sábado, 8 de abril de 2017

Terá sido o gato ou a Brenda?


Hoje o trabalho correu bem. Fiquei feliz com o ambiente - livre das pragas infestantes dos que têm má energia. Finalmente algo que vinha a pedir fazia dois meses foi realizado. E para completar, atendi um cliente simpático, inteligente e poliglota - cinco línguas (entre as quais árabe) que durante anos exerceu a mesma profissão em que me formei. Só por ter esse breve contacto já fiquei feliz. 

A meio da tarde terminaram as minhas 9h de trabalho. Estava um sol radioso, muito surpreendente para uma manhã nublada, em que a respiração saia do nariz em forma de vapor. 


O que fazer? Ir para casa descansar ou ir para o parque espairecer?

Vontade tinha eu para as duas coisas. Optei por ir para casa. O sábado é um dos dias de trabalho de um dos ocupantes. Com sorte, a outra ocupante também estaria fora e eu poderia simplesmente relaxar, sabendo-me só. Cheguei, desabafei com os meus botões sobre a minha felicidade pela conversa tida com a tal pessoa interessante e só reparei que não estava sozinha em casa quando fui petiscar à cozinha e avistei um rosto à janela. Com o sol das 17h a brilhar lá fora, decidi sair. Finalmente ia ao «meu» parque. Já tinha vontade de lá passar faz um bom tempo.

Apanhei o autocarro e fui. Cansada de andar com malas, optei por enfiar o que precisava nos bolsos do casaco (já que não tinha outros): O telemóvel, a carteira e a cartão do passe. Na mão, apenas uma garrafa de água e posteriormente um pacote de batatas fritas, que, pelo sim pelo não, comprei antes de entrar no autocarro.

A viagem foi rápida. Julguei-a mais demorada mas foi num ápice que me vi a sair na paragem da rua com o nome de um famoso pintor inglês. A caminhada para o tal parque ainda é longa. Mas compensa. E se compensou! Nunca lá tinha ido a um fim-de-semana. O parque parecia transformado. Era outro. Conclui que durante a semana é um parque diferente daquele que é nos fins-de-semana. Estava cheio de crianças cujas vozes entusiastas de pequenos seres a se divertir a brincar ecoavam por toda a parte num certo frenesim barulhento, sobrepondo-se ao perpétuo chiar dos pássaros. E cheio de pessoas de diversos tons de pele, a falar todos o tipo de dialectos, usando diferentes tipos de indumentária. 

Explorei novas partes do extenso parque. Aquilo mais parece uma floresta! Cheguei mesmo a encontrar uma extensão de densas árvores altas, por caminhos estreitos de terra batida e cheguei a pensar... «talvez não seja muito aconselhável trilhar por aqui». Mas trilhei. Era uma zona de "Ape experience". Os britânicos colocam cabos bem no alto das árvores e sobem lá acima, preso por arnazes, indo de árvore em árvore, seguros pelo cabo. Vi uma rapariga a executar esses procedimentos e devo dizer que me pareceu demorado e monótono. Os «macacos» (apes) não se demoram assim, eheheh.



Antes de chegar a essa zona mais isolada, quando ainda estava perto do extenso relvado verdejante apinhado de famílias em pique-nique, casais deitados a namorar, jovens a fumar e pessoas a jogar badminton, vi muitas pessoas a aparecer com cones de gelado na mão. Deu vontade. Mas, onde os teriam obtido? Não foi preciso pensar muito: sabia onde ficava o único sítio que parecia ser comercial. Um bar-restaurante dividido no espaço de duas grandes casas em madeira, que sempre tem a tocar uma deliciosa música country. É um estilo que muito me apraz e garanto que dá vontade de ali passar e ali ficar sentado um bocadinho, a relaxar.

