sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Para escutar


Acho o assunto interessante.
Gosto da forma como expõe o raciocínio, as associações que faz e a sorte que tem em poder falar de temas tão controversos sem despoletar fúrias instantâneas. Um feito que poucos possuem. E associa tudo ao humor, o que muito aprecio também. O que seria a vida sem o humor?

Além do tema ser interessante assim como as posições, aqui fica claro que RAP é uma pessoa culta, interessada, com um reportório de conhecimento vasto obtido em diversas leituras e um curioso. 


Então aqui fica o meu conselho:
Faça o que tiver que fazer, limpe a casa, cozinhe, descanse um pouco e deixe este vídeo em play por 30 minutos. Acho que não vai arrepender-se. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Comprei um cão



De louça. E vim toda feliz para casa por o ter comprado. 
Não estava na minha ideia fazer compras de artigos que não preciso e não são essenciais. No entanto, lá estava eu, a sorrir e a segurar o dachshund na mão.  


Minutos antes tinha avistado aquelas carnes secas para os cães mastigarem e sorri, porque despoletou lembranças. Terá sido por isso ou terá sido por já ter convivido com a raça?

Ou será outra coisa totalmente?


Pelo caminho lembrei-me do peluche. 
Há umas semanas encontraram um peluche que acariciei. Era muito macio e o gesto de passar a mão pelo boneco despoletou instintos maternais. Na ocasião até brinquei com isso. Disse que pensei já ter transitado para a fase "apetece-me dar uma chapata neste puto" e afinal ainda existiam em mim resíduos de cuidar e tomar conta da raiz até a idade da independência.

O que me trouxe outro tema à lembrança: este.

Sim, pode-se ter saudades do que nunca foi nosso. Como não?
Eu sinto saudade da filha que nunca tive e dos irmãos que lhe ia dar.


E nesse aspecto, ter encontrado à momentos um cabelo branco solto na indumentária, um que me passou despercebido, que não se fez anunciar, traz aquela sensação de tempo perdido, vida desperdiçada. Aqui estou eu, numa situação tão precária como se tivesse começado agora a minha vida de independência financeira. Não tenho nada que muitos outros têm: casa, família. Estou tal e qual como estava há 25 anos. Como se tivessem feito um bruxedo para ficar estagnada. A diferença está mesmo nos cabelos brancos. Eles surgem para me lembrar que o tempo está a acabar, se não é que já acabou. 

E, a pesar de tudo isto que não é animador, tenho o queixo nivelado e estou bem. (Terá sido o datchshund?). É o que é e será o que for.


Faz umas semanas um senhor de idade que, junto com outros, fazia trabalho voluntário no sítio onde trabalho, veio ter comigo e disse: "Hoje é o nosso último dia aqui, vamos embora" - estava visivelmente triste. Nunca o tinha visto antes e com ele nunca tinha falado. Mas isso não o impediu de dirigir-se a mim como se fossemos conhecidos de longa data.

Como alguém pode voluntariar-se para trabalhar de graça num lugar onde a maioria das pessoas que passam exigem tudo de ti sem serem bem educadas, é algo que me transcendia um pouco. Mas não é preciso pensar muito no motivo pelo qual aquelas pessoas exibiam, desde o primeiro instante, uma alegria radiante por ali estar. Ou tristeza por ter chegado ao fim. Vi-os nos olhos, nas palavras, nos gestos. Foi na ideia "para o ano há mais" ou "talvez nos chamem de volta no Natal" que encontraram o consolo que necessitavam.


Estão sós. Não têm muito convívio com outras pessoas. E é a rentabilizar em cima disso que outros tiram proveito. O senhor acrescentou com um tom guloso que o voluntariado não é de todo não pago pois pagam-lhes 40 libras mensais para o estacionamento e deslocação. Trocos minha gente... trocos. Digo que acrescentou isto com um tom guloso porque deu para perceber que algum dinheiro fazia a diferença. Não é só solidão e necessidade de estar em contacto com outras pessoas. Ao ponto de uma multidão delas, muitas mal educadas, ser o ponto alto pelo qual anseias ao acordar. 

É também a verdade oculta deste país: os idosos não têm todos uma reforma decente. Os que trabalharam a vida inteira em funções de "colarinho negro" (da época do carvão, ahahah) e sempre foram um pouco explorados, são os que melhor aceitam sem contestar o perpectuar dessa condição. Em troca de "migalhas".


