domingo, 13 de outubro de 2013

A morte e a hipocrisia

 "ao menos respeite os mortos".

Não gosto deste chavão que se escuta cada vez que se sabe do falecimento de alguém. Acho que as pessoas, algumas pessoas, aproveitam-se da situação e usam o morto. Parece impor-se uma espécie de contenção e anda-se a pisar ovos, com receio de qualquer coisa que se diga, faça ou pareça fazer possa ser mal compreendido e disso conduzir a se escutar uma tirada destas.

O espírito crítico não pode ser revelado. Tem de ser oprimido. Se alguém erra mas é aparentado do falecido, não se pode abrir a boca. E depois existem os choros. Alguns de situação, que mais parece que a preocupação de quem os tem é ser julgado se não os tiver. Entendo o respeito, acho até que sempre tive bastante deste sentimento em mim, mas não entendo estas pequenas coisinhas que agora não consigo bem explicar.

E existe também um prazer mórbido. Que faz algumas pessoas desejarem serem as primeiras a trazer a notícia, a espalhar aos quatro ventos algo que é tão pessoal e tão íntimo... Que querem é ser politicamente correctas, nem que para isso tenham de ser inconvenientes e injustas.

 Acho que muitos se aproveitam para demonstrar uma falsa indignação e um falso sentido de correção. Quando não mesmo para receberem atenção e pena. E a expressão "respeite os mortos" como que revela e legitima isso, tal é a banalidade e a "ocacidade" com que tantas vezes é pronunciada.

Na morte parece que existe também um comportamento de HIPOCRISIA. Por qualquer coisa, uma atitude, um gesto, uma palavra, uma crença, alguém gosta de se armar em detentor da moral. E o que tantas vezes é irónico é que os primeiros a dizê-lo não têm tanto respeito assim, seja por mortos ou por vivos. Só depois de passar o funeral é que as pessoas acham que já se pode voltar ao que se era. E a crítica volta a ser aceitável. Já está enterrado, já podem falar o que quiserem... e até faltar ao respeito.
 
LOL. Percebem o que quero dizer?


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Uma mão curva-se diante da outra

Frente ao monitor do computador, a aguardar que uma página carregue, ergo as mãos até ficarem duas silhuetas negras diante da luz do monitor e aproximo-as, para quase se tocarem. É aí que constato uma coisa impressionante.


A mão esquerda está totalmente vertical. A mão direita fica meio curvada. 


Enquanto que, numa mão os dedos ainda se esticam até a posição vertical sem problemas, na segunda o mesmo esforço produz uma elevação ligeiramente diferente. É preciso um impulso extra para colocar os dedos de uma mão na mesma posição que os da outra. E subitamente percebi que os velhos têm mãos curvas. E entendi como vai ser a perda da elasticidade e como será sentir as partidas da idade no corpo. 

Sou dextra. Quer isto dizer que a mão direita é a que pega no rato quando estou no computador, a que escreve com caneta, a que faz mais movimentos repetitivos. Embora com a esquerda também me saia relativamente bem, levo mais tempo. A direita, é, sem dúvida, aquela que trabalha mais. Mas estava longe de imaginar que não envelhecessem juntas e partilhassem em simultâneo as suas "misérias". Existem diferenças de "idade" entre uma mão e a outra. Tal como existem entre pessoas que trabalham muito e outras que pouco ou nada fazem. Usar é gastar. Pronto. É um facto. Numa mão os músculos parecem elásticos usados. Noutra são novinhos...

Experimentem fazer essa experiência. 

O que se passa com o blogger

Que agora não me anda a deixar aceder a esta página? Algo a ver com configurações, com o "novo" perfil e uma série de tangas que não ajudam em nada à rapidez com que hoje em dia se deseja aceder às coisas. Uma pessoa vem aqui só para fazer uma "rapidinha" e perde que tempos só para conseguir que a chave abra a porta... Oh, céus!

Ando cansada disto. A google quer saber tudo. Daqui a pouco até as cor das cuecas durante os dias da semana, xiça!

Alguém entende o que é isso do novo perfil? E alguém consegue comentar alguma coisa nos "bloggers" diferentes em que não aparece NADA a dizer "X comentários" só botõezinhos de partilha, chatos para caraças, que querem aceder à conta do facebook e sei lá mais o quê?

Eu adoro tecnologia. Não parece, mas adoro. Mas me aborrece tremendamente os atrasos de vida que pedem para se introduzirem palavras-chave, atrás de palavras chave e a constante mudança de coisas que estão bem, porque se não mudarem continuamente de X em X meses sentem-se ultrapassados.

Ah, e esta porcaria regista todos os dados que uma pessoa introduz. É um espião do caraças!

