A data de aniversário...
Existem culturas que sabem celebrar tal data. Com festa e alegria e mais nada.
Não é o caso da cultura portuguesa, na minha opinião.
Depende de cada um, claro. Mas pessoalmente pelo que observo acho que culturalmente somos educados a sentir o PESO dos anos. A olhar para a idade como um marco dos nossos fracassos.
Ah, a cultura do fado*.. Quando a data chega, vem também a depressão. Aprendeu-se a "ver" o copo meio vazio, ao invés de meio cheio. Ainda que o aniversariante o esconda, entre sorrisos ou aparente normalidade. Quando fica a sós consigo mesmo, ele vem: o "fado".
Claro está que, acredito, existirem muitos portugueses que olham para a data e querem passar um dia alegre. Entre amigos, família. O típico. E passam.
Mas mesmo aqueles que sorriem diante de umas velas acesas espetadas num bolo de aniversariante, enquanto lhes cantam os parabéns numa mesa de restaurante, dentro de nós... sentimos o peso. Como se fossemos educados a olhar para o aniversário como um símbolo do curto tempo que temos na terra e do quanto o desperdiçamos.
Pensamos no tempo que já passou e não volta mais, na velhice...
Nem todos os aniversariantes têm família por perto para lhes dar mensagens de parabéns. Há quem não têm ninguém. Esse dia chegará para mim. Por enquanto tenho meus pais que, mal ou bem, se lembram sempre. São eles que me "avisam" que a data se aproxima, desconhecendo o poder massacrante que daí advém. Porque eu, realmente, não lembro e não "marco" o dia no calendário. Até eles me fazerem sentir o "peso" dele.
"Ah, filha, vais fazer XX anos"....!!!
Eu a sentir o meu espírito jovem e eles, sem perceberem, a substituírem esse sentimento pela constatação do peso do tempo já passado. Mas ainda bem que alguém se lembra, não é? E que sejam eles significa que ainda os tenho na minha vida. Sem serem eles, tenho uma tia que também me parabeliza. E tenho um irmão que não podia ser mais indiferente. Um dia os mais velhos irão partir, deixando-me só.
E é coisas assim que acabam por passar pela cabeça de um aniversariante sem família. Não se olha o copo meio cheio, mas o quanto está vazio. O quanto nos faltou conquistar e que, para todos os sentidos, a cultura diz que já devia ter sido conquistado.
E no dia seguinte tudo isto eclipsa-se. Desaparece.
Pelo menos conto com isso.
Pelo menos conto com isso.
*fado: um estilo musical semelhante aos blues, com voz acompanhada de guitarra mas também com o significado de "peso", geralmente canta a dor, o sofrimento, a perda, o amor não correspondido.
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