E há sempre quem se aproveite. 
Chamam-lhe "voluntariado" mas também existem empregos. É comum ver cabelos na sua totalidade brancos, em rostos muito enrrugados, atrás de um balcão qualquer. Uma vez fui atendida por uma senhora muito simpática mas cuja idade pude perceber ser bastante avançada. Pela pele enrrugada por todo o corpo, braços, rosto, peito, diria que estava nos finais dos 70 ou mesmo já nos 80. Parte de mim ficou curiosa para saber porquê estava ali a fazer aquele serviço, ao invés de ficar em casa e dedicar-se a outros afazeres mais relaxantes e mais da sua escolha e preferência. Outra parte de mim não estranhou, porque sei que é no trabalho que encontro a minha felicidade interna e bem estar.


E foi por isso que, quando aquele senhor que estava no último dia de voluntariado se afastou, deixando no ar o distinto aroma de má higiene e usando roupas a necessitar de cuidados de engomadeira, subitamente percebi: Aquele ali já sou eu!

Aquele ali serei eu.
Falta pouco.
Na realidade já tenho tudo o que é preciso.
Só falta mesmo ficar permanentemente associada à idade avançada. 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A hospitalidade Portuguesa não tem igual


Costumava achar que era um MITO.


Não que achasse que era mentira. Sei que há fundamento para se dizer que o povo português é acolhedor e hospitaleiro. Mas também achava que, se calhar, estavam um pouco a puxar "a brasa à sardinha".

Afinal de contas, o povo português também é desconfiado. E cusco. E gosta de quadrilhar. Mas mesmo não simpatizando com a cara de alguém, mesmo incialmente desconfiado e curioso, o povo não nega ajuda. E sabem que mais? Descobri que somos, de facto, especiais

E se calhar merecemos, com todos os louros, o rótulo de povo "mais acolhedor da europa". O que sempre achei exagero e pouco justo com os muitos que não conheço.


Os que conheço melhor, são os italianos.
Os que partilham casa comigo.

E nesse aspecto posso garantir uma coisa:
Os italianos julgam-se muito correctos. Mas não são.


Uma coisa que o povo português faz é, na hora das refeições, se aparece alguém e há comida, é convidado a partilhar a mesa. Neste instante os três italianos desta casa estão à volta da mesa, a partilhar uma refeição, que não me foi oferecida, nem sequer por cortesia. Nem por cortesia, fui chamada a sentar junto deles, para conviver. Nenhum deles combinou a refeição juntos. Simplesmente quando um vai para a cozinha, os outros seguem e sempre sabem que a comida é comum entre eles. Funcionam como uma matilha de cães. Aqui a diferença entre o português e o italiano é abismal. Antes de um deles começar a preparar o jantar eu já tinha feito um que dava para quatro ou cinco pessoas. E ofereci. Queria partilhar a minha refeição, quem sabe ter companhia à mesa para trocar umas palavras e confraternizar um pouco.

Qual quê. 

Nenhum aceitou a minha oferta - como aliás nunca aceitam e tenho oferecido desde que cheguei à casa. Disseram-me que iam preparar uma sopa mas, depois, tiraram pasta, salsichas e batatas e foi isso que decidiram comer. Eu tinha feito esparguete à carbonara. 
Pasta, carne, molho de tomate, com tomate... algo que os italianos dizem adorar. Mas pelos vistos, adoram se for cozinhado por um italiano, com ingredientes italianos. Parece que tudo o que não é feito por eles é tratado com esnobismo.

E é por isso que digo que eles se julgam muito correctos mas não são. São até um tanto rudes. Mal educados - quando comparados às regras de convívio e boa educação que são transmitidas e praticadas por um português no seu conceito genérico. 

Eu estou sozinha neste país. Não tenho família, não tenho ninguém próximo que seja português como eu e por vezes caia bem poder ter uma conversa com alguém dentro da mesma casa. Tinha isso na outra - embora fossemos todos diferentes e cada um na sua vida, arranjava-se sempre umas horas de cavaqueira. E a conversa saia fluida, natural, sem esforço. Nesta casa não vou encontrar isso porque divido-a com italianos. São um povo muito centrado no próprio universo tricolor de verde, branco e vermelho. 

E vocês?
O que é que acham?
Que experiências tiveram e que opinião querem partilhar sobre o tema?

Sejam felizes!
Portuguesinha

Faz alguns dias que estou para vos contar...


...Que, por aqui, as lojas JÁ exibem artigos de Natal nas suas prateleiras.



