Começo a entender peculiaridades da vida de emigrante.
Quando vais viver para fora do país, ao regressares todos querem saber como estás. E tu respondes:
-"Estou bem".
Todos assumem que tens uma vida melhor lá fora e, por isso, talvez até sintam um tanto de inveja.
Não vêm os sacrifícios, vêm o salário - que imaginam melhor que o deles.
O que não vêm são as preocupações que não são reveladas. Não vêm as peculiaridades da vida de emigrante - o não ter casa própria, por exemplo. Quando apareces no teu país "fora de horas" pensam sempre que tens uma vida facilitada. Enquanto "eles" têm de trabalhar todos os dias. E tu, estás de "visita". Como consegues estar de visita? Deves ter um excelente emprego! E dinheiro para viajar...
Não vêm a solidão. E quando fazes um amigo e o descobrem, parece que também isso os incomoda. Será por ser um sinal de ajustamento ou de felicidade?
Algumas pessoas entram dentro do seu automóvel e, enquanto dirigem até as suas casas, ficam a pensar na vida sacrificada que levam. Um carro a pagar a prestações, uma renda de casa... e tanto trabalho. Ficam a pensar nisso enquanto tranquilamente adormecem nas suas camas, nas suas casas, com aquela sensação tão boa que é sentir que estás no teu cantinho.Vêm um emigrante e pensam que a vida deste não é tão sacrificada.
Não vêm que não dá para ter automóvel a prestações, que a casa e o quarto onde vão adormecer não é só deles, é partilhada e não lhes pertence. Que tudo é provisório e incerto. E que o trabalho também é duro. O dinheiro não lhes cai do céu. E o que têm de fazer para o obter, por vezes, é muito exigente.