Uma das críticas feitas a Salvador Sobral recaiu sobre a sua performance em palco. Acho até que a antipatia de muitos pela música se deveu mais a isso do que à voz ou melodia em si. Salvador sentiu a música e emprestou o corpo para interpretá-la. Foi realmente um momento mágico.
Para aqueles que acham que aquele gesto com a cabeça é coisa de "doente", que não é coisa de "artista", que é show-off e sei lá mais o quê, reparem neste vídeo e foquem-se no minuto 2.13s.
No final da interpretação (e que interpretação!!),
não se esqueçam de apanhar o queixo do chão!
Isto é arte musical...
É a música que emociona, é a poesia cantada e tocada... É o proporcionar de muitas emoções sem precisar de entrar numa montanha russa de luzes a piscar da feira popular e apelar ao medo das alturas e da velocidade...
Só voz, melodia e poemas.
A mesma música com performance dos artistas originais, os Righteous Brothers, igualmente responsáveis pela maravilhosa "Unchain Melody".
E aqui deixo outro vídeo-performance do senhor Bill Medley (o da direita na still picture acima) muitos anos mais tarde (já com perda vocal mas muita fibra) a dar um admirável show para os fãs. Adoro a intro humorística que ele faz, onde diz que esta música superou o número de vezes que "Yesterday" dos Beatles passou na radio americana, Vencer os Beatles não é tarefa fácil, merece mesmo uma nota de destaque :))
E porque não me canso tão depressa desta onda musical provocada pelo festival da Eurovisão (já o ano passado, sem ter assistido, aconteceu a mesma coisa e andei semanas a apreciar música.) aqui fica mais uma versão de "Amar pelos Dois" - desta vez uma versão do próprio Sobral (nada de cópias ou imitações)m en direto, na RTP, já após a vitória. E acreditem: Continua a a-rr-e-pi-a-r!! Isto é arte. É música, é interpretação.
Imagino se a Amália fosse viva... Ela ia adorar o rapaz!
No blogue da fofucha da Ana S. encontrei um post sobre o eurofestival da canção. A querida Ana S. discorda da canção vencedora do eurofestival 2016.
Na maior descontracção e numa de relaxar, sem sequer me ocorrer que daqui podia resultar um motivo para fazer um post, coloquei "play" nos vídeos que a Ana deixou: o primeiro da música vencedora - da Ucrânia, e o segundo da favorita do júri - pasmem-se, a música da Austrália!
Se o meu conhecimento do mapa-mundi ainda se mantem actual, não se trata de uma região que se integre na europa. Mas nestas coisas sou liberal e deixem lá um país não-europeu participar... Não é o fim do mundo.
O importante deste simples contacto, é que escutei no relax ambas as músicas. E embora tenha lido o típico comentário "faz muito tempo que o eurofestival não é mais a mesma coisa", "é só politiquices", etc... Esta música vencedora fez-me reflectir numa questão bem mais ampla.
Acontece que eu gostei da canção. Achei-a claramente superior à outra. E quando a escutei, ainda que sem entender bem a lírica, pois só algumas palavras em inglês soaram legíveis para mim, a verdade é que a achei profunda. Emotiva ao ponto de se assemelhar, nessa perspectiva, ao nosso fado. Numa segunda vez sensibilizou-me ainda mais, a certa altura fiquei com vontade de chorar e senti uma tristeza e agonia...
Só então fui realmente tentar entender o seu significado e porquê estavam "contra" a vitória da canção. O que por si só é já uma tradição... não é? Geralmente fazem-se sempre críticas aos critérios, avança-se que é tudo uma questão política... etc.
Este ano o festival incluiu a votação por televoto. O que eu acho interessante. Assim, não são só os júris dos países a votar. Mas como consequência, o primeiro lugar do júri foi para a Austrália e o primeiro lugar do televoto para a nação mais obcecada pela vitória: A Rússia. Contudo, o que conta é o somatório destas duas... e aqui é que está o twist: tendo a austrália obtido um 3º honroso lugar no televoto, saiu do pódio... A rússia nem sei onde ficou na votação do júri, mas não foi entre os dois primeiros, porque esse lugar obteve-o a Ucrânia, que ficou em segundo nos votos tanto pelo Júri, quanto pelo televoto. E por isso ganhou!