E como estão as coisas aí em Portugal?
A loucura do consumismo já atingiu as superfícies comerciais?


Ainda não inventaram outra celebração entre o final do verão, início da escola e o Natal! Os comerciantes sentem-se desesperados, vão ao fundo dos armazéns buscar restos de artigos deixados pela anterior época natalícia. Porém, aqui no UK o comércio tem mais sorte: aqui celebra-se em grande o Halloween. De modo que, entre pais natais, saquinhos e embrulhos e coisas foleiras, aparecem máscaras de terror, gazes ensaguentadas e outras "maravilhas" imprescindíveis neste mundo tão ávido pelo consumo de plásticas trivialidades.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Primeiras vezes


Uma colega de casa perguntou se valia a pena ver a série Braking Bad - que nunca tinha visto. Será a primeira vez, nunca teve algum contacto com nada a respeito da mesma. Isto das "primeiras vezes" é algo especial. É um momento especial.

Por vezes, somos privados das primeiras vezes. O mundo está muito rápido, muito depressa... muito cheio de tecnologia. Somente se uma pessoa foi criada numa floresta sem contacto com o mundo civilizado é que pode desconhecer certas séries de televisão, filmes, músicas....

Ou não?

Acho espantoso (espantoso mesmo) o que a seguir vou mostrar. Uma série de autoproclamadas "primeiras vezes" de youtubers que, pela primeira vez, vão escutar uma canção, uma melodia ou um grupo musical. Como é que conseguiram crescer sem NUNCA ter tido contacto com estes elementos é que é para mim o mistério. 











O que acham? A reação é genuína? É mesmo possível NUNCA terem escutado estas músicas, nem num toque de telemóvel, num anúncio comercial televisivo ou radiofónico, num filme?




terça-feira, 11 de setembro de 2018

É possível?


A minha resposta é:

SIM.

Claro. É possível sentir falta do que não é nosso ou nunca foi mas pensamos ser.
É por isso que temos sonhos e corremos atrás deles. Por sentir falta do que não é nosso.


Concordam?
Discordam?
O que têm a acrescentar?

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Obrigada pelas vossas palavras



Os vossos comentários no post anterior merecem um post por si só.
Obrigada pelas vossas palavras.
Doces, optimistas, de apoio.


As dúvidas, que nem abutres,  já andavam a pairar no ar. Terá sido a decisão correcta? Em termos de salário este emprego surpreendeu-me. É como um segredo muito bem guardado. Ninguém sente-se atraído para ele porque paga o salário mínimo. Ninguém o quer, todos procuram salários que paguem 10 libras à hora, não sete e meio. Mas depois com as comissões, mesmo com os impostos em cima... o lucro pode igualar ou até superar o obtido em outros empregos em que me privei de dias de descanso e fiz 12 horas diárias. Aliás, no restaurante, jamais conseguiria atingir estes valores, nem nas com 46 horas semanais de trabalho. (mais umas 3 horas extras).
E tanto cansaço valeu para quê?

Nem ganhei bem, nem me deram valor.

Mas isso são águas passadas. Já não me interessam.

No aspecto salário vou sentir falta deste emprego. Ainda estou curiosa para saber quanto rende na época baixa, já que depende tanto da comissão. Porque mesmo tendo tido um mês mau, o salário foi bom. E ganhei um prémio! Sei que as raparigas que lá estão a trabalhar faz alguns anos, fazem-no por esse motivo. Não é que gostem ou estejam satisfeitas. Mas sabem que não há melhor, não arranjam melhor.

Estarão elas certas e eu errada?
Verei. Mas pela primeira vez, tomei a decisão que o instinto, a cabeça, o coração e o bom senso alertaram para tomar. Afinal, a vida é curta. E já dediquei metade dela a "desobedecer" a este quarteto. Tá na hora de tentar o reverso.

 a vocês,
que me fizeram sentir estar no rumo certo.

Que Deus vos proteja como decerto merecem.

Tudo de bom, 
Portuguesinha

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Duas idiotas não fazem uma inteligente

"Espero que esteja tudo bem consigo" - pergunta Elvira, num dos comentários que simpaticamente aqui deixou, após regressar das férias.

Acho que a Elvira deve ter um dedo de adivinha. Porque de facto vêm aí mudanças para a minha vida. Mas, não faço ideia do que aí vem.

Pela primeira vez em toda a minha vida, pedi dispensa definitiva do trabalho. 