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A propósito da Casa dos Segredos (não, não é outro post sobre o programa)

Introdução: 
(totalmente dispensável mas pronto)
Já que por toda a comunidade bloguista parece surgir um post dedicado ao reality show "Casa dos Segredos IV", deixem-me cá falar também do programa, para não me sentir irreparavelmente angustiada por ficar excluída da "moda".  (brincadeira ahaha, nunca dei um bãh para as modas).

Texto:
Já que dizem que o programa Casa dos Segredos IV serve para observar e reflectir sobre os comportamentos humanos, vou usá-lo exatamente para isso. Ao menos terá finalmente essa utilidade. 

A propósito dos concorrentes, em particular de uma situação de algum atrito entre Aníbal e duas raparigas - uma de 37 anos outra provavelmente de 24, ficou notório que a primeira se submeteria aos tratos e maus tratos da figura masculina, enquanto a segunda, a mais nova, mostrou saber argumentar sem ser conflituosa mas também sem ser subserviente. 

Isto fez reflectir. O que faz algumas mulheres "baixarem a cabeça" a desmandos, a tentativas de agressão verbal, a provocações e terrorismo psicológico? Porquê a mais velha tinha essa vulnerabilidade e a mais nova não, sendo que outras na casa, também elas novitas, revelaram a mesma vulnerabilidade?  

Calhei dizer que o que leva algumas mulheres a se mostrarem submissas e subservientes a determinados comportamentos agressivo-passivos de certos homens (aka Aníbal) tem explicação lá no passado, com a sua história de vida e com a presença do autoritarismo. Supostamente se diz que a concorrente mais velha é a que tem o segredo: "fui agredida pela minha mãe" e se assim for, vejo nessas suas raízes uma explicação. Porque a moça parece-me porreira, do bem. Se me parecesse agressiva, daquelas que odeiam o mundo e querem que todos neles se lixem, a infância também podia ter a sua influência. Mas já não a veria, talvez, como uma mulher submissa a desmandos - embora tantas com um passado desses e uma postura dessas o façam.

A questão reside nas carências afectivas. Ou nas agressões afectivas. Com origem na infância e juventude. 
Com o que está por trás, com a forma como foi criada e educada, pelos pais ou outra figura que os substitua.


Foi então que me foi dito que uma mulher "p" faz o que faz e a responsabilidade não é dos pais. A concorrente em questão sabe-se, por já terem sido divulgadas imagens, que fez parte de um site de venda do corpo onde tudo fica à mostra. Ou seja, trabalhou, entre tantas coisas, como acompanhante/prostituta.

Mas sabem que mais? Isso não me influencia minimamente a julgar de imediato quem a pessoa é. O ofício não diz tudo. A pessoa é que tem de dizer mais. Estão para ali umas meninas de pouco mais de 20 anos, e também meninos, provenientes de lares aparentemente de famílias clássicas, com pai e mãe que lhes tentam dar uma vida com todas as comodidades, direitos e liberdades. E no entanto estas jovens só não são "p" por isso. Por terem uma casa com pais para onde regressar. Porque de resto, pelas histórias que muitas contam, a postura diante da vida e os comportamentos sexuais são até bem promíscuos. 

A questão então levantada, comigo dizendo uma coisa e outra pessoa outra é:
Eu acho que os pais têm sim muita responsabilidade nas escolhas de vida que os filhos fazem. 
Ou por serem demasiado permissivos, ou por serem castradores. Ou até por saberem ser de tudo um pouco na medida certa. Só isso e principalmente isso é que influencia o tipo de vida e de pessoa que uma criança virá a ser ou o tipo de oportunidades que conseguirá agarrar. Mas achar que uma mulher que se torna prostituta o faz somente porque tem inclinação para a má vida, é errado. Quem diz que o abandono emocional dos progenitores que tanta vez deixa um filho nas ruas, não é a auto-estrada para esse caminho?


sábado, 5 de outubro de 2013

Esta pessoa quer Pessoa

Apetece-me encontrar Pessoa, o poeta.
Mas adio.

Adio porque o reencontro tem de ser sereno.
Tenho de deixar as palavras ressoarem por dentro e se fazerem sentir. Como uma droga boa.
E para isso acontecer não pode ser já.
Preciso de silêncio e tranquilidade.
Coisa que não tenho,
Coisa que Pessoa pede e a alma anseia.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Antigas amizades (encontrar)

Não sei o que me deu mas lembrei-me de uma pessoa com quem privei na infância e nunca mais soube nada dela. E o que me lembrei? De colocar o seu nome na barra de pesquisas do facebook, pois o nome completo foi uma daquelas coisas que ficou na memória, vai-se saber lá porquê. 

Claro, não encontrei nada. Nem esperava encontrar. E se encontrasse, nada ia fazer. Mas isso fez-me reflectir na quantidade de pessoas com quem nos cruzamos na vida. Algumas até são recentes. E aí pensei: "porque será que as pessoas gostam de procurar e serem encontradas pelo facebook?"