A canção vencedora tem o título "1944". Ora, só pode ter algum significado importante - pensei. Googlei «Ucrânia 1944» e fui parar à canção do eurofestival, claro. Mas também ao TEMA. O primeiro resultado, da página da Wikipédia já disse tudo: Batalla de Crimea (Guerra da Crimeia).
A intérprete, de nome Jamala, escolheu escrever uma música em parte dedicada à sua bisavó, que integrou as muitas famílias Tártaras que, em Maio de 1944, foram retiradas da região da Península da Crimeia pelos Russos e deportadas em vagões de mercadorias para a "quentinha" Sibéria, por ordens de Estaline, que na altura usou o pretexto de combater as tropas alemãs e os povos "traidores" para se "livrar" das inconveniências e matar muitos. Uma das filhas, portanto, uma prima-avó da intérprete, morreu na viagem e simplesmente o seu corpo foi atirado para fora do vagão.
Ler aqui sobre a deportação do dia 18 de Maio de 1944
Se isto é política?
É, para os que estão na política. Não é para os que apreciam música e são artistas.
Sobre o que uma artista pode escrever? Amor? És a minha única paixão? Só te quero a ti? Hoje eu e tu vamos dançar? Claro, pode... Mas também há alturas em que as canções dizem mais que isso. Vão mais fundo. Ela apostou e ganhou.
Continuando a pesquisa, li neste artigo do jornal Público as reacções dos políticos ucranianos, certamente felizes, e as reacções dos políticos russos. O que dizer? A comunista e cada vez mais ditatorial Russa chegou ao ponto de apelar ao boicote do festival no próximo ano.
Um artigo pessoal num jornal russo teve o título: "Como o júri Europeu roubou a vitória a Lazarev" - o concorrente Russo, pois claro. Pobre coitadinho, foi roubado pelos mauzões dos júri. Porque a vitória era dele, pois claro... os restantes 25 concorrentes não tinham nenhuma hipótese de vencer. lol.
O concorrente Russo durante a sua actuação
Ler neste artigo da Visão o quanto a Rússia se empenhou nesta vitória
Ver vídeo da actuação aqui
O presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros russo, Konstantin Kossatchev, escreveu na sua página de Facebook (admira-me que, tal como na China, a Rússia não proíba esta rede social que não controlam, embora tenho a certeza que censuram). que a vitória da canção Ucraniana "pode comprometer o tenso processo de paz na zoa leste da Ucrânia" e por isso, a "Ucrânia perdeu e a guerra ganhou". Falando de um exemplo ao estilo: "professora, explique-me o que é incutir exageradamente nos outros uma responsabilidade que não lhes pertence e negar a realidade..." Outro senador, Frantz Klinsevitch, disse que "não foi a ucraniana Jamala e a sua canção 1944 que ganhou" foi a "política que bateu a arte".
Será?
É que eu escutei uma canção emotiva, penso que o júri e quem a escolheu também. Se calhar são os políticos que não foram capazes de se conectarem à arte, incapazes que são de se separarem da primeira.
E é por este motivo que defendo que se deve pensar bem antes de fazer eco destas pré-noções. Criticar a música por não gostar, é uma coisa. Aceito, é saudável e tratando-se de música, cada qual tem o seu gosto. Criticar dizendo que venceu só por questões políticas... O sensato era dizer que podia perder por questões políticas... Mas a arte VENCEU a política. Ou auxiliou as conveniências de uns e não de outros. E isso deixa muita gente a precisar de Renie... má gente.
A propaganda manifesta-se de muitas formas, quase sempre na crítica depreciativa. E por isso jamais vou voltar a dizer -se alguma vez o disse - que as músicas vencedoras do eurofestival são somente seleccionadas com base em política. Espalhar essa ideia pela europa é conveniente a muitos que são contra a liberdade. Soa-me que ficamos todos a concordar com os Russos só por "espalhar" essa generalização... E essa simples conivência parece-me atroz.
Eu gostei da música, bem mais pela letra da canção, pelo sentimento que quase de imediato me despertou, ainda que não entendesse mais que duas ou três palavras. Até ter ido pesquisar. O que só comprova a autenticidade da canção.
Portanto, vamos aplaudir. Porque cada aplauso acaba também por ser menos um incentivo a regimes que se guiam pela política da ditadura, da manipulação, do genocídio, da corrupção, do crime organizado e que, por uma simples canção num festival, demonstram um mau perder capaz de insinuar ameaças de guerra e boicotes.