Nem posso falar da vista para o lago! Não posso, porque o meu telemóvel perde bateria muito rápido. E perdeu antes de conseguir tirar uma fotografia. A única vez que me sentei num dos muitos bancos que por lá andam - o banco da Brenda - foi a vez que me proporcionou a melhor vista para as águas do lago. Uma paisagem quase cinematográfica que pode tirar o fôlego. Aquele parque agradou-me ao espírito e à alma logo na primeira visita. Os pulmões foram os primeiros a se sentirem felizes. O ar que se respira ali é mais agradável. Nunca lá tinha ido num dia como o de hoje. E desta vez estou a falar do solo. Porque sempre fui em dias que o chão tem consistência de lama. Desta vez tudo estava tão seco que pude caminhar tranquilamente por todos os recantos. É um lindo parque mas, se se optar ir para lá numa de aventura entre a natureza, regressa-se sujo, empoeirado e enlameado.

Mencionei o «Banco da Brenda». O que quer isso dizer - perguntam.

Bom, como acho que já havia mencionado, por cá têm o hábito de colocar nos bancos de jardim placas com o nome de uma pessoa falecida. Como já expliquei, acho isso um pouco estranho. Porque é o mesmo que dizer às pessoas para se sentarem num túmulo! Pois se tem data de nascimento e falecimento, nome da pessoa e as habituais referências de "adorada mãe e avó, para sempre nos nossos corações" brrrrrr!

Banco raro, com duas placas com nomes de pessoas falecidas

Se é por essa razão, não sei. Mas a verdade é que não é fácil ver alguém sentado num desses bancos. Eu tive a audácia, depois de muito caminhar, de me sentar num. No banco da Brenda. Só me lembro do primeiro nome porque, de certa forma, pedi mentalmente «licença» à Brenda para me sentar no banco dela... Como se o corpo dela tivesse enterrado por debaixo e o seu espírito fosse possessivo e por ali se mantivesse. Sentar num banco com o nome de um morto... Mas todos os bancos vêm com nomes de mortos. O que fazer? Uma pessoa tem de descansar.

Por esta altura estava um pouco triste. Tinha passado por umas pequenas flores azuis e senti o impulso de colher um raminho. Coisa que só não fiz porque o parque estava cheio de gente e mesmo num canto distante, sempre aparece alguém. Nesta ocasião foi um casal com um cão (e se os há por lá!) a falar polaco ou uma língua similar, pois não a conheço em concreto. Decidi então levantar-me do banco da Brenda e voltar atrás. Tinha apanhado um pequeno ramo florido. Mas era pouco. Senti vontade de decorar o quarto com mais alegria floril. Voltei ao espaço que me tinha agradado - o jardim da paz - e apanhei outro raminho, coisa pouca e a tal flor azul em último. Esta tinha o cale leitoso. Percebi que precisaria de a colocar em água rapidamente.


O resultado final.
Não ficou bonito?




Só então prossegui caminhada para sair do parque. Secretamente ia a tentar adivinhar onde poderá vir a ser o meu banco. Sim, porque quero um. É curioso. Estranho mesmo este costume dos britânicos em darem o nome de mortos aos bancos de jardim. Mas desde que os vi naquele parque quero um. Mas só ali. Noutro lugar não me apraz. O cantinho ainda está para ser descoberto. Não o quero na «lama». O branco da "Brenda" está completamente fora de questão em dias que não sejam de verão. Até chegar a ele enterram-se os pés!

Homem com cão
Pelo caminho avistei por trás o perfil de um senhor idoso com chapéu, bengala, uma sacola vermelha pelas costas e um cão delgado, tipo galgo, ambos a contemplar o horizonte. Imaginei que o senhor estaria a pensar onde ia querer o seu banco. Apressadamente, retirei o telemóvel do bolso esquerdo do casaco, na esperança que ao re-acender o aparelho já sem bateria, ainda teria energia suficiente para registar aquele instante. Mas já não fui muito a tempo. Homem e cão retomaram marcha e o que registei empaleceu diante do que vi.


Ser sábado também trouxe outro tipo de surpresa... Foi encontrar alguns desses bancos com flores e vasos de plantas depositados ali como se um túmulo fosse! Flores frescas, cheias de vigor, flores de verdade. Colocadas em ramos em cima dos bancos... Ora, isso é o quê? Só pode ser uma oferta ao falecido. Uma cena de facto rocambolesca.... Será que visitam os bancos como se fossem túmulos? 

