Foi-se o festival, foi-se o casamento real e nada de eu dar notícias.
É bom sinal.
A vida corre pelos trilhos, trabalho, rotina. Nada de muito perturbador a viola.
Eurofestival
Agora sem os três Fs, o «milagre» não se repetiu. Portugal nem sequer saiu bem qualificado no Festival da Eurovisão. Mas ainda bem. Tendo em consideração as amostras de canções que foram lá parar e depressa ganharam a preferência de muitos, fico contente que a nossa tenha se distanciado, em votos, dessas mesmas.
Voltou a rotina de ficar entre os primeiros dos últimos. O que deve agradar mais que tudo aos organizadores. Realizar um espetáculo desta envergadura dá despesa e não lucro. Sem a ESC (Eurovision Song Contest) por trás, seria impossível. Valeu a contribuição do Turismo dePortugal, que soube ordenhar a vaca da eurovisão para mais tarde usar o leite para fazer manteiga, pudins e afins.
A Portugal cabia apenas e somente a tarefa de ser o afitrião. Como concorrente já estava desqualificado pelo público por esse mesmo motivo. Mas eu gostei "do jardim" e da intérprete da canção. Adorei o pormenor da música começar sem uma intro, ainda por cima porque a presença de uma introdução longa foi a peculiaridade destacada em "Amar pelos Dois" - a canção com a introdução mais longa da ESC.
A melodia é original, não soa a nada que se tenha escutado antes. Nem se apresenta de forma familiar ou similar à de Salvador. Consegue ter o seu próprio perfume.
De todas as canções que escutei deste festival, dou por mim a cantarolar a portuguesa e a do puto da mochila e do camelo.
E como parece que pode a vir a ser uma tradição, uma vez escolhida a vencedora para representar portugal na Eurovisão, está na altura de fazer uma retrospectiva das presenças artísticas da candidata em programas televisivos.
O que lamento é que Portugal não os conhece, mesmo após tantas provas dadas. O estrelato só chega com um rótulo como este de "vencedor do Festival da Canção". Pois, tal e qual o Salvador, vejam a Cláudia nos Ídolos e depois, no De Voice.
E agora? Ainda acham que é pouca coisa?
O que agora gostaria de ver era os dois vencedores a interpretarem uma música juntos. Têm vozes tão boas!
... que consegui comprar um bilhete para o evento Eurovisão.
Foi hoje, a partir das 10h da manhã que abriram as bilheteiras.
Consegui aceder ao site de compra 20 minutos depois e... tinha mais de 80 mil pessoas na fila de espera.
Pelo menos 5000 conseguiram bilhetes...
As outras 75000 não sei.
Fiquei a perguntar: Mas para quê que aquilo vai realizar-se cá??
Se um português que vive cá não consegue comprar bilhete... para quê serve então que o evento seja feito aqui? Se está tão inacessível como se fosse na lua?
É para sentir-mos o gosto que é aproximar um doce da boca de uma criança e depois puxá-lo para fora do seu alcance?
Mais valia terem escolhido uma sala algures numa parvalheira qualquer no norte de portugal... Ao menos teria graça. Altice ou em marte dão as mesmas oportunidades de acesso: zero.
Só pretendia fazer parte do momento e saber: estive lá.
Afinal, não estarei aqui daqui a 120 anos... que é quando deve surgir a próxima oportunidade de vitória. Se a primeira "só" se esperou 60 anos, vou estimar que a segunda leve o dobro. Mesmo que seja metade, vá lá: 30 anos... É muito tempo.
Para a expo98 todos poderam ir...
Mas para o eurofestival só os sacanas que sabem-na toda....
Já não vou poder ver o Sobral a cantar.
Sim, eu sei que ele vai cantar muito, muitas vezes, em muitos lugares.
Mas era ali. Aquela música. Aquela magia que ele empregou em kiev que provavelmente irá replicar no palco da eurovisão. Queria estar presente para ouvir qualquer galhofa e cenas de bastidores... isso é que é viver o momento. O resto, vê-se na televisão. Mas não é a mesma coisa.
O Salvador que for aparecer ali é o mesmo e é outro.
É um salvador que já passou por muito em apenas um ano.
É um salvador com o espírito de sempre, acrescido do uma mudança extraordinária. Que crescimento lhe proporcionará?
No blogue da fofucha da Ana S. encontrei um post sobre o eurofestival da canção. A querida Ana S. discorda da canção vencedora do eurofestival 2016.
Na maior descontracção e numa de relaxar, sem sequer me ocorrer que daqui podia resultar um motivo para fazer um post, coloquei "play" nos vídeos que a Ana deixou: o primeiro da música vencedora - da Ucrânia, e o segundo da favorita do júri - pasmem-se, a música da Austrália!
Se o meu conhecimento do mapa-mundi ainda se mantem actual, não se trata de uma região que se integre na europa. Mas nestas coisas sou liberal e deixem lá um país não-europeu participar... Não é o fim do mundo.
O importante deste simples contacto, é que escutei no relax ambas as músicas. E embora tenha lido o típico comentário "faz muito tempo que o eurofestival não é mais a mesma coisa", "é só politiquices", etc... Esta música vencedora fez-me reflectir numa questão bem mais ampla.
Acontece que eu gostei da canção. Achei-a claramente superior à outra. E quando a escutei, ainda que sem entender bem a lírica, pois só algumas palavras em inglês soaram legíveis para mim, a verdade é que a achei profunda. Emotiva ao ponto de se assemelhar, nessa perspectiva, ao nosso fado. Numa segunda vez sensibilizou-me ainda mais, a certa altura fiquei com vontade de chorar e senti uma tristeza e agonia...
