terça-feira, 27 de agosto de 2013

Os incêndios - outra vez

Mais um bombeiro - jovem e voluntário - se foi. Está morto, vai "viver" para o cemitério. Porquê?
Vale a pena ver e escutar as matérias e o comentador do telejornal das 22h da SIC Notícias - canal a que estou agora a assistir. Grandes verdades a serem ditas.

Um dos aspectos sobre este assunto que li no jornal mencionava a FORMAÇÃO destes bombeiros e o CONHECIMENTO da área. Achei estes aspectos muito relevantes. Não obstante todos os outros que dizem respeito à prevenção, raramente alguém comum como nós pensa se estas pessoas estão realmente bem habilitadas a combater incêndios. Não só no que respeita à formação prática (quantidade, intensidade, diversidade) mas também ao CONHECIMENTO das áreas florestais de Portugal. Julgo que a maioria dos bombeiros que combatem um incêndio NÃO CONHECE a área da mata a arder - o que é natural - já que são por volta da centena que acorrem aos fogos vindos de todos os cantos do país. Mas depois escutam-se notícias de óbitos de bombeiros jovens pelos 20 anos, que tinham uma vida inteira pela frente e tanto ainda para descobrir e fazer e eu, particularmente, penso se nestes casos o infortúnio foi de alguma forma minimamente facilitado pelos seus "verdes" anos, pouca prática ou formação. São voluntários, por vezes seguem os passos de familiares, é como uma tradição familiar que os fascina mas também os pode deixar  -sei lá - a pensar que a "herança" genética e todas as histórias que cresceram a ouvir contar os torna mais conhecedores, mais aptos talvez, causando uma falsa segurança. 

Uma pequena boca de água, um incêndio que se estende por quilómetros...
Persistência, resistência, habilidade e tempo é o que implica
este método de combate às chamas

Mas isto sou eu que pensa nestas coisas. Um incêndio não deve ser coisa fácil de encarar. Não tanto pelo perigo imenso, mas pelo cansaço e desgaste - talvez este o maior perigo de todos. Só uma vez na vida "experimentei" apagar um fogo - com vestes de protecção e um fogo controlado - num curso de primeiros socorros e por aquela pequena amostra consegue-se sentir o braseiro a ruborizar a pele - ainda mais se o vento decidir ajudar. Pelo que imagino esta amostra quadruplicada várias vezes e por aí calculo a exigência física intensa e desgastante que um combate real com as chamas obriga.  


E pronto. Infelizmente o que relatei anteriormente ganha agora mais relevância - o no passado ter visto incêndios a deflagrar quando viajava num avião comercial e o facto de hoje no ESPAÇO, visto da estação Espacial um astronauta fotografar PORTUGAL com os seus fogos visivelmente a arder. Se se vêm do ESPAÇO, imagine-se a dimensão da tragédia. Nem sempre ela "chega aqui" (na cidade), pelo cheiro - que foi o caso anterior. Mas ainda que deflagrem "longe da vista e dos sentidos" dos que como eu são citadinos da capital, não deixamos de lamentar e sentir angústia por toda a calamidade e pelas perdas para o país. Não só pelos incêndios que destroem hectares de floresta, mas pelas VIDAS humanas (e não só) que deles se tornam vítimas, assim como pela destruição de bens, infraestruturas e propriedades. 


E só de pensar que muito disto é causado por PIRÓMANOS, pessoas mentalmente pouco desenvolvidas que não conseguem encontrar nada de mais útil para fazer com as suas vidas, e então decidem sem remorso serem os responsáveis pelas mortes de jovens como Ana Rita Pereira (24 anos) e Bernardo Figueiredo (23 anos), curiosamente colegas de formação, então o que pensar destas pessoas? São ASSASSINAS. O que merecem como punição? Qual a JUSTA punição? 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cheiros e Incêndios - quem controla a qualidade do ar que respiramos?