Acontece que recebi o ordenado hoje... e até se abriu a boca.
Nunca antes ganhei tanto com tão pouco esforço.

Se calhar fui uma IDIOTA por dispensar este emprego. 
Uma idiota por não querer ser comandada por outra IDIOTA. 
Só que esta, de uma idiotice de outro nível.


---

Não é novidade que existiu uma contenta entre mim e a chefe - por uma coisa muito idiota. Por causa dela, a mulher deixou de me falar adequadamente nos dias seguintes e exibiu alguns comportamentos infantis. Um deles foi dar-me o pior horário de trabalho no mês seguinte. Uma pequena "vingançazinha" de pessoa mesquinha que, tendo oportunidade de prejudicar outra, abraça-a infantilmente, ao invés de a rejeitar. 

A situação voltou a repetir-se. Ou melhor, a chefe voltou a fazer uma grande tempestade num copo de água. Nem percebi porquê lhe deu tanta vontade de barafustar. Não existiu qualquer motivo para tal. Não cometi nenhum erro, não prejudiquei ninguém... o trabalho estava a correr bem, mas um pouco parado. E por isso propus no grupo de trabalho que se alguém tivesse interessado numa folga, eu estava interessada em trabalhar. 

É natural... as pessoas trocam turnos, fazem propostas...
Eu não sou muito disso mas, há sempre uma primeira vez. Então deixei a proposta no ar. Não foi como se estivesse a forçar alguém! Nem exigi nada. Porque só isso justificaria a reação dela. Depois de ler esta minha sugestão, ela escreveu o seguinte: "Fulana, quando perguntei quem queria fazer horas extra não disseste nada. Agora esperas que os teus colegas dispensem dos seus dias de trabalho para ti??? Não gosto nada disso!"

Eu li a mensagem e fiquei pasma. Mas... porquê aquela agressividade? E de onde veio aquela interpretação?? Quando é que ela perguntou quem pretendia fazer horas extra? E porquê estava a usar isso contra mim? Estava a castigar-me, ficava implícito. Por não me ter oferecido para fazer horas extra há quatro semanas atrás, estava agora condenada a não ter direitos? Nunca mais poderia propor nada? Mas isso é ser chefe? Mas afinal o que fiz eu de errado ao escrever aquela simples e inofensiva mensagem sugerindo uma troca de folga por um dia de trabalho? Nunca pensei, nunca me ocorreu, que ia ter uma resposta como aquela.

E não ficou por aí. Porque ao lê-la, caí no erro de responder. Não gostei da implicação que ela fez: de que estava a prejudicar os meus colegas e que não me oferecia para fazer horas extra. Porque não era verdade! Ela havia pedido para fazer horas fazia 5 dias. E assim o fiz. Trabalhei até há uma da manha.

Agora estava a acusar-me de não me oferecer?

O que mais me custou da outra vez foi ouvi-la retratar-me de forma oposta ao que sentia estar a demonstrar. Estava a acontecer novamente. E assim não podia ser. Como posso trabalhar para uma pessoa que diz que ando pela esquerda, quando ando pela direita? Que me acusa de pegar no telemóvel quando não gosto de telemóveis?

Portanto existiu na sua resposta uma quantidade muito equivocada de afirmações, todas entregues com agressividade. Disse-lhe para deixar estar... Da maneira como ela deixou claro estar descontente estava obvio que NINGUÉM IA OUSAR, mesmo que quisesse, trocar um dia comigo.

Mas ela continuou. Ainda respondeu que não se falava mais do assunto, não queria ouvir mais uma palavra a respeito!

Ora...
Ela cria toda uma discussão e depois até sente-se no direito de silenciar qualquer possível intervenção. Isso é um atentado à liberdade de expressão. Foi aí que percebi: "mas ela é uma IDIOTA!".

E foi aí que decidi que não ia ficar a trabalhar para ela.
Ainda assim, nada disse nesse dia. Não queria agir a quente.

Quando entrei no escritório, disse bom dia a todos e, quando me virei para sair, ela, que nada me disse, ruminou um "Hei?", ao que lhe respondi um simpático adeus e continuei o meu rumo. Afinal, tinha terminado o trabalho, já nada me prendia ali. E se ela escreveu que não queria ouvir mais uma palavra a respeito.... pensava o quê? Que ia ter com ela discutir o assunto??

Não quer diálogo não tem diálogo...
É olá e adeus e pronto.