É que não mudei de endereço. Nem de número de telemóvel. E o meu email basicamente continuou a ser o mesmo por muitos e muitos anos. De modo que, a meu ver, continuo tão contactável e localizavel quanto sempre. Se alguém num ímpeto de saudosismo quiser saber como ando, basta discar o velho número. 

No entanto, quase que arrisco afirmar sem muitas dúvidas que existindo essa possibilidade e o facebook, a maioria das pessoas se sentiria intimidada com o imediatismo do telefone e tentaria primeiro o anonimato do facebook. Com sorte, se encontrar quem pretende, consegue "espreitar" a sua vida sem se fazer notar. Sem estar presente. Descobre de imediato se está casado/a, como é a vida familiar, o que anda a fazer e até a sua aparência, graças às fotografias. Voyerismo?


Bom, no caso da pessoa que me veio à lembrança, nada descobri nem poderia. A curiosidade dita apenas o querer saber se está bem, se está viva, se tem uma vida minimamente agradável e feliz. O resto não me desperta muito interesse. Não quero saber se está melhor ou pior que eu, se envelheceu melhor ou pior, se tem mais posses ou se tem uma profissão mais invejável. Tudo isso que eu sei importar para tanta gente, a mim não interessa. Mas naquela altura nem existiam telemóveis, quanto mais números. Foi uma breve amizade perdida para sempre. É assim a vida.  

Cheiro a queimado em Lisboa - II

Cheira a combustão na rua. Intensamente. Cheiro poluente que mais uma vez invade a madrugada. Deu um "ar de si" durante a tarde mas foi agora que decidiu invadir o ar que respiro. Ah, cheirinho de madrugada, frescura... para onde vão estas características cantadas de Lisboa? Agora vão dizer que é o quê? Incêndio?

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Minha avó e sua geração - parte dois

!A Voz da Saudade", é uma espécie de reportagem/documentário a passar na RTP que fala sobre Maria Estefania Anacoreta, do Movimento Nacional Feminino, que em 1966 foi para as regiões de ultramar levar até os soldados mensagens gravadas em fita dos familiares que deixaram para trás. Foi comunicar as saudades de mãe, pai, irmãos, primos, avós, foi reforçar o amor de namoradas, foi comunicar a alguém que havia sido pai. Enfim, uma história bonita de um passado que não sendo tão distante assim parece estar a anos-luz do conhecimento da geração seguinte e até mesmo de alguns que o viveram.

É a beleza dos meios audio-visuais. Eles preservam uma determinada altura do tempo, "congelam-a" e trazem as emoções todas de volta. Isso é muito emotivo. Trazer "de volta" a voz dos que já morreram. Recordando quem foram, o seu calor, a sua vida.

Mas apeteceu-me vir escrever sobre isto porque ao deparar no zapping com a ida da senhora a um almoço de confraternização com um dos batalhões ao qual levou notícias no passado, percebe-se de imediato que chega e toma conta da situação. Que é vibrante, alegre, determinada, dona de si, animada e atrevida, o que os americanos dizem "sassy". E bem disposta. No sentido de que, a pesar de terem vivido em tempo de guerra, de perda, morte, de terem sofrido e envelhecido, a postura diante da vida é optimista. Não têm o pessimismo que parece existir agora. É guerreira. Faz por pensar positivo. No mater what.

E é isto que me impressiona. É isto que admiro nesta geração. Algo inteligível, que ainda não sei precisar com poucas palavras, mas que identifico com facilidade. E tudo isto fez-me lembrar minha avó. Ela era diferente desta senhora, mas ao mesmo tempo muito igual. Parecida na idade, parecida na energia e na afabilidade. Diferente na formação, no tipo de vida. Mas parecidas. Jamais vou esquecer que uma familiar definiu minha avó como "arisca". E acho que lhe cai tão bem! Só conheci minha avó, naturalmente, já avó. Não sei quem era como jovem. Quem era como pessoa e mulher. Só posso imaginar quem deve ter sido com a minha idade. Mas conheci-a bem como avó, e a pessoa que era como avó, como vizinha, como esposa. E já velhota, sem memória, ela continuava a ser muito ela. Tinha o mesmo brilho no olhar, o tal olhar que meu avô emocionado uma vez me confidenciou ser "muito bonito". Mantinha o seu espírito vivaço e bem disposto. Em consciência não queria perder-se em amarguras e tristezas. Recusava-se. Queria mexer-se, ser activa, sair de casa. Os maus momentos não eram negados mas também não era para se pensar muito neles.

Simplesmente acho que existe algo a aprender aqui. Algo que não vai existir na geração que agora envelhece. Acho que vamos ser uns velhos desinteressantes, tristes e amargurados. Muito "abraçados" às perdas. E eles, que realmente perderam tanto, filhos e possibilidade de uma vida melhor, não o fizeram.