Na zona onde vivo, que é elevada, aqui há vários anos durante a noite até de madrugada incomodava-me muito o cheiro que empestiava o ar dentro de casa. Mesmo com as janelas todas fechadas o ar contaminado fazia-se sentir por horas. Por vezes nem me deixava adormecer, porque logo acordava com um incómodo respiratório e a garganta incomodada. Sabem aquela sensação de querer tossir para desobstruir algo e não dar? Por vezes ia até ao frigorífico beber leite, na esperança de sentir alívio.

Vivia preocupada e receosa. O odor intenso e pestilento era de causa desconhecida. Infelizmente ninguém dos meus se preocupava muito com isso, dizendo apenas que "ia passar" e que até lá era "aguentar" porque "não havia nada a fazer". WTF??

Preocupava-me com o "veneno" que poderia estar a ingerir para dentro dos pulmões e os danos para a saúde. Abria os jornais na esperança de ler, algures, alguma referência que pudesse explicar a origem daquele odor, mas nunca encontrei nada. O que me causava bastante estranheza. E na noite seguinte lá estava ele outra vez: a agressão para as vias respiratórias. Corria a fechar todas as janelas e arestas, mas não adiantava. Enquanto o ar da rua estivesse empestiado daquele odor, eu ia ter de o respirar. Aquilo era tortura para mim! Ansiava por ar puro e nada de a noite me dar isso. Imaginava que se tratava da poluição atmosférica de alguma fábrica longínqua que aproveitava as horas proibitivas para,  longe dos olhares das autoridades, dedicar-se a actividades de produção não recomendáveis. E, conforme a direcção do vento e as infracções dessa fábrica, a zona ia ficando envenenada. Jamais alguém ia detectar.

Passei a anotar os dias e as horas da presença do odor, desde o início ao fim, quando existia um fim. "2001, Maio, 26 - x a y horas. 2002, 12 de Abril, x a y, horas". E comecei a notar um padrão. Normalmente as quarta-feiras (se não me falha a memória) a uma determinada hora era certinho: cheiro nauseabundo e incomodativo para as vias nasais vinha aí. Mas me espantava IMENSO que nada sobre a origem destes odores fosse mencionado nos jornais! Manchetes com títulos assim:

"Lisboa adormece imersa num odor pestilento" 
"Ar poluí noite de Lisboa"

Tanto fazia se era verão ou inverno. Por vezes era inverno mas nada do odor desaparecer. Pelo que não podia atribuir a origem do odor aos incêndios, até porque tinha a sensação de existir um certo padrão. Pouco entendo de correntes de ar mas uma das coisas que aprecio neste sítio é que é ventoso e recebe uma aragem forte e fresca em determinadas alturas que me dá vontade de ficar ali em frente à janela e não mais sair. Gosto de sentir o vento, a brisa, de encher os pulmões de ar fresco. Parece que me renova de imediato, me dá energia e vitalidade. Já o contrário... Pelo que deduzi que a origem desta pestilência devia estar a milhas daqui. Devia estar, quiçá, na outra banda, para os lados sul do Tejo, em Almada, talvez.

Tentei perceber qual o instituto governamental encarregue de medir e verificar a qualidade do ar (Agência Portuguesa do Ambiente) e ver se da parte deste existia alguma indicação para o público sobre a qualidade do ar da cidade àquelas horas e naqueles dias. Mas nada encontrei. E depois fiquei a pensar: Como é que se pode provar que o ar está contaminado? Como se recolhe amostras? Abre-se um frasquinho e coloca-se uma tampa? Claro que não! É que se não for em flagrante, julgo que nunca se saberá ao certo a quantidade de partículas irritantes contidas num determinado local a determinada hora.