Minutos depois recebi uma mensagem no telemóvel, dela. Escreveu assim: "Fulana, querida, é para te lembrar que ainda estás à experiência. Tem um bom dia!".

Interpretei aquilo como uma ameaça. "Ou fazes o que quero, ou te curvas e obedeces, ou serás castigada. Eu tenho poder sobre ti".

Quase que respondi: "Muito obrigada por me lembrar. Era o que precisava saber. Neste caso aviso-a que o meu trabalho acaba aqui".

Mas fui mais madura. A decisão estava tomada. Mas ia comunicá-la presencialmente.

No dia seguinte ela liga-me para perguntar algo e no final diz que temos de falar. Muito bem, quando? - pergunto. Ela não sabe dizer... Proponho ir ter com ela no final do meu turno para esse fim, mas ela rejeita a proposta, dizendo-se muito aterefada. Talvez na "segunda-feira"... responde ela. Ou seja: uma semana! Não estava para esperar uma semana até «sua magestade» decidir que tem tempo para falar. Se mencionou que temos de falar, que não usasse isso como arma de intimidação. Que fica a pairar no ar por sete dias... Perguntei-lhe então sobre o quê desejava falar. Mais um suspiro e ela diz:
-"Tu não percebes que atrapalhas os turnos dos outros? E depois ages como uma crianças de cinco anos!".

Ao que lhe respondi: "Fulana, eu quero terminar a minha colaboração aqui na empresa."
-"Está bem" - responde ela, num misto de surpresa e alívio.

(estava cansada de a ver usar essa possibilidade como ameaça)

-"De quanto tempo precisas?"
-"O tempo para sair são duas semanas".
-"Duas semanas (eu tinha lido uma apenas por lei). Que mais é preciso fazer?"
-"Deixa uma carta na minha secretária".
-"Está bem. Adeus."


Instantaneamente senti-me leve.
Gosto do trabalho - nunca tive um que surpreendesse tanto pela positiva no salário. E não é nada exigente. Mas pode ser aborrecido e monótono e chato (se as pessoas forem chatas e parvas). E nesses momentos não o suporto. Mas nunca irei encontrar outro como este, isso é certo. Ainda demais, é uma companhia privada. Não corria o risco de ser demitida como nas outras que a rodeiam...  Era mais "sólida". Só que, nas condições em que a encontrei... não quis arriscar cair nos erros do passado. Erros que me fizeram aguentar todo o tipo de abuso. Até o abuso se tornar pior, pior e eu acabar gravemente prejudicada. "Se ao menos tivesse terminado tudo como pensei tantas vezes..." - não queria passar por isso novamente. Então, na hora em que tudo ficou claro, segui essa visão.

Foi a primeira vez que agi assim.

Mas ficam dúvidas. E incertezas. Terei de aprender a viver com elas.
Receio de ter sido precipitada, receio de ter agido mal ao sair de um local sem ter outro para ir. Isso é que me assusta: não encontrar outro. E agora já não é qualquer um que me serve. Quero algo específico e sei o que não quero fazer.

E estou mais velha. Cada dia que passa... mais velha.
E o verão já acabou. Vão-se os empregos...

Nada está a meu favor...
Será que fiz bem?

Sei que há duas espécies de bem. E fiz bem, para o lado que negligênciei toda a minha vida. Mas preciso de viver, de dinheiro, de trabalhar que é o que me faz feliz...

Agora o tempo dirá o que sairá daqui. Para já, tive dois dias de ansiedade...
Não é muito bom. Mas também tenho de aprender a lidar com ela.

Entretanto, mais para se precaver, ela ligou-me no final do turno a perguntar se queria ir ter com ela para conversar. Então fazia três horas não tinha tempo, só dali a uma semana... agora arranjava tempo? Perguntou se mudava de opinião. Respondi que tinha de seguir o meu instinto... e que havia deixado a carta na secretária, como pediu.

No dia seguinte vieram ter comigo para confirmar se eu ia embora por causa dela. Queriam que apresentasse uma queixa por escrito, dizendo quais os meus motivos, para que a carta chegasse aos ouvidos dos superiores dela. Porque não é a primeira vez que ela age assim com as pessoas que estão debaixo do seu comando e não pode ser assim.

