sua saúde. Acaba-se por ajudar mais na doença que na cura!
Na altura tentei argumentar, expor os meus pontos de vista. Independentemente das garantias, precisava dar uma oportunidade, preocupar-me e agir. Sentia-me tão bem cada vez que tratava de mim que isso enchia-me de generosidade. Fazia-me desejar poder providenciar o mesmo a outros. Cheguei a conjecturar levar um familiar que sofre do mesmo problema a uma consulta, mas essa pessoa negou-se sempre, insistindo que era vigarice.
Curiosamente, há uns meses percebi que as pessoas que, naquela altura, mais me criticaram, sofrem do mesmo problema e estão bem mais carecas que eu. Com largas exposições de calvice. Porque será que são as que também precisam as que mais mandam abaixo? O pior é que sei que elas estão bastante conscientes da sua condição e tentam vários truques para a disfarçar. Escolhem bem o shampôo que usam, sempre anti-queda, pintam o cabelo, fazem nuances, acrescentam extenções, detestam ficar ao ar livre sujeitas à brisa e ao vento. Temem não manter a apresentação do penteado e que alguém repare.
Li na imprensa que a Sofia Ribeiro está no caminho da cura e recuperação, e irá em breve regressar a uma novela. Ainda bem para ela. Não que tenha comparação - porque não tem - a doença dela é cancro e a minha é alopécia. Ainda que a minha seja embaraçosa, não a «trocaria» por a dela :P
O que me faz cair o cabelo é desconhecido, definitivo e irreversível. O que lhe fez cair o cabelo a ela e a todos que se sujeitam aos actuais tratamentos para combater o cancro é o tratamento em si, que é bastante agressivo. Mas uma vez curada, a pessoa recupera os cabelos e, pelo que me foi dito até por quem já os perdeu para se tratar de cancro, os cabelos crescem até mais vistosos que antes. Entre tanto mal fico contente que pelo menos haja a possibilidade desse benefício! É justíssimo.
Vou ter de me preparar para um futuro de calvice acentuada. Ainda sou «jovem», o que significa grandes mudanças num curto espaço de tempo. Assim que a menopausa se instalar - ela que muda tanto o corpo da mulher - as coisas só podem piorar - e muito. Às vezes penso que não vai fazer diferença. Aceito tudo o que a vida me trouxer. É a vida! É a própria condição de se estar vivo. Mas noutras vezes, principalmente quando noto como a sociedade trata os menos favorecidos, os menos jovens, menos atraentes, menos afortunados - isto me revolta e sinto-me deprimida.
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| Actualmente está assim. Sensivelmente 1/5 do que um dia foi. Ainda «não está muito mal», certo? |
É que a culpada pela calvice sou eu. Não sabiam?
Bem que a sociedade podia aceitar as diferenças, sem rótulos, sem julgamentos. Até aceito que se brinque com desgraças, que se brinque com os estereótipos, que se faça humor com a tragédia. Que se brinque com o preconceito, inclusive. Acho saudável. Mas desconfio não ser por aí que estamos a evoluir cá em Portugal, pelo menos.
Bom, o tempo dirá! E dirá já depois do verão...
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| Se fosse possível cortar assim. Restarão fios suficientes? |