Hoje está a ser um desses dias. O ar está algo pestilento. Não tão agressivo como recordo no passado, mas o suficiente para me irritar a mim, que sou talvez mais susceptível de sentir alterações. Mas hoje tenho uma explicação para o problema. Regressei a Lisboa a meio da tarde e ao passar na autoestrada perto de Loures avistei colunas de fumo denso a se elevarem na atmosfera, alongando-se como um braço do homem-elástico por quilómetros, levadas pelo vento. Algo estava a arder e pude ver até as labaredas de fogo. Impressionante e preocupante. Se um avião apaga-incêndios passasse por ali na altura, julgo que conseguiria extinguir grande parte dele, sem mais danos de maior. Mas o problema é que não se usam os meios aéreos primeiro. São as pessoas com roupa anti-fogo, máscaras para respirar, tanquenzinhos de água e mangueiras de bocas pequenas em relação às chamas que têm de ir para aquelas frentes de fogo e vencer a força cruel das chamas. É de uma desproporcionalidade tremenda, não admira que seja tão difícil e infelizmente fatal ou danoso em alguns casos. Acho que se podia evitar a dimensão dos danos a bens, animais e pessoas se os incêndios fossem primeiramente controlados por via aérea. Desconheço o que isso implica e a viabilidade - decerto algo impede que esta seja a via escolhida (talvez o risco de acidente) mas NADA me pareceu mais urgente naquele instante do que apagar o incêndio. O trâfego aéreo comercial na zona é intenso? Vire-se! Um incêndio é uma situação de emergência e como tal devia ter prioridade. Deviam existir aviões-cisterna de bombeiros, todos vermelhos, algures num hangar no aeroporto de Lisboa, prontos a abastecer e a partir para o combate. Mal um passageiro mais mal disposto começasse a achar que estavam a demorar muito a partir e visse aquele avião a arrancar saberia sossegar porque ia entender que algures decorre uma emergência maior e mais séria. Mas creio que é o aspecto económico do "empatar" do tráfego aéreo e não um passageiro chateado que influencia este género de decisões.

Já viajei de avião quando avistei um incêndio visto de cima. Não é NADA bonito. Só se vê o fumo branco/cinzento numa imensidão de terra que só a imaginação pode calcular, visto que a altitude é elevada. Passados uns quilómetros, outras colunas de fogo... tudo visto do ar tem um impacto diferente. Sente-se que o pais inteiro está a arder.

O incêndio que avistei hoje, a meu entender, dificilmente poderá ter origem no estado do tempo. Pois se hoje a temperatura indicava 23º a 24º! Não existiu calor algum, pelo contrário. Existia sim era muito vento, condição que deve despoletar um impulso qualquer nos incendiários deste país.

Minutos depois cheguei ao meu destino, alguns quilómetros bem longe do incêndio. Assim que se abre a porta da viatura o cheiro a queimado faz-se sentir. E as cinzas - pequenas partículas quase invisíveis a olho nu, andavam a bailar pelo ar.

Pelo que hoje SEI porquê o ar está pestilento. Só não sei como uma pessoa pode intencionalmente despoletar uma acção destas.

Tabela de histórico anual da presença de Ozono (Lisboa)

Revi o filme "Filadélfia", no qual Tom Hanks desempenha o papel de um advogado demitido quando os seus superiores percebem que ele tem SIDA. Continuo a achar que o óscar devia ter ido para António Banderas, que entrega um desempenho intenso, credível, com timming, mesmo aparecendo pouco no seu papel coadjuvante e tendo poucas falas. Na altura Banderas "acabara" de chegar a Hollywood, era uma aposta sem créditos solidificados e aquele papel deve ter-lhe sabido a rebuçado. Ele ganhou notoriedade num filme espanhol de Pedro Almodóvar e ainda tentava conquistar o difícil mercado da terceira arte de Hollywood. A prova é que o seu nome aparece somente na 21ª posição dos créditos. É para que se perceba o quanto ele ainda estava longe de ser um astro. Esse estatuto pertencia a Tom Hanks e a Denzel Washinton.

