Têm arrependimentos?
Não tenho arrependimentos. Isso não quer dizer que esteja satisfeita com a vida que tenho. Ou ache que fiz tudo bem. Sei que existe uma outra vida, toda ela mais excitante mas mais importante, mais de acordo com a minha pessoa que nunca cheguei a viver. Contudo, esta constatação, por vezes diária, não me faz sentir pesar ou arrependimento. Talvez porque não dependeu tanto de mim. Eu fiz uma escolha inconsciente: uma escolha de carácter, de personalidade. De altruísmo.
Bom, mas um artigo recente que li fez-me desejar falar sobre este assunto que é a VIDA. Pode ser que ajude alguém por aí.
Quando meu avô faleceu, um familiar havia discutido severamente com ele horas antes. Provavelmente causando-lhe um mau estar que contribuiu para o desfecho final. Um outro familiar que vinha a manter distância confidenciou-me sentir-se "mal" por o ter "despachado" ao telefone no dia dos seus anos e também por ter tomado a decisão de não comparecer na reunião familiar que ocorreu dias antes do seu falecimento. Meu avô já tinha tido uma "ameaça" cerca de um mês antes. Há qual os familiares, no geral, deram pouca importância e demonstraram ter pouca paciência e disponibilidade para o transportar de carro até ao hospital, visto que várias chamadas para o 112 só devolviam a informação de "não haver ambulâncias".
![]() |
| Foto: Pedro Correia (TSF) |
Foi depois dessa altura que ele exibiu alterações de comportamento que achámos estranhas e fora de costume, mas nada de extraordinário: ia-se desfazendo de coisas, queria dar o animal que tinha acabado de arranjar como companhia e mandou desligar o telefone terrestre.
Foi um dos primeiros no bairro a instalar um. Era sempre à casa dele que os vizinhos batiam na porta, para poderem urgentemente comunicar com alguém. Isto pode parecer uma realidade alienígena, impossível de conceber nos dias de hoje - dias de telemóvel/celular que faz de tudo: guarda nossos documentos, é nossa carteira, nosso telefone, nossa rede social, nossa comunicação com o mundo e nosso diário. Mas não há tanto tempo assim um simples telefone era um "luxo" não disponível a famílias comuns, de baixo poder económico.
Hoje vejo que ele estava a antecipar o inevitável. Sentiu que o seu fim estava próximo e, como a pessoa íntegra que era, embora nem todos que lhe eram próximos fossem capazes de lhe reconhecer esse traço em particular, tratou de deixar tudo "nos conformes" para não impor aos que ficam quase nenhum empecilho. Deu o cão a outra pessoa. Ele, que sempre gostou e manteve animais perto de si. Mandou desligar o telefone fixo. Tinha tudo pago e não deixou dívidas. Deixou uma casa de três quartos no centro de Lisboa que foi paga com anos de trabalho para ali poder criar uma família de seis e, alturas existiu que se transformaram em sete, oito, nove... Deixou esse imóvel de "herança". Que, como quase sempre, os filhos também não souberam valorizar, cada qual já tendo suas casas. Até "desprezavam" de certa forma devido a memórias menos boas de desentendimentos às quais as pessoas teimam em segurar e associar a espaços.
Depressa o recheio da casa foi colocado no lixo, como se valor algum tivesse um pequeno bibelô, os conjuntos de chá mantidos sem uso na vitrine, quadros que sempre se mantiveram pregados nas paredes a adornar o espaço, os copos que serviram a mesa de incontáveis natais, etc. Depois a casa foi vendida, o valor distribuído e em menos de três meses, já alguns dos filhos diziam não ter dinheiro para coisas simples e pouco dispendiosas. Provavelmente usaram o valor do que um dia foi uma casa para pagar dívidas acumuladas ou gastaram em coisas supérfluas.
Pessoalmente faz-me confusão como uma CASA - algo que ainda hoje luto para conseguir, algo tão difícil de obter, pode se transformar em NADA em tão pouco tempo e com tanta facilidade.
Bom, mas meu avô partiu e, no inverno em que isso aconteceu, a chuva parou de cair e o sol apareceu. Para quem é sensível a estas coisas, para mim interpretei a súbita e inesperada mudança de clima como sinal da sua ida para o "outro lado". O céu estava de um puro azul lindo. As pessoas, alegres, até deixaram de lado os casacos compridos, os guarda-chuvas e usavam - pasme-se: T-shirts!
Lembro-me de estar sentada algures no Parque das Nações, após o funeral - mais um dia de SUPER SOL de Inverno, ver as pessoas de t-shirt, alegres com o sol... e pensar: como pode? Sinto tanto pesar e ninguém deteta... as pessoas estão felizes.
E é assim que devemos nos comportar na vida: Com felicidade.
Porque a vida é mesmo uma passagem num plano. Parece promissora, longa. Parece que dá tempo para "tudo e mais alguma coisa". Mas desconfio que não é assim. Pelo menos não é assim se viveres a vida a adiar coisas que pretendes fazer. Coisas que queres fazer "um dia". Como por exemplo uma viagem a um país exótico, a compra de algo em particular, um emprego ou hobbie que pretendes experimentar... tudo ADIADO, porque a sociedade materialista e de consumo em que vivemos soube muito bem nos incutir que a prioridade é a "sobrevivência" do sistema económico, que depende de "formiguinhas" trabalhadoras que contribuam para o PIB do país. Serão recompensadas na idade avançada, com uma reforma e então poderão "usufruir" das coisas boas da vida sem qualquer dever ou amarra trabalhista.
Só que não é assim! Quando somos novos e saudáveis parece até aceitável... porque ainda desconhecemos as consequências que o esforço contínuo e repetitivo de uma tarefa laboral impõe no corpo. O que sentimos é vigor, estamina, capacidade para conquistar e fazer de um tudo! Mas essa consciencialização altera-se com o tempo. A mente pode até querer correr, subir colinas, carregar mochilas pesadas ás costas em aventuras... mas quase com 70 anos... isso não vai ser possível. Okay?
Portanto, gozem a vida agora. Tenham responsabilidade sim, um emprego estável se possível é hoje uma benção - mas retirem sempre, todos os dias, umas horas para gozar do "nada" que é tudo. Gozar da Natureza. Do silêncio. Da ausência de computadores, redes sociais, tecnologia... Façam com que essas horas entre um compromisso e outro vos faça sentir revigorados. Não passem o fim-de-semana a descansar o corpo moído e cansado. Embora seja o melhor que se pode dar ao corpo - a mente vai sentir falta de nutrientes. Visitem antes um museu. Aqui em Portugal são tantos, tão interessantes e muitos gratuitos!
Subitamente deu-me vontade de rever a "lula gigante". Lembram-se disso? Nas visitas de estudo da escola, quando somos meras crianças, fui levada ao aquário Vasco da Gama e lembro de olhar para uma vitrine onde estava uma Lula Gigante. E ver tartarugas ao vivo, num lago circular e murado.
Hoje apetece-me reviver essa experiência. Não vos parece um PRIVILÉGIO poder fazer tal? Passados tantos anos, décadas, um museu é ainda uma memória viva de um momento, disponível para proporcionar muitas mais.
E é assim que se vai vivendo um pouco.
Vivam.
Para não sentirem arrependimentos, com felicidade, bondade no coração, alegria, solidariedade.