Só então fui realmente tentar entender o seu significado e porquê estavam "contra" a vitória da canção. O que por si só é já uma tradição... não é? Geralmente fazem-se sempre críticas aos critérios, avança-se que é tudo uma questão política... etc.
Este ano o festival incluiu a votação por televoto. O que eu acho interessante. Assim, não são só os júris dos países a votar. Mas como consequência, o primeiro lugar do júri foi para a Austrália e o primeiro lugar do televoto para a nação mais obcecada pela vitória: A Rússia. Contudo, o que conta é o somatório destas duas... e aqui é que está o twist: tendo a austrália obtido um 3º honroso lugar no televoto, saiu do pódio... A rússia nem sei onde ficou na votação do júri, mas não foi entre os dois primeiros, porque esse lugar obteve-o a Ucrânia, que ficou em segundo nos votos tanto pelo Júri, quanto pelo televoto. E por isso ganhou!
A canção vencedora tem o título "1944". Ora, só pode ter algum significado importante - pensei. Googlei «Ucrânia 1944» e fui parar à canção do eurofestival, claro. Mas também ao TEMA. O primeiro resultado, da página da Wikipédia já disse tudo: Batalla de Crimea (Guerra da Crimeia).
A intérprete, de nome Jamala, escolheu escrever uma música em parte dedicada à sua bisavó, que integrou as muitas famílias Tártaras que, em Maio de 1944, foram retiradas da região da Península da Crimeia pelos Russos e deportadas em vagões de mercadorias para a "quentinha" Sibéria, por ordens de Estaline, que na altura usou o pretexto de combater as tropas alemãs e os povos "traidores" para se "livrar" das inconveniências e matar muitos. Uma das filhas, portanto, uma prima-avó da intérprete, morreu na viagem e simplesmente o seu corpo foi atirado para fora do vagão.
Ler aqui sobre a deportação do dia 18 de Maio de 1944
Se isto é política?
É, para os que estão na política. Não é para os que apreciam música e são artistas.
Sobre o que uma artista pode escrever? Amor? És a minha única paixão? Só te quero a ti? Hoje eu e tu vamos dançar? Claro, pode... Mas também há alturas em que as canções dizem mais que isso. Vão mais fundo. Ela apostou e ganhou.
Continuando a pesquisa, li neste artigo do jornal Público as reacções dos políticos ucranianos, certamente felizes, e as reacções dos políticos russos. O que dizer? A comunista e cada vez mais ditatorial Russa chegou ao ponto de apelar ao boicote do festival no próximo ano.
Um artigo pessoal num jornal russo teve o título: "Como o júri Europeu roubou a vitória a Lazarev" - o concorrente Russo, pois claro. Pobre coitadinho, foi roubado pelos mauzões dos júri. Porque a vitória era dele, pois claro... os restantes 25 concorrentes não tinham nenhuma hipótese de vencer. lol.
O concorrente Russo durante a sua actuação
Ler neste artigo da Visão o quanto a Rússia se empenhou nesta vitória
Ver vídeo da actuação aqui
O presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros russo, Konstantin Kossatchev, escreveu na sua página de Facebook (admira-me que, tal como na China, a Rússia não proíba esta rede social que não controlam, embora tenho a certeza que censuram). que a vitória da canção Ucraniana "pode comprometer o tenso processo de paz na zoa leste da Ucrânia" e por isso, a "Ucrânia perdeu e a guerra ganhou". Falando de um exemplo ao estilo: "professora, explique-me o que é incutir exageradamente nos outros uma responsabilidade que não lhes pertence e negar a realidade..." Outro senador, Frantz Klinsevitch, disse que "não foi a ucraniana Jamala e a sua canção 1944 que ganhou" foi a "política que bateu a arte".
Será?
É que eu escutei uma canção emotiva, penso que o júri e quem a escolheu também. Se calhar são os políticos que não foram capazes de se conectarem à arte, incapazes que são de se separarem da primeira.
E é por este motivo que defendo que se deve pensar bem antes de fazer eco destas pré-noções. Criticar a música por não gostar, é uma coisa. Aceito, é saudável e tratando-se de música, cada qual tem o seu gosto. Criticar dizendo que venceu só por questões políticas... O sensato era dizer que podia perder por questões políticas... Mas a arte VENCEU a política. Ou auxiliou as conveniências de uns e não de outros. E isso deixa muita gente a precisar de Renie... má gente.
A propaganda manifesta-se de muitas formas, quase sempre na crítica depreciativa. E por isso jamais vou voltar a dizer -se alguma vez o disse - que as músicas vencedoras do eurofestival são somente seleccionadas com base em política. Espalhar essa ideia pela europa é conveniente a muitos que são contra a liberdade. Soa-me que ficamos todos a concordar com os Russos só por "espalhar" essa generalização... E essa simples conivência parece-me atroz.
Eu gostei da música, bem mais pela letra da canção, pelo sentimento que quase de imediato me despertou, ainda que não entendesse mais que duas ou três palavras. Até ter ido pesquisar. O que só comprova a autenticidade da canção.
Portanto, vamos aplaudir. Porque cada aplauso acaba também por ser menos um incentivo a regimes que se guiam pela política da ditadura, da manipulação, do genocídio, da corrupção, do crime organizado e que, por uma simples canção num festival, demonstram um mau perder capaz de insinuar ameaças de guerra e boicotes.