Mas o filme continua praticamente perfeito. Continuo a adorar o seu final, com todos os amigos e família reunidos num convívio após o funeral. Entre tantos adultos com o aperto do luto no coração a tentar confraternizar alegremente, a vida renova-se e relembra a todos que tudo é um ciclo, através da presença de bebés de colo que simbolizam esperança e crianças, algumas mais crescidas a correr por toda a parte como que abstraídas do sofrimento e dor alheios e entregues às suas alegrias infantis. Todas as personagens têm ali uma história autêntica para relatar. E quando falo de todas, é mesmo todas: desde os médicos que primeiro tentam despistar a doença, à família de "Tom", ao bibliotecário que lhe pergunta se quer ir para uma sala privada de consulta, ao estudante que esbarra com "Denzel" na farmácia e o convida para um copo implicando uma atracção física. Enquanto a trama se desenvolve em torno da personagem principal aproveitam para colocar pessoas realmente afectadas pela doença pelo meio da história, como figurantes. E é ai que se percebe que por mais maquilhagem que Tom Hanks tenha levado e por mais que tenha emagrecido não conseguiu remover a sua condição física saudável do retrato do aspecto físico de alguém em estado de saúde terminal. Com a tecnologia de hoje isso seria perturbadoramente possível, devido aos efeitos CGI - que conseguem envelhecer, "matar" e rejuvenescer pessoas de um instante para o outro. Mas em 1993, quando o filme foi feito, tinham mesmo de recorrer à maquilhagem e a truques de iluminação. Acho que aqui o filme falha, porque vejo um Tom Hanks com uma tez saudável, bochechas roliças e ar energético - apesar do desempenho. Mas pronto, isso é lado técnico do filme. Para o final da história, no leito de morte, Tom consegue estar mais moreno que o latino Banderas! Pelo que isto para mim retira alguma autenticidade ao filme, mas não à história e às suas mensagens. E essa é que vale a pena recordar. Não é só a SIDA que está a ser retratada, mas em particular a SIDA enquanto num portador homossexual. Dois preconceitos reunidos num só, portanto.

Cena de beijo entre casal - feita percebendo-se o incómodo de Tom - parece-me.
Filmada de costas, de forma a não se perceber que o beijo não é dado na boca.
Cena inovadora para a época - ainda existiam tabus a recair
sobre o retrato da intimidade gay no cinema.
O filme ajudou para que a sociedade visse o casal homossexual como outro qualquer.
Banderas entra no filme com muita intensidade dramática
entregando uma prestação devota, apaixonada, dedicada e companheira.
Denota-se em ambas as personagens um passado de descriminação e obstáculos
ultrapassados, sem que existam referências orais, apenas olhares, gestos.
Acredito que hoje o filme valha pelo seu testemunho histórico que retrata uma mentalidade que já passou. E não é formidável que apenas em uma dúzia de anos, a sociedade no seu geral tenha alterado a sua postura em relação a estes dois temas? Agora é gay para cá, gay para lá, bicha tu isto, bicha tu aquilo... na boa e como se privar com alguém gay fosse até uma moda. Ainda que para alguns acredito que ainda possa fazer alguma confusão, a sociedade na sua maioria já não sente assim e tudo é mais às claras, assumido abertamente sem receios, como aliás deve ser.

Lembro bem do que eram os anos 90 e das coisas que não existiam na altura. A começar pelas principais - às quais estou a recorrer agora: o computador e a internet. Portanto, o acesso à informação não era rápido e simples como nos dias de hoje. A informação vinham dos jornais. Que por vezes contavam histórias reais bem injustas e por isso assustadoras sobre contágio e transmissão de SIDA. Era um assunto falado por muitos mas ainda pouco esclarecido. Será que a SIDA podia ser transmitida num cumprimento de mãos, caso estas tivessem uma ferida? O próprio suor - como líquido corporal podia ser o transmissor? Os "gafanhotos" largados por alguém contaminado enquanto fala frente ao rosto de outra pessoa, por serem saliva, iam contaminar? O beijo entre apaixonados podia ser fatal? Ir ao dentista constituía um grande risco caso um paciente anterior fosse portador da doença e o médico não esterilizasse bem os instrumentos e a própria indumentária? 