Só que se existiram outros - e sei que existiram - então porquê não foram os outros a escrever essas cartas? É um assunto que ainda vou ponderar. Pois não sei se tenho evidências suficientes. Tudo pode ser levado para a questão de "interpretação". Que foi a desculpa esfarrapada usada no primeiro emprego que tive, quando quis denunciar um caso de bulling. Era tudo "interpretação" minha... E de qualquer pessoa com a mesma queixa sobre o mesmo indivíduo.

Depois, não sou delatora. Nunca fui.
Tenho aversão a ir por detrás de alguém conspirar contra essa pessoa. Sou mais cara na cara, rosto no rosto, diálogo. Coisa que ela praticamente baniu... pelo que, ao agir assim, praticamente valida que se tente a via indirecta.

Este mês ela atribuiu-me 10 dias de folga. É um exagero. Dois a mais que o habitual e cinco a mais que uma rapariga que está a tentar proteger, influenciando os seus resultados finais. Deu-lhe os melhores turnos e só lhe deu a segunda folta após 15 dias. Isso vai reflectir-se no salário mas também numa competição que está a decorrer. O primeiro prémio são 100 euros. Adivinhem quem estava a liderar no início? Eu. Mas quem é que vai ser o vencedor? A protegida.

Com apenas 5 dias de folga no mês de Agosto e com os melhores turnos, a protegida vai ser a vencedora. Não há matemática que refute essas possibilidades. Existe uma outra colega que estava a aproximar-se bastante e é boa. Mas até aí a chefe influenciou o resultado. Ontem, penultimo dia da competição, sugeriu TROCAR de turno com a protegida, afirmando, inclusive, que era melhor para ela porque ia vender mais artigos para a competição!!

Ela tem a competição muito presente. Está sempre a mencioná-la. Portanto sei que as minhas suspeitas não são coincidências. Não me surpreenderia se o verdadeiro motivo por detrás do seu ataque verbal tenha sido o facto de não me desejar a interferir nos seus planos de me afastar o máximo possível das possibilidades de ganhar esse prémio. É que as minhas folgas coincidiam com o final do mes... a única altura em que podia recuperar. Ela não ia deixar...

E por todos estes detalhes mesquinhos, por estas coisas pequenas, acho que não vale a pena. Nunca sei o que vou encontrar ali. Nunca sei de onde vem o próximo grito, o próximo stress... e aquilo é um emprego que não justifica tanto aborrecimento.

Entretanto daqui a duas semanas a chefe vai de férias... pela quarta vez desde que lá estou a trabalhar. Não entendo como é que, tirando tantas férias, consegue regressar sempre mais furiosa, ao invés de calma. Mas agora isso já não me diz respeito.

A protegida vai ser recompensada. Não só vai meter ao bolso 100 libras, como a partir de amanhã tem uma semana de férias. Convenientemente tiradas "pós" competição. E já planejou tirar outra semana daqui a 10 dias. Adivinhem quem é que vai fazer horas extras na sua última semana de trabalho???? Enquanto a favorita vai de férias e não há mais ninguém? Parva fui! Porque foi por causa disso que me demiti e agora fiz-lhe o favor de lhe facilitar a vida... até precisava de estar mais livre para planear a minha vida. Mas não... pensei que ela não tinha mais ninguém.... senti compaixão. PARVA, IDIOTA!


Gostava que alguém demonstrasse preocupação comigo e com o emprego que vou conseguir. Isso é que seria de utilidade. Mas até agora só me abordaram porque me querem usar como ferramenta para expor a chefe pelo que ela é...

Mas se ela sair, outra igual vai para o lugar. E talvez uma que seja mais difícil de apontar os erros... uma mais sabida.

Por tudo isto, terei feito bem? Terei feito mal?
Só Deus sabe.

O que eu sei é que fiquei num emprego para lá do tempo em que me sentia confortável nele e essa decisão foi catastrófica. Sofri muito e a consequência injusta deixou marcas. Depois a minha outra grande decisão errada: ficar demasiado tempo a viver naquela casa com aquele tipo. Quando decidi sair, voltei atrás. Tudo para um mês depois sair de vez. O meu primeiro instinto estava correcto. Mas eu, ingénua, crédula... deixei-me levar pela esperança, pela crença de que é possível uma convivência cordial, seja no campo profissional ou pessoal...

E voltei a sofrer com isso.

Foi por ter passado por essas experiências que agora tomei a decisão contrária aquela que me é de costume. Cortei o mal pela raiz, antes que esse mal pudesse me prejudicar ainda mais.

Desejem-me muita sorte, do fundo do vosso coração!!!


Abraços carinhosos,
Portuguesinha