Quando há vários anos comecei a interessar-me por genealogia, quis falar com umas "primas" da minha avó. Minha avó não tinha família. Os pais tinham falecido e ela nunca teve irmãos. Não conheceu o pai, que faleceu antes dela nascer. Não recebeu muita instrução e trabalhava para se sustentar. Então a sua história, os seus laços familiares sempre foram um tanto pouco conhecidos.
Existia uma "prima" com filhas - que viviam na mesma cidade. As chamadas "primas ricas". Minha mãe não tinha boas memórias dela ou da casa onde esta vivia, porque nunca se esqueceu que, em criança, a faziam entrar pela porta das traseiras, para que não fosse vista a entrar pela porta da frente. Esse elitismo ela nunca esqueceu ou perdoou. Os tratos que ela diz terem sido diferenciados, porque ela e a sua mãe, minha avó, a pesar de serem família daquela prima, eram pobres.
(Na minha noção de riqueza e pobreza - nunca considerei a minha avó ou a família que dela se gerou pobre).
A "riqueza" desta prima surgiu de um casamento com um militar. Tirando isso, penso que as raízes e os familiares em comum eram todos iguais. Viviam numa casa numa area que um dia foi considerada para ricos em Lisboa. Nem lembro onde, sinceramente. De difícil acesso por transportes públicos, hoje em dia. O que eu consideraria periferia de Lisboa por nunca lá ter passado antes na minha vida.
Já não me lembro COMO o fiz. Sei que encontrei um número de telefone depois de visitar a campa dessa prima no cemitério do Lumiar. Tirei fotografia inclusive, da sua campa. (Hoje desaparecida, porque o digital tem esse problema).
E como queria muito saber pormenores sobre os antepassados, liguei para o número, apresentei-me, disse o que estava a fazer e perguntei se eram essa família. Confirmou-se. E acabei por fazer uma visita para falarmos melhor e conhecer as pessoas.
Agora percebo que a curiosidade deles era imensa. Talvez até receosa. Conheci a família quase inteira: os que viviam naquela mesma casa mais o marido e filha que viviam noutra. Só faltou conhecer um rapaz. Na casa, a mesma onde minha mãe só podia entrar pela porta das traseiras - algo que caiu em desuso hoje em dia - na maioria dos casos, vivia uma irmã dessa prima cuja campa visitei. A casa não era dela, mas das filhas da irmã dela, três. Ela era viúva e nunca teve filhos. Só sobravam, daquele ramo, as três filhas, penso que a primeira, a mais velha, era adotada, filha do marido com outra mulher. Sei que existia ali qualquer coisa diferente. Essa era a familiar que deixou descendência: uma filha e um filho. Suas irmãs não tinham gerado descendência.
Quando disse que minha avó tinha tido sete filhos e todos estes tinham dado netos, todos viviam bem em suas próprias casas - acho que existiu um vislumbre do que vulgarmente denominados de "inveja". Mas já estou a especular.
Fui bem recebida, fizeram-me muitas perguntas mas eu fui lá para ouvir. Hoje sei que não fiz as perguntas certas para a minha história de genealogia. Queria ter perguntado a todos, principalmente aos meus avós, MAIS sobre as suas vidas. Perguntas que não me ocorreram mas que hoje, à distância, pareciam vitais.
O apartamento era o que eu considero uma casa normal. Noutros tempos talvez casa para rico, localizada numa zona então exclusiva. Mas os tempos mudam. Os comportamentos mudam. E fui com o prazer que me caracteriza então conhecer estas pessoas. Como disse, fui bem recebida. Fizeram-me muitas perguntas. A pessoa que mais gostei, de uma certa maneira, foi a irmã dessa prima. Uma senhora a chegar perto dos 90 anos, mas que tinha um trato de bondade que é raro de existir hoje em dia. Senti solidão nela. Pesar. Disse-me que vivia naquela casa de "favor" mas com gosto, porque era sozinha e se não vivesse ali com as sobrinhas, ia se sentir mais sozinha.