Uma aurea de receios de uma forma discreta pautava o comportamento de algumas pessoas. No filme vemos isso, quando Denzel Washinton depois de cumprimentar com um aperto de mão "Tom Hanks", este lhe diz que tem SIDA e ele não sabe o que fazer com a mão. E fica obcecado a olhar para a mancha na sua testa e para todos os gestos de "Tom", com receio de contaminação. De seguida vai consultar o médico para ter certezas de que não pode transportar a doença para casa, para a sua bebé. 

Não condeno as pessoas que, assustadas, possam ter atitudes como as de Washington. Afinal, a informação era contraditória, assustadora e escassa. Diziam que não existiam razões para preocupações bastando ter precauções básicas - sendo que as principais era não ter sexo sem a protecção de um preservativo e ter atenção aos comportamentos sexualmente promíscuos. Comportamentos sexuais de risco - como lhes chamavam. Quanto aos que não temiam apanhar a doença através do sexo mas por outras formas, aí é que tudo se tornava mais difuso. Mães temiam pelos seus filhos "não bebas água pelo copo de ninguém" - diziam. Antes disso uma ocasional partilha de um refrigerante, de um talher, não era problema mas agora esse tipo de comportamentos apresentavam um risco, que ninguém queria correr. Temia-se os espirros como sei lá! Alguém com aspecto doente e tosse incessante não era alguém de quem se queria estar ao lado numa sala de espera num hospital. E é compreensível, ainda hoje o mesmo deve acontecer. E "caçavam-se" outros potenciais hábitos susceptíveis de serem prejudiciais, como a falta de rigor de higienizarão aquando as idas a consultórios médicos. Passou-se a dar mais importância à higiene para se garantir que não haviam sérios riscos de contaminação.


Não me vou alongar e se calhar nem vou falar do que ia para falar, mas a respeito deste filme é assim que agora o vejo. É como se o filme tivesse "congelado" uma determinada época. Não só pelo tema central - sida e homossexualidade, mas pelas mentalidades sociais que ali estão retratadas. As anteriores aos anos 90, as das diferentes gerações, géneros e orientações e as mudanças nos anos 90. Mas acima de tudo DESCRIMINAÇÃO é descriminação. E o filme mostra um pouco disso. Não se foca unicamente na orientação sexual, na doença contagiosa, no género, no estatuto, na cor de pele. Tanto negro, branco, velho, novo, homossexual ou heterossexual podem ter uma mentalidade mais limitada e o desconhecerem. A personagem de Denzel Washinton revela isso mesmo. No decorrer da trama Denzel tem a possibilidade de conviver de perto com um mundo que lhe era afastado mas que julgava conhecer sem conhecer. E aprende a sentir as coisas ao invés de as tomar pelo que lhe foi dito e ensinado. 



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Facebook das VAIDADES

Desde que o mundo é mundo que grande parte das pessoas competem entre si pela atenção e preferência dos outros. Começa-se a notar isso quando se ingressa na escola, se fazem amizades e começam as invejas. Há quem sinta uma rejeição e sofra com isso mas o que a maioria não admite é que o estigma de inferioridade e de ter sido preterido/a acompanha para o resto da vida e vai pautar o seu comportamento social daí adiante.

Creio que é daqui que nasce o conceito de "duas caras", ou se preferirem três ou quatro: uma pessoal quando se está sozinho, outra quando se está com familiares, outra quando se está com amigos próximos, outra quando se está com amigos menos próximos, outra quando se está com colegas e outra quando se conhece alguém pela primeira vez. Enfim, há pessoas que têm várias caras conforme as que lhes aparece à frente. Mas deixem-me vos dizer que pessoalmente, tenho apenas uma e acredito que todos nós temos uma e somente uma. O resto são máscaras.

E é de "máscaras" que vim falar. O trabalho que dava antigamente para manter uma amizade! Para manter a fachada de se ser o que no fundo não é, quando foi com essa máscara que se deu a conhecer a alguém. Para que esse alguém continue a se interessar por nós, havia que manter as aparências. Hoje em dia isso está muito mais facilitado para quem usa ferramentas como o FACEBOOK.