Ramo de flores e vaso de era com brilhantes dourados
firmemente atados num banco com placa referindo um marido
saudoso, falecido em 1988, com 50 anos.


Caminhei. caminhei... já passava das 19h30.. Queria chegar à paragem do autocarro antes deste acabar de partir. Estar vazia era um mau sinal. Mas é sábado, fiz questão de perguntar ao motorista do autocarro no qual fui para lá se este tinha hora para cessar serviço. Disse-me que não, que até de noite havia autocarro. Por isso sosseguei. Aqui os sábados, domingos e os transportes não «casam» muito bem... Hoje atrasei uns minutos a chegar ao emprego, mesmo tendo saído de casa dois quartos de hora antes do tempo máximo que leva o dito autocarro a percorrer a distância. E, como é sábado e ainda nem eram 7 da manhã, o autocarro nem sequer viu UMA VIATURA à sua frente enquanto fez o percurso. Ainda assim, atrasado chegou. A tal da pontualidade britânica é um mito.

Cheguei à paragem às 19h44m. O painel eletrónico indicava que a próxima viatura passava naquele lugar dali a 26 minutos!! Uma eternidade, para os meus pés cansados, numa altura em que o dia estava já a falecer para dar lugar à noite. Foi então que comecei a sentir uma mudança de energia. Um receio, uma sorte má. Não quis dar ouvidos mas estava receosa de ali ficar tanto tempo, sozinha. Um homem «mau encarado» andava próximo. Ia e vinha, mas não se aproximava. O que quereria? Mantive-o debaixo de olho. Mantive todos os que se aproximavam debaixo de olho. Passou uma mulher com um andar algo cambaleante e uma postura estranha. Parecia drogada, pela forma como andava sempre com as mãos unidas à sua frente mas com os braços todos caidos para baixo, pelas suas roupas e botas datadas no tempo sendo ela visivelmente jovem. Mantive debaixo de olho todos aqueles que chegavam e entravam dentro das suas casas. Caso precisasse correr e bater por ajuda em alguma porta. Coisas que nos passam pela cabeça quando se vive ou viaja sozinho.

Mal cheguei à paragem e aparece de imediato um autocarro, mas no sentido contrário. Controlo o impulso de atravessar a estrada e meter conversa com o motorista. Porque era o mesmo que me trouxe até lá e me deu as informações. Queria dizer-lhe que a minha espera era de quase meia-hora! Provavelmente indo a pé em 30m chegaria a meio do caminho... Mas acordada desde as 5 da manhã, de pé durante 9h de trabalho e mais duas horas de caminhada a ideia era absurda e de imediato foi descartada. 


Continuei vigilante ao que me rodeava. Aos postes de iluminação ainda apagados. A luz do dia quase a desaparecer, tépida. A lua branca lá no topo do céu, mesmo à minha frente. Foi então que avistei um gato preto à minha esquerda, um tanto distante. Atravessava a estrada para a rua em frente. De imediato lembrei-me da crendice: "Gato preto dá azar!". Mas tentei afastar essas superstições, enganando a mente da seguinte forma: "ele não se atravessou à tua frente. Se não passar à tua frente, não há mal algum". Vejo-o atravessar e logo depois põe-se a caminhar para a direita. Passa por uma porta de uma casa, depois outra, outra sebe... até que não o vejo mais passar. Ufa! Penso. Foi por pouco. Passado um bocado o gato completa o resto do percurso e passa todo lagueiro à minha frente. "Bolas" -pensei. "Mas foi do outro lado da estrada, talvez não conte".

Espero e espero e espero... Os minutos parecem não querer passar rapidamente. Está a escurecer. Os candeeiros acendem-se. Faltam 10 minutos para o autocarro. E é aí que surge outro, no sentido oposto. Reparo então numas pessoas com crianças a correr. O homem toma a dianteira a ver se consegue chegar à paragem a tempo de mandar parar o autocarro. Sim, porque aqui meus queridos, nenhum pára alguns centímetros antes, ou depois. Nem sequer param se estiveres a fazer sinal e a correr para o alcançar. Já vi muitos a «molengar» na paragem, com percepção de que pessoas estão a correr para o alcançar e depois arrancam quando a pessoa está quase a conseguir. Aconteceu comigo uma vez e já vi acontecer com outras pessoas também. Portanto, para mim, isso é um costume. Aqui não existe a CORTESIA que existem em Portugal. No que respeita a motoristas de autocarro, existem boas diferenças. São cordiais, claro. Mas nestas pequenas coisas que fazem toda a diferença, são todos «fodidos». 