Os pormenores de bens, riquezas, isso não soube nem pretendia saber. À distância percebi que vieram todos me conhecer para me avaliar. Não fosse eu ter interesses escusos. Mas não. Só me interessava que me falassem mais dos familiares, da minha bisavó, que andou por aquela casa por um tempo com a minha avó, pois naquela altura era comum chamar os familiares mais desfavorecidos para que trabalhassem como domésticos em troca de cama e comida. Mas minha bisa tinha uma profissão e um emprego fixo num local de renome. Vivia num quarto alugado, onde faleceu. Não dependia, pelo menos nas últimas décadas da sua vida, da caridade de ninguém. Mas ia visitar a irmã naquela casa e, talvez, ali tenha vivido uns tempos.
Quis muito saber como ela era. Foi essa a minha pergunta. Quem a conheceu foi essa senhora de quase 90 anos. Uns diziam que ela era de difícil temperamento, outros diziam que ela era muito boa pessoa. Até hoje não sei. A primeira coisa que a senhora fez foi apontar para um jarro muito bonito, com motivos religiosos, em cima de uma prateleira e dizer-me: "Esta jarra foi a tua bisavó que ofereceu à irmã". Olhei para o vaso como se subitamente pudesse contatar a minha bisavó. Queria tocar-lhe. Queria, inclusive, que mo oferecessem, para que pudesse, um dia, contactar um sensitivo - aquelas pessoas que tocam em objectos e sabem dizer tanta coisa sobre a pessoa que o possuiu.
Mas claro, guardei para mim esta vontade. Um objeto que minha bisavó tocou! Não existe nada dela. Somente uma fotografia que eu encontrei numa célula de casamento. O único documento que sobreviveu e que minha avó analfabeta calhou guardar todos aqueles anos.
Este lado da familia sabia pouco sobre a minha bisavó. Só a conheceu viúva, com a filha. Disseram-me que ela não falava quase nada do passado. Não sabiam quem tinha sido o marido. Aliás, disseram-me muito claramente que sempre suspeitaram que ela se "desgraçou". Que nunca tinha sido casada. E daí viver em "vergonha" e a família a tratar um pouco "à parte".
Mas... eu já tinha feito as minhas investigações genealógicas e estava tranquila quanto a essa parte. Aliás, sem saberem, muito provavelmente, o que todas estavam a descrever era, na realidade, a história da mãe delas.
Mas nunca lhes revelei isto. É que a mãe delas, também era muito reservada a respeito do seu passado. Não gostava de falar disso e quando interrogada porquê detestava um certo mês do ano, nunca explicou bem. Isso me deixou curiosa. Tirei as minhas próprias conclusões. É que eu já tinha a certidão de casamento dos pais dela. E quando soube da data de nascimento do primeiro filho do casal - a mãe destas "primas" - a tal do túmulo que visitei - para meu espanto em toda a genealogia que havia feito até o momento, ela nasceu apenas quatro semanas DEPOIS do casamento dos pais.
Portanto, ela quase foi ilegítima. E certamente, existiu "marosca" sim, algo estranho nessa história. Um casamento apressado que quase não existiu a tempo de antecipar o parto. Não era a minha bisavó que carregava esse segredo. Era a mãe delas.
Existiam documentos legais a testemunhar que minha bisavó não tinha gerado uma filha fora do casamento. Nem tão pouco esta nasceu semanas depois do fato. Minha avó nasceu cerca de um ano após o casamento e, como se sabe, nenhuma gravidez humana demora 12 meses.
O que sabia a respeito da "escandalosa" origem da mãe delas, guardei para mim. Penso que se eles próprios investigassem iam detetar essa discrepância.
Gostei de os conhecer e mantive o contato. Mais por telefone do que presencial. Mas ainda fiz mais duas visitas. Muito a pedido da senhora de quase 90 anos, que queria muito que a fosse visitar mais vezes. Senti que era tão genuíno o seu pedido e disse-lhe que o faria, quando desse, porque na altura, eu trabalhava muito, quase sem folgas, numa empresa de publicações.
