Agora que me encontro deitada no sofá e olhei para cima - avistei a parede. Lembrei com clareza e certezas, o que tinha já esquecido.
Pouco depois de vir morar para a casa 🏡 onde me encontro há já seis anos, fui de viagem até Portugal por uns sete ou oito dias. Nesse tempo as outras pessoas que moram comigo mantiveram o contacto. A rapariga, a M. (quem se lembra?) estava sempre a enviar mensagens pelo Whatsapp. A maioria trivialidades mas ela não deixava de mencionar nada.
Foi por isso que senti muita estranheza quando , no regresso, vi estas marcas na parede.
Onde estaria o quadro que tinha colocado ali? Uma moldura branca, quadrada, com uma imagem a preto e branco de uma cidade cosmopolita com visão aérea dos prédios. Deve ter caído - é o que uma pessoa acaba por deduzir.
A questão estranha era a M. não o ter mencionado. Nem em nenhuma das nossas conversas por telemóvel, nem no meu regresso. Falou de tanta coisa e seria de esperar que também mencionasse "olha, o quadro caiu e partiu-se".
Acho até que nem percebi o quadro em falta logo que cheguei. Mas um ou dois dias depois, já nós tínhamos posto ainda mais conversa da treta em dia. O que tornou tudo ainda mais intrigante.
Andei á procura dele e encontrei-o no chão, encostado contra a parede, entre o sofá e a arrecadação. Não estava partido, apenas um dos cantos estava aberto. Dava para reparar mas...
Entre tantas conversas sobre a casa, porquê não mencionar uma coisa assim? Seria tão natural entre colegas. Ainda mais se foi ela, que não trabalhava e vivia em casa, que apanhou o quadro e o meteu de lado. Sim, porque o dito não foi parar ao lado do sofá encostado a uma parede, perto da arrecadação.
Ela NUNCA mencionou a ausência dele. Não teve reação se por acaso eu expressei surpresa ao não o ver na parede. Mas mencionou algo como "não reparei" ou se fez de esquecida.
Eu AMAVA embelezar a casa. Estávamos todos a amar a casa, a elogiar os espaços, a planear melhorar pequenas coisas. O quadro foi um dos meus pequenos contributos. Nunca coloquei o que fosse sem lhes pedir aprovação.
Lembro-me que quando o coloquei lá e perguntei se por eles tudo bem que o ali metesse - na parede da antiga chaminé, acima do sofá, ela questionou o propósito. Quis mesmo saber porquê. Falei que achava que faltava ali qualquer coisa, tinha aquela imagem a preto e branco e achava que era capaz de ficar bem ali.
Ela encolheu os ombros e "permitiu" o quadro ali. Mas por vezes mencionava-o, nas conversas sobre gostos pessoais, chegando a sugerir que se calhar era melhor tirar, ou que não era seguro.
Assim que me ausento, estranhamente, a fita adesiva que coloquei em excesso para me certificar que o quadro, que era bem leve, não iria cair, é a única coisa ainda presa á parede.
Pretendia arranjar o quadro e voltar a colocá-lo no lugar. Mas algo... coisas mencionadas aqui e ali pela M. como se não fosse nada... por exemplo, dizer que se caiu foi porque não era para ficar ali e ela bem tinha dito que não achava que ficava bem... Algo, uma sensação, de que não era bem vindo... talvez agora conclua que fosse intuição.
Acabei por não o fazer.
O uso de adesivo podia ser inadequado para aquele propósito, não quis arriscar.
Desisti e fui tentar tirar o adesivo da parede, mas não saiu de forma alguma.
Na altura ocorreu-me a possibilidade, muito ao de leve, pelas circunstâncias, de não ter sido acidente. Mas descartei e não dei importância. Hoje acho que posso afirmar que a M. sem sombra de dúvida era exatamente o tipo de pessoa para se incomodar com algo tão insignificante, querer que as coisas corressem à maneira dela, ao ponto de ir buscar um cabo de vassoura para o usar como ferramenta para bater no quadro até este cair.
Talvez o tenha feito, talvez não. Mas é pessoa para isso e muito pior.
Há pessoas que, quando "aprontam" algo com alguém, sentem satisfação em ficar quietos a aguardar a reação da vítima.
Tristeza, dor, sofrimento, angústia, incómodo, tudo o que inflija sentimentos menos agradáveis - é o que o certo tipo de indivíduo gosta de causar a terceiros.
Ela era assim.
Isto do quadro foi um sinal. É sempre assim. É gradual, começa pequeno e escala ao absurdo.
Basta relembrar que passou meses a criticar o colega que fumava, ainda que este o fizesse sempre do lado de fora, com a porta fechada. Quando este saiu da casa, ela, também fumadora, fez questão de fumar de porta aberta, deixando o fumo invadir os cómodos. Ia de propósito abrir a janela que fica ao lado do meu quarto e ia fumar debaixo dela. O que eu sofri! Sempre a respirar um ar tóxico. Ela fumava como uma chaminé: uns atrás dos outros! Começava pela manhã e podia durar o dia todo até às 5 da madrugada. As beatas, deixava-as pelo chão, muitas vezes aos molhos. Não usava um cinzeiro, nem mesmo quando a agencia tentou a forçar e instalou um na parede do lado de fora da casa. Só serviu para ela, que não gosta de ser "ensinada", por duas ou três vezes, o tivesse colocado a arder. O metal estava tão quente, a parede estava a ferver... que se eu atirasse um ovo estrelava logo. Fui eu que tive de extinguir a fumaça, que durava horas... chegou a um ponto que, pelo cheiro, já sabia o que era. Já nem esperava três horas para ver se se dissipava, se a origem do cheiro era do jardim de vizinhos... intuía e ia lá abaixo para extinguir o fumo.
E foi isto...
Foi isto TUDO que me veio à lembrança em fracções de segundos, ao avistar na parede umas marcas.
Tudo tem história.
Tudo tem história.
PS: Agora que concluí de escrever e fui ler o post LEMBREI de outra situação que vivi e que deu origem a que muitos de vocês que me lêm comentassem. Tudo começou com o post "A Jarra Saltitante". Surpreendeu-me. Só agora, reparo nas semelhanças. Há de fato personalidades com tanto em comum que se devia, logo ao primeiro gesto, partir para generalizações e não deixar espaço para dúvidas. São pessoas narcisistas com alguma perigosa "patia" pelo meio.
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