Ocorre-me que podia atravessar a correr para o outro lado da estrada e assinalar ao motorista para parar, de modo a dar tempo à família de o apanhar. Porque eu não ia querer entrar na viatura que não se dirigia para onde pretendia ir. Era só mesmo para ajudar aquelas pessoas e «tramar» o motorista que, quase de certeza, não ia parar. Mas ao mesmo tempo que senti este impulso muito rapidamente também me ocorreu que ter uma família de 5 crianças e 3 adultos por perto era-me vantajoso. Não queria estar ali sozinha. Ao menos sentia-me mais segura tendo por perto pessoas  aparentemente inofensivas. 

Por mais que o homem corresse e apanhasse a dianteira da corrida, não chegou a tempo ao poste que assinala a paragem. E eu vi, nitidamente, o motorista do veículo a virar o pescoço e olhar para o homem no preciso momento em que o ultrapassou. E continuou a andar, sem parar para os deixar entrar. A um SÁBADO, final do DIA, uma família com cinco crianças, sabendo que a frequência das viaturas é muito espaçada entre si. Não teve esse gesto de cortesia. Aliás, desconhecem-nos de todo. Seja o motorista inglês ou polaco, africano, etc... 

A família, de origem desconhecida mas com ascendência africana e a falar um linguajar num misto de francês, com africano e inglês, era barulhenta e irrequieta, mas normal. Acabaram por atravessar a rua para o meu lado, para a minha paragem. As crianças, duas meninas gémeas e três rapazes, corriam à volta da paragem, falavam e gritavam alto, pediam comida à mãe, uma das mulheres pôs-se a falar ao telemóvel... Uma família barulhenta com miúdos irrequietos e pouco disciplinados, mas uma família boa e normal, podia perceber. Os miúdos tinham uma cara linda e imaginei que iam se transformar em adultos charmosos. Uma das meninas tossia cada vez que dava dois passos de corrida. Achei que pudesse sofrer de asma... Coisas que nos passam pela cabeça assim, sem mais nem menos. Faltavam então 8 minutos para o autocarro aparecer. Mas ao invés do autocarro o que vejo aparecer à minha direita, vindo da frente do passeio para o meu lado, é o tal gato preto. Ele traçou um quadrado perfeito em torno de mim. Não me deixou nenhum «flanco» em aberto...


Faltam dois minutos para o autocarro aparecer, os miúdos estão numa algazarra e eu decido tirar logo o passe do bolso para o ter à mão e rapidamente o usar. É então que não dou com ele no bolso direito do casaco. Espreito no do esquerdo. Não sinto nada! Não tenho mais bolsos, não está no pacote de batata frita... Perdi-o. Ao mesmo tempo que isto me alarma, ao mesmo tempo sinto que não vou ficar apeada. Não tenho dinheiro comigo para a compra do bilhete com o motorista. Só tinha cartão de débito - e estes não são aceites. O próximo autocarro chegaria dali a tanto tempo que sabia que não podia esperar. O autocarro chegou enquanto ainda procurava, em vão, dar com a carteirinha do passe. Não dei. Preparava-me para entrar em primeiro lugar na viatura quando as crianças e o pai já se estavam a tentar enfiar primeiro. Uma das meninas entrou e correu para o fundo do autocarro, sendo de imediato reprimida pelo motorista, que gritou para que voltasse, perguntou se ela estava comigo, porque não podia entrar sem a presença de um adulto. A menina recuou e eu comecei a explicar ao motorista que tinha acabado de perceber que tinha perdido o passe.