Mantive o contato à distância. No espaço de pouco mais de um ano, soube que as duas irmãs mais velhas que eu conheci haviam falecido. O que me deixou triste, principalmente porque era a mais nova que preocupava todos, visto ser sobrevivente de uma doença oncológica. Contudo essa estava viva - e ainda hoje deve de estar. E as filhas "saudáveis" que não estiveram quase à beira da morte - já estavam sete palmos abaixo do chão. A ironia da vida não deixa de surpreender.
A ultima visita que fiz, não sei explicar, senti que era a última vez que ia entrar naquela casa. Nunca mais iria lá. A senhora telefonou-me para pedir que eu a visitasse. Dizia-me sempre que se sentia sozinha e que gostava muito de mim. Eu respondi que queria mas que estava muito ocupada mas que ia tentar. Perto do Natal, tentei lá ir. Mas estava tão exausta que aproveitei aquela folga para descansar. No fundo do meu ser, relembrei a sensação da última vez que entrei na casa: aquela era a última vez e não ia voltar.
A minha avó faleceu e eu liguei-lhes para o comunicar. Perguntei como a senhora estava. Tinha bons dias e maus dias. Com a idade que tinha, era natural. Se ela viesse a falecer, queria acreditar que ia existir reciprocidade. Não iam esquecer de mo comunicar.
O tempo passou. Alguns meses. Eu estranhei não ouvir mais nada. Um dia encontrei nas redes sociais a filha sobrevivente, com a qual trocava ocasionais mensagens, disse que me lembrava muitas vezes deles, perguntei por todos, mas principalmente para a senhora. A resposta foi o que eu temi. Nem queria acreditar:
- "A "X" faleceu o ano passado, perto do Natal".
Dei os meus pêsames. Mas senti-me excluída. Como podem não o ter dito na hora?
Depois lembrei-me do elitismo. Do receio que um parente afastado pudesse querer meter o "bedelho" nas partilhas. Mas aquela família estava quase dissipada, todos falecidos, apenas uma jovem e um rapaz, filhos da filha adoptada.
Como era a casa? Era rica? Bom, eu percebi que tinham, como é de se esperar, gosto por aquelas posses que haviam pertencido aos pais. Algumas pinturas bem emolduradas, um ou outro móvel em mogno de significantes proporções, uma salinha onde armazenavam o espólio desses bens que foram de outras pessoas que já faleceram e que não tinham espaço onde colocar e ali ficavam pelo seu valor, coisas bonitas. Talvez com algum valor, talvez não. Mas eu, pessoalmente, não vi nada de especial, nem me interessei por esse lado. Contudo, quando não me comunicaram o óbito da senhora, senti um pesar e senti-me desapontada. Mal por não a ter ido visitar, sabendo que ela esperava essa visita. Foi-me dito que no final, acamada, ele por vezes nem se lembrava de quem era. Mas eu senti um pesar enorme. Enorme mesmo. Por não ter ido visitar aquela senhora. Ainda que não tivesse prometido ir. Apenas dito que iria se tivesse tempo e explicado que trabalhava muito. Até hoje, sinto-me mal por isso. Porque se calhar aquele pedido era mais uma súplica. E a voz doce dela, quando lhe liguei, a pedir para a ir ver... "vens?" - até me faz chorar de lembrar.
Fui a uma igreja, acendi uma vela e pedi pela paz da sua alma e desculpas se por acaso a fiz sofrer por não ter aparecido e a ter feito esperar.
Até hoje, este pesar não me larga.
Já se passaram vários anos. A minha vida mudou, eu mudei, mas não esqueci. E ainda acho lamentável não me terem comunicado, fosse por mensagem ou por telefone, que ela havia falecido. Se eu não tivesse escrito aquela mensagem, NUNCA iria saber. Nunca.
Porque será que as pessoas são assim?
É porque, finalmente, chegou a altura das "partilhas" e andam todos com receio que surja alguém de fora a querer o seu quinhão?
Lembrei-me desta história porque ando a ver no youtube vídeos sobre TESTAMENTOS contestados. Aparecem pessoas de todos os cantos do mundo a dizer que têm direitos - quando existe uma ínfima oportunidade de ganhar algum. Acho lamentável, tanta ganância desmedida.
Quando morrer-mos não levamos nada. Fica tudo como naquela salinha da casa das "primas ricas". Acumulado a criar pó.
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