O meu facebook é algo que uso e só me vejo a usar da forma livre. Se não conseguir andar por ali a me sentir livre para dizer e fazer o que me apetecer, então não me interessa. Talvez por isso ou porque é mesmo de mim, o meu facebook é do conhecimento de poucos, tenho "amigos" só de facebook que chegaram porque partilhamos o gosto pelos mesmos jogos e mais nada. Mas tenho aqueles que realmente conheço e que me conhecem. Um deles é um casal. Vejo constantemente as publicações do lado feminino e fico parva porque NADA do que ali vai parar reflecte a pessoa que conheço. É uma autêntica fabricação.

Essa pessoa recebe muitos comentários aos posts, costuma colocar aqueles meio idiotas com dizeres com lições de moral, coisa que não tem nada a ver com a pessoa também. É surpreendente perceber o quanto criou para a sua atmosfera privada uma personna fabricada. E é assim que se sente feliz, segura e rodeada de amizades. Já o lado masculino também usa o facebook para publicar, às vezes até a mesma coisa, mas não recebe quase nenhum comentário. Pensem bem: ambos publicam o mesmo, um não recebe comentários - talvez um ou outro do pai, do tio, da tia, o outro recebe muitos. Isto quer dizer que um é mais popular que o outro? Que as amizades dela são melhores, mais fortes e verdadeiras que as dele?

O facebook é muito apreciado como fogueira das vaidades. Ali cria-se a pessoa que se deseja ser, para receber os comentários que se desejam receber. E é por isso que tanta gente tem vaidade na sua conta de facebook. Fazem questão de mencionar que têm mais de 100 amigos que são mesmo seus amigos, que não aceitam amizades de desconhecidos, só de pessoas próximas com quem sabem que podem contar. É de uma vaidade e uma necessidade de rejubilar atroz.  E também não é verdadeiro. Mas não têm percepção disso. Não têm percepção que se revelam carentes, que revelam um ponto fraco ao precisarem tanto de se validarem dessa maneira.

Mencionei o casal que conheço bem porque queria usá-los como exemplo. Ela é fria, egoísta, ingrata e gosta de se aproveitar das pessoas. Ele é altruísta, amigo do amigo do amigo e tinha realmente verdadeiros amigos antes de a conhecer. Coisa que ela desesperadamente tentava arranjar e só começou a conseguir depois de o conhecer. Ninguém o adivinha - por uma análise aos conteúdos do facebook. Ninguém sabe que é ele faz tudo em casa - desde cozinhar, a limpar, a cuidar do bebé. E ela fica deitada no sofá, a ler revistas. No facebook dela chovem elogios à sua dedicação ao trabalho, à pessoa que ela é. No dele é um marasmo. Na prática? Na prática ninguém iria gostar de partilhar a vida ao lado de uma pessoa assim, tão centrada em si própria e tão perita em fazer os outros trabalhar por ela. Quem ela é realmente só poucos conhecem. Quem a conhece desde menina. Quem a conheceu já adulta tem uma "nova versão". Que não é autêntica. Podia ser, um bocadinho, de uma certa maneira, mas um pouco de convivência revela logo que não é. Ela não é aquela pessoa que está no facebook, a usar o seu nome e identidade.

Pelo que com isto concluí que o facebook, para uma maioria seriamente complexada, não passa de uma ferramenta social para afagar o ego e criar um alter-ego. Para alimentar a vaidade e satisfazer as carências que, desde a infância, ainda procuram validação através da quantidade de amizades e através do pensamento que os outros fazem da pessoa.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mulheres que não deviam ser MÃES

Há mulheres que não deviam ser mães. Algumas mulheres dizem que não querem ser mães. E tomam essa decisão. Para algumas pessoas isso causa estranheza. Eu aceito a decisão de cada um, o direito de escolha. Cada um sabe do interior de si.