A reação dele? Aqui não querem saber. Não tens como pagar o bilhete, não fazes a viagem. Simples, seco, sem peso de consciência.

Perguntei-lhe quanto custava o bilhete. Nem lhe disse para que destino - não pareceu fazer diferença. Ele logo respondeu: 2£40. Eu só tinha 2£ comigo... porque guardava na carteira uma moeda de estimação. Nova e reluzente. Era também uma moeda cunhada por ocasião especial, mas já nem recordo qual. Tive de a gastar por causa do gato preto ter-se atravessado no meu caminho...

Nem olhei para as feições da moeda, de modo a me despedir dela. Quando a apresentei ao motorista, que me ordenou que lha mostrasse, pousei-a no recipiente para o efeito que existe na porta que separa o condutor dos passageiros. Foi aí que quase tive a visão ofuscada pelo seu brilho reluzente. Tão nova que parecia acabada de sair da casa da moeda. O motorista, seco, indiferente, pegou nela e olhou-a por uns estranhos segundos, como que a duvidar da sua autenticidade. Depois repetiu que não podia me deixar entrar sem que pagasse o valor do bilhete. Ao que eu me virei para trás e pedi àquela família que me emprestasse os 0.40p. Algo me dizia que ia conseguir chegar a casa nesse sentido, e não me enganei. Uma das senhoras não hesitou em completar o valor, ao que lhe agradeci e como gesto de reconhecimento ofereci um snack que encontrei no bolso: uma barra de cereais. Mas ela compreensivelmente recusou. 

Entrei então com bilhete comprado... Mas não graças ao motorista. Por esse podia ficar a dormir na rua, eles não querem saber.

Muito diferente de portugal, decerto. Não que os nossos nos deixem entrar sem bilhete (bom, muitos fingem não ver os que o fazem de propósito). Mas nós temos mais coração e mais alma. Temos ainda isso... Eles já os perderam para as normas e regras.

Lembro-me perfeitamente de uma ocasião em Lisboa, no terminal rodoviário, em que esqueci a carteira em casa e não tinha dinheiro comigo. Precisava entrar na camioneta para ir trabalhar. Expliquei tudo ao motorista que, ao contrário de todos os outros dias, não reconheci. Novo ali, um homem de outra nacionalidade, algures de um país de leste. Que me estava a ver pela primeira vez. Ele foi tão simples e descomplicado, deixou-me entrar só com a promessa de que depois pagaria o bilhete - o que fiz, com ele próprio, na ocasião em que o avistei pela segunda e última vez. Ele foi tão... que eu o tomei por um anjo reencarnado. A sério que sim! Parece uma coisa ridícula mas, se existirem anjos deste género, eles são um pouco como o Michael Landon no seu seriado "Um anjo na terra". Parecem-se com homens comuns, não têm nada de especial, podem até ter um ar rude, feio, estranho. Mas se eles te virem a alma ou receberes um gesto especial, entendes.


No autocarro continuei a «sentir» com as mãos os bolsos do casaco na esperança de encontrar o passe mensal. Sei que não está comigo, mas isso não me impede de repetir o gesto. Chego então ao destino, saio do autocarro - já o motorista é outro, pois mudaram na paragem anterior - e vou a caminhar para casa a pensar na despesa que vou ter de fazer pela manhã, quando tiver de apanhar novamente o autocarro para ir trabalhar. Vou gastar umas 8 libras para pagar viagens que já havia comprado. Perder o passe não me incomoda, porque acho que posso pedir outro, ainda carregado com essas viagens. Mas acho que a companhia não vai fazer isso, e se fizer, não será rápido. Embora fazer um passe seja no próprio instante. Mas uma segunda via não sei qual o processo,muito menos a um Domingo. Podem até estar fechados.

No meio desta falta de sorte trazida pelo gato preto, existiu alguma sorte. De tudo o que tinha nos bolsos do casaco - telemóvel, carteira com documentos, passe de autocarro e barra de cereais, podia ter perdido coisas mais importantes. Como a barra de cereais, ahahaha!