Só tive uma amiga que sempre disse que não queria ser mãe, que gostava das crianças dos outros e elas gostavam dela mas que não sentia, não se imaginava e não queria mesmo ser mãe. Respeitei mas sempre lhe disse que um dia isso ia mudar. Ela garantiu-me que não. Passados 15 anos e um aborto espontâneo, está quase a dar à luz - algo que nos últimos anos tem desejado desesperadamente.
Mas respeito quem não o quer. Os motivos lá o sabem - não os questiono. E por vezes penso mesmo: algumas não deviam ser mesmo. Porque o que existe é apenas a possibilidade biológica de o virem a ser. Efectivamente todos os outros requisitos estão em falta. Pensem bem nos motivos que podem levar algumas mulheres a querer ser mães.

1) Sentem o instinto da maternidade?
2) Querem transmitir ensinamentos para os filhos?

1) Querem prender o parceiro e levá-lo ao casamento.
2) Querem porque querem, porque já está na altura e se as outras têm elas também têm de ter porque não são menos que ninguém.
3) Querem porque é o que todos fazem
4) Querem para na velhice terem de quem exigir ou cobrar cuidados e a própria vida

Conheci uma pessoa numa relação que um dia pretendia ser mãe. Mas por enquanto tinha um gato. E maltratava o gato. Por qualquer coisa o animal estava a ser castigado. Ela fechava-o a maior parte da vezes. Batia-lhe com o chinelo. Não lhe dava comida e tentava assim obrigar o animal a se comportar como ela queria e mais nada. Não tinha paciência nem sensibilidade. A melhor amiga costumava dizer que se ela já era assim sem filhos, imaginá-la com uns era saber que não os podia ter. Era uma pessoa amarga, que cobrava demasiado dos outros, que achava que todos lhe deviam e ninguém lhe pagava. Que contava dramas familiares como se mais ninguém os tivesse e mendigava por afecto que não gostava de partilhar. O fio do fusível era-lhe muito curto. Falava num tom de voz doce mas que depressa ascendia ao grito e sempre era agressiva.

Para este género de pessoas, chantagistas emocionais, cobradoras, devia existir algo que lhe negasse essa possibilidade - para assim não poderem dar cabo de uma inocente vida.


Ser prático e transportar um bebé

À saída do metro, após ter subido uma escadaria, vi um homem que julgei pai por ter pendurado ao pescoço uma engenhoca que lhe permitia transportar ao peito um bebé minúsculo. Sim, o bebé era tão pequeno que quase não dei por ele. Foi tudo muito rápido e só pude intuir que o homem era estrangeiro, pela postura e pelo à vontade com que, com um pé desmontou a bicicleta dobrável e a seguir montou e seguiu viagem com o bebé ao peito. 

Num primeiro instante não prestei muita atenção, só me desviei mas logo depois achei estraordinário e, querendo perceber melhor, olhei para trás para avistar a cena. Mas pai, bebé e bicicleta já tinham desaparecido. Nem três segundos haviam passado. E fiquei a pensar: Uhau! Que forma espetacular de andar para todo o lado com um bebé! A bicicleta era diferente na forma, só consegui perceber que era branca e que tinha uma base peculiar. Mal lhe percebi os pedais e nem tive como prestar mais atenção à sua composição. Mas já imaginaram se mais pessoas fizessem o mesmo? Andar de metro com um bebé ao colo e de bicicleta desmontável para todo o lado? Haja portabilidade.

No entanto alguns passos adiante também fiquei a pensar: e se acontece alguma coisa como uma travagem brusca e o bebé é empurrado à força contra o volante? 

Bom, desgraças à parte fiquei com curiosidade. Gostava de ver a sociedade portuguesa experimentar um pouco mais estas formas alternativas de passear e ir a locais, sem que a presença de crianças ou a presença de um automóvel seja factores tão importantes. 

domingo, 11 de agosto de 2013

Fui passageira no Titanic

Quando a estação do Rossio em Lisboa recebeu a exposição sobre o naufrágio do Titanic, fui visitar e levei uma criança comigo.