Caminhava então para casa, desejando encontrar no chão uma moeda para contrariar a má sorte. Já avistava a esquina com a luz do candeeiro que antecede a escuridão, quando dou por mim a pensar no gato preto e na autenticidade dessa crendice. E nesse instante, quando vou para passar pela esquina, penso: "Espero que ao dobrar a esquina não me apareça outro gato à frente".


Dobro a esquina e logo me aparece junto com um Miau um... gato! Vem direito a mim, roça-se nas minhas pernas, mostra-se meigo, mia, cheira o saco das batatas fritas, volta a enrolar-se em mim... Um mimo. É um gato felpudo, de pelo algo branco e alaranjado, com uma cauda comprida e felpuda, meio gordo.


Provavelmente uma gata, pois só elas são assim dóceis. Já a havia avistado antes, em Dezembro, através da janela do quarto. Percebi que era gato de rua, talvez cuidado por pessoas, mas de rua. E é destas redondezas. Nunca mais o avistei, até este instante que descrevi.

Acariciei-o de volta e perguntei-lhe:
"Olá fofinho. Vens me dar sorte? Não és como o teu amiguinho, que me deu azar, não é?".

Acariciei-o mais vezes, ele continuou a roçar-se nas minhas pernas. Início de cio? Não me pareceu... Ou talvez. Não importava. Os gatos são por natureza fugidios e este «saltou» á minha frente para me acariciar. Agradeci-lhe. Mas precisei continuar caminho, estava quase perto de casa. Decidi dar um passo em frente, sem saber se a gata ia reagir afastando-se. Ela pareceu querer seguir-me. Ainda se roçou um pouco mais nas minhas pernas, seguiu-me até o atalho e ficou a roçar-se numas ervas altas. Eu prossegui caminho pelo carreiro estreito e ela ficou algures na escuridão. Entrei em casa direta para a cozinha, peguei num recipiente em plástico, numa lata vazia que vi na reciclagem, enchi a lata de leite, aqueci no microondas a única comida que tinha em casa - pedaços desfiados de borrego e fui deixar lá, onde avistei a gata pela última vez. Porque já não a encontrei. Será ela a decidir se vai querer encontrar-me novamente.

Recuei e não pude deixar de reparar na lua. Está próximo o dia 11/12/13... datas que têm implicado consternações no passado. Coincidentes com o início do dia de lua cheia. Tudo isto são crendices mas digo-vos... estou muito mais sintonizada com este género de coisas do que gostaria. Começo a aceitar que possam ter fundamento. Porque são coincidências... que coincidem demais.


A lua hoje está praticamente totalmente CHEIA.
Surgem gatos pretos e gatas laranjas felpudas...

Agora resta saber se foi o gato preto ou a ousadia de me ter sentado no banco da falecida Brenda!
Mas cá para mim foi o gato.

Voltei depois a sair. Lembrei-me que podia ter levantado o dinheiro que vou precisar para a passagem logo pelas 7h da manhã. Costumo ir sempre à multibanco do meu banco, que é perto mas como fica no centro da cidade, dá muito nas vistas. E a zona não é bem frequentada quando anoitece. Por isso precavi-me. E por estar cansada, usei a máquina MB do banco que fica mais próximo, nas traseiras da minha casa. Procurei confirmar se era "Free", porque aqui cobra-se uma taxa por se usar os terminais multibanco. Lá dizia que permitiam levantamentos «de graça» aos cartões de débito. O meu é de crédito. Mas quis acreditar que o FREE era sem restrições. Afinal, free é free. E tinham-me dito que basta ter essa indicação que não vão cobrar dinheiro. Lembrei-me apenas ao chegar a casa, de olhar o recibo. Mostrava o saldo disponível e o saldo. Com uma diferença de CINCO libras. Fiquei sem saber que diferença era essa. Depois poderei confirmar mas, acho cá para mim que o poder do gato preto perpectuou-se e esse valor foi quanto me custou o levantamento naquele terminal.

Haja formas estúpidas para se gastar dinheiro arduamente ganho!!

2 comentários:

  1. Essa coisa dos nomes nos bancos é muito tétrica.

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  2. Uma taxa de levantamento?
    Isso é roubo legalizado.
    Boa semana

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