À entrada deram-nos réplicas do que foram os bilhetes originais, com o símbolo da White Star Line num lado e a nossa identidade de passageiros no outro.
Calhou-me ser a sra. Ida Strauss, passageira a viajar em primeira classe. A criança adoptou a identidade de Eva Miriam Hart, de sete anos, passageira de segunda classe. Creio que não foi uma tirada ao acaso pois a rapariga removeu-os de duas pilhas distintas. E também duvido que existissem naqueles bilhetes mais do que meia dúzia de nomes - dos mais conhecidos. Mas ainda assim, foi interessante saber que só no final da exposição iríamos descobrir se a nossa identidade como passageiros nos ia colocar na lista de sobreviventes ou na dos não sobreviventes, caso viajássemos no Titanic.

No final da visita uma parede exibia os nomes de todos os passageiros. Divididos em duas categorias: sobreviventes e não sobreviventes e por condição: classes ou tripulação. Começamos a procurar os nossos respectivos nomes - que nos foram emprestados para aquela jornada. E foi aí que descobri que a criança que levei comigo sobreviveu. Eu "morri" mas não me importei. Estava contente e em paz por ela ter sobrevivido.

Foi uma sensação daquelas que não se explicam e que são rápidas. Era tudo faz-de-conta mas por um instante podia ter sido real. Porque aí percebi que o pior não é falecer, é sobreviver e viver com a memória da perda e do horror e sofrimento que imaginamos os nossos a passar. O quanto é importante saber que os nossos sobrevivem! A nossa própria morte, a nossa vida não é tão importante. Pelo que entendo cada homem que ali ficou a aguardar a sua vez de embarcar. Eles estavam a salvar o que de mais importante tinham: os seus. Compreendo cada mãe que tentou levar seus filhos para dentro dos botes e imagino demasiado bem o que lhes passou pela cabeça e pelo coração quando constataram que haviam falhado e que não havia salvo os seus.

A dor é muito pior como sobrevivente. O próprio fim não parece tão aterrador quando a morte ou sofrimento de uma pessoa querida. Quando soube que a sra. Ida Strauss, a minha "identidade" podia ter-se salvo, pois foi-lhe oferecida uma vaga num dos botes salva-vidas que ela recusou para ficar ao lado do marido, soube que me calhou a identidade mais apropriada. Consigo ver-me a adiar a partida no bote para que outros pudessem entrar primeiro. Mas nunca se sabe. Depende das circunstâncias e dos outros também. Porém, já aqui contei a propósito do naufrágio do Costa-Concordia e do Tolan no Tejo que cheguei a fazer parte da tripulação de um navio e que numa ocasião fiquei chocada com a admissão dos meus colegas que diziam que em caso de acidente não queriam saber de ninguém e tratavam de salvar primeiro a própria pele. Não me revi nesse tipo de atitude mas, mais uma vez, nunca se sabe. Tinha todas as minhas funções em caso de emergência bem memorizadas. Sabia o que fazer em caso de se ter de abandonar o navio em salva-vidas. Mas esses conhecimentos nunca foram precisos colocar em prática - felizmente.

E pronto: eu "faleci" quase que por opção mas a miúda sobreviveu. Estava em paz, feliz. Julgo que muitos que viajaram e afundaram com o Titanic consolaram-se com isso. Os que puderam, os que foram bem sucedidos...

sábado, 10 de agosto de 2013

Manifestações no Brasil

Epá! Vou ter de o dizer: nós portugueses temos algo importante a aprender com os brasileiros no que respeita a saber se manifestar para exigir a demissão de um político. Voltaram lá eles ás ruas, em massa, pedindo outra vez mudanças e uma demissão. E andamos cá nós a querer a demissão do PM, do PR, do Vice PM, do ministro das finanças e de todos os suspeitos de andarem metidos em contratos SWAP! E enquanto esta gente não larga o poder, andam a privatizar o país inteiro. Somos comprados por chineses, brasileiros e sei lá mais que outros. Por favor, organizem-se pessoas que sabem montar uma manifestação decente. E eu me junto a vocês. Eu e acho que Portugal inteiro!